Clerigum
3 Êxodo
Notas iniciais
Ela só acordou por que sentiu algo incômodo nas costas. Quando virou para o lado, percebeu que era um banco de passageiro. Foi quando levantou e esticou os braços. Estava com um curativo no ombro e descalça. O episódio do dia anterior a deixou com algumas dores, mas ela também se sentia revigorada, como se um novo sopro de energia tivesse sido jogado.
Ela olhou para a esquerda e viu a janela de um trem em movimento.
Ela olhou para a direita e viu aquele sorriso ridículo outra vez.
−E aí? − disse Lelahel, mastigando um sanduíche.
−Mas o que diabos...
−Ei ei, praguejar é feio − disse ele colocando um dedo na boca de Maya –Ai! Você mordeu meu dedo!
−Tira a mão de mim, seu maluco! − protestou ela desesperada – Onde nós estamos? Por que eu estou em um trem?
−Fica calma, eu já fiz a sua mala, relax. – isso apenas fez Maya corar.
−V-Você não pode simplesmente fazer a minha mala. Tem coisas que eu preciso levar...
−Taquei tudo da gaveta pra mala, e com um estalar de dedos arrumei.
−Mas e o meu...
−Ursinho de pelúcia? Check. Retrato dos pais? Check. Sou um anjo incrível.
−SEU IDIOTA! − Maya berrou e começou a se debater com Lelahel, que tentava segurar o sanduíche – VOCÊ NÃO PODE FAZER ISSO! ANJOS NÃO... Anjos não existem! − rangeu ela entredentes.
−Você não era a católica mais fervorosa da cidade?
−Mas... Mas... VOCÊ TÁ COMENDO SANDUÍCHE!
−EU GOSTO DE PRESUNTO, ISSO É PECADO AGORA?
[Nota da Autora: Pros judeus, é sim!]
A garota afundou no banco, irritada. As pessoas ao redor pareciam enxergar Lelahel, que estava usando uma roupa de adolescente comum: um moletom comprido até o pulso, jeans com corrente, all star, sem asas. Ela teve de admitir: ele era bem bonito. Não para o padrão de Maya, se ele fosse mesmo um anjo... Para um padrão anjo da guarda. Ele era alto e tinha um nariz comprido e reto. E seu olhar era o de uma pessoa muito boa. Mas o fato de estarem brilhando para um sanduíche não ajudava muito.
−Ah! Acho que estou satisfeito − disse ele se espreguiçando.
−Para onde nós vamos?
Ele a olhou, examinando seu rosto.
−Para o Vaticano − sorriu.
−Lelahel, o que está acontecendo? Por que o convento pegou fogo? Porque...− ela olhou para baixo. Eram tantas perguntas que ela mal sabia por onde começar.
−Tudo no seu devido momento. Por ora, basta saber que a Igreja precisa de você. Nós também.
Ele encarou o vazio com expressão séria.
−O mal está avançando, Maya... E vamos ter que agir antes que seja tarde demais.
−Como eu deveria fazer isso? − ela estava com medo. Não sabia proteger nem a si mesma, não soube proteger Ada, nem seus pais... O que o mundo ganharia com uma pessoa como ela?
−Existe um projeto. Uma coisa que pode virar o jogo. Ele é feito de pessoas como você, Maya, que possuem os chamados Poderes Angelicais.
Ela arregalou os olhos. Poderes... o quê?
−Alguns seres humanos nascem com poderes especiais: são aliados nessa luta eterna do Bem contra o Mal. Humanos como você, Maya, recebem algumas características próprias dos anjos. Eu te acompanhei durante a vida inteira. Me diz, como é que as suas margaridas cresceram tão rápido?
−Eu... eu apenas as regava e conversava com elas.
−Mas tinha a Irmã Evangeline. Você acha que ela nunca tentou pisar nas suas margaridas? Ou quebrar a redoma? Ela começou a passar longe delas, lembra? E vivia falando coisas quando via você chegar.
Agora ela se lembrava: Evangeline sempre dizia que ela tinha poderes demoníacos. O que não era verdade. Ela sempre teve muito talento com coisas vivas, tanto que ajudou muito com o jardim... E todos se sentiam felizes perto dela.
“Sua juventude explosiva e incontrolável...”
−Foi por isso que sobrevivi ao incêndio? − ela agora encarava Lelahel com os dois olhos bem atentos. Ele retribuía o olhar, do alto do banco.
Maya abraçou os joelhos. “Eu sabia”, ela pensava. Sabia que tinha algo errado comigo.
−Lelahel... eu tenho uma pergunta.
−Sou todo ouvidos.
−Se você é meu anjo da guarda – ela pronunciou as palavras com dureza – onde você estava no dia em que minha casa pegou fogo?
O anjo ficou em silêncio
−É complicado. Eu não queria dizer nada agora, mas... Existe uma possibilidade... de seus pais não estarem mortos, Maya.
A garota sentiu o coração parar. Mamãe e papai... estavam vivos? Ela agarrou o anjo pelo colarinho. Como assim? Onde eles estavam? O que fizeram com eles?
−Eu sei, eu sei. Escute. Não sabemos dos planos deles muito bem. Ainda não. Mas existe uma forte chance de que tenha a ver com o fato de você ser uma Iluminada. Eles estão caçando gente assim, Maya. Você, em especial, corre perigo. Quanto mais rápido chegarmos na Itália, melhor vai ser pra todos nós.
Os outros dois dias de viagem, contando com o avião que pegaram na cidade grande, foram de extrema exaustão para a garota. Confusa, machucada e sem experiência com viagens, só conseguia pensar em seus pais. E em Ada. O cansaço era tanto que nem percebeu que tinha se jogado nos ombros do garoto-anjo idiota, falando sem pensar nas próprias palavras.
−Ei... você não vai me abandonar, vai?
Ouviu uma risada de longe, como se viesse do outro lado de um túnel:
−Claro que não. Serei seu guardião para sempre.
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