Eu não sabia dirigir direito, quer dizer, eu não era uma motorista não possibilitada, só era uma jovem motorista sem muita prática.

"Vamos sair daqui", disse em voz alta, usando um tom cauteloso, okay eu estava com medo.

Liguei o carro, saí da garagem e tomei as ruas.

"Preciso de um tempo para me preparar mentalmente para isso", disse outra vez para mim mesma, ultimamente eu andava falando muito sozinha, era perturbador. Tive medo de ser esquizofrenia.

As ruas estavam praticamente inabitadas, com exceção dos drogados — arruaceiros — cafetões e prostitutas. E claro... Os vampiros.

Minha mão deslizou sobre o câmbio do carro. Segunda marcha. Acelerando. Terceira marcha. E agora para onde eu iria? Que lugar seria seguro? Que lugar seria um bom esconderijo? Rápido raciocine como uma vampira. Qual seria o ultimo lugar que Loo me procuraria, ou talvez aquele que ele nem pensasse? Porra, eu não era uma vampira, como teria a capacidade de pensar como tal? Calma. Calma.

Minha respiração estava rápida. Meu pulso latejava em meus braços, e minhas mãos estavam apertadas em torno do volante. Medo, nervosismo, e atordoamento — Me resumiam. Tomei a Avenida Principal que dava para o colégio Nebraska. Eu fui tecendo meu caminho através da noite escura, no bairro degradado de casas de tijolos. Casas quase iguais. Eu sabia onde eu estava? Não sei. Como diz aquele ditado popular: No escuro, todos os gatos são pardos. Eu ri nervosa. Pois bem, tudo naquela noite estava sombrio demais para mim.

Eu resolvi fazer a curva para esquerda e ir para a casa de Lucas. Eu não tinha muitas escolhas, tinha? Não, não tinha. E Lucas tinha dito que iria me dar “proteção”, pois então, eu daria uma chance a ele para cumprir sua promessa.

Ultrapassei dois sinais vermelhos antes de chegar lá. Uma rua ladrilhada e completamente estreita.

Eu diminuí a velocidade quando me aproximei da casa, eu não tinha ido lá muitas vezes, mas por sorte eu ainda lembrava qual era. Nada de luzes. A garagem estava aberta e vazia, claro a motocicleta de Locke não jazia lá. Eu retornei o Celta prateado do meu pai até a entrada da garagem e estacionei lá dentro. Após checar que as portas estavam travadas, desliguei os faróis. Eu esperei, temendo que a qualquer momento Locke estivesse atrás de mim como uma sombra.

Bati na porta com urgência. Uma impaciência de filme de terror me tomou. Tentei espiar lá dentro, através dos vitrais da porta, mas tudo estava escuro, não dava para ver nada. Será que Lucas estava em casa? Claro, onde mais um cara que anda com os vampiros estaria? Detalhe: Sendo ele humano.

Depois de insistir um pouco mais, ele abriu a porta. Lucas apareceu esguio e sem camisa, suas enormes olheiras arroxeadas, os cabelos cinza embaraçados, seus olhos azuis um pouco desorientados. Meus olhos decaíram imediatamente sobre seus estigmas na elevação do abdômen. As velhas impressões. Cicatrizes.

Ele sorriu como se não houvesse nada de errado na minha visita.

— Entre. Desculpe ter deixado você esperando por muito tempo. — Entrei e ele rapidamente fechou a porta.

Entrei e fiquei parada, eu tinha um nó na garganta, eu queria chorar. Meu coração caiu até meus joelhos, eu estava salva agora? Eu não sabia ao certo.

— Sou eu, ou você parece estar fugindo? — Meio óbvio NE? Meus olhos encheram de lágrimas, mas eu pisquei rapidamente tentando me recompor.

— O que você estava fazendo, por que demorou tanto para atender a porta?

— Bem, Anabela está lá em cima.... — disse envergonhado pelas entrelinhas da frase.

— Você e Anabel? — Meu queixo quase desabou. Eu senti como uma facada no coração. Digerindo isso, eu não sabia dizer o que eu pensava sobre isso.

— Você voltou com ela? — Balbuciei. Ele deixou seu olhar cair no chão. Aquela altura eu já sabia que aquilo tinha sido um erro. Ir lá tinha sido um erro. Conhecer Lucas era um erro.

Eu esperei estática.

— Esquece, vou embora. Foi um erro... — Fui em direção a porta com toda a raiva engasgada.

— Não — Ele me segurou pelo braço — Não vá. Eu não... Eu não quero que você vá embora.

— Lucas, eu não posso entender como você foi ficar tão confuso. Eu vejo que este problema não irá melhorar com o tempo, sua falta de bom senso parece ser permanente. Você ainda se lembra quem é a garota que você se deita no sentido bíblico? Você é retardado? Ela é a garota que pensou estar grávida, e tinha quatro possibilidades paternas para o suposto filho, quatro probabilidades. — Dei ênfase — Você esqueceu isso? — O sorriso dele voltou para trás dos lábios.

— Está dizendo que ela não me convém, Annie?

— É, acho que estou — Assumi — Na verdade, vocês se merecem, quero que vocês apodreçam juntos.

— Você parece estressada. — disse me impedindo de ir embora.

— Vai pro inferno! — Cuspi na sua cara.

— O que você espera que eu diga? Você está se comportando como minha namorada. Você sente raiva por eu transar com outra garota? Por eu ter outra garota no meu quarto? Ou simplesmente por ser Anabela, a estar lá? — Devolveu.

Eu senti minha raiva reascender como nunca. Aquilo era muita petulância da parte dele. Se aquilo fosse uma novela mexicana, sua cara branquela estaria marcada por cinco dedos. Meus dedos. Uma bela bufetada. Calma. Calma, outra vez.

— Se importa em explicar esse comportamento?

— Você está tão empenhado nesse relacionamento? — disse.

Ao invés de responder Lucas suspirou em frustração. Em outras palavras, ele não tinha nada. Certamente aquile rolo que ele tinha com Anabela, nada tinha haver com "relacionamento".

Eu abracei meus cotovelos e olhei para os lados.

— Podemos nunca mais falar sobre isso? — fiz a proposta.


Notas finais
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