Clichê
3 Capítulo 3: Conversando Com Alguém
Notas iniciais
—Como foi à escola Lexi? –Mamãe me perguntou.
—Normal. –Respondi me concentrado na louça que estava lavando. Eu queria falar com alguém sobre o quanto eu me sentia deslocada, mas não com ela. Mamãe ainda estava se recuperando da separação e falar isso só iria deixar ela pior. Não queria que ela se sentisse mal em pensar que eu estava mal.
—Gostou dos professores?
—Da maioria.
—Que bom. –Ela abriu um sorriso e isso fez meu coração se expandir. Havia muito tempo que ela não abria aquele sorriso. E isso fazia a mudança valer completamente a pena.
Dei uma olhada no relógio. Oito horas da noite. Eu geralmente dormia de meia noite para cima então ainda me restava muito tempo do dia para aproveitar.
Coloquei a ultima louça para secar e suspirei. Era estranho estar em uma nova casa. Era estranho ter uma nova vida. Eu estranhava cada momento. Quer dizer, eu tinha me acostumado com a vida antiga. Com o meu pai e minha mãe juntos, com outra casa, com outra cidade. Mas eu sabia que em algum momento conseguiria me adaptar.
—Meu amor, vou dormir. –Mamãe parecia realmente cansada. Ela usava bastante maquiagem quase o tempo todo, mas quando tirava percebia-se as olheiras profundas e mesmo quando ela não usava dava para ver se prestasse atenção.
—Boa noite mamãe.
Ela subiu para o quarto e eu também. Fui para o meu quarto, sentei a computador e entrei na internet. Coloquei um episódio de Grimm para baixar e enquanto ele baixava resolvi ver se alguma das minhas amigas estava online, para eu poder conversar com alguém.
Gina e Luz estavam online. Gigi como chamo Gina era minha melhor amiga. Continuava sendo, na verdade. Era uma pessoa muito legal e adorava minhas poesias. Eu nunca levei muito á sério escrever, escrevi poesias para passar o tempo. Porém, ela dizia que eu tinha que virar poeta. Já a Luz também era uma amiga muito próxima. Extrovertida, verdadeira, louca, grossa, companheira, essa é Luz.
Gina: OIIIIIII!!! –Uma janela se abriu.
Lexi: Oi Gigi. Como você está?
Gina: Com saudade!
Lexi: Nem fala. Eu também estou com muita. Estou quase chorando.
Gina: Gostou do novo colégio?
Lexi: Não mesmo. Sinto falta de vocês.
Gina: E você acha que nós não? A Andréia tá quase surtando. Eu já surtei faz tempo.
Lexi: Eu também, mas é para o bem da minha mãe. E do meu também, sabe? Acho que a cidade antiga carrega lembranças muito ruins.
Gina: Entendo. Nas férias dá um jeito de vim para cá.
Lexi: Vou tentar. Quem sabe nas férias de Dezembro eu não passo com o meu pai?
Gina: Seria bom. E aí, fez algum amigo no primeiro dia de aula? Alguém que eu deva ficar com ciúmes?
Lexi: Nada.
Gina: Ufa! E aí, algum gatinho?
Lexi: Você é péssima... Mas sim, tem um que vale a pena ser citado.
Gina: Conte-me tudo não me esconda nada.
Lexi: Ah, estuda na minha sala e é só isso que sei dele.
Gina: E você fica aí parada? Descubra mais! Aproxima, custa nada.
Lexi: GINA!
Gina: Ah o que é?
Lexi: Custa sim, custa tudo!
Gina: Claro que não!
Lexi: Eu não teria a menor chance. Sabe que em quesito de beleza eu tiro zero.
Gina: E é só beleza que conta? Ah, fala sério Lexi! Você é meiga, inteligente, doce, alegre, extrovertida, companheira, conselheira e bonitinha.
Lexi: Agradeço. Mas e aí, como estão se virando sem mim?
Gina: Nada bem! Estamos sentindo sua falta. Até os professores. A professora Rosa não para de perguntar por você e falando que quer você de volta ou vai se mudar para a cidade onde você está e lecionar na sua nova escola.
Lexi: Exagerada como sempre.
Gina: Vamos morrer sem você!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! Eu to falando sério.
Lexi: Também vou morrer sem vocês. Ah, espera: A Luz quer falar comigo.
Gina: Eu tenho que sair mesmo. Beijos e até a próxima vez que eu entrar. Ai dói dizer tchau.
Lexi: Eu que o diga.
Gina: Mas tchau Lexi. Até mais tarde.
Lexi: Até,
Suspirei longamente antes de abrir a janela da Luz.
Luz: OIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII!
Lexi: Oi! Medo!
Luz: Ah, to animada para falar com você. Há tempos coloquei esse “oi” porque não me respondeu?
Lexi: Estava falando com a Gina.
Luz: Devo sentir ciúmes? Como você está?
Lexi: Triste em ficar longe de vocês. Hoje foi meu primeiro dia de aula na escola nova e eu estou sentindo muita falta de vocês.
Luz: Ah, não me faça chorar Lexi.
Lexi: Eu já estou chorando. Ah que saudade.
Luz: A gente vai acabar morrendo sem você! Volta!
Lexi: Eu te expliquei a situação Luz. Vim para cá, não tem mais volta.
Luz: Não rola vir morar com seu pai? Ah, é claro, a Fabiana tá morando com ele.
Lexi: Eu não seria desagradável quando visse a Fabiana, mas viver com ela já é outra coisa. Então, a gente só vai poder se falar por meio das redes sociais.
Luz: Ah agora que eu vou chorar mesmo. Como foi seu primeiro dia de aula?
Lexi: Péssimo. Você sabe que eu sou tímida.
Luz: Eu sei. E tem meninos GATOS na sua sala?
Lexi: Por que vocês sempre fazem essas perguntas?
Luz: Fala logo mulher.
Lexi: Tem. Um.
Luz: Que nível de gato? Gatinho, gato, gatão, gatasso...
Lexi: Ultima opção.
Luz: SORTUDA DO CARAMBA! Nome?
Lexi: Eu não sei.
Luz: COMO ASSIM NÃO SABE?
Lexi: Foi o meu primeiro dia Luz.
Luz: Descobre.
Lexi: E se eu descobrir, e aí?
Luz: CAI EM CIMA!
Lexi: Louca!
Luz: Eu sei. Sério, cai em cima.
Lexi: Claro que não.
Luz: Então pega o telefone dele e me dá.
Lexi: Kkkkkkkk.
Luz: Eu estou falando sério, de novo. O que está fazendo de bom?
Lexi: Baixando Grimm. E você?
Luz: Nadinha mesmo.
Lexi: Affs!
Luz: Não reclama.
Lexi: Ah, já terminei de baixar. Vou ver. Bye.
Luz: Ah, então tá. Troca eu por série mesmo, vai lá.
Lexi: Dramáticaaaaaa.
Abri o episódio de Grimm. Quando cheguei quase no fim, quase dei um pulo para trás. Monroe e Rosalee se beijando! FINALMENTE! Pensei que esse momento nunca chegaria. Bem, eu sou “Monsalee” assumida, então quase surtei. Fiquei vendo e revendo a cena. Depois vi mais dois episódios e quando já estava ficando cansada tomei um banho, coloquei uma camisola e fui dormir.
O despertador tocou, no dia seguinte, fazendo com que eu afundasse a cabeça no travesseiro e sentisse vontade de morrer.
—Lexi! Desliga esse despertador! –Era a voz da minha mãe. Senti vontade de sair correndo para qualquer lugar que não fosse aquele colégio. Pelo menos o primeiro dia já tinha passado.
Desliguei o despertador totalmente á contragosto, fiz minha higiene matinal e fui tomar um banho. Coloquei uma saia bege, larga e ia até os joelhos. Junto a ela foi uma blusa branca e um suéter igualmente bege largo também. Prendi o cabelo em rabo de cavalo, peguei minha mochila e corri para baixo, descendo as escadas feito maluca.
Esperei minha mãe. Ela estava linda como sempre. Parecia não fazer nenhum esforço para isso, como pode?
Entrei no carro em silencio. Quando cheguei ao colégio eu senti vontade de correr para as montanhas. Suspirei.
—Tenha um bom dia Lexi.
—Igualmente mãe.
E desci do carro. Encarei o portão. Andei rapidamente até a minha sala, coisa e tal. Sentei na minha cadeira e comecei a pensar na vida. No que eu deixei pra trás na minha antiga cidade. Ah quer saber? Chega de melancolia! Bola para frente.
O professor entrou na sala. Era alto, musculoso, tinha bigodes cheios e cabeça raspada:
—Aluna nova?
—Sim.
—Qual é o seu nome?
—Lexi.
—Muito bem Lexi, sou Lucano, mas agradeceria se me chamasse de professor Lucas.
— Chamo sim. Também gosto mais do meu apelido do que do meu nome.
—Imaginei que Lexi fosse apelido. Sou professor de Educação Física.
—Ah, um professor que parece tão legal dar essa matéria?!
—Não gosta?
—Sinceramente?
—Sim.
—Não. Diz que hoje não é aula prática.
—Sinto muito, mas é.
—Ah isso é sacanagem. E eu já estava começando a gostar desse colégio.
Ele se abriu em gargalhada e depois pediu para todos nós sairmos da sala em direção a quadra que era no pátio do colégio.
Foi quando senti uma mão em meu ombro. Era Bia:
—Lexi, quer se juntar à gente?
—Ah, oi Bia. Como assim?
—Bem, como você eu e as duas meninas aqui não nos damos muito bem em Educação Física.
—Sou Raiely. –A menina de cabelos castanhos claros se apresentou. –E ela é Estefânia. Então, pulamos corda. Melhor do que pagar mico tentando futebol ou vôlei.
—Estou com vocês. –Disse eu sorrindo. –Só sei que se eu jogar vôlei vai ser o mico do ano.
Elas riram e fomos em direção ao pátio. O pátio era coberto, tinha um campo de futebol, um pouco mais distante uma rede de vôlei e perto da parede tinha um espaço vazio que eu julguei ser onde as garotas pulavam corda. Tinha também um cesto com várias bolas e uma corda dentro.
—O alongamento é obrigatório. –Bia explicou. –E só quando ele libera a gente pode pegar os instrumentos.
Assenti com a cabeça enquanto começava os alongamentos. Odiava me alongar, eu nunca sabia direito como fazer, mas imitei as outras pessoas e acho que acabei fazendo certo ou o mais perto disso.
—Podem pegar os instrumentos e começar. –O professor anunciou e todos correram para o cesto. Os garotos populares pegaram a bola de vôlei e com mais algumas pessoas foram em direção á rede. O resto dos meninos pegou a bola de futebol e nós pegamos a corda.
Peguei um lado, a Raiely pegou no outro e fomos para o espaço vazio. Bia pulou e fiquei assim a aula toda hora alternando entre bater e pular a corda, mas enfim aquela bendita aula acabou. Praticamente corri para a sala de aula e me sentei.
A professora que entrou era baixinha, cabelos castanhos amarrados num rabo de galo, óculos discretos.
—Boa tarde pessoal.
E deu a aula normalmente. Professora de Gramática, Naiáde e eu a adorei porque passou um teste naquele dia. Teste surpresa pra deixar claro então eu também não foi à única que fui pega de surpresa. E essa foi a parte boa. A maioria das coisas que caiu eu já sabia então não foi à coisa mais difícil do mundo. Fui a primeira a entregar e passei o resto da aula imersa em pensamentos. E quando o sinal tocou várias pessoas ainda faziam o teste e tiveram que entregar pela metade mesmo.
Na aula seguinte uma professora entrou. Era alta, de corpo escultural, longos cabelos negros que deslizavam livremente até sua cintura e olhos verdes escuros, como duas esmeraldas brilhantes. A matéria que ela lecionava era Inglês.
A aula foi suave. Ela não deu nenhuma matéria muito brusca. E eu entendia, era apenas a primeira aula. A explicação dela era boa, era fácil compreender o que ela dizia. Mas eu não tirava conclusões apenas sobre uma primeira aula. Sabia que só poderia criar opinião depois de convivência com o professor.
O maldito sinal tocou. Intervalo. Pior hora do dia, pelo menos pra mim. Pelo menos tinha levado o celular e dava para ouvir umas músicas para passar o tempo. Peguei o celular e pus o fone de ouvido colocando pra tocar.
As outras duas aulas foram de Literatura, matéria que eu amo, diga-se de passagem, então foram ótimas pra mim. Mas quando o sinal tocou, eu nunca me senti tão feliz. Peguei minha mochila e o mais rapidamente que podia saí da sala. No corredor eu vi o mural com as atividades extracurriculares que com certeza já estavam cheias. Dei uma passada de olho nelas. Tinha dança que eu não entraria nunca. Teatro. Esse eu participava na outra escola, mas infelizmente estava cheio. Debate. Eu também adoraria participar, mas tudo estava cheio. Ótimo, a única coisa boa do colégio eram as atividades extracurriculares e como eu havia entrado no segundo bimestre tudo já estava lotado. Ou seja, eu não teria nada para me deixar feliz naquele lugar. Seria um longo ano.
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