Clichê
16 Capítulo 16: Radioctive
Notas iniciais
Quando o despertador tocou avisando que era hora de ir para o colégio, eu senti vontade de morrer. Não queria, nem um pouco, encarar o Leonardo. E eu não queria que o resto do grupo soubesse o que aconteceu, o que seria um pouco difícil porque se o dia acontecesse como eu planejava, o clima seria bem tenso.
Levantei e tomei um banho. Coloquei uma blusa de alças vermelha com preta, um short jeans, uma bota de salto sem cano, uma jaqueta preta. Terminei com uma pulseira simples e um colar de coruja. Minhas unhas já estavam pintadas então nem esquentei com elas. Estava bom. Eu tinha lavado a jaqueta dele e agora ela estava dobrada dentro da minha mochila. Peguei minha mochila e desci as escadas.
–Uau mocinha, você está á cada dia mais linda. –Minha mãe disse com um sorriso enquanto nós duas entrávamos no carro. –Isso é pra alguém em especial?
–Talvez. –Mordi o lábio inferior e dei um sorriso doce.
–Hum. –Ela riu e então começou á dirigir. Quando me deixou na escola meu coração falhou uma batida, mas de qualquer forma eu não me acovardei. Beijei minha mãe no rosto e saí do carro, indo decidida em direção á sala de aula.
Quando entrei, apenas Caleb tinha chegado o que me fez suspirar de alívio:
–Cal. –Cumprimentei enquanto me sentava.
–Olá Lexye. –Ele me deu um sorriso que me pareceu um tanto forçado, mas deixei quieto. –Como está?
–Confusa, mas ignore isso como eu estou fazendo.
–Como isso foi acontecer? Como você se apaixonou pelo Leonardo? Logo pelo Leonardo?
–Eu não sei. Simplesmente aconteceu. E quando ele me beijou... Meu Deus, porque ele fez isso? Agora estou milhões de vezes mais confusa. Mas tudo bem, acho que se eu conseguir enfrentar as coisas hoje, tudo voltará ao normal ou o mais próximo disso.
–Você está apaixonada e infelizmente isso demora á sair. Falo por experiência própria.
–Você? Apaixonado?
–Sim, problema?
–Por quem?
–Ai Lexi, faz tempo já. Não precisa se preocupar com isso. Agora por favor, seja forte porque ele está entrando.
Olhei para a porta e arquejei. Caleb colocou a mão no meu ombro como um gesto que dizia “Seja corajosa”, como o lema da Audácia e eu respirei fundo. Olhei para o meu amigo agradecida enquanto Leonardo se encaminhava calmamente para a carteira que era perto da minha. Dizendo á mim mesma que me acalmasse, abri a mochila lentamente e tirei a jaqueta dele. Tirei a roupa de lá e a apertei contra mim levemente antes de ir até a carteira de Leonardo. Estendi-a:
–Obrigada. –Minha voz saiu quase um fio e eu me repreendi por isso. –Ajudou na chuva.
Ele me abriu um sorriso lindo e pegou a jaqueta colocando as mãos por cima das minhas. Eu as tirei como se tivesse levado um choque e ele pelo visto percebeu o quanto minhas mãos estavam geladas. Controlei meu corpo para não corar e quase corri para a minha carteira. Caleb que se sentava á minha frente, olhou pra mim e eu escondi meu rosto no ombro dele:
–Eu fui um desastre. –Gemi baixinho e meu amigo riu.
–Não achei. Mas a coisa com as mãos te entregou completamente. De qualquer forma, ele está olhando pra cá.
Choraminguei e escondi ainda mais o meu rosto no ombro do meu amigo, até sentir que Leonardo tinha desviado o olhar. Só assim eu me sentei direito e então as meninas chegaram. A maioria delas estava na maior animação como se nada tivesse acontecido, mas Raquel trocou um olhar cúmplice comigo e com Caleb e eu quase fiquei vermelha. Quase.
~X~
Eu e Raquel demos um jeito de dar um perdido no grupo na hora do recreio e fomos andar pelo colégio de braços dados.
–Você deve estar numa confusão incrível. –Raquel começou e eu choraminguei.
–Nem me fale. Não consigo olhar Leonardo nos olhos. Caleb está prestes á fuzilar ele, estou sentindo isso e eles estão lançando olhares raivosos um para o outro. As meninas estão começando á acontecer que algo está havendo e tudo que eu consigo pensar é em como eu me apaixonei pelo Leonardo.
–Se quer saber, acho que nada daria mais tão certo. Uma vez, nas férias, você me disse uma frase que eu nunca esqueci. “Não são os opostos que se atraem, mas sim as diferenças que se completam. Porque quebra cabeças não se completam com peças iguais.” Bem, estou usando sua própria frase contra você. Entenda, você é a garota certinha, a santinha, recatada, inocente e ele é completamente o contrário. Você precisa dele pra ele te soltar um pouco e ele precisa de você, pra você prender ele um pouco.
–Raquel, não tem nem chances. Cara olha pra nós. Leonardo nunca se prendeu á ninguém, porque comigo, logo comigo, ele iria querer alguma coisa? Não... Não acredito que fui tão burra á ponto de me apaixonar por alguém como ele.
–A gente te mudou, mas a sua insegurança continua a mesma. Eu vou te dizer por que ele se prenderia á você. Porque você é diferente de tudo que ele já viu. Porque ele teve que ralar por você e não foi pouco. Mas já disse pra deixar rolar. Mudando de assunto, qual foi à reação de Caleb?
–Ele ficou com um pouco de raiva do Leo e ainda está como você percebeu pelos olhares, mas ele me surpreendeu me deu até alguns conselhos.
–Aqueles olhares raivosos têm nome. Ciúmes.
–Você e seus nomes pra tudo.
–Eu estava certa sobre TSR.
–E vai jogar isso na minha cara para o resto da minha vida, estou certa?
–Não é todo dia que se acertar algo que Alexia Rockwell errou.
~X~
Quando o sinal tocou, eu agradeci á Deus e quase saí correndo da sala. Eu tinha sobrevivido á aquele dia, mesmo com a tensão entre mim e Leonardo e entre ele e Caleb. Agora tudo o que eu queria era chegar em casa e curtir minha fossa em paz.
Na minha casa eu fiquei inquieta. Saber que eu estava apaixonada e tinha sido só mais uma na lista do cara que eu gostava, me deixou louca. E o pior era não poder falar nada, ficar com aquilo guardado. Estava literalmente me sufocando, eu precisava colocar pra fora. E o melhor jeito que eu conhecia pra fazer isso era cantando. Mas sei lá, parecia que as quatro paredes dos cômodos da minha casa também ajudavam no trabalho de me prender então eu precisava sair de lá. De modo que eu nem troquei de roupa da escola, apenas almocei, escovei os dentes, dei um jeito na minha casa, peguei meu violão e saí.
Fui para o parque onde eu dava aula para Leonardo. Era segunda feira então graças ao bom Deus a gente não tinha aula, mas eu precisava de algo que me lembrasse ele e o cenário me ajudou. Sentei num balanço que tinha num cantinho lá e comecei á tocar e cantar Radioctive do Imagine Dragons.
“'m waking up to ash and dust
I wipe my brow and I sweat my rust
I'm breathing in the chemicals
I'm breaking in, and shaping up
Then checking out on the prison bus
This is it, the apocalypse, whoa “
“I'm waking up,
I feel it in my bones Enough to make my systems blow
Welcome to the new age, to the new age
Welcome to the new age, to the new age
Whoa, whoa, I'm radioactive, radioactive
Whoa, whoa, I'm radioactive, radioactive “
Parei ao ouvir uma voz cantando comigo. Olhei para trás apenas para quase cair dura ao ver Leonardo atrás do balanço, me olhando com um sorriso de canto de boca:
–Não queria te interromper. –Ele continuava sorrindo daquele jeito lindo. –Eu... Sei lá, achei que viria pra cá.
–Por quê?
–Não sei. Talvez porque te lembra á mim?
–Convencido. –Repare, eu não disse que era mentira. Revirei os olhos tentando ignorar aquela presença que mexia demais comigo.
Voltei á olhar para o meu violão, sem tocar, mas também se me virar para olhar pra ele. Estava prestes á levantar e ir embora quando ele falou:
–Você poderia, por favor, me olhar nos olhos?
Respirei fundo, deixei meu violão apoiado numa árvore e me levantei lentamente, indo até ele e erguendo meu olhar para encarar aqueles belos olhos castanhos que pareciam analisar minha alma. Fiquei muito tentada á desviar, mas Leonardo havia pedido “por favor” e não era todo dia que aquilo acontecia.
–O que foi Leonardo?
–Você andou me evitando o dia todo. Essa é a primeira vez que me olha nos olhos. Caleb está querendo me matar e essa é a melhor parte. Lexi... Quer me falar alguma coisa?
–Quer saber a verdade? Eu prometi á mim mesma que o meu primeiro beijo seria especial, com alguém especial e que... Eu passei a minha vida inteira me guardando, entende isso? Uma vida inteira. E então, eu descubro que para o cara que me beijou, eu sou só mais uma. E eu odeio isso Leonardo, odeio ser só mais uma.
Então ele começou á rir e eu quis muito bater nele. Revirei os olhos e já ia me virar para pegar meu violão, quando ele me impediu me segurando pela cintura, com um sorriso de canto de boca:
–Eu não acredito nisso. Você realmente acha que é só mais uma pra mim? Garota, você é Alexia Rockwell. Você é incrivelmente diferente de tudo que eu já conheci você é linda, inteligente, é teimosa pra caramba, você é simplesmente você e é tudo que eu poderia desejar. Você nunca seria só mais uma. Você é a única. E atualmente, é a única que eu quero. –E então ele segurou meu beijo e me beijou.
Diferente daquele outro, esse foi bem mais calmo e doce. Ele não pediu passagem, deixou com que eu me abrisse se quisesse, e eu me abri. Foi tão bom ou até melhor que o outro, mais de um jeito diferente. Exploramos com cuidado o interior da boca de cada um e quando o ar se fez falta, ele terminou com um selinho.
–O que isso significa? –Perguntei quase num sussurro.
–Um pedido. –Ele continuava me segurando pela cintura, mas agora mexia com cuidado nos meus cabelos. –Namora comigo?
Olhei pra ele como se não acreditasse e ele me olhou como se dissesse “Isso é sério. Por favor, me responda.” O que aconteceu depois era inevitável. Eu o puxei e o beijei. No meio do beijo nós dois sorrimos e voltamos á nos beijar. Como os outros reagiriam á aquilo? Eu não sabia. Eu só sabia que nunca estive tão feliz.
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