Notas iniciais
Mantenham seus parafusos alinhados, pequenas criaturas com óleo nas veias.

"Não tens corpo, nem pátria, nem família,

Não te curvas ao jugo dos tiranos.

Não tens preço na terra dos humanos,

Nem o tempo te rói.

És a essência dos anos,

O que vem e o que foi." À Beleza, Miguel Torga

As coisas são mais belas quando vistas de cima. Através das janelas do dirigível, Campelle se estendia como um afresco ou uma têmpera, Erik não saberia diferenciar a própria memória de uma pintura, mas sabia que pouco havia de diferente entre ambas: não passavam de uma mentira, uma visão romantizada do que é indecente, não era real — embora ele quisesse acreditar que fosse. No entanto, Capitão Tunke sabia, no momento em que seus pés atingissem o chão, nada de belo poderia ser encontrado na imagem próxima da cidade, quando seu olhar estivesse finítimo o suficiente para distinguir as faces maquiadas dos nobres, e sujas dos pobres, os barris de óleo enferrujados, as fogueiras e os lampiões, o chão imundo, cheio de serragem, de pregos, de embalagens, de pontas de cigarros. Descer no castelo de Campelle era um caso, mas descer na vila mais perigosa da capital era outro completamente díspar. Erik Tunke não havia se voluntariado para nenhum dos dois.

Não cabia a ele escolher. Há alguns dias a notícia havia corrido pelo país como ar quente: "O rei foi envenenado", "O rei está morto", Erik sempre desprezou a maneira como as pessoas promoviam boatos, sempre era obrigado a subtrair uma enorme porção das notícias trazidas a ele pela boca do povo, no caso, a notícia dos dias anteriores não tinha, apenas, seu elemento principal: o rei estava vivo. Tão vivo, ainda, que Erik tinha acabado de ser submetido a uma reunião com o tal que, apesar de saudável, realmente quase foi envenenado. Tunke era um velho amigo da família real e, embora em seu âmago não fosse ficar de luto pelo rei, podia dizer que certa preocupação lhe acometeu aos primeiros momentos após a notícia. Quem iria garantir seus privilégios se Cornelius estivesse morto? Dessa maneira, sua felicidade fora sincera ao testemunhar seu velho amigo vivo e saudável. Porém, não igualmente sincera ao receber sua missão, que consistia em encontrar o responsável pela tentativa de envenenamento do rei, Capitão Tunke foi obrigado a aceitar a "honraria". Não havia nada que pudesse fazer. Há anos havia se tornado soldado do exército do país e foi graças à sua intimidade com o rei que fora capaz de se tornar Capitão do exército com apenas 28 anos. Cornelius continuava a repetir que a relação dos dois era entre iguais, mas Erik sabia que sempre estaria em dívida com ele, submetido a ele, ao rei. Impotente era como ia em direção às sombrias vilas de Campelle para começar sua jornada.

– Tunke, chegamos. – Erik se afastou da janela do aerostato para identificar a origem da voz, era Lyra Stefanova, uma loira alta e benevolente com quem o Capitão nunca se deu bem. Devido ao atentado contra o rei muitos soldados haviam sido recrutados para patrulhar em Campelle, Erik acreditava ser apenas um golpe de azar que Stefanova fosse o soldado a acompanhá-lo em sua missão.

– É Capitão Tunke. – Ele corrigiu, afastando uma de suas madeixas douradas da face para encará-la melhor.

Lyra ignorou a correção e deu-lhe as costas. Não é por menos que não é promovida, pensou, mas logo em seguida seus pensamentos foram dissipados pela sensação de vertigem que o dirigível proporcionou ao aterrizar na água. Erik se levantou de seu assento e dirigiu-se a saída.

Erik, Lyra e outros dois soldados estavam em um campo deserto, provavelmente pertencente à algum lavrador; ele olhou em volta e pode identificar o Planalto da Névoa a um quilômetro estimado para onde começou a andar, seus soldados o acompanharam o que o deixou confuso.

– Soldados, creio que seus serviços estão dispensados. – determinou. Os soldados se entreolharam, Lyra deu um suspiro fugidio antes de dar um passo à frente.

– Capitão, o senhor se esqueceu de intimar o Capitão provisório.

Tunke parou de andar percebendo só agora a rapidez com que sua vida estava mudando, em sua cabeça a procura pelo envenenador não levaria mais de um dia e logo ele poderia voltar para seu ócio no exército. Porém era óbvio que não seria assim tão fácil, ele devia ter gasto seus momentos no dirigível pensando nos voluntários ao invés de reflexões poéticas sobre distância. Seu cérebro começou a trabalhar rápido mas não pôde chegar a nenhuma solução, ele não tinha amigos no exército, apenas impostores de amigos que o invejavam acima de tudo e que só se aproximavam por almejar uma promoção. Erik levantou o olhar, Lyra estava parada à sua frente, imaculada, enquanto os outros homens se preocupavam em cochichar comentários indecorosos. Lyra nunca havia recusado ordens, nem fingia-se próxima para tentar uma promoção, ela era a única mulher do exército e havia feito por merecer, embora Erik odiasse admitir. Talvez ele estivesse entorpecido, talvez tivesse enlouquecido de vez, mas a próxima coisa que disse foi:

– Você. Lyra, você será a Capitã provisória. Mas não se anime demais, não irei demorar. – Lyra não sorriu, nem demonstrou animação. Confusão estendeu-se na sua face mas tudo o que a loira fez foi bater continência.

– Como queira, Capitão. – Erik retribuiu a continência e a repetiu para os outros soldados. Em seguida, continuou o caminho para Vila do Planalto da Névoa e só quando estava longe demais para remediar o que havia feito é que percebeu a consequência de suas decisões.

O céu era púrpura no oeste e negro no leste, estrelas começavam a brilhar em alguns pontos do céu, a famosa névoa da região começava a surgir, Erik precisava encontrar uma estalagem o quanto antes. Ele começou a caminhar nas ruas da região e observou o movimento, precisava estar atento embora soubesse que não iria encontrar o responsável pelo veneno à toa. A região mais alta de Campelle era movimentada ao seu próprio jeito, pessoas corriam com suas mercadorias e acendiam seus lampiões mas, apesar de existir sim uma espécie de burburinho, a vila era silenciosa de certa forma. Tunke decidiu que teria de perguntar aonde poderia encontrar uma estalagem. Entretanto as pessoas pareciam sumir no momento em que notavam a sua farda, talvez pensassem que havia algum crime na cidade ou simplesmente não fossem entusiastas das forças armadas, tudo o que Erik sabia é que estavam fazendo sua noite extremamente difícil. O capitão procurou por mais alguns minutos até que notou uma figura exótica no meio da rua, um vendedor ambulante. Erik se aproximou do homem e se surpreendeu ao vê-lo lhe oferecer mercadorias ao invés de sumir.

– Muito obrigado, não quero nada disso, gostaria apenas de saber se conhece uma estalagem ou algum lugar em que eu poderia ficar. – ele respondeu às inúmeras ofertas do homem de olhos escuros.

– Talvez eu saiba, talvez eu não saiba. Sabe, senhor... – ele deixou uma sugestão no ar, Erik completou-a com seu nome. – Tunke.. Eu sou Anton. E eu venho há muito tempo nessa região, sabe? Conheço algumas estalagens, algumas boas, outras frequentemente assaltadas pela gangue de saqueadores, posso te dizer onde ficam, tudo depende do que o senhor tem para me oferecer – o homem sorriu e Erik encheu-se de frustração, de todas as pessoas que poderia ter topado perguntou justamente para um charlatão. O loiro bufou e estendeu a mão para sua carteira tirando uma nota de 20 vinx, Anton fez uma careta e sibilou algo que parecia ser "a assaltada pela gangue, então"; Erik então tirou uma nota de 50 vinx subordinadamente. – Olha senhor, dessa maneira não vai dar. Me desculpe.

Anton começou a se afastar e a cólera atingiu Erik. O capitão se aproximou dele e tirou sua arma do coldre apontando-a disfarçadamente para o vendedor ambulante enquanto segurava o colarinho do homem.

– Muito bem, última oferta, acha que sua vida é valiosa o suficiente para a informação?

– C-Calma, senhor, está tudo bem, dando a volta por aquela viela você chega na estalagem Caneca Quebrada. – Anton estava tão pálido quando a névoa que começava a cobrir o local, Erik o soltou com força o empurrando no processo e andou pesadamente em direção à viela indicada.

Erik já havia se perdido quando percebeu que o homem havia lhe dado a informação errada. Conforme a noite avançava, menos era possível se ouvir e menos era possível ver. Tunke se perguntava por que fez a besteira de dispensar seus soldados. Após um tempo indeterminado — já que não conseguia enxergar nem mesmo o próprio relógio através da névoa — Erik sentiu uma mão percorrer suas roupas, ele não hesitou em dar um tapa em o que quer que fosse que tinha se aproximado... Ou melhor, quem quer que fosse, pois o sujeito emitiu um gemido de dor conforme seu corpo provocava um baque surdo no chão da rua. Um instante se passou até que o indivíduo acendesse uma lanterna e Erik fosse capaz de ver: era um adolescente, um menino, ele tinha uma lanterna improvisada na cabeça o que o capitão achou engraçado. O rapazinho ainda estava no chão mas não demorou a se levantar.

– Me desculpe, moço, não vi que era um soldado – a voz do rapaz estava nasalada, ele estava com a mão no nariz apertando-o, após alguns instantes Erik viu que estava sangrando. – Não que tudo bem te roubar caso você não fosse um soldado... Quero dizer, me desculpe, não tive a intenção... Bem, tive, mas...

– Seu nariz está sangrando. – Erik interrompeu apenas, estendendo um lenço de pano que tirara do bolso, sentiu pena do garoto. O moreno pegou o lenço timidamente e o colocou no nariz. – Qual é o seu nome?

– Archie

– Archie, quero que você devolva minha carteira. – Archie pareceu surpreso quando viu a carteira em sua mão, rapidamente a devolveu.

– Aqui está, foi mal – ele tirou o lenço do nariz e havia parado de sangrar, Erik sabia que o lenço estava arruinado e embora não tivesse um bom-humor, relevou. – O senhor não é daqui, é? Parece estar perdido.

– Não, não sou. Estou a procura de uma estalagem mas um comerciante ambulante me mandou pra cá. Não tem nenhuma Caneca Quebrada aqui, tem? – Archie sorriu

– Não, mas eu sei onde fica. Posso te levar lá assim pago pelo seu lenço.

Erik não demorou mais de um segundo para aceitar a sugestão.

Eles retornaram todo o trajeto que Erik havia feito, mentalmente o capitão matou Anton mais de um milhão de vezes, prometendo que iria fazê-lo pagar por seu transtorno. Ao chegar na estalagem tudo se acalmou. Algumas pessoas jantavam em mesas servidas por uma mulher, em um banco no canto um homem loiro cantava com uma magnífica voz e ao lado, no balcão um senhor sorriu para eles. Erik entrou na estalagem mas Archie permaneceu fora.

– O que foi?

– Não posso pagar pela estadia. Espero que tenha pagado pelo seu lenço.

– Certo, pelo menos jante comigo. – Erik indicou as mesas com a cabeça e Archie caminhou até elas, assentindo com a cabeça em agradecimento. Em seguida, o capitão se aproximou do balcão.

– Boa noite – cumprimentou de forma cansada um homem ruivo, haviam várias chaves atrás dele, ele pegou uma delas, número 21. – Sou Thorsten, aquela é minha mulher, Angelica, – ele apontou para uma bela mulher negra entrando por uma porta de cozinha – bem-vindo a estalagem Caneca Quebrada. Quarto para um?

– Boa noite, sim, para um. Jantar e café da manhã apenas – respondeu Erik, ele pegou a chave e a guardou no bolso, quando se aproximou das mesas para jantar avistou Archie em um canto ao lado de uns garotos e sentou a frente deles.

Archie sorriu para ele em sua forma maltrapilha.

– Esse é Noah e esse é Nico – ele apontou primeiro para um rapaz de pele parda que parecia levemente embriagado e depois para um loiro com um braço mecânico. – Tunke os cumprimentou com um maneio de cabeça.

Eles conversaram trivialmente até que a mulher chegasse na mesa deles. Erik cumprimentou Angelica e pediu sua refeição. Quase ao fim do jantar e um bom tempo de conversa depois, Erik aproveitou para perguntar aos rapazes as localizações próximas. Ante de se retirar, entretanto, o capitão teve sua atenção prendida pelo braço mecânico do rapaz loiro, Noah, percebendo seu interesse e estando um tanto embriagado soltou:

– Ei, Nico, qual é a desse seu braço? – Nico se retraiu parecendo extremamente desconfortável. – Ei, tudo bem, é legal ser meio ciborgue – Noah completou, tentando amenizar de forma falha e com as sílabas se atropelando em sua voz.

– Foi... Foi um acidente – Nico respondeu simplesmente o que levantou suspeitas na visão de Erik. Archie se levantou e chamou Nico para se retirar com ele. E após algum tempo Noah também se retirou.

Exausto, Erik se levantou das mesas deixando uma moeda de gorjeta para Angelica e chamou o elevador. Antes de entrar nele, o capitão olhou ao redor e reconheceu Noah dando amassos com uma outra pessoa desconhecida e o cantor sendo aplaudido por um grupo de adolescentes que estavam em outra mesa. Suspirando, Tunke sentiu-se extremamente velho ao que o elevador subia dado sutis solavancos.

Os seus aposentos na estalagem eram realmente confortáveis, Erik não hesitou em se jogar na cama; ele olhou para o lado onde uma enorme janela de vidro prostrava-se na parede e observou um grupo de quinze pessoas atravessando a estrada, todos orientais, mas Erik sentia seu corpo entorpecido e talvez sua mente estivesse entorpecida também, pois embora seu instinto fosse se levantar e seguir aquela gangue extremamente suspeita, adormeceu.

Notas finais
E então?