Clichê
2 Capítulo 2: O Primeiro Dia
Notas iniciais
Entrei pelo portão e logo após no enorme prédio. Por dentro também era um local bonito, o piso era xadrez, branco e preto, o lugar bem limpo e, bem, não era muito diferente do meu antigo colégio.
Subi as escadas e fui para o segundo andar. Nada de minha sala. Fui para o terceiro e lá a encontrei. A porta de madeira com uma plaquinha escrito Segundo ano A. Três lances de escadas para encontrar aquele lugar.
Dei mais um longo suspiro, meti a mão na maçaneta e entrei. Não tinha muita gente ainda, o sinal não havia tocado. Havia uma menina de cabelos castanhos claros presos com uma piranha, rosto triangular, olhos cor de jabuticaba no fundo da sala, rosto abaixado e pensativo. Na outra fila ao lado desta, tinha outra menina de pele escura, cabelos escuros, crespos e presos num rabo de cavalo. Lábios grandes e olhos da cor do cabelo. Ambas pareciam não ter encontrado seu lugar naquela sala, já que as outras poucas pessoas que estavam na sala, estavam conversando. Todos ali olharam para mim com algum interesse e depois voltaram para os seus afazeres, seja lá o que estavam fazendo.
Fui até a ultima carteira, da fila que era do lado da parede direita, perto da menina de rosto abaixado e pensativo. E também perto da outra. Eu me sentia um pouco mais confortável perto de pessoas que, assim como eu, não estavam conversando e nem estavam em uma rodinha de amigos.
Vi a porta se abrir e entrou uma menina que como eu e as outras duas outras garotas que lhe falei, não parecia ser amiga e nem colega de ninguém. Tinha cabelos negros e encaracolados, presos num rabo de cavalo. Pálida, olhos pequenos e da cor dos cabelos. Sentou-se na minha frente e ficou fazendo a mesma coisa que eu, ou seja, nada.
E então, de repente, o sinal tocou. Era estridente e longo, fazendo minha cabeça latejar e minhas têmporas doerem.
Mais uma vez a porta se abriu e eu vi um grupinho de pessoas que pareciam ser “os populares”. Revirei os olhos. Para todo colégio que a gente vai, sempre tem esse grupinho. Os integrantes dele sempre se acham o máximo e são todos pomposos. Sempre são garotas bonitas e meninos bonitos. Ter beleza é o primeiro requisito para entrar nesse grupo. Tá explicado porque eu nunca entrei.
Nesse grupinho tinha uma menina de cabelos longos, ondulados, castanhos claros, soltos livremente e esvoaçantes, com grandes olhos azuis que pareciam brilhar. Ao lado dela estava outra de cabelos loiros também ondulados e longos, maçãs do rosto rosadas e olhos também azuis, embora não tão profundos e grandes quanto da outra. Com os braços entrelaçados, outra garota, dessa vez com cabelos médios, negros com as pontas enroladas quase de maneira artesanal. Os olhos eram cor de jabuticaba e o rosto em formato de coração. Usava brincos de argola e ria sem se conter. Havia também outra menina, de cabelos longos e lisos, olhos ligeiramente puxados e lábios um pouco cheios. E tinha um único menino , alto, cabelos negros, rindo também. Para minha surpresa, foi esse que se sentou ao meu lado.
—Você é a Alexia? –Ele me perguntou com um olhar de curiosidade que me intrigou. Afinal, como ele sabia o meu nome?
—Prefiro que me chame de Lexi. Como sabe?
—Eu sempre sei quando vai chegar uma aluna nova. Você não parece ser daqui.
—Vim de outra cidade.
—Qual?
Eu já ia responder quando a professora entrou na sala. Rosto redondo, baixinha, cabelos claros. Assim que me viu, deu um sorriso que parecia ter a intenção de ser aconchegante, embora não acabasse cumprindo o objetivo.
—Nova aluna?
—Sim. –Respondi quase gaguejando, mas tentando controlar a voz.
—Qual é o seu nome?
—Lexi. –Não desmaiei, já é uma vitória.
—Lexi?
—Alexia, mas todos me chamam de Lexi.
—Entendo Alexia.
Revirei os olhos e bufei. A professora riu divertida:
—Meu nome é Eliane, professora de Aritmética. Seja bem vinda.
—Obrigada.
O garoto, aquele do grupinho popular virou-se para mim de novo, agora sussurrando:
—Liga não. Ela implica com os novatos, Lexi.
—Que engraçado, você sabe meu nome e eu não sei o seu.
—Patrício. Muito prazer.
—O prazer é meu.
Eu sabia que ele não estava falando sério, com esse negócio de “muito prazer”. Ele sabia o meu nome, deve ter lido minha ficha então viu meus recursos “nerds”. Então queria se aproveitar deles. Parece muita presunçoso da minha parte, mas a verdade é que sei quando uma pessoa quer se aproximar de maneira despretensiosa e, eu conseguia ver, não era o caso.
A aula da Eliane não foi muito difícil, acho que pegou leve por ser a primeira aula. Assim que o sinal tocou e ela saiu, fiquei na expectativa para o próximo professor. O próximo professor por acaso se chamava Dorian. Baixinho, gordinho e usava óculos. E parecia que todos o detestavam. Ele nem deu por minha presença, não se apresentou, nem nada. Apenas deu a aula dele normalmente. Não o achei muito ruim. Em algum momento da aula dele Patrício murmurou um “odeio esse cara” para mim. Na terceira aula entrou outra professora, Kelly. Parecia ter certa idade, meio corcunda.
Ela entrou observando ao redor. Seus olhos brilhavam em reconhecimento por cada rosto que passava, até que parou sobre mim:
—Nome?
—Lexi.
—Lexi, Lexi... Lexi?
—Alexia. Mas prefiro que me chamem de Lexi.
—Ah, entendi.
Por que todos achavam que Lexi não podia ser um nome?
A aula dela foi ótima! Kelly lecionava História, minha matéria favorita. Foi como um porto seguro ter uma matéria que eu gostava, algo para me distrair em um dia que eu considerava tão difícil e complicado quanto o primeiro dia. De forma que, quando o sinal tocou, eu nem queria que tivesse tocado.
A Kelly saiu e todo mundo começou a se reunir em grupinhos. Deduzi que aquele só podia ser o horário do intervalo. A hora que eu mais temia. É sempre horrível quando se é a aluna novata. Todo mundo se reúne, em suas antigas panelinhas. Com exceção dos novatos que ficam ali, a ver navios.
Observei os grupinhos saírem. Primeiro foram os populares. Minha tese que o Patrício não estava sendo sincero foi comprovada... Se estivesse, teria me convidado para conhecer seus amigos. Depois saíram da sala os que pareciam ser os arruaceiros, uns quatro garotos agitados. Por fim, saíram duas meninas conversando animadamente.
Na sala sobramos eu e aquelas três meninas que eu falei no começo. As que pareciam não ter se encaixado ainda.
Eu sempre fui tímida, mas era com aquelas garotas que eu tinha mais chance de amizade então era hora de eu tomar uma posição.
Fui até a garota de pele escura e cabelos negros.
—Oi. –Falei sem pensar. Bom, “Oi” sempre foi o melhor jeito de se começar uma conversa.
—Olá.
—Sou Lexi. E você?
—Bia.
Ah, essa garota não estava cooperando. Dava respostas curtas e vazias.
—Bia, será que você poderia me passar suas anotações do bimestre passado?
—Claro. Pode pegar. –Ela me estendeu o caderno.
—Obrigada. Foi um prazer conhecê-la.
Peguei o caderno, sentei na minha carteira e comecei a copiar, mas perdi o foco rapidamente. Torci para o intervalo acabar logo, mas parecia que o tempo não passava. Era horrível isso. Quando você quer que o intervalo não termine rápido, ele passa voando e quando você quer que ele termine logo, o tempo não passa.
Quando o sinal tocou, eu só consegui respirar aliviada comigo mesma.
Todo mundo voltou do intervalo como se fossem os manda chuvas do pedaço. Rolei os olhos com vontade de rir. Os populares estavam em bando, um garoto novo estava com eles, eu ainda não tinha o visto. E ele era tão bonito que fez com que eu ficasse constrangida. Moreno, cabelos arrepiados, olhar sedutor e lindos olhos castanhos. Falou alguma coisa para a menina de rosto em forma de coração que a fez dar um risinho.
Uma professora entrou. Baixinha, de pele escura, cabelos castanhos e grávida. Bateu o olho em mim e sem olhar diretamente no meu rosto perguntou:
—Nova?
—Sim.
—Seu nome?
—Lexi... Alexia, mas prefiro que me chame de Lexi.
—Tudo bem.
Era a professora de Geografia, eu descobri. Geografia Física, infelizmente. Adoro Geografia, mas a parte política e econômica. A parte física sempre me deu mais trabalho.
As últimas aulas foram dela e acabaram logo pela graça de Deus. Mamãe não iria me buscar, então recolhi minhas coisas rapidamente e saí o mais rápido que podia da escola.
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