Clarity
2 Capítulo 2
Notas iniciais
Quando a vida foge ao controle acabamos por nos surpreender com seus resultados. No entanto, a falta de controle poderia muito bem ser uma ilusão, às vezes não. Contudo, pela sucessão de atos feitos, nós poderíamos ao menos ter uma noção de qual teria sido o dominó que desestabilizou todos os demais, o que de fato teria sido a ação que lhe levou a ruína.
Em um caso ao outro, você ter uma parcela maior ou menor de culpa com relação a sua condição atual, você pode ter uma conclusão consoladora sem sua cabeça. Quem nunca pensou que na vida as coisas podiam “simplesmente acontecer”? Nós seres humanos não precisaríamos saber de tudo, nem precisaríamos vencer todas as batalhas.
Aquela situação desvantajosa poderia ser uma lição que você levaria para toda a vida. Devia simplesmente deixar acontecer. Dessa forma, mesmo os acontecimentos mais “imprevistos” seriam de certa forma previstos, eles teriam significado. Com lógica, as situações poderiam ser superadas.
Mitsuba estava calma, era uma conduta diversa de quando estava no mesmo local há meses atrás. Shinoa, entretanto, dizia impropriedades enquanto era imobilizada pelos seus ex-colegas de trabalho.
Youichi tinha um sorriso de contentamento enquanto dava umas pequenas batidinhas na injeção com líquido azulado.
Seu fim estava ali, a poucos centímetros de Mitsuba, mas a garota se manteve firme. Estava fazendo isso pelo bem de Shinoa.
Há meses atrás, nunca antes teria tido semelhante conduta. Para a Mitsuba de antes, o que importava era entregar seus papéis resolvidos e assinados na data prevista. Suas memórias vinham em primeiro lugar mesmo que não tivessem nada de especial até então.
Era uma questão de sobrevivência. Quando haviam atrasos consecutivos de um funcionário, não apenas naquela empresa, o preço a ser pago era a própria identidade da pessoa. A personalidade moldada pelos sucessivos acontecimentos de sua vida se ia, então as memórias ficavam sob a vigilância de superiores, que possuíam privilégios que ninguém mais teria naquele sistema.
Pessoas do cargo e classe de Mitsuba só tinham a temer, nenhum deles poderia ter certeza que era realmente “ele mesmo” em um dado momento, pois não poderiam dizer que nunca haviam passado por um “apagão”.
Diziam-lhe que sempre teria algo faltante, a menos que se chegasse ao topo almejado. Poderia ser mentira, eles poderiam ser vazios desde o começo, todavia, tinham que se agarrar a essa esperança, de que obteriam suas “memórias perdidas” a cada promoção até se tornarem um guardião das memórias, ou teriam apenas de esperar pelo fim.
Tornar-se um “descarte” e ser enviado junto a outros para o “porão” para ser desintegrado não lhe parecia um fim simpático.
Eram pura força motora daquela sociedade, ou era o que sempre disseram a Mitsuba. Tinha em sua cabeça a imagem de sua suposta mãe lhe dizendo para sempre obedecer ao que lhe fosse pedido ou estaria perdida.
“As coisas simplesmente aconteciam por ali”
Mitsuba, portanto, trabalhou e trabalhou, bem até, pois conseguiu algumas das promoções esperadas. Todavia, nunca conseguiu chegar a linha de chegada, os cargos mais seguros. Não sabia o motivo já que se esquecia disso em algum ponto, porém, quando se dava conta, estava novamente na base da pirâmide. Não conseguia imaginar como alguém com o perfil dela poderia se sabotar, para ela era ilógico, e não poderia “simplesmente acontecer”.
Porque se colocar em perigo?
Mitsuba rascunhava em um papel uma possível causa até sentir um par de olhos sobre si. Mitsuba focou a pessoa que estava a sua frente, com alguns metros separando as mesas de ambas, e viu que se tratava de uma moça de cabelos lilases e olhos castanhos penetrantes. Shinoa, se não se enganava era esse o nome dela, lhe sorriu minimante enquanto voltava a seu serviço, Mitsuba logo teve que fazer o mesmo. Entretanto, logo que percebeu o olhar pousado sobre ela mais uma vez, a dúvida lhe ocorreu.
Shinoa poderia saber de alguma coisa já que era a mais veterana entre eles, era uma informação que Mitsuba não dava muita importância ou pelo menos dava menos que ter de cumprir seu horário até o momento. Todavia, Mitsuba teria que correr o risco que antes não tomaria, pois se houvessem mesmo insubordinações de sua parte teria de corrigi-las o quanto antes, ela poderia ser o próximo descarte.
Por quê Shinoa estaria sorrindo para ela? Mitsuba, quando teve um momento de intervalo, procurou a moça, contudo, Shinoa parecia fazer o possível e o impossível para fugir de seu alcance. Esse joguinho se manteve com o passar do tempo e isso deixou Mitsuba cada vez mais aflita, pois não podia deixar o trabalho acumular e ela à medida do tempo mais intrigada.
Mitsuba por fim perdeu a paciência e agarrou o colarinho da roupa de Shinoa no meio de um dos expedientes delas. “Isso daria encrenca na certa”. Não foi diferente. Tremeu quando viu a equipe médica mais conhecida por aquelas bandas. Todos vestiam um uniforme verde berrante e possuíam rostos muito bonitos parcialmente escondidos por máscaras.
Naquele momento lhe pareceram terríveis.
Shinoa resolveu por se aproximar de si quando já estava imóvel no chão. Shinoa lhe bagunçou o cabelo e tinha um sorriso doce nos lábios quando disse:
— Sabe, é uma pena já que você é uma gracinha, mas estamos fazendo corte de pessoal. Você não deve se lembrar, mas seus apagões já passaram do limite permitido!
Sussurrou-lhe com um tom levemente diferente, todavia, com a droga começando a circular em seu corpo não saberia identificar o que era:
“Não tenha medo... essas coisas simplesmente acontecem, sabe! ”
Apagão.
Acordar depois foi como conseguir respirar depois de um quase afogamento. Foi custoso, seu corpo tremia de um frio inexplicável. Ao tentar se abraçar, para manter o calor do corpo, sentiu como se seu corpo fizesse resistência contra as suas vontades, estava muito lento, devia estar sob o efeito da droga que havia lhe sido injetada.
Sua visão estava um borrão, portanto, não pode identificar a pessoa que se aproximava de si. Foi coberta por um manto leve que não lhe ajudava muito, mal mantinha a temperatura de seu corpo e lhe causava incômodo na pele, machucando-a de leve, era o manto ou ela que não estava como deveria?
— Então... pensava que ficaria mais tempo desacordada, mas parece que você é mesmo dura na queda Mi-chan.
“Mi-chan”. Era Shinoa... como se lembrava de Shinoa se sua memória devia ter sido apagada de vez?
— Não me venha com apelidos sua... — Mitsuba disse sem que pudesse controlar a própria língua.
A ardência na pele piorava fora que Shinoa trabalhava mais para o inimigo do que poderia ter imaginado.
— Ora, não seja tão hostil, eu salvei sua vida e memórias, afinal.
Mitsuba poderia contestar aquela afirmação, pois ela se sentia mais acabada qualquer outra coisa, até que se deu conta de uma coisa muito simples, entretanto, primordial. Ela poderia contestar a afirmação porque estava viva. Mortos não poderiam debater nada.
Shinoa, vendo a falta de resposta, deixou um selinho sobre seus lábios. Mitsuba sentiu os lábios arderem como se tivessem colocado pimenta neles, portanto, não conseguiu segurar o xingamento.
— Dói? Deve doer... vou conversar com Kimizuki-san um momento enquanto cuidam de você.
Para alguém que a pouco tempo tinha sofrido uma intervenção médica severa, a ideia não agradou Mitsuba nem um pouco. Nem ao menos podia ter certeza de que Shinoa estava mesmo do seu lado, afinal, Shinoa poderia apenas querer tortura-la um pouco mais que os outros, o motivo para tal conduta Mitsuba não conseguiria supor. Qualquer que fossem as motivações de Shinoa, se ela a tinha beijado era porque se preocupava minimamente com seu bem estar, não é mesmo? Tentou apostar nisso quando a chamou e segurou seu pulso como pode.
— Ah... quer minha companhia? Isso é tão sua cara Mi-chan! — Shinoa disse em um tom alegre — Me dê apenas um momento, que vou avisar Mikaela-san que está pronta.
Mitsuba não saberia precisar quanto tempo havia se passado até que Shinoa voltasse com o médico. Ele tinha cabelos dourados, uma expressão fechada, e uma seringa com um líquido vermelho nas mãos.
— Contou a ela? — Mikaela disse em um tom neutro para Shinoa.
— Não precisa se preocupar! Mi-chan é uma garota forte.
— Não fale por mim. — Mitsuba disse, franzindo as sobrancelhas com aborrecimento.
— Mas estou sendo sincera. — Shinoa disse com empolgação — Vamos, Mikaela-san, quero a pele fofinha e lindinha da Mi-chan volte ao seu lugar.
Ainda bem que não havia encontrado um espelho, pois a coragem que Shinoa dizia que ela tinha provavelmente teria se evaporado se visse a si mesma na ocasião.
— Como quiser, mas não se esqueça do que combinamos. — Mikaela disse colocando uma máscara branca sobre o rosto.
— Claro! — Shinoa disse, os dedos das mãos se entrelaçavam com doçura.
Se para Mitsuba já era algo de se desconfiar aquela forma de agir da outra garota, como se Shinoa escondesse alguma coisa, para Mikaela essa desconfiança já era tida como certa. Mikaela, contudo, continuou seu serviço, injetando a agulha na veia de sua paciente da vez. Mitsuba apertou os dentes com força. Era como se sua carne tivesse ganhado vida própria, ficou enjoada e dolorida com as movimentações a ponto de ficar exausta, Mitsuba acabou por apagar outra vez.
Demorou para se acostumar com a ideia de que o “porão” era mais uma espécie de cidade camuflada pela sociedade que um cemitério sem honras. Os corpos, como ela, eram recolhidos e aqueles que ainda tinham chance de sobrevivência eram tratados e recuperados, como os computadores que eram. Tratados e recuperados, mas ainda entre os vivos eram poucos os que conseguiam manter mais do que seus reflexos físicos, mais do que uma carcaça vazia.
Mitsuba era um dos poucos que Shinoa havia conseguido impedir que lhe tirassem suas memórias antes de ser descartada, então o processo de volta foi menos problemático. Ainda assim, volte e meia se via desesperada correndo por aí porque se “lembrava” de que havia estourado mais um prazo.
Também se confundia quando se pegava admirando as curvas de Shinoa e “se lembrava” que já haviam compartilhado da mesma cama. Mas isso não seria possível... não. Era bastante possível até. Afinal, por estar ali estava mais que notável que ela teria sido “outra”. Contudo, as ações de Shinoa faziam cada vez menos sentido para si, se é que algum dia já tinha feito. Se ela se importava consigo, porque ajudou aos superiores para retirá-la de seu conforto? “Sua vida tinha acabado” era uma constatação que a assombrava. Todavia, nunca antes tinha se apegado as suas memórias, e tinha de admitir para si que elas agora tinham um conteúdo louvável.
Detestava ter de ser um empecilho aos outros, portanto, ajudou no que podia, cuidou dos feridos e dos desorientados já que era a única coisa que poderia fazer no momento, e queria ao menos pagar pela ajuda de Mikaela pela medicação, que depois soube ser difícil de se adquirir dos “de cima”. Shinoa não parava quieta, sendo ela que coordenava os grupos. Em uma ocasião rara em que ficaram lado a lado para cuidarem de um paciente mais violento, resolvida a situação, Mitsuba ouviu Shinoa suspirar, lhe disse com um sorriso cansado:
— Estou feliz que ainda esteja aqui, de verdade.
Shinoa tinha dito aquilo em tom carinhoso que provavelmente não combinaria com a atuação dela, contudo, lhe era familiar.
“Não é como se eu tivesse outra escolha” era o que Mitsuba poderia ter dito, mas apenas assentiu.
Não poderia julgá-la quando era Mitsuba quem tinha pouca informação e memórias vacilantes, porém, aos poucos seus blocos de informações, mais valiosos do que nunca naquelas circunstâncias, foram se complementando e formando um quebra cabeça inusitado.
O que era real e o que era manipulado foram se expandindo em sua visão. Mitsuba em enfim fora aceita no grupo que acabaria por se encontrar no escritório de seu ex-chefe, com vias de terminar com aquele sistema opressor.
Mas ela deveria ter prestado mais atenção aos documentos que tratava com tanta determinação em terminar, eram registros de uma história que já se tinha ido, e dessa forma não interessariam a ninguém, mas continham algumas verdades que não poderiam ignorar, afinal eram fatos. Uma delas não lhe fora difícil de perceber, pois mais do que nunca viu como era difícil agarrar uma verdade. A outra verdade, entretanto, lhe custou, até que se viu sem alternativa.
Assim como era difícil alcançar uma verdade, era muito fácil perdê-la.
Quando o líquido azul foi parar em suas veias, pela última vez, seu rosto vislumbrou o rosto assustado de sua companheira. Um sorriso era mantido em seus lábios, calmo, pois mais do que nunca as palavras que Shinoa lhe tinha dito lhe fizeram sentido, ironicamente, ainda assim adequadas. “Simplesmente acontece”.
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