Clichê
1 Capítulo 1: Preparação
Notas iniciais
Primeiro dia de aula de uma escola nova. Quem não detesta muito isso? Dei uma revisada em frente ao espelho na minha aparência e senti minhas mãos tremerem como galhos de árvores em meio a um vendaval. Eu tinha certeza que poderia desmaiar se não ficasse muito atenta e que minhas pernas poderiam falhar em um passo qualquer.
Sempre fui tímida, não muito, mas um pouco. Mas não era nem tanto pela timidez que eu estava tão nervosa. A razão era um pouco distinta. Eu estava tão nervosa porque nunca tinha estudado em outra escola antes, apenas em uma a minha vida inteira. Eu estudei na “Liderando Gigantes” desde o primeiro ano do ensino fundamental. Os meus amigos de lá, eram amigos mesmo, daqueles que a gente se apega de verdade porque conviveu desde sempre. E de repente, minha mãe resolve que vai mudar de cidade. Na verdade não a culpava, eu também estava me sentindo muito aliviada. Depois que ela descobriu que meu pai a traía e se separou dele completamente, a nossa antiga cidade e a nossa antiga casa davam uma sensação triste, de lembranças passadas. As boas e principalmente as ruins.
Para ser franca, eu a apoiei na mudança. Ela precisava disso. Eu também. Minha família tinha ido embora, despencado como um castelinho de areia de uma vez. Aquela casa, aquela rotina... Não cabia mais na minha vida. Era para uma vida com aquela família e aquela família não existia mais. Se era bom ou ruim ela não existir mais eu não sabia, mas iria descobrir.
Se fosse num primeiro dia de aula normal, do primeiro bimestre, eu não estaria tão pálida. Nunca fui alguém que se chamasse atenção. Sempre fui normalzinha. Não muito feita e nem muito bonita, apenas normal. Cabelos ruivos acobreados, escorridos até a cintura que eu prendia num rabo de cavalo. Olhos cor de café, pele branca com sardas que se espalhavam facilmente. E é claro, os malditos óculos fundo de garrafa. Mas óculos já eram bastante comuns e muitas pessoas usavam, aprendi a me acostumar com a presença dele. Algumas espinhas e cravos no rosto por causa da idade, mas não muitas.
O problema maior, é que eu estava entrando no colégio, no segundo bimestre e todo me veriam como a novata. E eu seria alvo de olhares pelo menos pelas próximas três semanas. Nunca gostei muito de ser o foco da atenção de muita gente, pois me sinto obrigada a fazer tudo certo. Portanto, nas próximas três semanas eu não poderia fazer algumas de minhas manias incontroláveis, como morder os lábios quando estou pensando, ou mexer no meu cabelo quando estou indecisa, ou mesmo passar a mão no rosto várias vezes quando estava lutando para ficar acordada. Eu não poderia errar porque haveria muitos olhos ao meu redor. E seria terrível.
Percebi que meu rabo de cavalo mal feito estava frouxo. Suspirei. Eu adorava ter os cabelos ruivos, adorava aquela cor. Mas não sabia muito como cuidar deles direitinho e nem tinha muita paciência. E, apesar de ter aquela cor que eu achava maravilhosa, ele era alto. E eu não sabia o que fazer sobre isso.
—Alexia! –Ouvi minha mãe chamar no andar de baixo, com o tom de voz impaciente.
Respirei fundo. Eu não poderia evitar o primeiro dia de aula mesmo então melhor que ele passasse logo. Peguei a minha mochila e desci as escadas devagar, tentando adiar o máximo possível o momento de chegar ao colégio.
Mamãe já me esperava impaciente. Assim que ela me deixasse na escola iria para o novo emprego e não poderia se atrasar de jeito nenhum. Os cabelos castanhos dela estavam amarrados em um coque muito bem feito e olhos cor de café, que ela me dera, estavam tampados por um óculos escuro. Usava um terno branco, com uma camisa branca por baixo. Uma saia lisa, branca também que ia até os joelhos. Sapatos fechados, da mesma cor da roupa, com um pequeno salto. Ela estava muito bonita. Ela era muito bonita. Chamava atenção por onde passava. Definitivamente ela não era como eu. Minha mãe era tudo, menos normalzinha.
—Gostei desse estilo mãe.
—Eu também Lexi. –Lexi, ótimo. Quando ela me chamava pelo nome completo era porque estava nervosa comigo. Quando chamava pelo apelido, podia se ver que estava tudo bem. –Vamos logo, nenhuma de nós duas queremos nos atrasar.
—É. — Disse com um tom de voz muxoxo.
Entrei no carro simples da minha mãe, coloquei o cinto de segurança e encostei a cabeça na janela. Meus olhos focaram na paisagem. Então comecei a me concentrar no que eu faria quando chegasse ao colégio. Primeiro procurar a minha sala, segundo ano “A”, depois sentar numa cadeira no fundo de uma das filas e fingir que não existo terceiro quando a professora chegar ela provavelmente vai pedir que eu me apresente e eu vou tentar não desmaiar na hora de falar o meu nome.
—Chegamos! –Mamãe anunciou com uma animação que era com certeza fingida. Ela sentia que eu estava nervosa.
—Estou vendo. Deseje-me sorte mãe.
—Boa sorte. Sabe ir para a casa de a pé direitinho?
—Sei. Fica tranquila. Tenha um bom dia no emprego. Até logo.
—Até.
Saí do carro desejando sair correndo para qualquer lugar no mundo que não fosse ali. Vi minha queridíssima mãe se afastar com o carro. Respirei fundo e encarei a escola antes de entrar. Era um edifício bonito, três andares, nas cores azul e branco. Tinha um jardinzinho e pude ver uma pequena casinha que provavelmente era a biblioteca. Meus olhos focaram ali. Talvez eu pudesse me esconder lá nos intervalos e não ter que ficar vendo todas as panelinhas saindo juntas enquanto eu estava na cadeira solitária e fria porque era nova em um colégio.
Suspirei. Não poderia ser tão ruim. E mesmo se fosse, passaria em algum momento. O dia teria que passar, de alguma maneira. Então, por mais horrível que fosse, por pior que eu me sentisse, iria acabar. E por mais que não fosse um pensamento muito otimista, aquilo me consolou de uma forma impressionante enquanto eu entrava no colégio.
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