Clato - Quase vitoriosos

19 Capítulo 19 - "Bom demais pra ser verdade"


Notas iniciais
Vói la, um capitulo novinho em folha enoooooooooorme, pra compensar a demora!
Esse capítulo estava pronto há muuuuuitooo tempo! Mas a autora responsável esqueceu completamente de postar kkk
Eu trouxe alguns personagens de volta, lá do início da fic, não sei se vocês lembram do Dylan (sátiro/avox), da Amy e do Luke (mentores em treinamento) :/
Entããoo, esse é o nosso último capítulo *chora* Espero que gostem!

Duas semanas se passaram e eu ainda não saí desse quarto. Ainda não sei quem era o menino e ainda não entendi o que aconteceu

Onde eu estou? Na ala hospitalar do acampamento meio-sangue. Por que estou aqui? Isso eu também quero saber.

Amy, a filha de Apolo e mentora em treinamento na minha edição dos jogos, vem me visitar um dia sim, um dia não, para me por a par de tudo aconteceu enquanto eu estive fora, mas ela só deixa escapar uma informação ou outra, pois os filhos de Apolo acreditam que eu possa ter uma "Sobrecarga" com tanta informação, por mais que eu seja filho de Atena.

Até agora eu descobri que os tributos do 12 enganaram a Capital e venceram os jogos, o que mostrou aos distritos que a Capital não é tão forte quanto parece, então levantes e revoltas eclodiram por toda a Panem. Para mostrar quanto era poderosa, a Capital fez com que a edição n°75 dos jogos fosse realizada apenas com os vencedores das edições anteriores, mas Plutarch, o idealizador-chefe do massacre quartenário, junto com alguns tributos vitoriosos e o distrito 13, bolaram uma maneira de tirar os tributos vivos do massacre, Katniss explode a arena e começa uma revolução. O distrito 13, com uma ajudinha dos outros distritos, vence a Capital (não sem uma boa guerra), Snow morre misteriosamente, Katniss mata Coin, Paylor vira presidente. O domínio da Capital acaba, e a paz reina sobre Panem. Mas ainda há cicatrizes, cicatrizes que jamais serão curadas, sempre haverá um lugar vazio na mesa de jantar da família, sempre haverá uma mãe esperando inutilmente que o filho volte pra casa, sempre haverão memórias dos dias que, mesmo sob a pressão da Capital, nós eramos felizes ao lado de quem amamos, ao lado de quem não está mais aqui. Nós conquistamos a liberdade que tanto desejávamos, mas tudo têm seu preço.

Quando Amy não está aqui eu fico deitado, olhando pra parede extremamente branca, pensando nas famílias desestruturadas, nas mães que perderam seus filhos, nas crianças que perderam seus pais, tudo isso por causa da liberdade. É realmente deprimente pensar que enquanto tudo isso acontecia eu ficava parado aqui, inutilmente sem fazer nada. Achegada de Amy me tira dos meus devaneios, eu tenho várias perguntas para fazer, mas na hora de perguntar eu simplesmente as esqueço. Mas hoje eu sei exatamente o que perguntar, algo que venho me perguntando desde que acordei.

-Oi-Diz Amy ao entrar com uma bandeja, provavelmente o meu café da manhã. Eu apenas sorrio e aceno em resposta. Ela coloca a bandeja numa mesinha ao lado da minha cama e se senta num catre ao lado da mesinha.

-Como você está? -Pergunta Amy, como de rotina.

-Depressivo-Respondo, soltando uma risada seca, de desgosto. Amy levanta uma sobrancelha e eu lhe explico a razão da minha depressão. -É só que... Eu me sinto inutil por ficar aqui deitado enquanto pessoas estavam lutando por liberdade, enquanto pessoas arriscavam suas vidas para o bem-estar das próximas gerações. Além disso, o fato de eu ter matado tanta gente nos jogos só aumenta a minha depressão, e, convenhamos, ficar olhando pra essa parede branca não é minha ideia de diversão.

Amy riu.

-Olha, Cato, se esse for o caso, nós podemos dar uma volta pelo acampamento mais tarde. Quanto aos jogos e a guerra você não teve escolha, nos jogos você tinha de matar para viver, e na guerra você não podia simplesmente acordar do humm.. Coma, é, acho que essa é a palavra mais apropriada.

Quando ela falou sobre passear meu coração passou a bater mais rápido, parecia que meu cérebro dava pulinhos de alegria, e ambos só diziam uma coisa: Clove. Eu não perguntei por ela ainda, com medo de que alguém falasse que ela estava morta, o que eu acreditava, mas eu também acreditava que estava morto, e aqui estou eu, vivo, ou pelo menos eu acho que estou.

-Amy... -Comecei. Amy me olhou com atenção. -Eu.. Eu estou vivo? Tudo isso é real?

Amy riu.

-Você está tão vivo quanto eu! -Disse ela, entre gargalhadas. -Por que estaria morto?

-Haann.. Porque toda a Panem acredita que eu estou morto, porque eu acreditava que tinha morrido, porque eu fui atacado por bestantes até perder a consciência.. -Eu disse, mas Amy gargalhou ainda mais alto. -Então o que aconteceu?

-Quando você achou a flor -sim, eu sei sobre a flor- O seu maior medo tinha de se realizar, e aparentemente o seu maior medo era falhar, e com isso falhar na sua promessa de proteger Clove -É, Cato, eu também sei sobre isso-Assim ela precisaria morrer pra flor funcionar, mas como a flor servia para atrasar a morte, ela morreu só pra você. Mas você ficou ao lado dela o tempo todo, e por mais lindo que isso fosse, nós precisávamos tirá-lo de lá, a questão era: como? Então o Dylan, que se tornou uma avox na Capital, criou um elo empático com você, para mandar você sair de lá. Quando você finalmente saiu de lá, Seneca, filho de Zeus, mandou um aerobarco buscar o corpo de Clove, que já era dada como morta. Com a morte de Clove você enlouqueceu e virou uma máquina de matar, o que levou Dylan a lhe mostrar, através do elo empático, que ela estava viva — Aaahh, foi essa a visão de Clove que tive após matar Tresh, pensei. -Mas você demorou muito tempo pra se recuperar da visão e só acordou no Grand Finalle, o ataque dos bestantes. Dylan invadiu a sala de controle pra tentar te dar alguma vantagem sob os bestantes, e conseguiu, mas foi pego, e assassinado pelo próprio presidente Snow. Normalmente, quando um participante da ligação empática morre, o outro também é arrastado pra morte. Mas como você não tinha consciência do elo empático, a ligação entre vocês era mais fraca, o que te deixou nessa espécie de coma. Depois de anos tentando te acordar, um filho de Hades sugeriu que procurássemos a alma de XXX para desfazer a ligação, assim, ou você acordaria, ou você morreria. Demorou vários anos para que concordássemos com isso, porque, caso você não sobrevivesse, nós seríamos responsáveis pela sua morte, mas o único modo de trazê-lo "de volta à vida" seria esse, que poderia matá-lo. Mas graças aos deuses você está vivo!Eu não conseguia acreditar no que acabara de ouvir. Clove estava viva. Eu estava vivo. E agora tudo fazia sentido. Por um segundo eu me senti um idiota por não ter pensadoem um elo empático, mas depois agradeci por isso, porque se eu tivesse percebido que era um elo empático, eu também estaria morto. Foi aí que eu lembrei de outra coisa.

-Amy, antes de morrer, a única coisa que Dylan pensava era em uma solução, e a única que ele achou foi Seneca Crane, por que?

-Porque Dylan morreu tentando te salvar, e agora você estava sendo perseguido por bestantes. Se ele morresse, a única pessoa que poderia tirá-lo da arena com vida era Seneca Crane, que assim o fez. Além disso, Seneca acendeu a fagulha da revolução ao deixar que duas pessoas vencessem.

-Mas por que eu? Por que ele se arriscou tanto pra salvar a minha vida? O que minha vida tem de mais importante do que a dos outros? –Perguntei. Aquilo parecia extremamente errado pra mim. Amy adotou uma postura séria e respondeu com um suspiro:

-Eu não sei, Cato, eu realmente não sei. Sua mãe disse que você tinha um futuro muito importante, que não poderia ser jogado fora, mas ela nunca nos disse o motivo.

Quando ela disse isso, eu lembrei do que minha mãe disse quando discutia com Hades e Afrodite sobre a morte de Clove: "Ele tem um futuro muito importante pra ser desperdiçado assim!". Até agora, tudo o que eu fiz foi dormir, se é que eu posso chamar aquilo de sono.

-Que tal aquele passeio que eu sugeri mais cedo? -Perguntou Amy, segurando a minha mão. Não sei porque, mas aquele pequeno contato me pareceu extremamente errado.

-Não é má ideia.

-Mas antes eu sugiro trocar de roupa. Você não vai querer fazer uma entrada triunfal vestindo uma bata de hospital, ou vai? -Perguntou Amy, apontando pra roupa hospitalar que eu usava, eu definitivamente não queria que ninguém me visse vestindo aquilo. Meus olhos pousaram em uma muda de roupas do acampamento dobradas ao lado do meu café da manhã. Eu peguei a muda de roupas e fui ao banheiro, no final do quarto, me trocar.

Quando entrei no banheiro vi um estranho vestido com uma bata de hospital surrada, o cara aparentava ter quase 30 anos, o cara tinha uma cicatriz na mão esquerda, assim como eu. Eu era o cara. Eu parecia um homem sério, qualquer traço de "garotão" saiu do meu rosto. Meu cabelo estava mais comprido que o normal, e eu estava mais magro, parte dos meus músculo se fora, e eu nunca pareci tão cansado, mesmo depois de tanto tempo dormindo. Mas aquele não era eu, aquele era um homem sério e forte, força esta proporcionada pelo sofrimento. Eu era o garoto fútil e inconsequente, que só conhecia a dor e o sofrimento na teoria. Mas será que eu ainda era esse garoto? Quanto tempo havia passado?

Eu jogo um pouco d'água gelada no rosto para espantar esse pensamento. Agora eu tenho todo o tempo do mundo para responder essas perguntads, tudo o que eu quero agora era voltar à vida.

-Tudo bem, Cato, você pode demorar o tempo que quiser, nós o esperanos por anos, por que não esperar mais alguns pra você sair do banheiro? -Grita Amy do lado de fora.

-Por que essa pressa toda, Amy? Você esperou esse tempo todo, alguns minutinhos sem a minha presença não serão tão ruins assim- Digo, saindo do banheiro. Amy ri, jogando a cabeça pra trás e segura minha mão.

-Vamos, eu preciso te mostrar uma coisa, mas antes é melhor tomar café logo. Sabe,parece que você vai desmaiar a qualquer momento. -Diz Amy, me puxando pra longe. Eu aponto para a bandeja com comida que ela deixou pra mim mais cedo. -Aaah, alguém recolhe isso depois! Vamos para o refeitório, com pessoas de verdade, comer comida de verdade!

Eu a sigo. Percebo que ainda é muito cedo. O céu está acinzentado, pálido, e não há qualquer vestígio de luz do Sol. Quando entramos no refeitório não há quase ninguém, o que é muito estranho, mesmo pra essa hora da manhã.

-Perdemos muitos campistas durante a guerra contra a Capital. -Explica Amy, como se pudesse ler meus pensamentos.

Ao perceber nossa presença, os campistas se levantam e vão falar comigo. A maioria diz coisas como "Ainda bem que você ta legal, cara. Senti sua falta!" e eu respondo "Pois é.. Obrigado, também senti sua falta!" mas não estou prestando atenção nessas pessoas, estou procurando uma cabeleira preta e escorrida em meio à pequena multidão. Mas ela não está ali. Por um momento, meu coração para. Então Amy me desperta desse transe.

-Heey! Catoo! Aloo! Tem alguém ai?

Olho em volta e percebo que as pessoas que falavam comigo já voltaram para os seus respectivos lugares.

-Érr.. vamos sentar? Estou morrendo de fome! -Digo, piscando com força os olhos, acho que a comida vai me ajudar a despertar.

Enquanto comemos, as pessoas contam "os momentos históricos" que eu perdi durante o meu coma, mas eu não entendo o final de quase nenhuma, pois todo mundo já está gargalhando, principalmente Amy, que joga a cabeça pra trás, fazendo o coque improvisado afrouxar e os cachos dourados se soltarem do penteado, e batendo palmas histericamente, contagiando a todos com a sua gargalhada alta e aguda.

Acho que quando você passa anos desacordado, o mundo parece mais bonito ao acordar. As cores parecem mais vivas, as pessoas melhores, o doce das panquecas divino, e eu tenho quase certeza de que consigo sentir a energia do café correndo em minhas veias. Ou talvez as coisas tenham sido sempre assim, só que eu nunca dei o devido valor a nada disso.

Quando finalmente estou satisfeito -Acredite, quando você fica anos dormindo, seu apetite triplica- Amy me puxa em direção à porta, para o tão esperado passeio. Mas antes mesmo que eu chegue à escada, uma mão segura o meu pulso, uma mão pequena, delicada e firme ao mesmo tempo. Meu coração acelera quando me viro para encará-la. Não acredito que ela esteja aqui, não acredito que eu estou aqui, não acredito que estamos vivos, não acredito que os jogos não existem mais, não acredito em nada.

Mas tudo o que encontro é uma cabeleira castanha e rebelde, que cobrem olhos azuis e distantes.

Annie Cresta. E abraçado à sua perna, o garoto loiro do hospital.

-Cato, -Diz Annie, sua voz é um sussurro e seus olhos se fixam em pontos distantes, como se ela estivesse procurando alguma coisa. -Será que eu posso ter uma palavrinha com você?

-Amy, tem problema se eu.. -Começo, mas Amy me interrompe.

-Não! Problema nenhum! -Diz Amy, que se abaixa para o garotinho, o pega no colo e diz. -Vamos brincar com a tia Amy um pouquinho, Finn?

O garoto assente e parte com Amy escada à baixo.

-Olha, Cato, o que eu vou dizer agora pode te assustar um pouco, mas por favor, tente se controlar. -Começa Annie, eu já me preparo psicologicamente para a bomba que ela tem para dizer. -No último ano de guerra, eu e o Finnick nos casamos, e eu engrávidei.

-Sério?? Uau, isso que é coragem, casar em meio de uma guerra!- Comento -Nossa, tudo de bom pra vocês!

Os olhos de Annie se enchem d'água.

-Mas antes que eu contasse pro Finn sobre o nosso filho, ele foi para a Capital em uma missão especial, e ele.. e eu..-Annie começa a soluçar. Ela não precisa continuar, eu entendo o que aconteceu a ele, e um nó se forma na minha garganta. Annie soluçou em meu ombro por mais ou menos quinze minutos, até que finalmente se recuperou. -Quando o Finnick nasceu, o nome uma homenagem ao pai, claro, eu o criei sozinha, e, até os quatro anos ele nunca sentiu falta de uma figura paterna. Até que um dia ele me perguntou onde estava o pai dele, e eu disse.. e eu disse... -As lágrimas voltam a escorrer pelo seu rosto, que agora está vermelho e inchado. -Eu disse que o pai dele estava dormindo. Sabe, eu não conseguia admitir em voz alta que o Finn se fora, que estava morto, eu fui uma covarde.

-Não, claro que não.. só de chegar aqui você já foi forte o bastante para uma vida inteira. -Digo, num sussurro, enquanto acaricio seus cabelos, Annie sempre foi uma pessoa muito frágil, todo mundo sabe que ela precisa de uma atenção especial. Eu só não entendo aonde ela quer chegar com essa conversa.

-Para completar o meu histórico de covardias, -Continua Annie, desvencilhando-se do meu abraço. -Quando o Finn o viu na enfermaria, dormindo, ele me perguntou se você era o pai dele e eu disse que sim. Eu menti pro meu filho, menti pra mim mesma, a fim de poupá-lo e me poupar do sofrimento que a morte do meu marido causou. Por isso, Cato, eu lhe imploro, por favor, você seria o pai do Finn?

Essa mulher enlouqueceu de vez, penso. Eu já sabia que a filha de Dionísio era louca, mas não a esse ponto.

Então, pela primeira vez desde que ela falou comigo mais cedo, seus olhos se fixam em mim, e uma onda de compreensão passa por eles.

-Aaah, não entenda errado! Eu sou louca, mas não tão louca! Não estou lhe pedindo para ser meu marido, estou lhe pedindo para ser o pai da criança, para participar da vida dele de modo fraternal, até que ele esteja pronto para saber a verdade. Eu acho que isso seria bom tanto pra ele quanto pra você. — Ela diz. Uma onda de alívio percorre o meu corpo. Ela não é tão louca, afinal, penso.

-Como assim, "tanto pra ele quanto pra você"? -Pergunto, por mais que eu já tenha a resposta para a sua proposta na ponta da língua.

-Você é considerado morto em Panem, não vai poder arranjar um emprego ou andar por aí sem levantar suspeitas. E, francamente, a vida aqui pode ser um tédio, mesmo com todas a opções de lazer, e o Finn seria uma ótima distração pra você, e você um ótimo pai para ele! -Responde Annie, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. A verdade é que depois que eu acordei meu raciocínio não está la dos melhores.

-Claro que sim! Eu adoraria! Não precisava nem perguntar! Com mentiras ou sem mentiras eu adoraria ser o pai do pirralho! -Digo, abraçando-a com toda a minha força.

Nós vamos em direção ao jardim, onde Amy e Finnick (o filho, é claro) nos esperam. Finnick chuta uma bola em nossa direção e amy corre para pegá-la, mas eu me abaixo antes.

-E então? -Pergunta Amy, erguendo uma sobrancelha.

-Parece que eu ganhei um filho. -Respondo. Amy não diz nada, apenas ergue as sobrancelhas e tenta fingir surpresa, mas eu tenho quase certeza de que ela sabe muito bem sobre as mentiras de Annie.

-Obrigado, papai! -Diz Finnick quando eu o devolvo a bola. -Quer jogar com a gente? -Ele pergunta e eu aceito a proposta. Nós passamos a manhã jogando gol-a-gol, e por algumas horas eu esqueço a razão de ter saído da enfermaria hoje, Clove.

Quando a hora do almoço chega, Annie leva Finnick para o refeitório e eu estou prestes a segui-los, mas Amy me puxa em direção ao chalé de Apolo dizendo que precisa buscar uma coisa muito importante e que eu não posso ficar mais do que alguns minutos sem ela por orientação médica.

-Então, -Começo, no momento estou adotando uma rígida política anti-silêncio, graças aos longos e silenciosos anos que fiquei desacordado. -Como vai o Luke?

Amy olha pra mim com um expressão estranha, rígida, e percebo que é a primeira vez que a vejo séria. Então ela respira fundo, relaxa e diz:

-Durante os conflitos ele passou para o outro lado, ajudou a Capital. Desde então não sei o que aconteceu com ele.

Amy e Luke, tá aí um casal que eu sempre achei que daria certo, nunca vi duas pessoas se darem tão bem quanto eles. Nunca imaginei que um tributo ficaria do lado da Capital nessa guerra, não depois de participar dos jogos vorazes, não depois de passar fome. E Luke nunca me pareceu o tipo de pessoa ambiciosa, mas pelo visto os mimos pós-vitória da Capital o fizeram esquecer as dores do passado.

-Sinto muito. -Digo.

-Não precisa, eu acho que isso foi até bom, isso mostrou quem ele realmente é. -Diz Amy, acompanhada por dum suspiro. -Além disso, por causa dele eu comecei a viajar de distrito em distrito, trabalhando como médica voluntária para ajudar os feridos e doentes na guerra, sempre evitando o distrito 2. Em um desses trabalhos, conheci um cara que fazia o mesmo que eu, ajudava os outros para tentar recompensar as vidas que tirou , sempre indo de distrito em distrito, tentando esquecer a pessoa amada. Nós vamos nos casar ano que vem.

-Uau, isso é incrível! Felicidades pros pombinhos! Será que eu vou ser convidada para o casamento do Sr. e da Sra. ...?

Amy ri.

-Hawthorne, o nome dele é Gale Hawthorne. -Amy responde e agarra meu pulso. -Vamos preciso lhe mostrar uma coisa. -Então ela me puxa chalé de Apolo a dentro.

No chalé nós vemos vários cadernos e instrumentos jogados nos beliches, vários alvos estão pendurados nas paredes, uma música calma e relaxante toca ao fundo e o cheiro de remédio é forte. Amy me leva por um longo corredor e abre a última porta. Esse quarto é banhado por uma luz branca artificial, as paredes são de um verde-roupa-de-médico, mas o que me chama atenção é uma cama no meio da sala, nela está uma figura pequena, coberta por longos cabelos pretos e lustrosos, os olhos grudados em uma TV na parede a sua frente. Ela olha para a TV com tanta intensidade que eu acho que a TV vai explodir a qualquer momento.

-Aaaaaaaaiiiii! -Ela grita, e só então percebo um homem em pé ao seu lado, mexendo na sua perna. Por um segundo eu sou atingido por uma onda de ciúmes, mas então vejo a aliança em sua mão. –Se você fizer isso mais uma vez, Kardofinn, eu arranco as suas orelhas com os meus próprios dentes! Aaaaaaiii

-Perdão! Perdão! –Diz o homem, levantando as mãos e se afastando. Já da pra perceber que ele não é dos mais corajosos. –Mas Clove, você precisa entender que é necessário fazer isso, se você não exercitar você não vai conseguir.

-Minha cabeça está funcionando, não está? Por que eu não conseguiria fazer isso?

Aaah sim, essa é a minha Clove, penso com um sorriso bobo dançando no rosto, cabeça-dura e mal-humarada.

Mas essa não é a minha Clove. A minha Clove era uma garota pequena, magricela, o rosto escondido por longos cabelos negros. À minha frente está uma mulher forte, astuta, os cabelos negros continuam lisos, mas agora têm movimento, os músculos e as curvas do seu corpo são bem mais visíveis, o rosto está mais sério e olhando daqui ela parece mais alta. Essa definitivamente não é a minha Clove. Eu gosto da nova Clove.

-Então vocês acham que eu não sou capaz de fazer isso? Que eu não consigo fazer isso sozinha?

-Não, Clove, não... –Mas antes que o médico possa falar alguma coisa, Clove se joga da cama improvisada (lê-se: maca coberta por um lençol).

Ela aterrissa com os dois pés no chão, mas solta um grunhido de dor e desequilibra. Antes mesmo que ela atinja o chão, eu já me joguei para segurá-la. Ela segura nos meus ombros e se recompõe, mas continua apoiada em mim. Então ela levanta a cabeça e congela. Ela fica ali, parada, apertando os olhos de vez em quando por mais ou menos um minuto, então volta a respirar. Ela joga os braços ao meu redor e mete a cabeça no meu ombro, mas antes que eu entenda o que está acontecendo, ela joga a cabeça pra trás e começa a chorar. Chorar é pouco, soluçar.

Essa definitivamente não é a minha Clove.

Não tenho ideia de quanto tempo se passou com ela ali, em meus braços. Só sei que foi tudo muito confuso. Eu me sentia extremamente feliz por tê-la ali, em meus braços, a salvo, longe da tirania da Capital, que já não existe mais. Vê-la chorando fez com que eu me sentisse muito mal, ela estava chorando por culpa minha, e isso também me deixou feliz, por mais egoísta que isso pareça, já que isso provava que eu importo pra ela! Ou talvez ela estive chorando porque a queda a machucou, mas eu prefiro a primeira opção. Todo o meu corpo grita de alegria, esse simples toque proporciona uma carga elétrica que me deixa todo arrepiado, uma energia boa que me faz querer ficar ali para sempre. Mas ela finalmente se recura e afasta-se de mim. Eu a levanto, de modo que ela fica sentada na maca novamente, e me inclino para beijá-la, mas ela desvia da minha tentativa e começa a rir.

-O que foi, não sentiu minha falta? –Pergunto. Ela ri ainda mais.

-Nem mesmo percebi sua ausência. –Responde Clove.

-Não foi isso que você demonstrou três minutos atrás, quando você estava jogada em mim, chorando por mim.

-Aaaah aquilo foi uma recaída!

-Isso significa que eu não vou ganhar um beijinho sequer?

-Você fala como se eu fosse te beijar.

-Você fala como se não quisesse.

-E eu não quero.

-Não foi isso que você demonstrou na arena... –Digo, e Clove fica vermelha. –Não fale que foi outra recaída!

-Eu... Eu... Eu achava que ia morrer, não ligava para a minha vida, eu achava que ela não duraria muito! –Argumenta Clove.

Essa é a minha pequena! Essa é a minha pequena, grita uma vozinha dentro de mim, ela continua a ser a minha Clove!

Eu não percebo que estou parado de frente pra ela, sorrindo feito um bobo. É só que, tudo nela parece novo, fascinante. Eu corro os olhos pela nova Clove, absorvendo cada detalhe. Eu nunca gostei de mudanças, mas acredito que toda essa reviravolta na minha vida vai ser pra melhor, tem que ser pra melhor.

Clove se retrai completamente, como costumava a fazer quando alguém a encarava com intensidade, ela nunca gostou de chamar atenção.

-O que foi? –Pergunta Clove. Eu acordo do meu transe. Ela não se encolheu por acaso, percebo, eu estou olhando pra ela com intensidade. Eu desvio o olhar rapidamente e me concentro nos meus sapatos.

-Nada... Eu só não consigo acreditar que tudo isso esteja acontecendo. Quer dizer, eu não consigo acreditar que nós estamos vivos, numa Panem sem Capital! Isso tem que ser um sonho maluco! –Digo a primeira coisa que vem à minha mente, o que não deixa de ser verdade, mas não é o motivo para eu encará-la assim.

Dessa vez ela me encara. Avalia-me dos pés à cabeça, e quando seus olhos finalmente encontram os meus, um calafrio percorre o meu corpo, um calafrio bom, um calafrio estranhamente bom. Ela me olha intensamente, e eu sustento seu olhar, nunca vi seus olhos brilhando tanto. Eu sustento seu olhar por muito tempo, até que ela finalmente desvia o olhar e levanta as mãos em sinal de rendimento.

-Tudo bem, tudo bem! Não precisa implorar! Mas não se acostuma, hein?

Eu olho pra ela confuso, mas ela apenas continua:

-Eu já disse que sim, Cato! Já pode parar de implorar!

-Hãã? -Pergunto.

-Um beijo, Cato! Não precisa implorar! Se é tãão importante pra você, por mim tudo bem!

-Por que eu imploraria por um beijo seu? Eu jamais faia isso! –Digo, meu rosto cada vez mais perto do dela.

-Não foi isso que seus olhos disseram há pouco tempo. –Responde Clove com um sorrisinho sarcástico no rosto.

-Eu... Eu... –Eu sinto meu rosto cada vez mais vermelho. Minha mente gira à procura de uma boa resposta, mas antes que ela encontrasse um bom argumento, Clove me puxou para o melhor beijo da minha vida, um beijo que se repetiria por todos os dias da minha vida, da nossa vida.

\"\"(Desculpa pelo desenho, eu sei que ficou feio, eu meio que fiz às pressas hehe)

Notas finais
Então, pessoal, é aqui que acaba a minha humilde fic. Tem um epílogo a caminho, mas não é nada demais, é mais pra esclarecer algumas coisinhas ;)
Muuuuuuiiitooo obrigada a todos vocês que aguentara essa fica até o final, que participaram, que comentaram! Eu sei que é uma fic cansativa, cheeeeiaaa de erros ortográficos e de digitação, sei que eu enrolo muito pra postar um capítulo e que a fic não tem muitos leitores ou reviews, e por isso eu dou ainda mais valor a cada um de vocês que me acompanharam até o fim!