Clichês
4 Clichês
Notas iniciais
Bati na porta e James me pediu para entrar. Abri a porta e o vi deitado na cama com o notebook no colo. Sons saiam do aparelho.
— Tá vendo pornô? — Perguntei.
— Não — Respondeu James, franzindo a testa.
Droga. Se ele estivesse assistindo pornô seria mais fácil seduzi-lo.
— Está assistindo o que? — Questionei enquanto caminhava para a cama. Sentei-me ao lado dele, com as pernas esticadas em cima do colchão.
— Sherlock.
Hummm, Benedict Gostoso Cumberbatch.
— O Sherlock morre.
Ok, ele na verdade não morria, mas não importava.
— O QUÊ? — Ele me olhou aborrecido — Não acredito que você me deu spoiler.
Parecia que spoiler não excitava.
— Ahn, desculpe?
— O que você quer?
— Nada — Respondi, mexendo no cabelo.
Ele ergueu uma sobrancelha. Sua sobrancelha arqueava perfeitamente, era um talento. Encarei-o com a minha expressão mais inocente.
Ele pôs o notebook de lado.
— Olha, se isso é sobre o que aconteceu...
— O que não aconteceu — Eu o corrigi.
— Isso. Bem, eu... Nós fomos levados pela bebida. Vamos só tentar esquecer isso e fingir que não aconteceu nada.
Mas aconteceu.
Quanta contradição.
— Você me deixou com um chupão! — Eu disse, tirando meu cabelo do pescoço.
— Isso... Desculpe. Não foi a intenção.
— Duvido disso — Respondi mal-humorada.
Ele fez uma cara feia e abriu a boca para retrucar.
— Não vim aqui para discutir com você.
Vim aqui para transar com você.
— Veio para quê então?
Eu o beijei, porque fiquei com preguiça de usar palavras.
Encarei o teto. Minha respiração estava acelerada e o meu coração acompanhava o ritmo. James se deitou do meu lado, ofegante.
De repente toda a reputação de James havia feito sentido. Ele era como uma cozinha industrial de última geração.
E lá vinha a cozinha industrial de novo.
James se virou para mim e sorriu. Eu sorri. Depois parei de sorrir.
Sorrisos podem dar a impressão de que estou sentindo mais do que a felicidade habitual após ter copulado.
O que não era o caso. Era só algo casual.
Primos transando casualmente. Só por desejo, nada demais.
Casual.
Só casual.
Que merda eu tinha feito?
Primos NÃO podem transar casualmente.
É claro que podem, Rose, disse a voz do meu demônio interior, Você fez isso.
Claro. É isso mesmo. Não é nada demais. Eu tenho razão.
Não tem nada demais, além do fato de...
De que?
De que não vai dar certo.
— O que foi? — James perguntou.
Será que eu estava com a mesma expressão de quando eu soube que o meu último crush era de áries?
Ou de quando eu terminei de assistir a adaptação de Orgulho e Preconceito de 2006?
Ou de quando James apareceu com o meu livro “Memórias de minhas putas tristes” totalmente encharcado de cerveja?
— Nada. Por quê?
— Você encarou o teto como se estivesse aterrorizada.
Ferrou.
— É que eu me lembrei que esqueci de devolver a playboy do Fred.
Que?
— A edição está boa?
— As piadas sim. Mas tinha uma matéria meio sexista. Estou pensando em enviar um hate e-mail para o jornalista.
Por que eu simplesmente não calava a boca?
Ele deu um risinho. Caímos num silêncio constrangedor. Senti meu rosto esquentar.
Mais silêncio.
Minhas mãos começaram a suar frio. Parecia que meu estômago estava se contorcendo.
Eu iria morrer.
— Você está bem?
Que tipo de pergunta era essa?
— Não! — Opa. A resposta não deveria ter saído assim.
Prevendo o surto em 3...2...1...
— Nós acabamos de transar, James! — Sentei e puxei o lençol para me cobrir — Transar! Sabe o que é isso?
— Claro que eu sei, nós acabamos de fazê-lo, como você enfatizou.
Olhei-o com raiva.
— Pare de debochar. Isso é sério. Nós transamos. NÓS, você e eu.
— Eu e você — Ele completou com um sorriso.
— POTTER! Você não entende as consequências disso?
— Só a que você está surtando por nada.
— Eu não estou surtando! — Neguei, quando estava óbvio que eu estava surtando. Levantei-me, puxando o lençol. Pensei em ir para o meu quarto, porém Fred poderia estar no corredor. Peguei minhas roupas e me tranquei no banheiro.
— Rose, não é nada demais. — A voz de James soou — Não é como se tivéssemos matado alguém. Não é um crime. Não é proibido. E ninguém precisa saber.
Ele não estava entendo nada. Parvo.
— A questão não é essa, James! — Eu disse, enquanto vestia a blusa — É sobre a nossa amizade. Você viu o silêncio constrangedor. E depois? Nós não vamos nem poder ir nos almoços de família sem ficar desconfortáveis. Droga. Eu vou ter que arrumar um novo apartamento.
— Do que você está falando? Não exagere. Nada disso vai acontecer.
Percebi que tinha vestido a blusa do lado avesso. Bufei.
— Não é exagero. É o futuro! — Arrumei a blusa e abri a porta. — Eu fico com o centro e metade do lado leste. O resto da cidade é seu.
James estava de pé em frente a porta. Ele franziu a testa.
— Rose... Para de dramatizar. Nós vamos continuar os mesmos.
Olhei-o como se ele fosse um patife, o que, de fato, ele era.
— Como podemos continuar os mesmos se você está nu na minha frente? — Debochei.
Ele me olhou irritado.
— Pare de ser teimosa e neurótica.
— Quem está sendo teimoso e não está aceitando os fatos é você. Pois que fique claro que não vou mais me mudar do apartamento. Você que saia! — Eu segui para a porta, esbarrando com força no seu ombro — E vista uma roupa!
Saí do quarto e bati a porta com força.
Horas depois, andando de um lado para o outro no meu quarto, eu percebi que aquilo tinha sido ridículo.
Ridículo a briga.
Ridículo eu ter cogitado sair do apartamento.
Ridículo eu ter escolhido o lado leste da cidade ao invés do oeste. Por que eu havia escolhido o leste? É no oeste que ficava o zoológico, onde ficavam os pandas. Como eu ia viver sem os pandas?
Que dia de merda.
Primeiro eu perdi o meu melhor amigo e agora os pandas.
Ouvi batidas na porta.
— O que é?
— Sou eu — A voz era de James. Antes que eu pudesse responder ele abriu a porta e entrou. Vejam só, o ladrão de pandas tinha aparecido.
— Veio jogar na minha cara que agora os pandas te pertencem?
— Que? – Seu rosto aderiu uma expressão confusa. Sentei-me na beirada da minha cama e o encarei.
— O que você quer?
— Conversar. Sobre o que aconteceu — Ele colocou a mão no bolso da calça e tirou de lá dois bombons — Eu vim em missão de paz.
Estreitei os olhos. Que manipulador.
— Quem me diz que não estão envenenados?
— Eu. Você sabe que se eu fosse te matar, envenenaria uma maçã — James tinha um certo amor por contos de fadas. Dos irmãos Grimm aos da Disney.
— Você é tão clichê — Peguei um dos bombons.
— Bem, você também é — James sentou-se do meu lado e abriu o outro bombom — Afinal, dormir com o seu primo? Sério? Mais clichê que isso só transar com o seu melhor amigo.
Deixei escapar um sorriso que logo tratei de esconder. Comi o bombom.
— A vida é um clichê.
— Exato. Não importa quantas vezes tentamos, ela sempre se torna clichê. Isso quer dizer que vamos ter que continuar tentando então.
Eu o olhei.
— O que você quer dizer com isso?
— Noventa por cento dos amigos que transam terminam a amizade — Ele começou. Pergunto-me de onde ele tirou essa estatística. Sexoeamigos.com? — É um clichê. Não vamos nos tornar um clichê. Eu me recuso.
— E como você pretende isso?
— Continuaremos amigos. Sem silêncio constrangedor. Vamos fazer coisas nada clichê. Tipo... Já foi em um cemitério à noite?
Eu franzi o cenho.
— Não e se for preciso ir a um para salvar a nossa a amizade, eu sinto dizer que... Adeus. Foi bom enquanto durou.
— Garota ingrata. Te dei horas de prazer, te trouxe chocolate e você não tem coragem nem de ir no cemitério por mim.
— Com horas de prazer você está citando toda a nossa amizade ou só o sexo? Porque se for o sexo, eu não acho que tenha chegado há nem uma hora.
Ele estreitou os olhos, sorrindo.
— Isto é um desafio, Weasley?
— Não, porque seria totalmente clichê.
— Certo. Não faremos coisas clichês.
— Não.
Encaramo-nos, sorrindo por um momento.
— Sabe o que não seria clichê?
— O que?
— Se você me comprasse uma pizza e me trouxesse uma Coca-Cola bem gelada.
Ele pegou o celular no bolso.
— Só farei porque não é clichê.
— Aham.
— E porque eu estou com fome.
— Claro — Eu dei um sorriso convencido, enquanto ele ligava para a pizzaria.
— Fred disse que vai se juntar a nós — James avisou, entrando no meu quarto com uma caixa enorme de pizza.
— Se ele sujar a minha cama de pizza eu irei sujar todas as cuecas dele com catupiry.
— Eu iria adorar — Disse Fred, entrando no quarto. Ele pegou um pedaço de pizza e se jogou na cama, ao meu lado. James se juntou a nós.
— O que vamos assistir?
Apertei freneticamente os botões do controle remoto. Peppa Pig não. Novelas mexicanas não. Arrow não. Documentário sobre ufologia... SIM. Troquei um olhar com os meninos e eles concordaram.
Encostei-me na cabeceira da cama e ali no meio dos meus dois garotos, mordi um pedaço de pizza. Eu me sentia tão bem que os deuses do Olimpo deveriam estar com inveja.
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