Clichês
7 Suponha que suponhamos que você supõe
Notas iniciais
Uma semana já havia se passado. Uma semana de encontros furtivos pela madrugada. Uma semana de discussões esdrúxulas na cama. Uma semana com a famosa vontade de me matar pulsando.
Eu não estava apaixonada por James Sirius Potter.
Eu passava 80% do meu dia pensando nele, mas isso não queria dizer que eu estava apaixonada por ele.
Era só atração. Isso.
O problema era que ele era bom de cama.
O problema era que ele tinha os melhores diálogos.
O problema era que ele tinha um sorriso lindo.
Mas não era um problema de fato, afinal, era só atração.
Atração sexual. Apenas e unicamente isso.
— Nós estamos fazendo aquilo de novo — Eu falei, tentando pensar claramente, o que era difícil quando se estava num amasso com James.
— Aquilo o que? Quase tirando a roupa? — Ele perguntou, beijando meu pescoço.
— Não. Discutindo história enquanto transamos.
— Foi você que começou a falar de monarquia inglesa e, tecnicamente, não estamos transando ainda.
— Por que ainda não estamos mesmo?
Ele deu um sorriso malicioso e se afastou para tirar a roupa.
— Eu só queria falar sobre o quanto considero Ana Bolena incrível.
— Não discordo.
— Basicamente um rei criou uma religião só para se casar com ela. Sabe o quão surreal isso é?
James pulou na cama e tirou a minha blusa.
— Sinto uma pontada de inveja?
— Talvez — Admiti — Mas qual é, o cara foi contra Roma, contra a Inglaterra, só para transar com ela.
Ele balançou a cabeça.
— Você acabou de chamar Henrique VIII¹ de cara.
— Ele era um babaca.
— De fato — James concordou e me beijou — Mas eu criaria uma religião por você.
— Você não é um rei — Eu o acusei — E eu sei exatamente o tipo de religião que você criaria.
— De qual tipo?
— Uma com várias orgias e bebidas. Aposto que até inventaria um feriado chamado São James.
— Não sou tão presunçoso quanto Napoleão², amor.
— Claro que não — Ironizei. James era leonino assim como Bonaparte. Ser presunçoso estava no sangue de ambos.
Sorri com a lembrança.
— Está sorrindo por quê? — James perguntou, entrando na cozinha. Meu rosto congelou. Nunca agradeci tanto por James não ter a capacidade de ler mentes.
— Por nada — Respondi e ergui o pote que segurava — Veja, Fred comprou nutella.
— Consigo pensar em ótimas maneiras de utilizá-la — Ele deu seu sorriso típico.
— Estou desenvolvendo uma teoria, sabe, James.
— Qual?
— Que seu cérebro está programado para só responder com conotação sexual, independente do que for. Por exemplo, ofereço café e você responde “Sim, por favor, aceito um boquete. Sem açúcar”.
James riu.
— Eu tenho culpa de que há sexo em tudo?
Não respondi. Peguei meu sanduíche de nutella e minha caneca de chá e fui para a sala. Fred já havia saído para o estúdio e só restávamos nós dois no apartamento, já que éramos dois desempregados, porém felizes.
Liguei a TV e zapeei pelos canais até parar em Friends. Eu simplesmente amava aquela série. James juntou-se a mim logo depois.
— Eu estive pensando...
— Que bom. Significa que você é como a maioria dos seres humanos.
Ele rolou os olhos.
— Que tal sairmos?
Franzi o cenho.
— Sair para onde?
— Cinema, zoológico, cafeteria, restaurante... O que você quiser.
— Não tem nenhum filme bom no cinema — Eu disse — E eu não vou sair para jantar com o Fred de novo nunca mais.
— Ótimo porque o Fred não será convidado.
Eu tirei os olhos da TV e olhei para ele.
— Será só nós dois?
O que seria normal se James não estivesse agindo de maneira estranha.
— É – Ele se remexeu — Isso.
Eu o encarei com um ar de deboche.
— Você está me chamando para um encontro, James?
Ele ergueu a sobrancelha, descrente.
— Não viaja, garota. Só estou te chamando para sair do apartamento, mas se você não quiser, beleza, eu vou sozinho.
Eu sorri com sua irritação.
— Eu vou. Você conhece alguma cozinha industrial?
— Que?
— Quero tomar milk-shake e ver os pandas.
— Você cismou com pandas.
— Sorte sua que não foi com unicórnios.
— Por quê?
— Porque aí eu ia cortar seu pênis e colá-lo na sua testa.
Mais tarde naquele dia, cheguei rindo igual criança em casa. Na verdade, a tarde toda eu havia me sentindo uma criança, da melhor forma possível. Nós havíamos visto pandas, leões e girafas. Tomamos milk-shake, imitamos Sócrates na praça, interrogando as pessoas, fingindo ignorância, para vê-las tropeçarem em seus próprios argumentos. Também sentamos na grama, observamos as crianças brincarem e conversamos sobre questões importantes como, por exemplo, quem nasceu primeiro: o ovo ou a galinha.
A coisa é que quando eu ficava muito entusiasmada e feliz, uma onda de tristeza e cansaço me abatia depois. Não havia muita lógica, só uma teoria.
Energia positiva em abundância também fazia mal assim como energia negativa em exagero, ou seja, minha bad era o efeito colateral de se estar alegre demais.
Foi por isso que decidi me refugiar em meu quarto.
O que resultou em Downton Abbey.
Que resultou em choro e soluços altos.
Que resultou em James abrindo a porta e ficando amedrontado com minhas lágrimas.
— O que aconteceu, Rose? — Ele perguntou depois de meio minuto parado na porta.
— Eu... Ele... O meu casal...
Ele se aproximou e me abraçou. Uma nova onda de lágrimas me tomou.
Já não bastava o meu casal não ficarem juntos, eu ainda estava me apaixonando pelo meu melhor amigo. Que desgraça era essa?
A ficção não deveria ser melhor do que a realidade?
Enxuguei as lágrimas, irritada.
— Você está bem?
Afastei-me dele.
— O que você acha? Eles destruíram o meu casal. Eu estou farta disso. É personagem morrendo de um lado, personagem se ferrando do outro. Para mim chega.
Ele ergueu uma sobrancelha.
— E você vai fazer o que a respeito?
— Não assistirei mais essa série inepta.
— Sério?
Eu fiz uma pausa.
— Não.
Ele revirou os olhos.
— Você é dramática demais.
— Não ouse me chamar de dramática, você é de Leão!
— E?
— Você faz drama por nada também.
— Quando eu fiz algo do tipo?
— Tenho uma lista. Quer que eu a enumere por ordem alfabética?
— Tente.
— A de “Agora eu vou dar na cara desse pessoal que detesta o Napoleão”. B de “Bukowski³ era um bêbado filho da puta”. C de “Caralho. Eu odeio de George R. R. Martin” e D de “Desisto dessa vida” — Enumerei nos dedos — Primeiro, Napoleão era um babaca, segundo para quê tentar ofender Bukowski, a mãe dele e as prostitutas? Terceiro, George R. R. Martin nem está ligando para você e quarto você não pode desistir da vida só porque não consegue terminar um mísero artigo de faculdade.
— Quando é que eu ofendi o Bukowski?
— Quando você estava bêbado.
— Não me lembro disso.
Eu parei por um instante.
— Talvez não tenha sido você.
— Você também estava bêbada?
— Talvez.
Ele deu um olhar sugestivo.
— A questão não é essa, a questão é que...
— Você é uma manteiga derretida?
— Falou o cara que chorou com Marley & eu.
— Suponho que você nunca vá se esquecer disso — Ele resmungou.
— Suponho que não — Eu soltei um sorriso — Mas não precisa se envergonhar. É natural as pessoas chorarem independente de gênero, orientação sexual, etnia, credo ou religião.
Ele riu.
— Suponho que você já está bem agora?
— Você supôs certo.
— Certo. Vou preparar o jantar e sair daqui antes que você solte spoilers.
Eu assenti com a cabeça. Assim que ele chegou à porta, eu o chamei.
— O que?
E deixei saltar um spoiler que explodiu em seu rosto.
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