Clichê
20 Capítulo 20: Farsas Ao Chão
Notas iniciais
Desci as escadas correndo com o envelope em mãos. Paro na sala de estar onde todo mundo me olhava devido ao barulho que fiz descendo as escadas. Caleb praticamente voou para o meu lado quando viu meus olhos marejados e as primeiras lágrimas escorrendo. Os outros todos estacaram a ver o envelope que estava na minha mão, parece que a respiração deles foram suspensas o que só confirmava tudo.
–Lexye o que foi? –Meu melhor amigo perguntou e eu entreguei o envelope á ele.
Enquanto ele lia Raquel foi a primeira a se levantar, sendo seguida por Leonardo como se finalmente tivesse caído a ficha.
–Lexi... –Ela começou, pela primeira vez sem saber o que fazer. –Eu... Quem diabos te deu esse envelope?
–E isso importa? –Perguntei tentando inutilmente limpar as lágrimas que escorriam em abundância pelos meus olhos. –O que importa é o que estava escrito nele. Eu simplesmente não consigo acreditar que foram capazes de fazer isso comigo.
–Lexi... –Dessa vez Leonardo falou e só de ouvir a voz dele eu quis morrer. Na verdade, quis matar ele.
Caleb deixou o envelope no chão e partiu pra cima de Leonardo. Teria conseguido chegar ao moreno se eu não tivesse agido rapidamente, me pondo na frente do meu melhor amigo. Ele tinha os punhos cerrados e estava tremendo de ódio:
–Eu acreditei em você! –Caleb falou para Leo enquanto eu segurava seus ombros. –Acreditei no que me disse sobre ela. Como você pôde? Como vocês todos puderam? –Ele avançou, mas eu o segurei novamente.
–Não vou te deixar fazer isso. Ele não merece nem isso de você. E eu prometi para a mãe de cada um aqui que manteria tudo sobre controle. –Segurei a mão dele com cuidado e gentilmente. –Caleb, vamos lá pra cima. Eu direi a minha mãe que não estou me sentindo bem e pedirei para vir me buscar.
–Não! –Raquel praticamente gritou olhando pra mim. –Lexi, nos dê uma chance de explicar tudo isso. Por favor.
–Ruiva... Por favor. –Leonardo estava implorando pelo olhar.
–Não! Quem vai falar agora sou eu! –Falei limpando as lágrimas do meu rosto com raiva e encarando cada um ali. Á esse ponto Tatiana já tinha discretamente se juntado aos demais. –Eu sabia que tinha algo de errado quando vocês duas apareceram pra falar comigo. Eu sabia! –Lágrimas se acumularam nos meus olhos. –Mas minhas amigas de outra cidade me convenceram que não era nada. Vocês me convenceram que não era nada. Eu confiei em cada um de vocês com a minha vida, eu me doei completamente. Eu os considerei da minha família. Eu entreguei tudo. Entreguei integridade, segredos, tempo, primeiras experiência... –Olhei para Leonardo diretamente nos olhos dele. –Eu cheguei á entregar meu coração. –Meus olhos voltaram a lacrimejar. –Tudo numa bandeja de prata. E no fim é isso? Tudo fingimento? Por uma aposta ridícula? Uma dança, é esse o meu valor? Sinceramente, eu esperei bem mais de vocês.
Dizendo isso eu me virei e saí correndo para o quarto que estava naquela casa. Tranquei a porta, abracei meu travesseiro e comecei á chorar. Logo começaram á bater furiosamente na porta, mas eu coloquei o travesseiro nos ouvidos e continuei á chorar, com um buraco enorme no meu peito. A traição doía muito, eu observei. Nunca pensei que estaria numa situação como aquelas, mas pelo visto eu estava enganada.
Não liguei para minha mãe imediatamente porque minha voz estava embargada pelo choro e não queria que ela percebesse isso. Mas eu não via fim para as lágrimas. Estava doendo demais. Eu queria gritar, explodir. Parecia ácido que corroia por dentro sem dó ou pena. Tudo fingimento. Cada risada, cada palavra, cada beijo...
Ouvi duas batidas na porta e ignorei como estava ignorando todas as outras. Não queria ouvir a voz de mais ninguém daquele maldito grupo que eu tinha me envolvido.
–Lexye, sou eu, Caleb.
Praticamente me arrastei da cama até a porta e a abri. Puxei Caleb para dentro e voltei a trancar a mesma. E quando meu amigo me abraçou eu simplesmente caí em seus braços, voltando a chorar compulsivamente contra o seu peito.
–Eu não consigo acreditar. –Murmuro entre soluços. –Eu simplesmente não consigo acreditar. Que tudo isso foi fingimento. Como eu não percebi? Como não percebemos Cal?
–Eu também não sei. –Ele me guiou até a cama onde eu me sentei olhando pra ele. –Até eu acabei sendo enganado por esse grupo. Nunca imaginaria... Até do Leonardo eu tinha parado de desconfiar nessa manhã de hoje e agora...
–Não consigo parar de chorar. Está doendo Cal. Era tudo mentira. –Despejo-me em seus braços novamente. –Tudo o que eu consegui desde que cheguei aqui, era uma maldita atuação. Isso dói como o inferno.
–Eu sei. –Ele beijou meus cabelos. –Está doendo em mim também. Você... Eu não consegui ver. Assim como você, eu não consegui ver. E não consegui impedir que isso fosse descoberto assim. E que não fosse descoberto agora, quando tanta coisa já foi entregue.
–Quero ir embora. Não quero nem pensar que estou sobre o mesmo teto que eles.
Peguei meu celular e disquei o numero da minha mãe.
~X~
Minha mãe não fez perguntas no caminho. Quando ela chegou, me encontrou com cara de choro, assim como Raquel. Não olhei pra trás e entrei no carro junto com Caleb. Enquanto eu estava com o rosto encostado na janela, Caleb explicou que eu havia terminado com o Leonardo. Não era mentira, depois daquele dia tudo estava terminado com o Leonardo.
Aquela cena do balanço não parava de se repetir na minha mente durante o silencioso caminho. Eu só tentava entender como ele conseguia fingir tão bem, sem nenhum tipo de remorso. Será que eu chegava a significar tão pouco assim pra eles? Será que era isso? Eles desistiriam dessa aposta e me deixariam como uma mancha negra no passado?
E como seria a minha vida á partir de agora? Tudo que eu pensara conseguir durante esse tempo todo estava acabado e para trás. Na verdade, nunca tinha existido. Como eu conseguiria seguir em frente e como eu faria isso? Não dava para imaginar o que faria dali pra frente.
Passei o feriado assim. Falei com a Luz por Messenger e expliquei tudo o que aconteceu. Ela ficou tão estupefata quanto eu e com tanta raiva quanto Caleb. Passei boa parte do feriado no quarto. Vez ou outra eu me pegava chorando ou gritando contra o travesseiro. Nem se eu quisesse conseguiria fazer coisas como cantar, escrever ou ler. Caleb me ligava bastante, pelo menos cinco vezes por dia. Conversávamos por horas e ás vezes eu acaba chorando ao telefone. Algumas vezes nós conversávamos tanto pela madrugada que eu adormecia ao telefone.
Quando segunda feira deu, eu acordei com uma força que não entendi. Tudo que eu sabia é que jamais daria á eles o gostinho deles me verem pra baixo por causa daquele grupinho metido. Eu mostraria que se foi algo que eu querendo ou não aprendi com eles é que eu tinha que levantar a cabeça, caso contrário minha coroa cairia.
Tomei um banho bem demorado e vesti uma blusa de um ombro caído, mangas longas vermelha, um short preto, meias longas negras e bota da mesma cor com um pequeno salto. Trancei meus cabelos ruivos de lado, coloquei um colar e um anel discretos e fiz uma maquiagem bem leve. Quando peguei a mochila nem parecia que eu tinha passado boa parte do meu feriado chorando e amuada num canto.
Fui para o carro da minha mãe com um sorriso no rosto. Claro que doía, mas ninguém precisava saber. Era hora de me reerguer e criar o meu caminho para seguir.
–Então... Que mudança espetacular. –Minha mãe falou com um sorriso gigante a me ver.
–A gente aprende a superar não é? –Perguntei aumentando o sorriso. E olhando pra minha mãe, percebi que era uma grande verdade. Ela estava sorrindo sempre, com um brilho contagiante, muito diferente de quando chegamos. Se ela tinha superado meu pai, porque eu não conseguiria superar um grupo? Por que eu não conseguiria superar Leonardo?
–É. É verdade. –Ela respondeu e começou á dirigir.
Logo estávamos parados em frente ao meu colégio. Suspirei a beijei no rosto deixando marca de gloss em sua bochecha e desci. Diretamente para a minha sala. Quase segui para o meu lugar convencional, mas depois me lembrei que não era mais ali meu lugar. Então fui para a primeira carteira da fila da parede e coloquei minha mochila ali.
Caleb chegou logo depois e colocou a mochila na carteira atrás de mim. Depois estendeu a mão e eu entendi. Aceitei a mão e me levantei:
–Uou. Entendi o que queria dizer com “dar a volta por cima”. –Ele sorriu. –Está bem mesmo.
–Estou me recuperando. Já deixei pra trás o que deveria deixar.
–Então não olhe agora para a porta.
Obviamente eu olhei. Era o grupo dos populares. Todos eles passaram me olhando e eu ergui a postura, levantei o queixo. Virei o rosto e voltei á me sentar como se nunca tivesse conhecido ninguém dali.
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