Clockwork Souls

10 Capítulo 10


Micha estava concentrado no pequeno inseto de metal que estava construindo. Era de cobre e em forma de libélula, com um lápis-lasuli que ele tinha roubado do casco do aeromóvel no centro. Ele empurrou com a longa pinça a microengrenagem e fechou a chapa de metal que faltava. Demorou alguns segundos, mas logo as batidas trêmulas das pequenas asas começaram. Ele tinha afinado o cobre a ponte de ele parecer uma linha, tornando o inseto leve o suficiente para voar com a sustentação do ar. A libélula tentou sair do chão algumas vezes sem sucesso antes de finalmente voar a trinta centímetros da mesa.

– Micha, Micha!

Micha não deu atenção ao chamado. A aerodinâmica da libélula não estava muito boa, ele teria que mudar o eixo da asa direita para que ela virasse mais para baixo ao bater.

– Micha micha micha micha micha...

Micha suspirou e virou-se na cadeira, tirando os óculos com lentes de aumento que estava usando.

O pequeno homenzinho o encarava de cima de outra mesa. Seus membros de quartzo eram de uma cor rosada e estavam envoltos por fios de metal e haviam engrenagens em seu peito, girando em volta da pequena faísca que ele colocou ali anos atrás.

– O que foi, Andy?

– Micha micha micha micha micha... – o homenzinho esticava os pequenos braços e os agitava em sua direção. Micha deu um impulso na cadeira de rodinhas para se aproximar da mesa do homenzinho e pegou nas mãos.

– Sim, Micha aqui. – Disse o mecânico, largando o homenzinho sobre o próprio ombro. Andy se aconchegou ali, na curva do pescoço dele.

– Você está realmente carente hoje. – Comentou Micha.

– Micha. – Concordou o boneco.

– Temos que arrumar essa libélula, você gosta dela Andy? – Micha tinha posto os óculos novamente e estava observando o inseto. As lentes daquele óculos tinham custado caro, ele comprara em uma de suas raríssimas viagens ao mercado de Campelle. Ele conseguia ver cada detalhe dos projetos com ele. Realmente útil.

– Luna. – Disse o homenzinho, segurando com suas pequenas mãos sem dedos na orelha de Micha.

Micha ,novamente, não deu atenção.

– Luna andy micha luna andy luna luna luna..

– Luna foi embora. – Resmungou Micha.

– Andy luna andy luna luna

Micha tirou os óculos novamente, recostando-se na cadeira e olhando para o teto e vendo as peças que tinha pendurado ali. O beija flor estava recostado num canto, sua bateria tinha acabado um dia antes. Ele teria que repor, mas não via necessidade disso agora. Era uma peça bonita, mas não realmente útil.

– Luna luna andy luna andy...

Micha não sabia o que estava sentindo. Era um mau estar que não o deixava dormir de noite como de costume. Ele tinha perdido a fome também, embora comer sempre tenha sido uma obrigação para ele.

Na ultima semana Luna tinha aparecido na casa dele todo o santo dia com aquela cara de engrenagem sem óleo e ele tinha tocado ela dali todas as vezes, geralmente atirando alguma comida para ela por pura presença de espírito. Porém faziam dois dias que ela não aparecia mais e até mesmo Andy estava começando a perguntar por ela. Ele pegara ela brincando com Andy num dia quando voltava de uma excursão para achar metal. Aparentemente Andy não conseguia esquecer ela, mesmo tendo uma microinteligência que não o deixava entender palavras com mais de duas sílabas.

– Luna luna luna micha micha micha... andy....

As mãozinhas de Andy seguravam a orelha de Micha, desesperadas por atenção. Micha fez um leve carinho na cabeça do homenzinho, o que fez com que os dois se acalmassem.

Micha estava pronto para levantar e achar alguma coisa para fazer quando ouviu uma leve batida na porta. Ele congelou, nos últimos dias somente problemas batiam a sua porta. Mais pessoas apareceram ali na última semana do que no resto de sua vida. Talvez ele estivesse mais perto da cidade do que imaginava, e isso não o agradava.

Ele abriu a porta e, para sua surpresa e alegria de Andy, era Luna quem batia.

Estava suja, realmente suja. Havia terra em suas roupas e cabelo. Ela olhava para o chão, parecendo envergonhada ou culpada. Micha viu que na soleira da porta estavam algumas pelotas de ametista, pedra realmente comum na região montanhosa.

– E-eu trouxe algumas pedras. Porque você me deu comida. Por isso eu trouxe. As pedras. Você gosta das pedras, então eu trouxe...

– Luna luna luna luna luna luna luna luna

Andy se agitava no ombro de Micha a ponto de quase despencar dali. Micha pegou o boneco e, depois de pensar alguns segundos, o depositou na cabeça de Luna.

A garota olhou para ele, surpresa.

– Você gostaria de um trabalho? – Perguntou Micha.

Quando ele viu os olhos felizes da menina toda a sensação estranha que ele sentia desapareceu, dando lugar a uma satisfação que fez ele dar um meio sorriso.

Dormiu muito bem naquela noite.

**

Nico estava cansado quando chegou a casa negra que Tim tinha indicado para ele. O mecânico morava no FIM DO MUNDO e ele tinha demorado HORAS. Ele esperava que não fosse em vão e que o mecânico fosse realmente bom.

Ele se aproximou e parou na frente da porta. De dentro vinha um som estranho, quase sombrio, de uma criança cantando uma canção de ninar. Nico estremeceu, depois se repreendeu. Era só uma criança cantando.

Ele bateu na porta e a canção parou. Ele ouviu paços rápidos e constantes, provavelmente de criança, e a porta se abriu dando visão a uma garotinha de uns sete ou oito anos com olhos verdes desconfiados. Ela não abriu inteiramente a porta e ficou encarando Nico.

– Eu, hm, vim atrás de um mecânico que mora por aqui...? – disse ele.

– Micha micha micha micha – uma voz estridente falou. Parecia um grito, mas o tom era baixo demais.

De repente a porta se abriu bruscamente. Um homem um pouco mais velho que Nico o encarava seriamente. Depois ele lançou um olhar para a garotinha que juntou um boneco do chão e correu para dentro.

O homem voltou novamente os olhos para Nico.

– Sim? – Disse ele. Seu tom era irritado.

– Eu preciso de um mecânico para fazer um braço novo para mim. É urgente. Posso pagar bem.

O homem estreitou as sobrancelhas, analisando Nico de cima a baixo.

– Como soube sobre mim?

– Meu mecânico me indicou, ele disse ter ouvido falar de você...

– Pouco provável. Mas tudo bem, vou te ajudar.

Nico ficou surpreso pela facilidade com que conseguiu. Ele tinha tido um pressentimento de que tudo seria muito mais complicado quando viu o olhar estranho que o mecânico tinha no rosto.

Ele entrou na casa e se sentiu imediatamente mais confortável. Era a perfeita estrutura atulhada de coisas que era a casa de quase todos os mecânicos. Havia uma cama num canto e outra menor mais escondida atrás de uma pilha de pedras limpas. Esse era outro ponto positivo do local, ele era extremamente limpo. As coisas era dispostas de um jeito estranho, mas organizado. No fim, era estranhamente aconchegante.

Principalmente pela garotinha ruiva brincando com um boneco rosa no chão.

– Luna, vá catar algumas pedras. Pode levar Andy com você. – Disse o mecânico, começando a analisar alguns metais que estavam dentro de uma caixa. – Não esqueça seu colar.

– micha micha micha micha micha – Nico olhou surpreso para o boneco e identificou ele como fonte da voz estridente.

Talvez o mecânico fosse melhor do que ele imaginava.

– Eu nunca tiro o colar. – Disse a garota, depois fez uma careta. – Só pra tomar banho.

– Certo, então vá. – Falou ele, indiferente.

A garotinha hesitou, olhando para Nico, depois correu para porta carregando o boneco e sumiu.

Nico suspirou e começou a falar:

– Bom, na verdade o que eu quero de você é um...

– Braço novo. Mais leve e mais forte e menos perceptível na terra do povo do salgueiro. – Completou o mecânico, sem olhar para ele.

Nico arfou.

– Como você...

– Borboletas.

– O que?

– Borboletas, pequenos insetos com asas coloridas que todo mundo gosta, embora eu ache as orgânicas bem nojentas.

– Eu sei o que é uma borboleta.

– Então por que fica perguntando?

Nico olhou exasperado para o mecânico, mas esse não tinha nem ao menos se virado para ele. Nico suspirou, balançando a cabeça, e tirou o casaco e a camisa.

– O que você pode fazer por mim, senhor...?

– Micha. E eu posso fazer muita coisa.

Micha segurou o braço de Nico e começou a mexer nele, cutucando as engrenagens e observando cada detalhe. Depois de alguns segundos ele levantou os olhos para Nico, que viu a desaprovação ali.

– Você toma banho com ele? – Micha parecia indignado.

– Bom, ele é muito complicado para tirar...

– Ele está quase comprometido por dentro. Parabéns, seu trabalho de destruição foi quase completo.

Nico se encolheu, aceitando o sermão. Ele deveria saber do que estava falando, mas tirar o braço para tomar banho estava fora de questão. Era pesado e a conecção dos nervos com o metal era absurdamente dolorosa. Ele preferia nunca mais tomar banho.

– Mas eu entendo. A conecção dos nervos é horrível e esse braço é pesado também. É ferro puro. É forte, mas não é prático. Podemos trocar esse por um novo, feito com alguma malha. Essa mistura também agride menos o povo do salgueiro.

– O que você sabe sobre o povo do salgueiro? – Perguntou Nico, interessando.

– Só o que eu li. – Disse Micha, simplesmente. – Vamos desconectar o seu braço agora. Segure na cadeira e tente não morder a língua.

Nico sentou-se e fechou os olhos com força. Essa era, provavelmente, a pior coisa que alguém podia fazer com ele. Ele sentiu quando Micha soltou os nervos, a queimação passando por todo seu corpo. Seus músculos enrijeceram e ele travou os dentes soltando um gemido afogado. Seus ouvidos pareciam que iam explodir devido ao zumbido que somente ele ouvia, e o que foram somente alguns segundos para Micha pareciam longos minutos para Nico.

– Pronto. – Disse Micha, largando Nico suado e arfando na cadeira para começar a desmontar o braço dele.

Nico fechou os olhos para se acalmar, sentindo o zumbido diminuir aos poucos. No fim, acabou relaxando demais e caiu no sono ao som das batidas de metal. Era um som aconchegante para ele, um som que o acompanhava há muito tempo.

**

Nico abriu os olhos e encarou um enorme par de olhos verdes flutuando sobre sua cabeça.

– Luna luna luna luna luna

O bonequinho entrou em colapso, aparentemente. A garotinha, Luna, saiu de perto dele e pulou por cima da mesa para sentar-se do outro lado. Não tirou os olhos de Nico em nem um momento.

– Ah, você acordou. – Micha disse, virando-se para ele.

Nas mãos do mecânico estava o que, para Nico, era o braço mecânico mais bonito que ele já tinha visto. Era de um metal cinza avermelhada, o que provavelmente era a mistura que Micha tinha falado. As engrenagens que ele via por dentro não eram feitas de metal, mas sim de algum tipo de pedra azulada. Em volta das chapas de metal haviam tiras de couro avermelhado postas no lugar com pequenas tachinhas de metal. Os dedos eram mais finos que os antigos, também do mesmo metal avermelhado. Na ponta dos dedos haviam pedaços da mesma pedra azul que compunha as engrenagens.

Micha parecia satisfeito com o olhar de Nico.

– Ele é três vezes mais leve que o antigo. A sensibilidade que essa pedra das engrenagens passa é muito maior que a do metal. O nome dela é Grandidierite, e eu usei todo o meu estoque com você. As tiras de couro vai disfarçar o metal e serão menos nocivas para o povo do salgueiro. A pedra também não os machuca. A liga de metal é forte e muito mais leve que ferro e aço. Além disso, os nervos vão sofrer muito menos com a conecção, afinal as engrenagens de ouro não são tão boas assim para o sistema nervoso, mesmo que muita gente acredite que sim.

Nico assentia continuamente, sedento por experimentar o novo aparelho. Micha o fez sentar novamente na cadeira e aproximou o braço da parte metálica do corpo de Nico. A parte de metal que cobria seu corpo ele não tinha substituído. Era de platina e pegava uma parte de sua clavícula até o meio das costas, cobrindo o toco feito pela falta do membro. Da li saíam alguns fios que tinham sido inseridos nos nervos de seu corpo. E era nesses fios que Micha trabalhava agora, conectando-os aos espaços do braço até finalmente encaixá-lo no ombro de Nico.

– Hora de iniciar. – Disse Micha.

Nico novamente se preparou, apertando o braço da cadeira e esperando pela nova onda de dor latente que ele nunca estava preparado para receber.

Sentiu um formigamento desconfortável.

– Pronto. – Falou Micha – Grandidieride é muito melhor que ouro.

– Deus... – Nico olhava para o braço, maravilhado.

Micha olhou para ele, divertido.

– Muito obrigado.

Nico não pode evitar rir.

– Quanto eu te devo?

Micha olhou para ele, seu olhar era indecifrável.

– Me deve um favor no futuro. E quero que você use uma coisa – Micha andou até a mesa e abriu uma gaveta, tirando de lá um broche simples em forma de folha com algumas engrenagens – Use isso o tempo todo e se... se alguém do povo do salgueiro perguntar... diga que eu ainda estou aqui... diga que Micha ainda está esperando.

Nico o olhou com dúvida, mas aceitou sem comentar.

– Mais uma coisa – Continuou Micha – Não diga quem fez seu braço para ninguém.

– Por que? Seu trabalho é incrível... você poderia trabalhar para o rei...

– Eu não quero. Estou bem aqui. Você não pode contar, certo? Só pra quem pedir do broche.

O garoto assentiu. Não iria discutir com o mecânico, afinal ele tinha feito o melhor braço possível para ele em troca de um favor tão pequeno.

Nico levantou-se para ir embora e, ao abrir a porta, viu cair no chão a garotinha que tinha saído para pegar pedras. Ela olhou para ele indignada.

– Estava escutando escondida? – Perguntou ele, sorrindo.

– Eu não...!

O mecânico apareceu, olhando feio para a garotinha.

– Hora do banho. – disse ele, cruzando os braços.

Nico passou por ela e saiu da casa, indo pela direção de onde tinha vindo. O sol já estava se pondo quando ele deixou para trás a casa escura e os gritos de “Não quero tomar banho!” para trás.

Notas finais
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