Classe dos Guerreiros - A Sexta Geração
6 Iniciação
Notas iniciais
Li estava no telhado da mansão, olhando atentamente para as estradas que a rodeavam. A pedido de Marin usava um vestido com saia curta e mangas longas e tornozeleiras em cada pé, e ela podia sentir em cada centímetro de seu corpo que a iniciação desse ano, seria esplêndida. Depois de algumas horas, finalmente viu o que esperava: duas pequenas nuvens de poeira, produzidas por carruagens automáticas chegando.
Flexionando seus joelhos, saltou para o jardim, onde pousou com leveza e entrou na mansão.
– Chegaram, senhora. – disse para Marin, que estava sentada na escada.
– Certo. – Marin disse se levantando. Ela usava colete e calças de couro e o cabelo amarrado em um rabo de cavalo. – Traga as crianças, eu vou receber nossos convidados. – Li assentiu e subiu as escadas para o quarto das crianças.
– Estão prontos? – ela perguntou abrindo a porta. Cada um dos pequenos usava um traje de seda branco e todos estavam de pé, como se até Li abrir a porta estivessem andando em círculos.
– Prontos para que afinal? – perguntou Caleb.
– Vocês verão! Agora, desçam. – Li se virou e desceu as escadas sendo seguida pelos pequenos.
No hall estavam não só Marin, mas um homem e uma mulher usando roupas de couro como as dela, e três outras crianças, também usando trajes de seda.
O homem era alto, com cabelos curtos e castanhos como seus olhos e sorria levemente. A mulher tinha cabelos curtos lisos e negros na altura do pescoço e parecia tensa.
– Crianças, gostaria de apresentar a vocês os outros mestres dos Guerreiros. – disse Marin quando os cinco terminaram de descer a escada. – Cassandra, mestra da classe Torin, – a mulher exibiu seu colar com uma lontra. – seus aprendizes Carter – um garoto um pouco musculoso que parecia tenso como a mestra – e Regina. – uma garotinha morena, visivelmente a mais nova de todos ali, sorriu agarrada à perna de Cassandra. — E Seth, mestre da classe Giebra. – o homem sorriu e mostrou a raposa em seu colar. – e sua aprendiza Melanie. – a garota tinha cabelos castanhos curtos e estava descalça.
– E estes são? – perguntou Seth de modo simpático.
– Hunter, Drica, Lena, Mia e Caleb. – disse Marin os apresentando na ordem em que estavam posicionados.
– Apresentações feitas, vamos prosseguir antes que eu tenha um ataque por favor... – disse Cassandra andando nervosa como se soubesse para onde ir, seguida de seus aprendizes.
Todos seguiram Cassandra que deu a volta na escada até achar um largo e alto corredor que dava em uma grande porta, que parecia ser feita de diferentes metais e madeiras, com adornos simples. Marin se aproximou da porta e com um pequeno toque de sua mão, esta se abriu para um salão tão grande que para todas as crianças ficou claro que era enfeitiçado ou coisa do tipo para caber na mansão.
O salão era incrivelmente claro, apesar de não ter nenhuma janela. Na parede mais próxima, a esquerda da porta por onde todos entraram, haviam retângulos embutidos, cada um tinha algo dentro, e aos olhos das crianças pareciam estátuas e acima dos retângulos havia um desenho em alto relevo de um sol e uma lua juntos, como um só. Era daquela parede que vinha toda a luz do ambiente.
O chão era de mármore, e outras pedras com cores diferente e em alguns pontos era feito de ouro. Desenhado no chão havia dois arcos, um abrangendo o outro, e em cada um havia três círculos, proporcionais ao tamanho do arco em que estavam.
Cada um dos mestres colocou seus aprendizes em uma das esferas do arco maior, em seguida, estes foram para as esferas do arco menor, onde estavam quase encostados, com um pequeno espaço a frente deles.
– Podem começar. – disse Li fechando as portas e ficando do lado de fora do salão.
Quando as portas fecharam Marin, Seth e Cassandra abaixaram as cabeças ao passo em que a luz no ambiente diminuiu, exceto no espaço redondo entre os mestres, exatamente no centro do salão.
– Apresentem-se. – disse uma voz que mais parecia a mistura de milhares de vozes falando ao mesmo tempo.
– Marin, guardiã dos Ancestrais. – disse Marin colocando o cabelo para cima do ombro, deixando a mostra uma tatuagem em sua nuca de algo que seria uma pessoa com outras menores atrás.
– Seth, guardião das armas. – disse Seth passando a mão pela nuca, onde havia uma tatuagem de uma espada.
– Cassandra, guardiã dos registros. – disse Cassandra deixando a mostra sua tatuagem de pequenos livros abertos.
Ao som dessas palavras, um feixe de luz saiu do ponto iluminado, mas logo se desfez, parecendo deixar uma espécie de disco reluzente onde esteve.
– Demonstrem seus dons. — a voz disse novamente. Os mestres esticaram suas mãos, quase tocando o disco de luz. Das mãos de Marin saiu neve, que foi para o disco, como se este fosse mais profundo do que parecia. Das de Seth, raios dourados de luz, que se misturaram a neve de Marin. E das mãos de Cassandra, pareceu escorrer tinta preta, que completou a mistura. Os três continuavam com os braços esticados e as mãos abertas.
As crianças se entreolhavam sem entender o que realmente acontecia ali.
Logo, a estranha mistura se elevou pouco acima da cabeça dos mestres e assumiu o que seria a forma de dois pequenos homens, não tinham rosto, mas um era mais esguio enquanto o outro era mais forte.
– Há muito tempo atrás, — recitou Cassandra – em um tempo em que os demônios aterrorizavam Astra, e a esperança parecia perdida, dois heróis apareceram, Solaris e Lune. – os pequenos homens giravam para todos verem. – Juntos, trouxeram paz e prosperidade novamente, tornando-se heróis. Porém, não sendo eternos, decidiram treinar aprendizes, três para cada um. – seis formas diferentes se apareceram, três mulheres e três homens, abaixo das duas iniciais. – Os de Solaris eram Giebra, Hélio e Torin. – estes eram evidentemente as três figuras mais imponentes. – E os de Lune, os irmãos, Caterina, Cristina e César. – eram as figuras mais esguias.
– Tudo correu bem por um tempo, — continuou Seth. – porém, Lune, começou a ver certo potencial nos demônios, no poder de suas almas e ficou cada vez mais insano, assim como seus aprendizes. Sem saída, Solaris e os seus, tiveram de enfrentá-los. – uma pequena batalha se formou entre as figuras. – Mas Solaris prevaleceu e Lune e seus aprendizes foram completamente destruídos. – as quatro figuras que representavam estes, sumiram. – Mas desolado com a morte do irmão, o Pai dos Guerreiros decidiu ir embora, deixando o reino para seus aprendizes, sem estes saberem para onde seu mestre ia.
– Os três aprendizes ficaram conhecidos como Primeira Geração, — continuou Marin. – cada um deles teve seus aprendizes, e assim por diante mantendo nosso legado vivo até os dias de hoje. O que vocês vêm ali, — ela apontou para a parede. – são nossos antecessores, é como uma árvore genealógica invertida, começando nos Irmãos, depois seus aprendizes. – só então as crianças perceberam que abaixo de três retângulos no topo, não havia nada, já que os aprendizes de Lune, não viveram o suficiente para ter seus próprios aprendizes. – Quando um Guerreiro morre, vem para cá. Nós somos da Quinta Geração, alguns da Quarta ainda vivem. E vocês serão a Sexta Geração.
O salão ficou completamente escuro por um segundo, mas logo se tornou claro novamente. Os mestres acenaram para que seus aprendizes ficassem em fila, lado a lado, e fizeram o mesmo. Cassandra fechou os olhos e estendeu as mãos e ali apareceu um livro incrivelmente grosso com algumas folhas amareladas e capa de couro. Ele flutuava na frente da mulher enquanto ela passava as páginas até encontrar a que procurava.
– Vamos começar os registros. – disse Cassandra.
– Vou pedir para Li trazer as armas. – disse Seth saindo do salão.
~*~
– A iniciação começou... – disse uma voz esganiçada. – Estão começando... – as mãos ossudas da criatura tremiam como se ela estivesse tendo um ataque.
– Acalme-se, senhor. – disse uma voz mais forte e altiva. – Ainda precisa descansar.
– Gostaria de saber o gosto do sangue deles...
~*~
Seth havia trazido para o salão uma grande mesa de madeira com todo tipo de arma ali, todos os aprendizes só se perguntavam para que, já que nenhum deles sabia usar uma delas.
– Comecemos com os líderes. – proclamou Cassandra pondo a mão em cima do livro. – Os mestres devem escolher um líder para a equipe de seus aprendizes.
– Melanie. – disse Seth rapidamente.
– Caleb. – disse Marin firmemente enquanto o garoto a encarava de volta sem saber por que ela o tinha escolhido.
– Carter. — finalizou Cassandra e Regina assentiu para ela sinalizando que não esperava uma decisão diferente. A mulher fez novamente o líquido negro sair de suas mãos e cair no livro. – Agora, a demonstração de dons. Começando pela Classe Giebra.
Melanie arregalou os olhos, entendendo o recado, ela olhou nervosa para Seth, que somente assentiu. A garota deu alguns passou para longe dos outros aprendizes, respirando devagar. Posicionou-se como se fosse começar uma corrida, esticou cada dedo dos pés e correu. Por um instante tudo ficou normal, mas logo a velocidade da corrida aumentou e Melanie era somente um borrão branco correndo em círculos pelo salão. Alguns segundos depois ela parou, ajeitando os curtos cabelos e voltou para seu lugar na fila, recebendo um olhar orgulhoso de Seth.
– Classe Hélio. – disse Cassandra enquanto mais líquido negro, que agora os pequenos percebiam ser tinta, escorria para o livro. Marin ficou calada esperando as crianças se manifestarem.
Caleb deu um passo à frente, por algum motivo era o líder, então deveria ter iniciativa. O garoto simplesmente se abaixou, absorveu o mármore e esperou os olhares que vieram em seguida e voltou para seu lugar.
Lena respirou fundo e foi para a frente, determinada a ser rápida e voltar a ficar quieta. Pegou o grampo de sua mãe, que estava em seu cabelo e o fez virar uma lança, que exibiu o mais ligeiramente que pode antes de trazer o grampo de volta e voltar quase que correndo para onde estava.
Mia andou para frente de todos, olhando para o chão, fechou os olhos e moveu as mãos delicadamente de um lado para o outro que logo acompanhavam o movimento de uma brisa que ela produzira. Em seguida, Melanie sentiu seus pés formigarem, até perceber que a poeira embaixo deles voou para a garota que fizera o vento. A fina poeira se juntou, formando uma quase minúscula pedrinha, que pegou fogo, mas logo foi apagada pelas gotas de suor de Mia. A garota tentou uma pequena reverência e voltou para junto dos amigos.
Hunter se posicionou na frente de todos tão envergonhado quanto Mia, mas conseguiu transformar seus braços em asas e seu rosto em um focinho para logo depois transformar suas unhas em garras e machucar violentamente seu rosto, surpreendendo a todos, e ficar de joelhos no chão depois de acenar para Drica.
A pequena ruiva foi para perto de Hunter, ela realmente não sabia como demonstrar seu dom, mas ele com certeza havia exagerado. Ela posicionou as mãos ao redor da cabeça do amigo e logo os ferimentos deste foram curados e ambos voltaram para a fila.
Marin continha um sorriso travesso, imaginando o que os outros mestres teriam achado da apresentação de seus aprendizes.
– E agora, a Classe Torin. – declarou Cassandra com um sorriso.
Carter deu dois passos a frente com Regina agarrada firmemente ao seu braço, ele afastou a pequena delicadamente, antes de levantar seus braços fazê-los crescer de modo desproporcional ao seu corpo e bater com eles no chão, demonstrando que não só tinham tamanho como também força. Depois de fazer os membros voltarem ao normal, delicadamente empurrou Regina mais para frente.
A menor estendeu as mãos perto de seu corpo e fios brancos saíram de ambas e se misturaram formando o que seria um pássaro. A pequena ave voou pelo salão até bater em uma parede e voltar a ser fios brancos, que logo sumiram.
– Perfeito. – disse Cassandra, enquanto seus aprendizes voltavam aos seus lugares. – O registro de dons naturais está completo. Agora vamos à escolha das armas.
Dito isso, os três mestres se aproximaram da mesa de madeira e separaram algumas armas.
– Nós não deveríamos escolher? – perguntou Melanie.
– Não, os mestres é quem escolhem as armas de seus aprendizes. – respondeu Marin.
– Mas e... E se vocês se enganarem? – indagou Carter.
– Nunca, os mestres se enganaram na escolha das armas. – esclareceu Seth.
Levou pelo menos mais dez minutos para os mestres pararem de mexer na mesa e contemplarem suas escolhas. Cassandra fez o livro se aproximar dela e ficar de lado, assim todos puderam ver as palavras escritas neste. A mulher estendeu novamente sua mão em cima do livro.
– Pode começar, Seth. – disse ela. Seth tirou uma bainha de espada da mesa, uma bainha para ser usada nas costas, levou até Melanie e a entregou.
– Espadas duplas. – declarou o mestre com um sorriso enquanto a menina tirava o que parecia ser só uma espada da bainha, mas se dividiu em suas mãos. Eram espadas com lâminas finas e que faziam um corte preciso. Cassandra fez a tinta escorrer de seus dedos novamente e todos puderam vê-la formar palavras quando tocava no livro.
– Marin. – disse e esta somente fez um sinal para suas crianças irem até ela em fila.
– Lena, adagas. – disse entregando um cinto de couro com várias adagas para a menina, enquanto Cassandra fazia o registro. – Hunter, lança. – o pequeno olhava fascinado para a ponta de sua arma, pelo menos duas cabeças mais alta do que ele. – Mia, arco e flecha. – entregou a menina um arco grande e uma aljava. – Drica, machado. – a ruiva quase deixou sua arma cair de tão pesada que era, mas conseguiu sustentá-la. – E Caleb, uma espada longa. – o menino recebeu a bainha, maior do que ele, confuso.
– Eu não preciso de um escudo? – perguntou.
– O cabo dela é de aço, ou seja, você pode ser seu próprio escudo. – disse a mestra com um sorriso. Enquanto Cassandra terminava de “escrever”, as crianças foram para seus lugares.
– É nossa vez. – disse Cassandra para seus aprendizes que foram até ela.
– Carter, uma espada e um escudo. – a espada de Carter era visivelmente maior e mais pesada do que a de Caleb, e o escudo redondo e de aço estava em uma espécie de bainha, para se colocar nas costas. – E Regina, um punhal. – a pequena examinava sua arma com grande apreço enquanto voltava para junto dos outros.
Os mestres estudaram cuidadosamente o grande livro enquanto os pequenos examinavam suas armas, todas eram adornadas e era possível perceber que foram feitas levando em conta os mínimos detalhes.
– Tudo pronto. – disse Seth esfregando as mãos enquanto Cassandra levava o livro para um espaço na parede ao lado dos falecidos Guerreiros, onde ficaria seguro, como estes, e Marin ia até a porta pegar uma enorme bandeja com Li. – Agora a minha parte favorita, quando vocês serão Guerreiros, oficialmente.
Quando Marin chegou ao lado dele e abaixou a bandeja, os pequenos puderam ver os oito colares que havia ali, colares como o de seus mestres. A mulher de cabelos brancos sorria assim como seus amigos ao vê-los entregar os colares para as crianças e colocá-los em seus pescoços.
Cada um dos pequenos segurava em uma das mãos sua arma, e na outra o pingente de seu colar. Todos eram de ouro, um círculo com um animal dentro. Uma raposa com olhos de esmeraldas para Melanie, corvos com olhos de ametistas para Caleb, Drica, Lena, Hunter e Mia, e lontras com olhos de opala para Carter e Regina.
A euforia de todos era indescritível, aquilo era o começo não só de uma vida nova para todos, mas de algo muito maior também.
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