Clarice está em crise
5 Thomas
IV
Heather não parecia surpresa, o que me levava a acreditar que eu tinha sido a única a tê-lo visto na última noite. Reconheci-o instantaneamente, ainda que muitas das memórias da noite passada continuassem um borrão em minha mente; mas não aqueles olhos castanhos, não. O cara que havia me ajudado na festa, que eu sequer sabia dizer o nome, que quase havia derrubado na escada… Nosso professor?
— Nossa — ela disse, não como um sussurro — Esse colégio está realmente começando a ficar interessante.
Ele deve ter escutado, porque nos encarou por um bom tempo. Eu estava literalmente pálida. Ele não parecia estar muito preocupado com a minha presença ali, embora seu olhar tivesse se demorado um bocado em mim. Por outro lado, eu estava suando frio e minhas mãos tremiam como se precisassem agarrar qualquer coisa, talvez para aliviar o estresse. Eu sinceramente não sabia porque estava me sentindo daquele jeito; se alguém tivesse que se dar mal naquela história toda, esse seria o suposto professor parado à nossa frente.
Puxei a cadeira mais ao fundo da sala que encontrei, e afundei-me nela como se pudesse fazer com que me engolisse e me levasse para bem longe dali. Senti uma confusão de sentimentos que iam de vergonha, constrangimento e incerteza à uma dúvida que me recorria como um zumbido de uma mosca: o que diabos um professor de ensino-médio estaria fazendo numa festa como a que estávamos?
Fiquei parada como uma estátua, sem ao menos olhar para o lado, fitando a lousa do quadro de longe. Ele escreveu no canto do quadro negro:
Thomas
Física
03.08.2008
A classe permaneceu em silêncio, esperando que ele dissesse alguma coisa. Quando se virou para nós, abriu um largo sorriso — que, a propósito, era lindo —, apoiando-se no suporte da lousa.
— Antes que perguntem pela sra. Yates, ela entrou em trabalho de parto na última sexta-feira e eu sou seu professor substituto até segunda ordem. Dúvidas?
Silêncio. Thomas procurou algo em sua mochila, retirando de lá um óculos de grau. Colocou-os, coçou a barba e esperou que a sala explodisse em burburinhos novamente. Quando isso aconteceu, e não levou muito tempo, ele apanhou seu pincel e começou a passar alguns exercícios teóricos sobre óptica para revisão. Enquanto copiávamos o conteúdo, Heather e eu trocamos algumas piadas sobre a postura do professor, que parecia uma réplica vinte anos mais jovem e mais bonita do sr. Harrison.
O resto da aula passou rapidamente, visto que Thomas não aparentava estar muito afim de articular com a classe, limitando-se ao conteúdo no quadro. Consequência da noite passada, concluí. Decidi não contar nada a Heather, afinal ele iria embora em pouco tempo, e seria só mais um motivo para que ela tirasse sarro de mim. Ele foi embora sem sequer desviar seu olhar para nós (ou mais especificamente, para mim), como se não tivesse me notado ali ou não se lembrasse do que havia acontecido. Tanto faz. Eu não precisava de um professor de física que soubesse que eu havia me drogado e quase desmaiado numa festa qualquer.
Heather e eu voltamos para casa juntas, dispensando a oferta de carona de Jesse, que estava parado do lado de fora da escola quando saímos. Ele parecia realmente arrependido, e diferente de nós, não parecia ter sofrido dano nenhum da bebedeira e tudo o mais. Heather não falou com ele, evitou seu olhar e até as mensagens que mandou enquanto nos esperava com o carro estacionado. Viramos à próxima esquina, ignorando-o.
— Sua mãe? — perguntei, estranhando seu comportamento.
— É. — ela respondeu apenas.
O resto da tarde passou sem que nada de extraordinário acontecesse. Quando minha mãe voltou do trabalho, e essa hora já se passava das sete da noite, ela não subiu para falar comigo e não a escutei preparar nada na cozinha; antes de dormir, fiz sanduíches e deixei um bilhete debaixo da porta de seu quarto pedindo desculpas.
Senti que tudo voltaria. A depressão, os sonhos ruins, os calafrios à noite. Eu tinha tudo ali. Não tomava mais meus remédios, não precisava mais ir às consultas, não havia nada em meu comportamento que dissesse que eu estava doente. Acho que esse tipo de coisa vem antes de literalmente vir. Já fazia um bom tempo desde que tudo havia acontecido, e sinceramente tinha sido a pior fase de toda a minha vida. Eu devia muito à Heather e à minha mãe por isso, por ter melhorado e me recuperado. Recuperação?
Como é que se recupera de algo que já está em você?
Não, eu não acreditava naquela bobagem de recuperação e auto-piedade. Eu não me achava a pior pessoa do mundo e não queria que aquele fosse o fim da linha, mas algo dentro de mim me forçava a acreditar que sim. E essa é a pior parte de não poder controlar seus próprios pensamentos. De qualquer maneira, ali estava eu. Clarice, dezessete anos de idade, à beira de um colapso nervoso sem aparente motivação. O que mais poderia dar errado?
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