Clichês
13 Girafas são emo góticas
Notas iniciais
Jogados na sala.
Comendo pizza.
Conversando besteiras.
Quase não parecia que não tinha pessoas que se odiavam ali.
Talvez não houvesse.
— Sabem o que mais está ameaçado de extinção?
— Dinossauros?
— Minha vontade de viver?
Dominique revirou os olhos para nós.
— As girafas e isso é tão triste. Elas são tão fofas com as suas línguas pretas.
— Línguas pretas?
— É.
— As girafas são mais emo góticas do que você, Rose – Fred debochou.
— Você está desatualizado, já passei dessa fase faz tempo.
— Como assim você traiu o movimento? Eles te impuseram algum ritual num cemitério?
— O único ritual que vai ser imposto aqui vai ser o do seu exorcismo.
Ele riu.
— Não sei o que é pior, o Fred sóbrio ou o Fred bêbado.
— Dá quase na mesma, Jay – Dominique observou.
— Concordo. Sou legal dos dois jeitos.
— Acho que tem algo na criação dessa família que torna jovens superconfiantes e arrogantes.
— Está falando por experiência própria, amor?
— Claro, eu convivo com Fred e você todos os dias.
Dominique riu.
— Quanta hipocrisia, Rose Weasley.
Só sorri para ele. Levantei-me e estendia a mão para Dominique
— Vamos para o meu quarto.
— Que convite lascivo – Fred comentou.
— Ah é, não se incomodem com os ruídos – Brinquei.
Fomos para o quarto. Fechei a porta.
— Como eu detesto aquele ser.
— Pensei que estivesse apaixonada por ele.
— Isso só me faz detestá-lo ainda mais.
Sentei-me na cama, ela me seguiu.
— Vocês estão brigados?
— Não. Eu só... Dei um tempo.
— Ele sabe disso?
— Ele já percebeu que eu o estou evitando, se isso responde sua pergunta.
— Por que você está o evitando?
Ela começou a brincar com o anel que usava.
— Eu quase falei “eu te amo” enquanto estávamos transando, acho que ele percebeu.
Deu ruim.
Tentei não parecer terrivelmente chocada.
— Como assim “quase”?
— Eu soltei “eu te a...adoro, sabia?”
— Talvez ele não tenha percebido.
— Não sei não. Mas agora estou morrendo de vergonha e preferia não vê-lo, o que não aconteceu não é mesmo? – Dominique olhou como se eu fosse a culpada por isso.
— Você vem na casa dele e espera não o ver?
— Você disse que ele não estava!
— Mas é a casa dele! Ele tinha que voltar em algum momento, certo?
Ela olhou para as paredes, não querendo concordar.
— Talvez seu subconsciente quisesse exatamente isso: vê-lo.
— E como isso pode ser melhor?
— Eu não disse que era melhor, só dei uma explicação.
— Detesto como fico toda impulsiva e não penso direito nas coisas por causa dele.
Afaguei seu ombro.
Como é que uma paixão pode causar tanta dor?
— Eu posso conversar com ele, se quiser. Descobrir suas intenções, o que ele de fato quer.
— Só transar e curtir, é claro. É o Fred.
— Você nunca sabe.
Ela deu de ombros e colocou um sorriso no rosto.
— Mas e você? Porque não falamos de você?
Droga.
— Eu?
— É! Como está a faculdade? Alguém legal lá que fez o seu coração balançar?
— Meu coração? – Debochei.
— Seu quadril então.
— Não, não tem ninguém lá que valha a pena.
— E fora de lá?
— Tenho que te contar uma coisa.
Ela se mostrou animada.
— O que?
— Você não é a única copulando com um primo.
— O QUE?
— James e eu estamos tendo... uma coisa.
Dominique aparentou estar choque.
— Como? Quando? Onde?
— Começou na última festa do Fred.
— Continue!
Ergui as sobrancelhas para a sua empolgação, mas continuei.
— Nós estávamos bêbados, fomos para o meu quarto e eu o beijei, então começamos a nos agarrar, mas eu dormi.
Ela riu.
— Fica pior. No outro dia eu o expulsei da minha cama, mas – Eu olhei ao redor, lembrando-me daquela manhã – James é bonito demais para sanidade de qualquer um.
Foi a vez dela de erguer uma sobrancelha.
— Eu fui procurá-lo e nós... consumamos nosso caso e continuamos até agora.
É claro que eu não ia mencionar os surtos.
Nick riu de novo.
— Em outras palavras: você o seduziu.
— Não é como se James fosse um jovem inocente.
— Definitivamente não.
— E como é?
Eu mexi no meu cabelo e não consegui desfazer do estúpido sorriso.
— Eu não sei. James me desconstrói.
— Eu falava dos detalhes sórdidos, mas já que você está se mostrando tão apaixonadinha, talvez devêssemos falar isso.
— Eu não estou apaixonada – Menti. Não ia admitir os meus sentimentos em voz alta nem que me oferecessem um unicórnio. E um panda.
— Tem certeza?
— Dominique, eu não tenho um coração mole como você.
Ela rolou os olhos, não se ofendendo.
— Não tem problema nenhum se você estiver apaixonada, Rose.
— Não tem problemas? Como não?
— É óbvio que James também tem sentimentos por você.
— Óbvio? Também? Dominique você andou lendo aqueles romances de época¹ de novo?
— Sim, mas...
— Está explicado.
— Isso não tem nada a ver e pare de mudar de assunto.
— Não estou mudando de assunto. É você que está, não quer ouvir a verdade sobre este tipo de livro idealista.
— Eu não sou uma garota ingênua, Rose. Não vou ficar esperando por um cavalheiro de cavalo branco. Você já viu o Fred? No máximo ele seria o cavalo.
Não pude discordar.
— Mas voltando aos seus sentimentos...
— Que sentimentos? Eu não tenho nenhum sentimento, muito menos no plural.
Ela apertou os olhos, encarando-me, depois suavizou o rosto.
— Vocês formariam um belo casal.
Eu iria estapear aquela cabeça loira.
— Dominique, mesmo que, hipoteticamente, houvesse sentimentos envolvidos de ambas as partes, eu nunca, nunca, arriscaria minha amizade com James por algo romântico e incerto.
Ela abriu a boca para falar, mas eu não deixei.
— Mas isso não é algo para se preocupar, porque não existem sentimentos da parte dele e nem da minha. Estamos só transando. É algo casual.
— Não dá para ter algo casual com o seu primo e melhor amigo.
— Claro que dá. James e eu temos.
— Veremos até quando.
— Por que você não vai fazer as pazes com o seu cavalo, hein?
— De jeito nenhum. Prefiro ficar aqui e imaginar como serão seus filhos com James.
— Você está superando Lily.
Ela franziu o nariz.
— Só estou te provocando.
— Sério? Não tinha percebido.
Ela jogou um travesseiro em mim.
— Por que você não começa a desembuchar sobre os seus dilemas de amor?
— Dilemas de amor? Nem Lily conseguiria ser tão piegas.
Joguei o travesseiro de volta. Ela o pegou e começou a discursar sobre Fred e metáforas estranhas com teias de aranhas.
Quando já estava tarde, Dominique levantou-se para ir embora. Os dois garotos ainda estavam na sala, ela abraçou rapidamente cada um, mas quando foi à vez de James ela o chamou de “safado”. James olhou para mim e ergueu uma sobrancelha. Eu só balancei a cabeça.
— Eu te levo até lá embaixo – Fred se ofereceu.
— Fred eu acho que consigo tomar um elevador e sair do prédio sem precisar de ajuda.
— A questão é que você acha, não tem certeza – Disse ele, caminhando para fora do apartamento. Dominique abraçou-me e saiu retrucando com Fred.
De alguma forma, Dominique e eu éramos muito parecidas. Mas isso era outra coisa que eu nunca admitiria em voz alta.
— E nós?
— Nós o que? – Eu perguntei.
— Posso te acompanhar até o meu quarto? – James estendeu a mão e deu um sorriso que de tão obsceno deveria ser considerado crime.
Segurei sua mão.
Paixão era uma droga.
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