Cleon e Hilarion.
1 Capítulo único.
Notas iniciais
O Heraião de Samos guardava a memória do deus da família, que não por acaso, se misturava às memórias de Cleon.
Quando Cleon chegou ao templo, com todos os mantimentos que uma juventude de nobreza propiciavam, ele jurou para si que aquela união seria eterna. Antes do Sol nascer ao leste, ele se ajoelhava diante da estátua de Herodes e implorava por uma mudança.
— Cleon? — respondeu uma silhueta iluminada na entrada do templo.
— Sim? — Os olhos arregalados prevendo um bom-presságio.
— Meu nome é Ozias. Fui prometido de nascimento ao grande deus Herodes. Cá estou eu, para concretizar o meu destino e honrar a sua memória.
A expressão de Cleon desaba. Ele ignora a mão esticada de Ozias e segue direto para o altar, onde queima a grande chama de Herodes. O tempo passa, Cleon busca por um sinal nas chamas, o rosto trigueiro fica mais bronzeado, os cabelos loiro-morango cobertos de fuligem.
— O que te perturbas, syntrófos?— Ozias toca o ombro de Cleon.
Cleon arregala os olhos. Ele empurra o jovem ruivo e se fecha no dormitório.
Ozias sente o cheiro de ervas sendo esmagadas, e vê uma camada de vapor escapar pela fresta da porta. Ozias sente-se nauseado, mas é apenas um momento de fraqueza, ele ainda pode ouvir Cleon gargalhando no quarto, se debatendo, entregue ao domínio dos deuses.
Não é estranho que a maior parte da semana, Cleon tenha passado dentro daquele quarto? Ozias aparecia vez ou outra para verificar se o excesso de kykeon já o havia arruinado. Mas ele se recuperava todas as manhãs, acendia o fogo sagrado e se afundava novamente na substância.
Quando o mau cheiro passava, Ozias se deitava no quarto junto com Cleon. E nenhum dos gemidos noturnos de Cleon perturbava o seu sono. Pois a maior honra de um hiereu era se perder em Herodes.
Apareceram mais dois sacerdotes n’outro dia. Yannis era um turco muito do caprichoso, que passava a maior parte do tempo cuidando das flores no jardim. Quando Alvertos não estava ocupado decifrando um pergaminho, os dois se reuniam com Ozias na sala. Enquanto Cleon permanecia no quarto. Sozinho, sozinho.
— Eu acabei de trocar a roupa de cama de Cleon. — Yannis trançava os longos cabelos negros de Alvertos. Os seus próprios já estavam acomodados. — Sei que não é muito, mas é o que consigo fazer para ajudar.
— O que Cleon tanto deseja? — Alvertos olhou para Ozias, curioso.
— Ele nunca me disse. Sinto que não gosta de mim.
Correm os dias, correm as noites. A estátua de Herodes continuava sendo a única merecedora da atenção de Cleon. Os joelhos de Cleon já estavam feridos, as mãos cheias de calos de tanta implorarem por um milagre.
— Prazer, Linus. — Um rapaz meio esquisito apertou a mão de Ozias. — Minha família tem muitas terras, disseram que tenho um direito divino ao sacerdócio.
Os olhos de Ozias brilharam. Era como se eles se completassem.
— É uma grande responsabilidade. Que todos nós temos. — disse Alvertos. — Não foi intencional, mas cada um de nós acabou se especializando de alguma maneira. Yannis é o melhor casamenteiro, Ozias cuida dos sacrifícios. Você encontrará o seu lugar!
— Que tal purificação? — É uma mistura não convencional. Os olhos amarelados de Linus contra um tom médio de bege.
— Não é necessário. Cleon leva a sua função muito a sério. — Ozias torceu o nariz. — Ele provavelmente discutiria com você se tentasse se meter onde não é chamado.
— Cleon? Quem é esse?
— Você cruzará com ele em algum momento. Mas Cleon não parece muito interessado em confabular com os outros templários.
— É mesmo? — Linus respondeu subitamente interessado. — Então nesse caso, eu posso ser o Mneôn. Sou bom em ouvir e guardar segredos.
— Parece perfeito!
A imagem sorridente de Linus brilhava nos olhos de Ozias.
Nos dias que sucederam, Cleon seguia como um fantasma. A sua presença era suficiente para assombrar um rancoroso Ozias, mas para os outros hiereus, ele era alguém. Alguém que não conheciam de verdade, que não tiveram a chance de conhecer de verdade.
— Cleon? — Dessa vez, não foi Ozias quem disse.
O semblante seráfico de Cleon continua mudo. Dedicado às suas orações diante de Herodes.
— Também não precisa se exaltar! Eu sei que está contente em me conhecer! — retrucou o rapaz de cabelos cor de palha e rosto branco como leite. Ao notar a falta de reação de Cleon, ele se aproximou e tocou os seus ombros. — Eu me chamo Hilarion. Está tudo bem com você, syntrófos?
Cleon empurrou Hilarion no chão. Hilarion esfregou o ombro ralado.
— Perdão! Você não gosta que eu te chame assim?
Sem resposta.
— É porque não somos íntimos?
— Não. — Cleon balbucia, com o olhar perdido. — Eu não sou igual a você.
— O quê?
— Todos os dias, oro a Herodes por uma metamorfose. Se ele é o deus da família e protetor das mulheres, porque não entende que a minha vida seria muito mais feliz se eu tivesse nascido em outro corpo?
— Você deseja ser possuído como uma mulher?
— Não é sobre a cópula! É sobre quem eu sou! Eu poderia passar o resto da vida sem ser tocada, se isso significasse que sou apreciada como uma garota.
— Tocada? Apreciada? — Hilarion contraiu os lábios. — Acho que compreendo. Você não é o primeiro nobre que tem esses pensamentos. Já ouviu a história de Heliogábalo?
Para Cleon, ouvir Hilarion é como sarpar. Viajar como um navio livre, depois de tanto tempo preso ao labéu de sua existência. É o primeiro passo para a verdadeira eutimia.
— Você me entende? — Cleon levantou a sobrancelha.
— Bem, você sabe que não é bem visto… — Hilarion respirou fundo. — Mas não é o fim do mundo. Eu sei que você deve preferir guardar segredo dos outros hiereus e de todo mundo, só falaremos disso quando estivermos…
— Sozinhos?
— Não. Quando estivermos um com o outro.
Os dois trocaram sorrisos sinceros.
Cleon tocou a coxa de Hilarion.
— Ahm. — ele gaguejou. — Você…quero dizer, está tudo bem entre a gente? Ou melhor, está tudo bem com você?
— Bem… — Cleon esticou os dedos dos pés. — Enquanto eu for jovem, a sociedade grega vai me aceitar com cabelos longos. Há muito tempo, eu fazia parte do culto de Sibel e me livrei do maior desgosto da minha fisionomia. Eu sei que a minha vida poderia estar pior, mas quanto mais eu avanço, mais me lembro de quão perto estou do meu objetivo.
— Se quer saber, eu acho que você já tem uma aparência bem feminina.
— Obrigada.
As duas cabeças se tocaram.
No nascer do dia, Ozias foi o primeiro a sair do quarto, depois surgiram os outros.
Os cinco hiereus se reuniram na cozinha.
— Você parece melhor, Cleon. — Yannis passou por Cleon, sorrindo.
— Melhor. — Cleon retribui o gesto.
E lançou um olhar de canto para Hilarion.
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