Classe dos Guerreiros - A Sexta Geração
4 Novo Lar

A carruagem passou por uma cidade movimentada, muito diferente de Urano. Era visivelmente mais rica e estruturada, depois entraram em uma floresta.
Uma a uma as crianças acordaram, e viram Marin olhando para a janela, seguiram seu olhar e viram uma grande construção branca, poderia ser um templo ou uma mansão. Ficava em cima de uma colina e uma trilha levava até lá.
– Bonito não? – comentou a mulher de cabelos brancos. – Essa vai ser a nova casa de vocês. – as cinco crianças pareciam impressionadas. Continuaram o caminho pela floresta por mais alguns minutos até chegarem ao início da trilha que levaria a grande construção, então a carruagem parou. – Vamos descer, daqui temos que ir a pé. – disse Marin abrindo a porta da carruagem, quando todos saíram desta, ouviram um som estranho.
Alguma coisa estava chegando pela floresta. Marin ficou na frente das crianças, se preparando para o pior. Foi então que eles apareceram, três demônios. Tinham formas humanoides, mas seus corpos eram lisos com um tom estranho de marrom e magros o suficiente para ser possível ver seus ossos sob a pele. Seus olhos eram completamente cinzas, se moviam de modo estranho e soltaram gritos agudos e grotescos que fizeram as cabeças das crianças doerem.
– Vão para a trilha. – disse Marin entredentes e devagar, os pequenos se moveram na direção da trilha.
Os demônios bateram os dentes afiados avidamente fazendo barulho e correram na direção de Marin, esta foi até a parte de trás da carruagem e tirou algo de lá, que usou para bater em um dos demônios que foi arremessado. Era uma alabarda. Marin girou esta nas mãos enquanto os outros dois demônios a encaravam, estavam num impasse.
O demônio que voara, caiu perto dos garotos, que pararam assustados ao ver a criatura ali, e o encararam um segundo. Até que este abriu os olhos e se levantou de quatro, com a cabeça invertida e gritou indo atrás dos pequenos, que correram mais rápido em direção à trilha. Hunter tropeçou ao chegar nesta, e o demônioo teria pego, mas foi impedido por uma espécie de parede invisível. O garoto olhava enquanto a centímetros de distância de si, a criatura arranhava e babava no escudo invisível, as outras crianças o puxaram para alguns metros dali.
Marin ainda fitava as outras duas criaturas, que pareciam impacientes, e logo avançaram para ela, que fez o mesmo, prendendo um deles em uma árvore com a ponta de sua arma. A criatura se contorceu e tornou a gritar enquanto a mulher o pressionava mais na árvore, estendeu sua mão e a árvore se prendeu ao demônio.
Tirou a alabarda da criatura e a girou a tempo de cortar a outra que estava atrás dela, deixando somente a cabeça rosnando, e avançou para o último demônio, que tentava inutilmente romper o campo de força, e cortou sua cabeça, fazendo o corpo inerte da criatura deslizar pelo escudo até o chão.
Marin, um pouco ofegante, se curvou sobre os restos do demônio, e recitou algum encanto. Os olhos da criatura brilharam, e seu corpo murchou. A mulher repetiu o processo com os outros dois e foi até as crianças.
– Isso que vocês viram... – falou limpando a lâmina de sua alabarda na grama. – Foi só uma amostra do que os Guerreiros fazem. – os cinco arregalaram os olhos, impressionados. – Agora vamos, venham conhecer sua nova casa.
~*~
A caminhada na trilha levou um pouco mais de cinco minutos, logo estavam na frente da construção. De fato, era uma grande mansão, e suas paredes brancas e pilares de pedra davam a impressão de ser um templo. Mas essa era a ideia, a Casa Principal era tanto uma casa como um local sagrado, e logo as crianças saberiam o por que.
– Bem vindos à Casa Principal! – anunciou Marin quando estavam na frente da construção.- Venham, vamos entrar. Está tudo preparado para a chegada de vocês. – nenhum dos cinco deu uma palavra.
Quando Marin abriu as portas, viram-se em uma enorme sala bem iluminada e cheia de quadros, com uma grande escadaria e vários corredores. A mulher os guiou pela escada, que deu em outro corredor, entraram na primeira porta a direita.
– Este é o quarto de vocês. – dentro do enorme cômodo, havia cinco camas com baús aos seus pés, criados mudos e um espelho ao lado de cada. Todos teriam muito espaço ali. – Podem escolher suas camas. – a mais velha disse dando um empurrãozinho nos pequenos.
Mia pegou a cama do canto direito, por ser a que ficava na janela, para poder ver as estrelas, Caleb a do canto oposto por gostar de dormir virado para uma parede, Hunter pegou a do lado deste para poder ficar perto do único outro garoto ali, Lena pegou a do lado de Mia para poder acordar com o Sol da manhã no rosto e Drica pegou a do meio, por ser a que sobrara.
– Bem, estão vendo aquelas portas? – Marin apontou para duas portas finas que ficavam na parede oposta a das camas. – São salas de banho. A perto da janela é feminina e a da porta a masculina. Tem toalhas e roupas limpas ali dentro e vocês estão bem sujos então... – as crianças entenderam o recado. – Voltarei quando terminarem.
Ao ficarem sozinhas, as crianças se entreolharam em um silêncio desagradável e entraram nas salas de banho. Ambas eram idênticas. Quase o espaço todo era preenchido por uma banheira de água quente que tinha algumas fontes que jorravam água como chuveiros, e no canto dois sanitários separados por uma parede feita do mesmo mármore do resto do lugar.
Os pequenos não estavam exatamente acostumados a ter privacidade, então não tiveram problemas em tomar banho uns com os outros. Nas duas salas ninguém falou nada. Somente se banharam como se aquilo fosse apagar as marcas de seus passados e até se sentiram melhor ao terminarem. No canto direito da banheira havia um cabide com toalhas e embaixo deste, pilhas de roupas, cada um com um papel com o nome de cada um deles.
As roupas dos garotos eram quase idênticas, calças leve e sandálias, somente o tecido das blusas era diferente, a de Hunter parecia uma blusa de frio, com gola e feita de algodão, a de Caleb tinha mangas curtas e era feita de malha. As meninas também receberam roupas quase iguais, cada uma ganhou um vestido com mangas até o cotovelo, somente os sapatos eram diferentes, Mia tinha botas, Lena sapatilhas e Drica sapatos comuns. Ao saírem das salas de banho e se entreolharem todos, viram que suas roupas tinham somente as cores de preto, branco e cinza. Quase um padrão fantasmagórico e sem graça que os assustou.
Guardaram suas roupas velhas nos baús, somente Mia pegou uma espécie de lenço que lavara no banho e amarrou no pulso, e ajeitaram os cabelos com pentes que havia nos criados mudos. Terminado tudo isso, Marin voltou ao quarto com uma garrafa de vidro dourada e com um formato mais oval na parte debaixo.
– Cada um: dê um gole. – ordenou e assim cada uma das crianças o fez. O líquido na garrafa era mais azedo do que qualquer coisa que algum deles já provara, mas logo seus corpos ficaram quentes, e seus ferimentos se fecharam, até mesmo Drica parecia melhor. – Perfeito! – disse Marin pegando a garrafa de volta. – Agora venham, devem estar com fome. – nenhum dos cindo quis admitir, mas realmente estavam famintos. A mulher os levou escada abaixo e para uma porta no andar térreo, esta dava para uma imensa sala de jantar, com uma mesa grande o suficiente para vinte pessoas, repleta de comida.
Os cinco correram e sentaram se nas laterais da mesa, admiraram a variedade de alimentos. Havia todo tipo de carne, risoto ou qualquer outra comida que já haviam visto.
– O que estão esperando? Podem comer. – disse a mulher de cabelos brancos. Parecia que as crianças estavam esperando por aquilo. Logo, encheram seus pratos e comiam se sujando, mas sem ligar para isso. Uma mulher pálida entrou com uma jarra de água e encheu os copos deles, que tão concentrados, não perceberam a figura.
– Mais alguma coisa, senhora? — a mulher perguntou para Marin, que estava sentada na ponta da mesa fitando as crianças.
– Não obrigada... Pode descansar, Li.
– Sim, senhora.
Marin observava os cinco comerem com a mesma curiosidade que os viu dormir. Eram muito mais educados do que ela quando chegara. Ela simplesmente afundara as mãos em um frango enquanto o irmão esfregava o rosto em uma tigela com purê de batatas enquanto aquelas crianças lembravam de usar os talheres.
~*~
Quando todas as travessas estavam vazias, Li as levou de volta para a cozinha e Marin ficou sozinha com as crianças na mesa.
– Bem, agora que estão todos melhores... Chegou a parte chata disso tudo. – os pequenos olharam para ela. – Sei que com certeza não querem falar disso com uma completa estranha... Mas eu preciso saber de suas histórias. Sei que têm família em algum lugar... E mesmo que me doa... Tenho que contatá-las. – todos ficaram de cabeça baixa. – Damas primeiro. Mia? – a menina olhou nos olhos cinzentos de Marin. – Pode começar? – ela continuou quieta. – Acho que posso começar para você... Pelas suas roupas e esse seu lenço, posso dizer que você é uma cigana. Certo? – Mia balançou a cabeça positivamente. – E eu sei que há um século mais ou menos, os ciganos mudaram de ideia quanto à magia. Ela virou motivo para ser expulso do clã... Seus cabelos recém-cortados mostra isso. Mulheres ciganas têm cabelos longos, e quando são expulsas tem os cabelos cortados e eu aposto que esse lenço tem a marca de seu clã.
Mia tirou o pano do pulso e o estendeu na mesa, era lilás tinha um padrão de pequenos e finos desenhos de cor roxa, quase como finas raízes enroscadas e uma mancha negra no meio, como de queimado, estragava o artefato, mas pequenos detalhes vermelhos na ponta da mancha dizia que ali embaixo existia um desenho.
– Está certa. – disse a menina. – Sou do Clã Alighieri... Meus pais morreram anos atrás e minha tia cuidou de mim, mas... Todos já sabiam da minha magia, minha tia me protegia deles, porém... Ela morreu recentemente e era a oportunidade que todos esperavam. Somos peregrinos então, quando chegamos perto de uma floresta... – ela se encolheu com as lembranças. – Me tiraram da minha tenda, cortaram meu cabelo e apagaram meu lenço... Nossa líder sempre odiou minha família, ela queria me matar. Depois de me jogar na floresta ela mandou alguns para fazer isso, mas eu consegui fugir.
– Entendo... – disse a mulher. – Drica? – a ruiva abraçou os ombros. – Posso dizer o óbvio... Sua família quis se aproveitar de seu poder de cura não é?
– Sim... Eles surgiram já alguns meses... Meus pais são fazendeiros, mas minha mãe morreu ano passado picada por um escorpião. Desde então meu pai não trabalhou do mesmo jeito, a safra nunca mais foi boa ou deu lucro... Quando meus poderes apareceram, ele não perdeu tempo. Todo dia apareciam dezenas de pessoa na nossa casa... E eu curava todas elas... Fiz todo tipo de coisa, mas... No dia em que fui embora de casa... Aconteceu a pior de todas.
– O que aconteceu? – disse Marin semicerrando os olhos.
– Uma mulher apareceu, acho que com uma criança doente... Não me lembro direito, mas... Eu usei todo o meu poder... Não... Era como se ele fosse tirado de mim... Eu achei que fosse morrer... Ela... – a menina agarrou os ombros novamente.
– Tudo bem, querida. Já pode parar, nós entendemos. – interveio a mulher. – Lena? Seus poderes foram aproveitados também não?
– É... – disse ela mexendo em seus cabelos. – Minha família é de lenhadores, eu nunca conheci meus pais, meu irmão e eu fomos criados por nosso avô, mas ele foi embora há cinco anos. Meu irmão enlouqueceu depois disso... Foi na mesma época em que meus poderes apareceram. Ele me fazia trabalhar o dia todo... Transformar troncos em móveis, metais sem valor em ouro... Uma vez eu não dormi por uma semana por isso. E ele sempre gastou tudo na cidade próxima com... Mulheres e bebida... – ela fez uma careta ao lembrar-se das noites em que o irmão chegava bêbado em casa. — então me cansei de alimentar esse vício e fugi.
– Caleb. – disse Marin depois de uma pausa.
– Eu era uma atração de circo. – disse o menino secamente. -Todos iam me ver ficar com pele de metal ou grama... Era só uma diversão para o meu pai... Ele é dono de uma grande fazenda e nunca sequer se preocupou comigo já que eu sou adotado... Me colocaram na porta dele e... Até então ele só me dizia o quanto se arrependia de ter me acolhido. Quando não estava me “apresentando” – ele fez as aspas com os dedos. – Ele me fazia absorver metal e quebrar lenha para todos na cidade ou construir coisas... E quando eu me recusava ele me batia. – disse coçando as costas. – Não foi difícil sair sem ser percebido...
– Também passei por isso.
– Passou? – o menino falou impressionado.
– Sim... Hunter? Só falta você. – o garoto suspirou.
– Éramos eu, meus pais e meu tio... Eles são caçadores e minha mãe... Ela... – ao ver que todos o encaravam, falou rapidamente. – É esquizofrênica. Meu pai não sabe lidar direito com isso... Vivia zangado não sei por qual motivo... Eu tinha que protegê-la dele com unhas e dentes e um dia meu poder apareceu... Ele me fez de atração também, além de me mandar caçar cada dia animais maiores... Um urso quase arrancou minha costela um dia. Ele dizia que se eu não obedecesse... Minha mãe é quem iria pagar. Eu aguentei tanto tempo por causa dela... Então, acho que em um momento de lucidez... Ela me disse para sair de casa. E assim eu fiz. – Marin ficou um tempo calada.
– Sinto muito. – disse por fim. – Por todos vocês. Nunca é fácil... A magia deixou de ser algo comum e fácil de aceitar. Isso que vocês têm se chama: dom natural. Todos os Guerreiros têm um, é uma habilidade mágica extremamente forte que não precisam aprender, usam por instinto. Algo muito raro... A maioria que nasce com magia hoje só... Tem esse poder dentro de si e em determinados momentos se manifestam, mas não passa disso. Os de vocês são incrivelmente raros.
– Por quê? – perguntou Drica.
– Mia pode controlar a natureza, Lena, Hunter e Caleb são unidos a ela e você minha querida... Controla energia. É quase como estar unida a própria vida. – todos os cinco arregalaram os olhos. – Dons naturais dessas categorias são muito raros. Agora... Eu preciso que me digam onde são suas casas... Tenho que chamar seus familiares para estarem aqui no máximo até amanhã à tarde. – as crianças tremeram. – Me desculpem, mas... Vocês tem que enfrentar os fantasmas de seus passados. Li venha cá! – disse chamando a mulher pálida. – Preciso que mande alguns recados com sua magia...
– Sim, senhora.
As crianças se olharam. Se sentiam mais próximas agora, mas todas temiam o dia de amanhã. Sabiam como aquelas pessoas eram persuasivas... E se convencessem Marin a mandá-los embora? A voltar para suas antigas vidas? Esses e outros pensamentos os assustavam.
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