2020, Junho, Inglaterra, Casa dos Potter’s.

Acordei no meio da noite, não me lembro do que sonhei. Alias Froid disse que os sonhos mais importantes são os que esquecemos.

Preguiçosa, deslizei meu corpo sobre a cama e apoiei ambos os pés descalços no chão caminhando sobre o piso de Madeira até uma garrafa térmica que sempre estava com água quente. Enchi uma xícara com a água e coloquei um sache de chá nele, esse era o bom de viver na Inglaterra: sempre tinha chá.

Rumei até o sofá onde fiquei sentada bebendo meu chá observando as chamas da lareira que crepitavam em um som relaxante. Dominique, Rose e Summer já estavam dormindo, pelo visto já era tarde e o dia havia sido cansativo para todos.

Analisei tudo na maior precisão. Eu sentia saudades daquela casa, daquele quarto, da vista de Londres, do chá, ah, de tudo. Abri a janela e em um movimento tão habitual quanto dar um gole naquele chá, eu me sentei no parapeito e fiquei observando o quarto da frente.

O de Dave.

As luzes do quarto dele estavam apagadas, ele devia estar dormindo.

“Depois de ter curtido o dia inteiro com a namorada”, pensei.

Fiquei assim por um tempo, as luzes da varanda dele também estavam apagadas.

Fora isso a noite estava linda, as estrelas brilhavam no céu que estava limpo das nuvens, o clima estava agradável e de longe, acima da construção era possível ver as luzes de Londres e o tão famoso Big Bang.

“Já está tarde Clar, vai dormir”. Uma vozinha chamada bom senso apitou em minha cabeça.

Hesitei por um tempo, era ótimo ficar vendo as luzes da cidade. Sabe? Era uma espécie de terapia: você nunca está sozinho. Uma luz acessa uma apagada, uma acessa... E pelo o que eu me lembro, a minha sempre apagada.

Essa noite parecia aquela nos livros, na qual a mocinha fica na janela esperando alguém chegar e o mocinho chega à calada da noite e prepara algo especial para ela como uma musica ou algo do gênero.

E no final, vivem felizes para sempre.

Mas contos de fadas não são reais, são? E quem dera que fosse: Um príncipe e uma princesa, que enfrentaram tudo em seu caminho, e em uma reviravolta favorável do destino, tendem a ganhar. E a famosa frase é dita: E viveram felizes para sempre.

E desculpa ai Walt Disney, mas o para sempre dura muito tempo, e sempre alguém vai se cansar. Sempre.

Desisti, não iria ficar na janela sentada como uma boba-apaixonada. Minha vida estava longe de ser um conto de fadas e o meu único príncipe me traiu.

Não tinha o final feliz.

Desci do parapeito com cuidado e fechei o vidro da janela e rumo de volta à cama, decepcionada.

Espera mais Cinderela, seu príncipe já vai chegar. HÁ!

Estava a cerca de dois passos da minha cama quando uma luz fraca inunda o chão do meu quarto refletindo a sombra da janela no chão do quarto.

Não pode ser, pensei.

Viro-me rispidamente para ver o que era e meu coração remendado e costurado deu um salto: a luz do quarto de Dave estava acesa. Ouvi um pequeno resmungo de Nina que parecia muito com: “Dave? Acordado há essa hora?".

Corri até a porta da varanda a abrindo devagar, entrei no cubículo em silêncio caminhando sob o chão frio de pedra até chegar à grade, onde fiquei apoiada na grade da sacada fitando a cidade na maior maturidade.

Acendi a luz da varanda e fechei a porta e a cortina para não vir luz no quarto, queria que ele me visse. Não seria possível que se esqueceu de minha existência...

Seria?

Ouvi um rangido vindo do lado da varanda de Dave, desde sempre nos comunicávamos por paquinhas e usufruíamos de conversas durante toda a noite.

E então, meu coração deu um salto e ele apareceu: vestia uma camiseta antiga verde, uma bermuda cinza e entrou na varanda. Encarei-o prestando atenção em cada mudança de seu corpo: ele havia crescido e o cabelo estava diferente, estava com mais músculos, ele estava realmente bonito, muito diferente do menino de doze anos que me despedi há dois anos.

Ele me imitou, se apoiou na grade da varanda e ficou me encarando. Era questão de tempo até um de nós desistir do jogo so sério. Esse silêncio me deixava louca, ele tinha me visto e estava simplesmente me ignorando! Jogando como uma criança de cinco anos. Aquilo estava começando a ser ridículo.

"Desisto", proferi baixinho.

–Já que não me viu, vou embora, não tenho nada para faze...

"Claro que te vi sua boba."

A voz dele ecoou pela minha cabeça, havia sentido falta disso.

"Então por que me ignorar?" Pensei, e me virei para ele, fitando-o nos olhos.

–Não te ignorei... — Ele me disse, era a primeira vez que ouvia sua voz em dois anos.

“Sei”, pensei.

–Não te vi no aeroporto hoje. — Respondi friamente, estava magoada demais com ele.

–Isso por que não fui. — Ai. Aquilo me machucou, ele era bom nisso: palavras.

–Dave! É a primeira vez que te vejo há dois anos! Por que me evitar?! Faltando nas férias de Natal dos últimos dois anos. Ficando as férias de verão na Coreia...

Ele ficou quieto, aquilo não iria chegar a lugar nenhum, havia certeza disso.

–Certo, não precisa responder. — Virei-me rapidamente segurando o choro permanecendo reta.

Dei alguns passos, estava na porta da varanda, subi as cortinas e abri a porta, levei minha mão até perto do interruptor, não apertei, pois fui interrompida.

–Você gostava dele? — Ele diz célere, olhando para baixo. Sabia a quem se referia.

–Austin? — Ainda estava de costas para Dave. Ele sabia.

–Sim. — Ele disse friamente, virei um pouco minha cabeça de modo a olha-lo pelos ombros, estava quase conseguindo segurar o choro, sou orgulhosa demais para chorar na frente dele.

–Sim, eu o amava — Encontrei os olhos dele, não iria perguntar sobre a Brittany, pois já saberia o que ele iria me responder e não conseguiria suportar as lágrimas. Apenas pressionei o interruptor e sai da varanda, deixando ela como anteriormente.

Corri até minha cama onde abracei meu travesseiro e chorei baixinho, ele não poderia me ouvir.