Clichê
4 Capítulo 4: Passeio Pela Escola
Notas iniciais
Dois meses depois:
Acordei sem a mínima vontade de ir para o colégio. Eu estava naquele inferno há dois meses e sinceramente não sei como havia aguentado até lá. Sozinha. Nas aulas de Educação Física eu pulava corda com Raiely, Estefânia e Bia e conversávamos minimamente, mas era só. Eu conversava com as minhas amigas antigas pelo telefone e por internet, mas não era a mesma coisa que pessoalmente. E que legal: Eu não era mais um enfeite de cenário. O pessoal da sala sabia meu nome, mas porque me consideravam inteligente. Já era alguma coisa, só não era o suficiente.
Desliguei o despertador morrendo de vontade de ficar dormindo ou morrer. Mas não fiz nada disso. Levantei praticamente me arrastando, tateei o criado mudo em busca dos óculos e fui tomar um banho pra ver se despertava. Depois coloquei uma calça jeans surrada (bastante surrada) e uma camiseta preta com o rosto de um urso na frente. Completei com uma sandália marrom, peguei a mochila e desci as escadas sem a mínima vontade.
Mamãe estava linda como sempre. Fico imaginando porque eu não peguei toda essa beleza e sou essa pessoa sem graça. Minha mãe era tão bonita que chegava a brilhar em frente aos meus olhos.
—Oi Lexi. –Ela sorriu daquele jeito que só ela consegue e eu me surpreendi. Há tempos eu não via aquele sorriso, aquele sorriso doce que emanava felicidade. Tive vontade de abraçá-la. Ela estava superando. Aquele inferno de escola valia a pena. Valia a pena tudo por ela.
—Bom dia mãe. Vamos?
—Vamos.
Corri para o carro com uma felicidade que me surpreendeu. Eu até enfrentaria aquele dia feliz. Porque minha mãe finalmente estava bem. E isso era música para meus ouvidos.
Cheguei ao colégio até com uma energia renovada. Coloquei a mochila no lugar de sempre, última carteira e tirei o celular para por uma música antes de o sinal tocar. Pus somente um fone pra ouvir quando o sinal tocasse e fechei os olhos viajando para o mundo que só a música podia me levar.
O sinal tocou e eu pulei da cadeira, tirei a música, enrolei o fone de ouvido, coloquei o celular no silencioso e guardei os dois na mochila isso em menos de um minuto.
Naiáde entrou na sala sorrindo e eu sabia a razão. Era dia de prova. Entenda, já era Junho. Em um bimestre ganhamos quatro notas que no fim são divididas por quatro e o resultado que der vai para o boletim, eles podiam dividir nas categorias que quisessem (como por exemplo prova/trabalho/comportamento/caderno ou prova/trabalho/trabalho/comportamento). A Naiáde sádica como era dividia em prova/prova/trabalho/trabalho. A primeira prova foi aquele teste surpresa no segundo bimestre que até aquele dia não sabíamos a nota. E a segunda seria naquele dia. Ou seja, estávamos todos tensos. Eu não estava diferente.
A prova (pela qual eu tinha estudado pra caramba) não estava tão difícil contanto que você lesse a questão duas vezes. Havia pegadinhas em todas as questões, era quase como um campo minado.
Fui à primeira á entregar novamente e ela me olhou com uma sobrancelha arqueada. Naiáde era minha professora favorita. Não só porque ela explicava maravilhosamente bem, mas também porque lançava desafios, á cada teste e trabalhos eram um desafio verdadeiro. Ela não pedia só que decorássemos a matéria, ela tentava trazer alguma utilidade. Naiáde fazia a gente pensar. E, para mim, isso era o mais importante de tudo.
Depois que ela recolheu a prova enquanto todo mundo ainda fazia, eu deitei a cabeça na mesa e fiquei viajando em um universo paralelo que era muito melhor do que o lugar onde eu estava.
O sinal tocou e metade da sala entrou em desespero, mas teve que entregar a prova incompleta ou no chutão mesmo. Naiáde saiu da sala com um sorriso, porque sabia que ia corrigir a maioria das provas todas em vermelho. Ela podia pelo menos satisfazer seu desejo sádico nisso. Eu a adorava, mas tinha que admitir que ela adorava ver o desespero e vontade de morrer dos alunos após os seus exames.
—Nossa que caras pessoal. –Paula, nossa professora de Inglês entrou na sala. –Me deixa adivinhar: Naiáde passou prova.
—Isso aí. –Alguém respondeu, não vi quem.
—Ai. –Paula fez uma careta. –Ainda bem que a minha prova já passou. Então meus lindos, vamos fazer umas atividades.
A sala toda entrou em muxoxo e até eu entrei nisso aí. No fim, não foi algo muito difícil e nem cansativo e a terceira aula que era de Biologia também não foi à coisa mais difícil do mundo. Junho estava no começo e só a Paula e agora a Naiáde tinham passado provas, os outros iriam esperar um pouco mais. Para o meu desespero. Eu preferia que fosse logo, para que eu pudesse sofrer tudo de uma vez.
Enfim o sinal para o intervalo tocou. Suspirei baixinho. Minhas mãos escorregaram pela lateral da minha cadeira, tateando os bolsos da minha mochila em busca daquele que continha o meu celular. Entretanto, antes que eu o alcançasse, uma moça parou em frente a minha mesa. Conhecia suas feições, era uma das garotas do grupo que eu classificara como "populares", era a que possuía o rosto em forma de coração.
—Oi Lexi. –Ela sorriu com dentes perfeitamente alinhados.–Meu nome é Tatiana, mas pode me chamar de Tati. Eu me liguei que você já está aqui há dois meses e ninguém te apresentou a escola, acho que deve estar nos achando muito mal educados. Vem, vamos dar uma volta comigo e com minha prima.
A prima dela era a garota de cabelos castanhos, longos e ondulados e de olhos azuis grandes. Duas primas parte dos populares, família abençoada. Estavam as duas, lado a lado, os olhos me olhando, demonstrando expectativa enquanto eu ainda estava absorvendo o acontecido.
—Oi. Eu sou Raquel. Desculpa a mancada da gente nunca ter te mostrado á escola antes. Juro que somos mais hospitaleiros que isso. Então... Vamos?
Achei aquilo muito estranho e... Surpreendente. Eu estava lá há dois meses e agora elas, logo elas, tinham dado á louca de simplesmente vir falar comigo. Mas... Bom, o que poderia acontecer? Que mal haveria?
—Vamos.
As duas sorriram juntas, com seus sorrisos iluminados, e lá fomos nós três sair da sala e descendo as escadas. Quando estávamos no térreo Tatiana começou á falar:
—Sala dos professores.
—Ah, então é ali que eles planejam as coisas maquiavélicas.
—É, por aí. –Raquel riu. –Diretoria. Reza a lenda que quem entra lá nunca mais sai.
—Lembre-me de nunca ir pra lá.
—Ali a quadra que você já conhece. –Tatiana indicou e eu fiz uma careta. Infelizmente eu conhecia. –Vamos lá pra fora.
Saímos da construção. Tinha gramados lindos e enormes onde à maioria dos alunos estavam, ou sentados, ou em pé, ou andando, mas todos em grupos ou pelo menos em dupla.
—Aqui é o gramado onde quase todo mundo fica. Ali em baixo é a biblioteca. Fica aberta desde o turno matutino até o noturno e a gente pode ficar lá depois da hora de ir embora contanto que não subamos para a escola. –Raquel era quem falava. –Eu vou lá de vez em quando, gosto de livros. Especialmente os de terror.
Sorri enquanto levantava uma sobrancelha:
—Então somos duas porque eu adoro livros. E adoro terror.
—Sério? Minha mãe vive ralhando comigo por que eu adoro tudo relacionado á terror. Principalmente vampiros. Eu fico assistindo filmes de vampiros e minha mãe detesta. Quando eu descobri The Vampire Diaries ela praticamente surtou.
—Não. Creio. –Meu sorriso se alargou. –Você gosta de The Vampire Diaries? Menina me abraça.
Ela riu:
—Sou fã de carteirinha.
—Delena ou Stelena?
—Delena é claro. O Damon é tipo, caramba, o Damon! Eu sou viciada nele.
—Então somos duas! Porque eu simplesmente adoro o Damon. O jeito malvado dele faz com que ele seja único. E também sou fã do Ian.
—DUAAAAAAS!
E então a conversa começou á girar em torno de The Vampire Diaries entre mim e Raquel. Parecíamos duas tagarelas, não parávamos de falar um segundo. Tatiana ás vezes falava uma coisa ou outra já que tinha sido ela que havia apresentado á série á prima, mas Raquel ficou viciada já a Tati havia desencantado rapidinho. Como alguém se desencanta com The Vampire Diaries? Não me pergunte.
Quando o sinal tocou eu e Raquel subimos as escadas conversando sem parar como duas tagarelas mais uma vez com Tatiana apenas falando uma coisa ou outra. Mas parou quando entramos na sala porque Raquel e Tatiana se sentavam lá na frente perto dos outros e eu me sentava no fundão então cada uma se dirigiu para o seu legítimo lugar.
As outras duas aulas foram de História. A maioria das pessoas poderiam achar aquela aula terrivelmente entediante, mas eu não. Sempre amei História.
A explicação durou uma aula completa e os populares ficaram conversando, baixinho, mas vi que eles estavam prestando atenção no que ela dizia. Daquele grupo as meninas eram muito inteligentes, depois de mim eram as mais inteligentes da sala então não tiravam nota baixa. Dos meninos o Patrício tirava nota baixa em uma matéria ou outra, mas conseguia recuperar na recuperação. Já o Leonardo, o menino gato nos primeiros capítulos, não se importava com a escola. Ele já estava naquela série há uns dois anos e não fazia a mínima questão de passar. Percebi em certo momento da conversinha que os rostos de lá olharam pra mim discretamente. Fiquei um pouco intrigada, mas provavelmente Raquel ou Tatiana estavam contando do nosso pequeno passeio no intervalo. Ainda não tinha entendido o que as duas quiseram com aquilo.
A segunda aula foram atividades que eu fiz e foi vistado. E logo o sinal de ir embora tocou. Guardei minhas coisas na mochila quase que correndo e já estava saindo da sala quando ouvi Raquel atrás de mim:
—Tchau Lexi. –Ela se despediu dando um tchauzinho e sorrindo. Meio confusa dei tchau e saí da sala. O dia não tinha sido tão ruim.
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