Clichês
1 Capítulo 1
Bebericava sua dose de hidromel enquanto resolvia as palavras-cruzadas do Profeta Diário. Para uma noite de sexta, até que o Três Vassouras estava pouco movimentado. Aproveitou que os filhos tinham ido passar o fim de semana com o pai para visitar Hogsmeade e dar uma olhadinha no imenso castelo que fora seu lar por tantos anos: a Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts.
Tirou os óculos de descanso que agora precisava usar para ler – ou seja, na maior parte de seu tempo – e apoiou a testa nas costas da mão. Acenou brevemente para os Lloyd, pais de Beatrice, melhor amiga de sua filha Rose. Eram boa gente, mas Hermione ficou aliviada por estarem de saída; não estava muito a fim de papo naquela noite.
Será que desperdicei minha vida?, perguntou-se mentalmente, esvaziando o copo. Não, claro que não, você tem seus filhos, Hermione!, ralhou sua consciência.
— Seu copo está vazio, posso lhe pagar outra bebida? – perguntou uma voz desconhecida, arrancando-a de suas reflexões.
Ergueu os olhos para o estranho e viu que se tratava de um homem alto, de cabelos cor de palha, olhos cinzentos e que devia ser uns bons anos mais jovem que ela. A julgar pela aparência de suas vestes, devia ter um cargo elevado no Ministério da Magia. A Hermione pré-casamento teria enrubescido e começado a rir e gaguejar. Já a Hermione pós-divórcio apenas voltou seus olhos para o jornal e disse sem emoção:
— Não, obrigada.
— Tem certeza? É só uma bebida.
Ele é bonito e você, solteira. Qual o problema?, pensou, mas, ignorando a vozinha em sua cabeça, revirou os olhos e tentou pensar em alguma resposta que não deixasse espaço para réplicas. No entanto, nem precisou se dar ao trabalho; sentiu uma mão em seu ombro e ouviu uma voz muitíssimo conhecida dizer:
— Ela já tem companhia.
O louro murmurou um pedido de desculpas e saiu olhando para o chão. Trazendo duas canecas de cerveja amanteigada, Harry James Potter, o Menino que Sobreviveu, o Eleito, o mais eficiente Auror de seu tempo e, acima de tudo, seu melhor amigo de todos os tempos, sentou-se à sua frente, arrancando-lhe um sorriso. Não importava quão ruim o humor dela estivesse, quase nunca havia tempo ruim com Harry. Em seus quase trinta anos de amizade, podiam contar nos dedos as brigas que tiveram.
— Para relembrar os velhos tempos – disse, passando-lhe uma das canecas. Ele, Mione e Ron sempre tomavam cerveja amanteigada no Três Vassouras quando a escola liberava os alunos para passearem em Hogsmeade aos fins de semana – Por que dispensou o pretendente? – acrescentou – Ele era bonitão...
— Não tenho mais idade para isso, não, Harry – respondeu num tom cansado e enfadonho.
— Como não tem?
— Não sei se você sabe, mas em algumas semanas, faço quarenta.
— E? Mione, isso é apenas um número, você continua ótima!
“Continua”?, pensou com uma expressão amargurada. E desde quando eu sou considerada “ótima”? Desesperada para desviar o assunto, fez a primeira pergunta que lhe veio à mente:
— Ei, você não deveria estar com as crianças? – Harry se divorciara seis meses antes dela.
— O Ron não te avisou? Os Weasley organizaram uma viagem para o fim de semana.
— Ah, é verdade! Não sei onde estou com a cabeça.
— No trabalho? Você parece cansada.
— O que aconteceu com o “você continua ótima”? – perguntou, tentando não se esganiçar com a indignação.
— Mas pessoas lindas têm o direito de aparentar cansaço! – e ergueu sua caneca – Um brinde a quem tem quase quarenta com carinha de vinte!
Hermione revirou os olhos e, com cara de poucos amigos, ergueu sua caneca e resmungou:
— Um brinde a você bebendo isso e calando a boca.
Os dois riram, levaram as canecas uma de encontro à outra e depois aos lábios. Era tão bom estar ali a sós com Harry. Sentia-se novamente como a estudante adolescente que só se preocupava com as notas – e, ocasionalmente, em não ser morta pro Lord Voldemort e seus Comensais da Morte -, não com a mulher de meia idade, sempre sobrecarregada de trabalho e com a sensação de que, não fossem os filhos, sua vida teria sido um enorme desperdício.
— E as pretendentes no Ministério?
Os dois trabalhavam em departamentos diferentes, mas o divórcio de Harry ocasionou um burburinho por todo o Ministério da Magia: várias bruxas de diferentes departamentos, portes físicos e idades, todas disputando o coração do famoso Harry Potter.
— Nenhuma que me interesse – respondeu dando de ombros.
— Ah, vá! Opção não falta!
— Eu sei, só não quero errar de novo.
Hermione arqueou a sobrancelha. Aproveitando que ambos já haviam terminado suas bebidas, Harry limpou o ‘bigode” que a espuma da cerveja amanteigada deixara na amiga, levantou-se e disse:
— Vem, vamos conversar em outro lugar.
— Ok, deixa só eu pagar minha conta...
— Já paguei.
— O q...?
— Anda!
— Argh! – limitou-se a dizer. Odiava homens pagando suas contas.
Harry conduziu-a até os fundos do estabelecimento e pegou uma vassoura velha encostada num canto. Uma vassoura. Duas pessoas. Aquela equação não parecia resultar em boa coisa. Aliás, para a morena, nada que envolvesse vassouras resultava em boas coisas.
— Que droga é essa, Harry?
- Não dá para aparatar e só consegui uma vassoura com o bartender – respondeu dando displicentemente de ombros, enquanto a outra encarava a vassoura como se estivesse diante de um trasgo.
- Tá, mas eu não posso ir andan...?
Antes que ela pudesse concluir a pergunta, Harry pegou a vassoura, segurou-a a frente de Hermione e parou atrás da amiga.
- Fica à frente, eu te seguro.
Abriu a boca para protestar, mas não demorou a concluir que aquilo não levaria a lugar algum. Resignada, segurou a vassoura e passou as pernas em volta da mesma. Logo em seguida, Harry colou seu corpo ao dela de um jeito que provavelmente os meteria em apuros se ainda fossem casados, pôs as mãos sobre as suas e flexionou os joelhos, obrigando-a a fazer o mesmo.
- Pronta?
Antes que ela pudesse responder, o bruxo deu um impulso que os arremessou uns cinco metros acima. Enquanto subiam em disparada e o vento parecia cortar seus rostos, o grito de pavor de Hermione viajava-lhe entre o peito e a garganta, morrendo por ali mesmo, já que lhe parecia fisicamente impossível conseguir fazê-lo sair pela boca.
- Abre já esses olhos que eu sei que estão fechados – sussurrou Harry, sua boca roçando na orelha de Mione, quase a fazendo cair da cadeira.
Inferno, ele me conhece tão bem!, pensou indignada, forçando os olhos, que ele nem precisara ver para saber que estavam fechados, a se abrirem. Seu primeiro instinto, claro, foi olhar para baixo. Quando viu as luzes do povoado se transformarem em vaga-lumes à distância, a vertigem foi tanta que Harry precisou apertar ainda mais os braços ao redor dela. Resolveu, então, olhar para frente e a visão que teve a fez esquecer-se um pouco seu medo de altura. O céu estava salpicado de estrelas e a Lua cheia brilhante parecia prestes a engoli-los. Cerca de dois minutos depois, percebeu onde estavam indo.
- Eu não acredito, Harry! – berrou, torcendo para que o vento permitisse que sua voz fosse ouvida.
- Ah, não vai ter ninguém lá, só os fantasmas! – berrou de volta, enquanto sobrevoavam os portões trancados de Hogwarts.
Os dois aterrissaram na torre de Astronomia, a mais alta do castelo. Harry sentou-se no chão e, delicadamente, puxou Hermione para sentar-se ao seu lado.
- Saudades desse lugar- suspirou o bruxo.
- idem.
Hermione, que usava um vestido meia-manga vinho, de tecido leve, estremeceu brevemente com o vento frio da noite. Não deveria estar ventando forte daquele jeito em plena noite de verão; Harry, prontamente, tirou seu terno e colocou-o em volta dos ombros da amiga. Ela sorriu agradecida, sacou a varinha e conjurou as chamas azuladas bruxuleantes que aprendera a conjurar sozinha no primeiro ano de escola. O trio inseparável passara bons momentos observando e esquentando as mãos naquelas chamas.
- Lembra?
- Como não lembrar?
- Ah, vai saber, memória de homem, né...
- Eu me lembro de muitas coisas, para sua informação.
- Hmm. Tipo?
- Tipo que no Baile de Inverno você estava com um vestido azul-índigo e os cabelos lisos presos num coque simples.
Se fosse humanamente possível, o queixo de Hermione teria batido no chão e voltado umas vinte vezes. Ela própria quase não se lembrava de tantos detalhes. Aproveitando a falta de resposta da amiga, Harry emendou:
- Também lembro que quase perdi o ar quando a vi naquela noite. Mesmo sendo um desengonçado, eu deveria ter dançado ao menos uma música com você.
O que ele está fazendo?, pensou, engolindo em seco e sentindo as maçãs do rosto em brasa. Pigarreando baixinho para recuperar a compostura, ignorou o comentário do amigo e perguntou:
- Que história foi aquela de “errar de novo’, hm?
- Tsc, eu ia chegar lá, você não deixou!
A morena deu de ombros com expressão de quem pede desculpas. Harry riu e passou um braço por suas costas antes de prosseguir:
- Eu tive duas paixões nesses quase quarenta anos: a Cho, que foi o fogo de palha do milênio, afinal eu nunca a conheci de verdade. Não sei até onde teríamos ido se ela não tivesse surtado com ciúmes de você, mas duvido que teríamos ido longe.
- Espera aí... ela terminou com você por minha causa? Eu nem me lembrava disso! Aliás, eu sabia disso?
- Sei lá, acho que sim!
Os dois não fizeram nada além de rir por uns dois minutos. Quando se aquietaram, Harry se aproximou um pouco mais de Hermione e prosseguiu:
- E a Ginny... bem, ela é incrível e me deu três filhos perfeitos, mas não sei se algum dia chegou a ser amor de verdade. Acho que me deixei levar por uma série de clichês tipo “eu sou a imagem cuspida do meu pai e ele se apaixonou e casou com uma ruiva”, “a irmãzinha do meu melhor amigo virou mulherão”, enfim...
- Sei bem como é. Eu e o Ron nos deixamos levar pelo “quem briga se ama”. E o Vítor? Bem, eu me deslumbrei. Não pela fama e pelo dinheiro, mas porque ele foi o primeiro garoto a me notar.
As chamas bruxuleantes de Hermione os entretiveram por cerca de meio minuto até Harry abrir um sorriso pesaroso e quebrar o silêncio:
- Ele não foi o primeiro a notá-la, só foi o primeiro a ter a esperteza de tomar uma atitude.
- Olha, se você está falando do Ro...
- Não, não estou.
- Então de quem?
- Alguém que se deixava levar facilmente por clichês, como o de que se dois amigos nunca brigam, são confidentes, conselheiros, sempre riem das piadas um do outro e, não importa o que aconteça, estão sempre juntos, é porque se amam como irmãos e a relação não passa disso: puramente fraternal.
Hermione sentia suas vísceras derreterem enquanto o amigo falava. Aquilo descrevia exatamente como ela se sentia em relação a Harry. Por muitos anos, achara que estavam destinados a serem irmãos e quando, finalmente, se deu conta de que sempre fora apaixonada por seu melhor amigo, já era tarde demais. Ambos estavam casados, Hermione cuidando de seu segundo filho, recém-nascido, e Harry prestes a ser pai pela terceira vez. Nem seu antigo vira-tempo daria jeito naquilo.
- Harry... – começou num fio de voz.
- Entende agora o quanto eu errei, não?
- Nós erramos – corrigiu-o, com muito mais firmeza na voz.
Aquelas duas palavras fizeram o rosto de Harry se iluminar com um sorriso quase infantil. Virou o rosto para olhá-la e não se deixou vencer por sua expressão impassível.
- Então você tamb...
- Harry, não! – interrompeu-o, balançando negativa e pesarosamente a cabeça.
- Por que não? O que nos impede?
- É tarde demais! Olha em que ponto da vida nós estamos! O que os Weasley iriam pensar? E nossos filhos, então? – à medida que as palavras iam saindo, as lágrimas indesejadas as acompanhavam.
- Mione... – segurou o rosto dela entre as mãos e aproveitou para secar-lhe delicadamente as lágrimas com os polegares – Você pensa demais. Com o tempo as coisas se ajeitam.
Hermione apenas balançava a cabeça enquanto as lágrimas teimavam em cair nas mãos de Harry. O bruxo colocou-se de joelhos em frente a ela e esperou o ritmo de suas lágrimas abrandar para dizer, cravando seus olhos intensamente verdes nos olhos castanhos da morena:
- Hermione, eu te amo. Relutei muito em admitir para mim mesmo, mas sempre amei e, depois de todos esses anos, posso dizer que sempre amarei.
- Eu também te amo, Harry – conseguiu dizer entre soluços.
Odiou-se profundamente por começar a chorar ainda mais; aquele não era momento para parecer um bebê desmamado. Por sorte, Harry não parecia se importar com seu ataque. Envolveu-a nos braços, naquele abraço quente e acolhedor que, na opinião de Hermione, só ele sabia dar, e afagou-lhe os fofos – que apresentavam metade do volume que tinham na adolescência, graças a modernos tratamentos trouxas – cabelos castanhos. Quando os soluços cessaram, ele suavemente beijou o topo de sua cabeça e, lentamente, afastou o rosto para poder olhá-la. Os dois se olharam fixamente por alguns instantes e, antes que Hermione pudesse pensar em alguma desculpa, Harry se aproximou até estarem nariz contra nariz. Ela não se afastou, apenas semicerrou os olhos, convidando-o a, enfim, levar seus lábios aos dela.
Por um momento, o mundo parou para os dois e não existia nada além deles e das chamas azuladas dançando ao seu redor. Tudo parecia tão certo, tão... Perfeito, pensou Hermione. Não havia como descrever em outra palavra; nunca um beijo tivera o poder de fazê-la sentir como se seu coração bombeasse descargas elétricas para o resto do corpo. A julgar pelo modo que Harry a puxara para mais perto de si e aprofundara o beijo de maneira quase voraz, ele sentia o mesmo.
- Deveríamos ter feito isso há tanto tempo... – sussurrou, roçando os lábios nos dela e aproveitando para mordiscar-lhe o lábio inferior.
- Eu sei – respondeu ofegante e, antes que pudesse recuperar o fôlego, seus lábios já estavam novamente abrindo caminho para a ávida língua de Harry.
- Hmmm... – tomado por uma repentina ideia, ele interrompeu o beijo a contragosto, colocou-se de pé num pulo e estendeu as mãos para ajudar Hermione a se levantar – Anda, vem comigo!
- Para onde? – resmungou, fazendo um beicinho de frustração, e aceitou a ajuda dele para ficar em pé.
- Matar as saudades da escola.
- Harry!
- Os fantasmas e os quadros vão fazer o quê?
- Hm, que tal um escândalo?
- Nada, eles nos adoram!
Hermione revirou os olhos, acendeu a varinha ao mesmo tempo em que Harry, ele a abraçou de lado e os dois adentraram o castelo juntos – seguidos pelas chamas, claro.
Mesmo com a baixa iluminação, podiam ver pelos corredores que quase nada mudara. Um quadro ali, uma tapeçaria aqui, mas Hogwarts era praticamente a mesma que os acolhera décadas atrás. Um ou outro habitante dos quadros acenava para eles quando passavam. Ao adentrarem o salão principal, Hermione, com um único movimento da varinha, fez suas chamas se fragmentarem em centenas de pedacinhos, cada um tomando posto em uma vela do teto de céu falso.
- Pena que hoje não tem banquete – lamentou Harry.
Hermione assentiu com a cabeça, os olhos vidrados no céu daquela noite fielmente reproduzido no teto do salão. Desabraçou-se delicadamente de Harry e caminhou lentamente até a mesa dos professores. Sentia mais falta daquele lugar do que ela mesma poderia supor.
- E não é que nosso primeiro beijo acabou sendo em Hogwarts? – perguntou Harry às suas costas, sobressaltando-a. Ele a abraçou por trás, roçou suavemente o nariz no pescoço da morena até, por fim, depositar um beijo na região – Só não na época convencional dos primeiros beijos escolares.
- É – respondeu rindo, virou o rosto para olhá-lo e recebeu um beijo casto nos lábios.
Retomando suas andanças, seus pés foram automaticamente em direção à torre da Grifinória. Pararam em frente ao quadro da Mulher Gorda que, como sempre, falou:
- Senha, por favor.
Os dois deram de ombros, sem fazer a menor ideia do que dizer, prepararam-se para dar meia-volta, mas, para sua surpresa, ela deu um sorrisinho e deu de ombros como eles haviam feito.
- A senha desse ano ainda não foi escolhida mesmo.
Antes de o retrato girar para abrir passagem, ela lhes dirigiu uma piscadela. Incrédulos perante tal atitude, Harry e Hermione se entreolharam petrificados por algum tempo, depois dispararam porta adentro, antes que perdessem a chance.
A sala comunal era praticamente a mesma. Estava sem as decorações que os alunos geralmente colocavam durante o ano letivo e os sofás e poltronas eram visivelmente novos, mas idênticos aos do tempo dos dois. Novamente com um floreio da varinha no ar, Hermione conduziu suas chamas à lareira e, logo em seguida, foi puxada para o colo de Harry, que se largara no sofá mais próximo.
Ela sorriu com os cantinhos dos lábios enquanto era puxada para um novo beijo. Não conseguia se lembrar de quando fora a última vez que se sentira tão viva. De olhos fechados, imaginava-os como os adolescentes que há muito viveram sob aquele teto. Lembrou-se que uma vez, no final do terceiro ano, sonhou que estava se agarrando com alguém em um sofá da sala comunal e a última coisa que viu antes de acordar, foi o rosto da pessoa que estava com ela: Harry. Na ocasião, pulou da cama suando frio com o susto e passou uma semana repreendendo-se e tentando tirar o fatídico sonho da cabeça.
Entretanto, estavam ali, realizando aquele sonho antigo. O coração de Hermione estava dividido ao meio: um lado doía por aquele momento ter demorado tanto a chegar. O outro, porém, flutuava, porque aquilo estava finalmente acontecendo. Saber que não morreria sem ouvir um “Eu te amo” e sentir o gosto do beijo de Harry, de certa forma, fazia sua vida valer mais a pena.
Despertou de seus devaneios quando a mão de Harry deslizou perigosamente para baixo de seu vestido. Arregalou os olhos, pulou para longe e ralhou:
- Harry! Nossos filhos sentam nesse sofá!
- Verdade! Vem comigo!
Do mesmo jeito que fizera na torre de Astronomia, ele se levantou num pulo e estendeu as mãos para ela. Antes de deixarem a sala, ele a puxou para um último beijo intenso sob o olhar dos leões dourados estampados nas flâmulas vermelhas penduradas nas paredes e no teto.
Enquanto dirigiam-se à outra ala do castelo, Harry entrelaçou seus dedos aos de Hermione e comentou displicentemente:
- Sabe, gostei de ouvir aquele “nossos filhos”...
- OI?
- Sei que estava falando dos meus e dos seus, mas não pude deixar de imaginar os meus e seus...
Todas as cores do arco-íris passaram pelo rosto da morena e ela vociferou, tremendo da cabeça aos pés:
- Harry... James... POTTER!
- Que foooi? – perguntou inocentemente, fazendo bico – Só disse que gostei de como soa.
- Humpf!
Hermione se distraiu por alguns instantes, não conseguindo evitar imaginar uma menininha de esvoaçantes cabelos castanhos e olhos profundamente verdes e um menininho de cabelos negros espetados e olhos castanho-claros. Tal devaneio a impediu de perceber que haviam passado três vezes pelo mesmo corredor. Quando finalmente se deu conta do que aquilo significava, virou-se para Harry, incrédula.
- Mas eu pensei que...
- Ano passado, o Neville passou por aqui e a encontrou. Ele foi perguntar à McGonagall como havia acontecido e ela pareceu saber tanto quanto nós.
Estavam diante da Sala Precisa – ou Sala do Vai-e-Vem -, aposento pouco conhecido de Hogwarts que só aparecia para quem realmente necessitasse. Porém, Harry e seus amigos acabaram destruindo-a durante a grande batalha de Hogwarts.
- O Neville disse se ainda funciona normalmente?
- Não, mas acredito que funcione... Enfim, vamos descobrir.
Ele girou a maçaneta e puxou a morena para dentro do cômodo. Depararam-se com uma cama king size rodeada por cortinas e coberta por lençóis de algum tecido que Hermione nem se atrevia a tentar imaginar qual era. Como se o quarto fizesse parte da torre da Grifinória, a decoração era toda em vermelho e dourado e a iluminação ficara a cargo de algumas velas e, evidentemente, das chamas dançantes que os seguiram até ali.
- Harry, isso é tão...
- Clichê? Ah, um a mais, um a menos...
Hermione teve cerca de dois segundos para rir até ter os lábios tomados pelos de Harry. Ele a tomou nos braços, nos moldes de um recém-casado casal, carregou-a até a cama e deitou-a delicadamente sobre a mesma. Logo em seguida, ele se pôs suavemente sobre a morena.
Quando seus lábios desceram dos lábios para o pescoço de Hermione, ela se lembrou da bateria que Hugo ganhara do pai há dois anos. Aquela coisa barulhenta a tirava do sério. Porém, deitada ali entre aqueles lençóis macios, com a pele em brasa sob o toque dos lábios e mãos de Harry, ela não conseguia ver muita diferença entre seu coração e o retumbante instrumento.
Ele começou a escorregar os beijos até seu colo, mas se deteve. Ficou de joelhos entre suas pernas, enganchou os dedos sob a bainha do vestido e olhou-a como quem pede permissão. Mais do que depressa, Hermione arqueou as costas para ajudá-lo a se livrar da peça de roupa com mais facilidade.
Quando se viu livre do vestido, suas bochechas enrubesceram. Não que estivesse acabada ou algo do gênero, mas tampouco era uma adolescente sem filhos com tudo perfeitamente firme no lugar. Como se tivesse lido sua mente e quisesse tranquilizá-la, Harry inclinou-se sobre ela e sussurrou:
- Você é linda.
Hermione puxou o rosto dele até o seu e, pela primeira vez, tomou a iniciativa de beijá-lo. O bruxo correspondeu ao beijo de muito bom grado e, aproveitando-se de sua distração, a morena levou as mãos trêmulas e urgentes aos botões de sua camisa e, um a um, abriu-os.
O tempo fizera bem ao corpo de Harry. O garoto magricela que deveria se encontrar na fase da barriga de chope, na verdade, ganhara alguns músculos. Nada protuberante ou exagerado, apenas uma mudança discreta que dava gosto de ver. Será que trabalhar como Auror faz is... naah, começou a se perguntar uma vez, quando acidentalmente vira Harry sem camisa há alguns meses, mas interrompeu seu próprio pensamento ao lembrar-se do saudoso Alastor “Olho-Tonto” Moody.
Pouco a pouco, beijos e toques foram se intensificando, roupas sendo postas de lado e a química entre os dois permanecia inabalável. Como se utilizasse Oclumência, cada movimento de Harry parecia ser calculado para agradar Hermione, como se ele estivesse mesmo vendo o que se passava em sua mente, tudo que ela desejava, tudo que ela precisava... Ela, por sua vez, mostrou-se criativa e desinibida como nunca se mostrara antes. Para ambos, aquele momento era como estar descobrindo o sexo, já que nunca haviam estado com alguém além de seus respectivos cônjuges.
Após muito terem experimentado, se divertido, aproveitado o prazer que um proporcionava ao outro, e declarado seu amor incondicional, juntos atingiram o clímax. Depois, desmoronaram exaustos na cama, firmemente agarrados como se temessem que alguém pudesse vir separá-los durante o sono.
Pouco importava o que poderiam pensar ou falar. Familiares e amigos se acostumariam com o tempo. Hermione não estava disposta a abrir mão de sua felicidade novamente. Aquilo era certo, ela e Harry haviam nascido um para o outro e não deixaria que nada, nem ninguém ficasse em seu caminho de novo. Sentia-se uma protagonista de romance enlatado pensando daquele jeito, mas sabia que sua história de amor com Harry e a luta para poderem vivê-la não seria nada previsível. Com um meio sorriso sereno, seu último pensamento antes de adormecer foi: Chega de clichês.
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