Notas iniciais
Oi gente, essa é uma oneshot já meio antiga, mas espero que gostem! Beijos e boa leitura!

Tinha olhos lindos, a doce Clarice. Grandes e arredondados, suas íris de um verde intenso e intrigante acompanhadas por longos e espessos cílios lhe atribuíam tamanha suavidade à sua face angelical. Seus lábios carnudos e puramente bem-delineados lhe conferiam tal inconfundível serenidade, junto de suas pálidas maçãs do rosto que contrastavam com um tom de pele lácteo de textura tão macia.

– Tão linda.

Sorria em deleite, mordiscando o lábio inferior enquanto brincava com uma mecha de cabelo loira e sedosa.

– Acha mesmo?

Sua voz era como o ressoar do mais comovente coro de anjos. Tão bela, a jovem Clarice. E tão pura... Certamente mais do que ele algum dia chegaria a merecer. Mais do que o próprio mundo em que vivia poderia ser capaz de merecer.

– Estou certo disso. É a mais linda mulher que já vi. – afirmou, cheio de verdade, demorando-se em seu sorriso tênue. Então beijou seus lábios com leveza, tomando-a com cautela.

Adorava receber elogios, como qualquer outra dama. Mas seu maior prazer estava em receber presentes, graça esta que lhe era concedida com frequência. Caros e sofisticados, de preferência, para que pudessem combinar com ela própria. Pérolas eram o que mais gostava de ganhar, e como estas lhe caíam perfeitamente. Felizmente, o dinheiro nunca fora um problema para seu noivo.

Milionário e agradável, em seus plenos cinquenta e seis anos, não compreendia o que levara a inocente jovem de dezenove anos a cair de amores por ele. Era virgem, ou assim dizia. Uma flor que nunca havia sido colhida. Recusava veemente o sexo antes do casamento, religiosa como afirmava ser.

Deitou-se ao seu lado, mantendo uma fina camada de ar entre os dois, separando-os. Observou-a com certa curiosidade. Suas pálpebras estavam cerradas, e seus dedos frágeis se fechavam em volta de uma cruz de madeira antiga. De seus lábios saíam preces silenciosas que denunciavam que ainda não havia dormido. Após alguns segundos, abriu os olhos, sorrindo ao encontrá-lo ao seu lado.

– Boa noite, meu amor. – sussurrou enquanto seus lábios lhe roçavam a testa.

Algum tempo depois, as luzes foram apagadas, e o quarto logo fora engolido pela penumbra enegrecida que as sombras da noite lançavam. Encolhido no lado esquerdo da cama, ele se pegava lembrando de quando sua mão havia pedido, poucos meses atrás.

Havia luzes por toda parte e fogos de artifício espalhados pelo céu, com toda sua cor refletida pelo oceano pacífico. E eram apenas os dois dentro de uma vasta imensidão, celebrando dentro de seu mais novo iate, como num sonho ou ilusão. E talvez fosse mesmo.

O casamento estava para chegar, e Clarice momentaneamente tagarelava sobre a grande festa que planejavam dar. Era o principal assunto de jornais e revistas, a essa altura. Dizia-lhe que todo esse planejamento lhe era muito estressante, e, por esse motivo, ele a vivia presenteando, agradando-a, e a jovem parecia amá-lo cada vez mais e mais. Comprava-lhe caros vestidos, sapatos, bolsas, pulseiras, colares e perfumes, e, naquele ensolarado dia de primavera, não fora diferente.

Saíra de manhã bem cedo, deixando um bilhete no criado-mudo anunciando que voltaria bem mais tarde, esperando uma longa viagem à cidade vizinha, conhecida por seu intenso — e geralmente confiável — comércio de diamantes. Comprou-lhe o colar pelo qual ela havia se apaixonado dias atrás, que consistia em minúsculas e reluzentes pedras do mineral ligadas por um fio transparente, quase invisível. Felizmente – ou infelizmente -, a viagem levou menos tempo que o esperado, e logo estava de volta à sua mansão.

Ao entrar, percorreu os longos corredores em silêncio. Seus passos ecoavam debilmente no piso de mármore. A caminhada parecia eterna, até que chegou à suíte principal. A porta estava fechada, mas dela escapavam gemidos ardentes.

Não se preocupou em bater, temendo que algo houvesse acontecido à sua amada Clarice, cuja face imaginava encontrar escondida nas mãos, chorando. No entanto, ao abrir a porta, a cena que brotara diante de si era diferente da esperada.

Deparou-se com o corpo de sua bela e ingênua noiva nu, espremido embaixo de uma figura masculina, igualmente despida. Seus gemidos arranhavam o quarto e multiplicavam-se pela casa, ecoando tortuosamente, numa sinfonia que ele jamais esqueceria.

Não notaram o homem grisalho parado à soleira da porta, até que fosse à cozinha e voltasse com uma faca afiada e reluzente em mãos, que enfiou nas costas do amante sem hesitar.

Estava tomado por uma fúria incontrolável. Ousara o cretino tomar-lhe o que mais prezava: a inocência de sua tão amada Clarice. Arruinara-a e a desonrara brutalmente, e tal visão o angustiava, fazendo sua fúria contorcer-se em uníssono com uma loucura impetuosa que mantinha guardada dentro de si, numa perigosa dança que cumularia na mais brutal chama.

O sangue do sujeito infestou o quarto com um cheiro desagradável, e manchou os caros lençóis de milhares de fios de seda egípcia em carmim, irrevogável.

Clarice, ao perceber o que havia acontecido, afastou-se do corpo – que tão logo se tornaria um cadáver – de seu amante, encolhendo-se contra a cabeceira da cama. Seus olhos encontraram os de seu noivo, numa súplica desesperada, porém silenciosa, para que não lhe tirasse também a vida. Sua expressão amedrontada o incomodava. Vê-la naquele estado era doloroso.

Tomou-a em seus braços com cautela, apertando-a junto a si contra sua vontade. Clarice chorava, seus soluços eram sôfregos e angustiados. Todo seu corpo tremia, em solavancos.

– Está tudo bem, minha querida... – murmurou brandamente, na inútil tentativa de reconfortá-la. – Vai ficar tudo bem.

Afagou seus cabelos com delicadeza, entrelaçando seus dedos enrugados nas mechas esbranquiçadas e macias de sua amada.

Não pertencia àquele mundo, aquele cruel mundo que a deflorara, que a colhera tão impiedosamente. Não poderia deixá-la ali, para logo ser novamente ferida. Que tipo de monstro seria se o fizesse? Sua alma merecia estar livre, num lugar melhor que aquele. Não suportava tê-la daquela forma, devastada.

Afastou-a, segurando seu queixo de forma a obrigá-la a encará-lo. Demorou-se em seus lábios carnudos, admirando-os outra vez, e foi lentamente percorrendo, com o olhar, suas maçãs do rosto, exageradamente coradas — um dos efeitos do choro -, a curva suave de seu delicado nariz, até que, finalmente, olhou-a nos olhos, deixando-se perder naquele tom esverdeado incansável por alguns momentos, e, em seguida, tirando das costas do amante a faca, cortou-lhe a garganta.

Clarice arregalou os olhos, sua boca aberta num grito silencioso que nunca teria a chance de deixar escapar. Ele acariciava sua face enquanto a assistia morrer, não deixando esta de ser tão milagrosamente encantadora até mesmo nesse momento.

E, lentamente, suas maçãs do rosto foram perdendo a cor, assim como seus lábios, que agora se mostravam secos e pálidos. Tão logo, seu coração deixou de bater. Seu corpo era gélido, mas sua beleza ímpar era fervente, e não poderia ser assim desperdiçada.

Decidiu, então, empalhá-la, mantendo seu corpo inerte exatamente como fora em vida. Queria conservar sua pureza e inocência, ao menos fisicamente. Para sempre, desta vez. Sua expressão era serena, tranquila. Estava num lugar melhor agora.

Olhou-a nos olhos uma última vez, silenciosa despedida. Tinha olhos lindos, a doce Clarice.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!