Cleide
5 As Aventuras de Cleide
Notas iniciais
Acho que devo ter citado pular de meu apartamento, de não aguentar mais e não querer uma bronca de minha mãe. Mas eu sou o tipo de pessoa de Q.I 3000 que se esquece das coisas muito rápido, e eu pulei da pequena varandinha de minha casa. Caí em um arbusto e sequer quebrei o braço. Eu estava ferrada. Mas sabe quando você pensa que esqueceu alguma coisa que queria fazer, que estava pensando, mas que não faz a mínima ideia do que era? Eu estava com essa sensação desde que minha mãe falou comigo. O céu já estava nublado, eu saí de dentro do arbusto do meu jardim e teve um barulho de trovão. E a coisa que esqueci voltou como um relâmpago em minha cabeça, eu tinha que tirar a roupa do varal. Eu tinha que correr o mais rápido que podia para o quintal atrás de minha casa, e eu estava apenas de meias. Elas se sujaram todas de lama e cada passo meu era marcado no chão de minha casa. Gritava igual uma desesperada e ia para a porta do fundo de minha casa. Na minha cabeça, se formou uma grande arena de pedra e o varal no final dela. Imaginava vários homens atirando em mim e eu desviando de todas as balas com a minha suposta super-velocidade. Minha mão apertava a maçaneta, girava ela e empurrava a porta dos fundos, mas nada aconteceu. Era tudo uma corrida contra o tempo, fui para a porta do meu quarto que era perto dali. Peguei o cobertor de minha cama e coloquei por volta do pescoço, tentando fazer uma capa. Pulava pela janela do lado da cama e esticava os dois braços pra frente, mas então saí de meu mundo de fantasia e caía de cara na grama. “Sem desistir, Cleide! Sem desistir!”, minha própria voz ia à minha cabeça, dando-me força e fé. Levantei e apenas conseguia imaginar o quanto eu era guerreira por levantar e continuar a lutar. As roupas estavam na minha frente, senão fosse um galho na minha frente, que me fazia cair e sentia as primeiras gotas caírem em mim. Meu pé ficava preso na moita que havia e eu tentava me livrar, e o chuvisco apenas ficando mais forte. Livrei-me da planta e quando me encostei ao varal, a chuva aumentou absurdamente, molhando todas as roupas. Tentei pegar todas elas e levar pra dentro de casa, mas já era tarde. O chão de minha casa tava todo molhado, as roupas também e minha make diva borrada. A porta da frente abria com um rangido e minha mãe, já com a expressão irritada, parecia quase explodir vendo lama, água e móveis derrubados na casa inteira.
— CLEEEEEEIDEEEEEEEEEEEE! — O salto alto dela parecia sair do pé e ir pra mão, como se tivesse controlado com a mente. Lançou o calçado de lado e ele girava na minha direção. Abaixei e o sapato passava por cima da minha cabeça. Comecei a me sentir super foda, mas o salto alto voltava e me acertava por trás, como se ela tivesse feito um boomerang. — VOCÊ PERDEU A NOÇÃO DO PERIGO, GAROTA?! ESTÁ GRÁVIDA?! CADÊ O TESTE?!
— Lá no banhei... — Eu não completava a frase e ela corria para dentro do banheiro. Se eu falasse que amava ela, era capaz dela me dar uma cabeçada. Ela parou, pegou o teste, e olhou para mim.
— COMO VOCÊ É BURRA! — Ela berrava, jogando o teste pro lado. — O teste é falso, sua piranha! Ahrg... Você transou pra fazer isso?!
— Não. — Claro que menti. — Acha que eu faria uma burrada dessas?
— Sim. Toma. — Ela retirava dinheiro da bolsa e me entregava. — Vai comprar outro, eu te conheço e sei que deu pra um cara qualquer aí. Compra um na FARMÁCIA!
— Claro. — Recolhi o dinheiro e fui para mais dentro do banheiro.
— Vai se limpar, está toda encharcada! E quero aquela bagunça que aprontou limpa.
— Tá, tá. — Fui empurrado de leve ela pra fora do banheiro e apenas troquei de roupa.
Saí de lá com o dinheiro na mão. Coloquei no meu pequeno short e fui mandando mensagens pelo Whatsapp enquanto andava. Janete, pelo incrível que pareça me chamou. Ela me desculpou pelo negócio da gravidez (porque é trouxa) e disse que se eu vacilar de novo não iria me desculpar. Mandei um smile e um coração. Falamos sobre como o twitter dela estava polêmico, aproveitei e segui ela de novo. Tweetei: “amigas de verdade sempre se desculpam. #amizade #belieber #harryvejameutweetporfavor #vejameunovovideowww.youtube.com/cleideinovadorapolemica”. Vi pessoas que diziam gostar de meu vídeo, outras dizendo que não gostaram e que era um absurdo uma garota ficar grávida sem ao menos ser maior de idade. Não liguei, haters apenas aumentavam minha fama. E o show de talentos era amanhã! Coisas demais para me preocupar. Atravessava a faixa de pedestre mas ouvia uma buzina, tirei os olhos do celular e virei minha cabeça, vendo o carro vir em minha direção. Minha imaginação ficou no modo ligado, pulei para frente e caí na calçada por já estar perto, e não fui atropelada, mas o carro bateu em uma moto e o motoqueiro saiu voando. Bloqueei a tela do celular e corri até a farmácia, chegando na frente dela. E eu lembrei que nem tinha comido minha Nutella. Abri a farmácia e o ar-condicionado me consumiu. Fui na direção da balconista, pedindo um teste de gravidez. Ela saiu da minha frente e foi para os fundos da loja, pegou uma pequena caixa e me entregou numa pequena sacola. Entreguei o dinheiro e, antes de sair da farmácia, fui para a balança de peso. Coloquei um pé no chão e outro nela, tirei foto do visor para eu ficar parecendo mais magra. Pude sair da loja feliz, andei prestando atenção em cada passo que eu dava. Ouvi um barulho de tiro vindo da farmácia depois, mas nem liguei, continuei a andar. Chegando em casa, bebi o máximo de água que pude. Verifiquei meus twitter, meu Instagram, tudo, até twerkei para passar o tempo. Bateu a vontade de urinar, corri para o banheiro. Abaixei os shorts e fui colocar o teste embaixo de mim, quando ele cai na água sanitária do vaso. E quando vi, já tinha soltado tudo que precisava nele. Até o número dois. Enfiei a mão com nojo nele, peguei o teste e após algum tempo, aparecia apenas uma reta.
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