Claustrum

1 Phobos e Eros


Notas iniciais
Eu quero deixar bem claro que com o incentivo de Phaerlax, eu pretendia tentar fazer um smut melhor e menos vergonhoso que o do Abigo Oculto, porééééém a pessoa que sugeriu a música queria angst com Major Character Death.

Damn it, dei spoiler, mas pfv, leia mesmo assim. q

E se curtir ou tiver sugestões, pfv, lembra de revilar. ;A;

Ele acordou do lado errado da cama naquele dia.

Acostumado a dormir sem se mover desde os nove anos de idade, como uma mosca morta, Francisco sentiu a ansiedade subir por sua garganta como bile ao se perceber do lado esquerdo do colchão.

Ao longo dos anos recentes, havia desenvolvido uma estranha ansiedade que tinha como gatilho certas superstições criadas por sua mente hiperativa. Não comprar sabonetes de cores neutras, por exemplo, era uma delas. Outra, talvez ainda mais absurda, fosse em relação à ordem de cores que iria usar ao longo das quatro semanas do mês baseadas em seu guarda-roupa.

Mas se havia algo que o apavorava mais do que esses pequenos rituais supersticiosos era algo completamente fora de seu hábito acontecendo espontaneamente.

Francisco não conhecia muita espontaneidade e toda vez que havia tentado ser espontâneo ao longo da vida, o resultado havia sido catastrófico. Uma resposta “espertinha” que virou motivo de chacota; uma decisão impulsiva que, ao invés de terminar em liberdade, havia terminado em intermináveis noites de dor de cabeça e pesadelos, por meses e até mesmo por anos.

Desde seu último fiasco, guardava um diário, onde anotava todo dia ao acordar e antes de deitar para dormir ao fim do dia, com expectativas para o que vinha pela frente e o que havia conseguido de resultado ao longo do dia.

Naquele dia, a única coisa que anotou antes de entrar para o banho e começar sua rotina matinal foi: “Não sei o que esperar de hoje, fui pego de surpresa”.

Tomou banho (água morna, shampoo, sabonete, esponja, enxágue, jato de água fria), tomou seu café da manhã (duas torradas integrais e uma xícara de café sem açúcar, porque a vida é amarga e temos que criar resistência a este fato) e saiu para pegar o trem.

tu-tum tu-tum tu-tum tu-tum tu-tum tu-tum

Francisco trabalhava no Centro, em um prédio um pouco velho, de dez andares e elevador com portas dobráveis de segurança questionável. Não confiava muito em nenhum tipo de espaço excessivamente apertado que tivesse que comportar uma grande quantidade de peso, mas não conseguia se obrigar a subir os dez andares pelas escadas de incêndio. Já havia tentado e falhara miseravelmente, além de se atrasar quase vinte minutos para uma reunião importante.

A bronca do chefe não foi muito legal.

Comme d’habitude, o estagiário estava ali. Vinte e dois anos, obediente como um cachorro, adorável como uma criança, pontual como os grandes CEOs. Provavelmente teria muito futuro.

Só não entendia seu olhar de desafio toda vez que entrava no elevador e ficavam às sós, sete e meia da manhã, como se sua posição de estagiário fosse digna de competir com a posição de Francisco de supervisor. Ok, o garoto podia almejar seu cargo, mas não seria mais esperto pegar o diploma e depois resolver como provar sua “superioridade” profissional?

Não que Francisco fosse ser muito vocal quanto a seus próprios pensamentos. O garoto era eficiente e olha, como ele sabia a falta que fazia um estagiário eficiente e interessado por esses tempos sombrios.

— Bom dia, Eduardo. Chegou cedo.

— Bom dia, senhor Lima — o garoto respondeu com tanta secura no tom que Francisco sentiu sede.

ding!

Entraram os dois no cubículo, com os ombros roçando, e viraram para as portas dobráveis.

Francisco não estava muito confortável, ainda pensando sobre o incidente quando foi tirado de seus devaneios pela voz do estagiário.

— Ué? Tá com problema?

Francisco virou na direção de Eduardo, ainda confuso, e recebeu de volta:

— O elevador. Ele parou de subir.

Era verdade. Francisco se remexeu, desconfortável, e largou a maleta no chão, afrouxando um pouco a gravata.

— Tem claustrofobia?

— Não… exatamente.

Houve um silêncio ainda mais desconfortável do que o desconforto de Francisco antes que a voz de Eduardo se fizesse ouvir de novo, muito menor desta vez:

— Eu tenho.

E o garoto deslizou pela parede de madeira até estar sentado no chão, abraçado às próprias pernas.

— Normalmente fica sob controle. Eu tomo remédio pra ansiedade e não é tão horrível assim se eu fecho os olhos ou fico olhando para os números, mas… Mas quanto tempo até tirarem a gente daqui? Quanto tempo até notarem que o elevador parou entre os andares? Quanto tempo até os bombeiros chegarem ou o porteiro subir e abrir na marra e… E se o elevador cair? E se quando forem me puxar para fora o elevador…

— Credo, Eduardo — Franscisco murmurou, tentando conter a verborragia do rapaz. Não costumava ouvi-lo falar tanto. Na verdade, não lembrava de tê-lo ouvido falar mais do que duas frases por dia nos últimos oito meses em que o garoto havia trabalhado na mesa ao lado da sua.

—… Desculpe. Eu só… Eu não sei, eu quero preencher o silêncio. Você se incomoda de conversar comigo? — a voz de Eduardo ficou embargada e os olhos se encheram d’água. — Só… Só até atenderem o interfone ou darem algum tipo de notícia. Eu confio muito no senhor e tenho muito respeito pelo seu trabalho, então… Eu não sei, a gente pode falar sobre trabalho, não pode? Eu quero um dia fazer o que o senhor faz, mas eu… Eu… E se eu morrer agora? — Eduardo já começava a hiperventilar.

Francisco não sabia muito o que fazer. Não tinha como saber; passava por eventuais crises de ansiedade, mas as suas pareciam menos com crises de pânico e muito mais com algumas crises de despersonalização. Por alguns momentos, nada parecia real, e depois que respirava fundo e devagar, sua cabeça parecia voltar a se conectar com o resto do corpo.

Sentou ao lado de Eduardo no chão do elevador, apertou o botão vermelho e duro de emergência e pegou sua maleta para buscar relatórios e eventuais anotações para a reunião que teria às quatro da tarde, logo antes de encerrar seu turno e voltar para casa.

— Bom… Se você um dia quer chegar à minha posição, acho que o primeiro passo é ser organizado. A maior parte das pessoas não se incomoda em ser, então prazos são perdidos, confusões são feitas, há um sem número de acusações acontecendo por debaixo dos panos… Então ser organizado é essencial, para comprovar promessas feitas e prazos estourados.

— Uhum, eu vejo que o senhor é muito organizado e tento manter minha mesa o mais organizada possível… — a respiração de Eduardo ainda estava muito irregular e sofrida, mas realmente parecia que ter algo no que prestar atenção o estava, aos poucos, distraindo.

— O segundo, creio, é aprender a lidar com imprevistos. Você é jovem ainda, provavelmente mora com os pais, então já deve ter visto sua mãe lidar com um conserto de geladeira que ela não esperava ou seu pai bater o carro e ter que pagar indenização a algum outro motorista… São despesas inesperadas, para as quais normalmente guardamos um dinheiro de emergência. No trabalho, não tem como guardar soluções de emergência, então é um pouco mais complicado. Precisa ter jogo de cintura.

— Ah, meu Deus, o elevador está balançando, você sentiu isso?! — Eduardo ganiu, espalmando as mãos nas paredes de madeira, os olhos arregalados como os de um coelho prestes a ser devorado por seu predador.

Francisco não queria ser pessimista, mas sentia, sim. E pior: estava escutando alguns barulhos esquisitos e um ou outro par de passos acelerados no andar mais abaixo.

Engoliu em seco e continuou falando, com a verborragia quase tão solta quanto a de Eduardo ao perceber que o elevador havia ficado preso.

—… Como eu ia dizendo, precisa ter jogo de cintura. Talvez seja interessante criar um tipo de ambiente ou treinamento para vocês estagiários, aprenderem a lidar com certas situações de imprevistos que acontecem quase que rotineiramente. Eu não sei, talvez ir a um desses Escape 60 que se fala hoje em dia… Algo do gênero…

O elevador balançou um pouco mais e, neste ponto, até Francisco não conseguia mais segurar sua maleta e seus papéis sem deixar as dobras dos dedos brancas de força. Não conseguiria manter Eduardo calmo se ele mesmo estava entrando em pânico.

— Eu… Eu só queria viver um pouco mais… pra poder… — Eduardo não conseguiu completar a frase, cobrindo o rosto com as duas mãos. — Puta merda, tinha que ter nascido bicha mesmo pra chorar assim.

Havia raiva e mágoa em sua voz, como se falasse com Deus lá em cima ou alguma outra forma de entidade. Francisco, por respeito, ficou calado um momento e apenas afagou suas costas, olhando para o chão.

— Sabe… São só cinco anos, mas faz uma puta diferença, Eduardo. Eu pensava parecido com o seu jeito de pensar uns anos atrás. Até entender que não é culpa de ninguém a gente ser assim. De amar diferente do que esperam. Ser gay não te faz mais propenso a chorar; apenas faz você perceber que não são umas lágrimas que definem sua identidade. Acho que é uma vant…

O elevador balançou de novo e os dois ficaram mais próximos, quase abraçados em meio ao pânico da situação. Os barulhos que Francisco ouvira ficaram mais altos e poeira começou a cair de cima para dentro do elevador.

— Eu já mencionei que te amo, Chico?

O pescoço de Francisco quase estalou, tão rápido que virou a cabeça para encarar nos fundos dos olhos castanhos de Eduardo. Seria o pânico da situação ou seria uma confissão há muito guardada em seu peito.

— É… Oi? Quê? — articulado como sempre, cheio de espontaneidade, Francisco havia acabado de discursar sobre imprevistos, cheio de propriedade, e agora não conseguia reagir ao que Eduardo havia dito.

O riso frouxo e meio amarelo que Eduardo soltou confirmaram que era algo guardado há muito consigo.

— Eu sabia que você era gay, não era como se você escondesse, mas… Mas eu sou novo, né? Nunca tinha pensado em contar, em botar pra fora. Queria criar uma rixa saudável, talvez funcionasse pra ficar mais próximo, mas nunca realmente acreditei em chances, porque né… ‘Cê nem me vê direito como funcionário da empresa, que dirá como potencial parceiro.

— Não é verdade… Você é um dos estagiários mais esforçados que eu já tive — Francisco afagou de leve suas costas outra vez, sem ter certeza sobre como se sentir. Era fofo. Mas não podia negar que Eduardo estava certo; não consideraria namorar alguém tão jovem, mesmo que a diferença de idade não fosse absurda. Eduardo ainda nem havia saído da faculdade, sobre o que caralhos iriam conversar? Sobre o TCC?

— Sim, mas com certeza não sou o tipo que deixa… — outra sacudida e Eduardo engoliu em seco, com as lágrimas transbordando dos olhos. — Eu só… Desculpa, viu? Se eu estiver entrando em pânico à toa e a gente se encontrar amanhã no mesmo horário aqui, finge que eu não falei nada, ok?

Francisco apenas assentiu, pousou um beijo em sua testa e apoiou a bochecha no topo de sua cabeça. Os cabelos de Eduardo cheiravam ao seu xampu. Estranho, mas reconfortante. Ao menos algo de familiar para preencher seus sentidos enquanto o elevador…

… Despencava. Os estômagos dos dois embrulharam em sincronia e, desesperado, Eduardo enfiou o rosto entre a dobra do pescoço e do ombro esquerdo de Francisco. Francisco agarrou seus cabelos e beijou o topo de sua testa, sem saber como ajudar a diminuir o pavor que era estar tão perto da morte em um espaço tão curto de tempo.

O prédio desabou.

doom…

Francisco nunca pôde anotar em seu diário o quão aliviado sentiu ao descobrir que o ódio que acreditava que Eduardo tinha por si era, apenas, amor.

Amor enclausurado. Claustrofóbico em seu peito.

Notas finais
Antes que perguntem: não, eu não planejei que Francisco tivesse TOC, até porque eu acredito que TOC envolva muito mais coisa do que superstições simples (como a minha, que me faz comer sempre o mesmo cheeseburguer em oito mordidas ou eu fico agoniada, ou o fato de que eu sempre corto carnes/bolos/whatever em números pares porque números ímpares me dão agonia, a menos que sejam múltiplos de cinco), mas quis colocar alguns quirks nele, já que eu queria que a história tivesse um certo impacto.

Eu não segui muito bem a letra de Conversa de Botas Batidas, segui mais o feeling que o ritmo da música e a voz do cantor que fez o cover me passaram, mas espero que tenha sido satisfatório e que tenha feito um angst de respeito.

No mais, desculpem pelo angst. Eu tô bem triste. ;w;
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!