Clair de Lune

1 Ao som de Clair de Lune


Estava tudo escuro, nem mesmo uma única luz iluminava o lugar. Do nada, um feixe de luz foi visto longe, se aproximando lentamente dele. A garotinha dançava. Uma garotinha com sapatilhas douradas. A garotinha dançava em baixo do feixe de luz, dançava uma de suas músicas favoritas de balé... Mas estava triste, mesmo dançando. A garotinha tirou o braço da cintura e o estica até ele, que esperava outro sinal de reação da garota. Quando ele iria pegar a mão da garotinha, algo o impediu. Um vidro, havia um vidro entre ele e a garotinha. Não tinha como passar, não podia fazer nada. Ele batia e gritava no vidro invisível, mas não ouvia nem sua própria voz. A garotinha abaixou a mão e parou de dançar. Ela saiu do feixe de luz e foi caminhando para a escuridão, onde a saia de seu vestido de balé começou a encher de sangue. Quanto mais longe a garotinha ia, mais escuro o lugar ficava e mais sangue aparecia no chão. O gato apareceu ao seu lado, miando e olhando o sangue, que corria em sua direção. A garotinha havia sumido, deixando as sapatilhas douradas caídas no chão. Agora ele conseguia passar. O vidro havia sumido, igual ao gato. Aquele barulho foi ouvido. Estava fraco e ia aumentando cada vez mais. Ele correu. Correu do barulho e procurava a garotinha das sapatilhas douradas. Quanto mais ele corria, ele se sentiu sendo perseguido. Ele parou do nada. O vidro havia voltado. Ele estava preso. O som que o perseguia começou a ficar forte e mais forte, quando a luz veio em direção dele, o deixando fora de si, até...

-Bom dia sr. Hatsune.

Ele havia acordado. O sol batia em seu rosto e a enfermeira Trudy estava a sua frente, com a bandeja de comida.

-Bom dia Trudy.

Enquanto Trudy arrumava a mesa de cama, ele olhou o quarto. A janela estava aberta e a cortina se movimentava para todos os lados, dançando com o vento. As flores, que estavam em cima da cômoda, estavam murchavam. Não deviam receber água há dias. A porta para o corredor estava entreaberta, podendo ver as outras enfermeiras e a vizinha de quarto, Karen, passando pelo corredor. Trudy coloca a mesa de cama em seu colo enquanto ele se senta na cama e em seguida, põe a bandeja de prata em sua frente. O celular no bolso da enfermeira começa a tocar uma música irritante. Imediatamente, Trudy pega o celular e vai para o outro lado do quarto enquanto ele pega os garfos.

-Sim? — perguntou Trudy — Oi! Sim, ele...

-É Mary, não é?

Trudy olha para ele e abaixa o telefone.

-Sim — disse Trudy — Como você sabe?

-Sabendo.

-Eu tenho que ir. Coma tudo e depois eu volto para podermos fazer os exercícios — disse Trudy.

-Não posso ficar aqui no quarto só hoje? Você sabe que dia é hoje e foi por isso que Mary ligou.

A enfermeira coloca o telefone de volta no bolso e balança a cabeça positivamente.

-Só hoje sr. Hatsune — disse Trudy.

Ela saiu porta afora e deu de cara com outra colega enfermeira, que carregava uma caixa cheia de remédios. Trudy puxou a gola do jaleco da colega.

-Aumenta a dose diária do Jonas — disse Trudy à colega — E não fala nada para o doutor. Ele está passando dos limites.

-Ok — disse a colega, assustada — Apesar de que é a 5° vez que você me pede isso nesse ano. Ano passado você me pediu três.

-Só faz o que eu estou mandando Eliza — disse Trudy.

Trudy sai correndo enquanto Eliza continua em frente no corredor, que estava mais sujo do que antes. Um branco cinza, como dizia uma das internadas. Eles não limpavam as paredes há quatro anos.

Jonas se levanta da cama e vai para o banheiro. Se olha no espelho, procurando alguma ruga, ou algo que mostrasse que estava velho. Olha depois o cabelo. Nenhum fio branco. Ele queria estar velho, queria estar com 67 anos, ou até mais. Estava lá há menos de um ano, mas parecia uma eternidade. Seu aniversário de 38 anos seria em Novembro, no mesmo mês que sua filha. Ela ia completar sete anos esse ano.

Ele saiu do banheiro e foi para a janela. De lá, o Big Ben batia suas badaladas, informando que eram oito horas da manhã, de 19 de Janeiro de 2007. A janela estava com a grade trancada com o grande cadeado cinza escuro, que estava lá bem antes dele. Ele viu uma mulher adulta. Ela estava entrando no prédio com seis enfermeiras agarradas nela, mais uma camisa de força.

-Coitada — disse Jonas, a si mesmo — Ficou presa também.

Mary estava penteando com as mãos, os longos cabelos escuros, olhando para um pequeno espelho de mão. Do nada, ela para e guarda o espelho em sua bolsa nova com cor azul escuro. Ela olha para o grande prédio cinza que há em sua frente. Era um prédio antigo, mas ainda inteiro, com a gigante placa dizendo:

Hospital Psiquiátrico Mortis.

Ela vai andando devagar, passando pelo grande portão que estava enferrujado pelo tempo e logo chega ao jardim dos labirintos. Era um grande labirinto feito de moitas que estavam verdes, bem vivas, não combinando com o prédio que estava em seu meio. Mary vai andando, passando pelos olhos dos internados, que a olhavam com raiva, nojo ou alegria. Ela se desequilibra do salto por alguns segundos, mas finge que não aconteceu nada, voltando a caminhar. Subiu as escadas de mármore, onde haviam vários internados sentados com enfermeiras ou sozinhos.

A porta de entrada rangeu assim que ela a abriu e o cheiro de gardenal inundou seu pulmão. Ninguém se importava com esse cheiro, eram todos loucos mesmo. Ela foi até a recepção, o grande balcão marrom cheio de buracos que eram tapados com desenhos das crianças internadas. Pelas suas contas, deveria ter mais de 20 desenhos ali. A recepcionista a olhou de um jeito alegre.

-Ah! Mary! — disse a recepcionista — Bem vinda de volta!

-Olá Silvia — disse Mary — Vim ver meu irmão. Você sabe que dia é hoje não é?

-É claro que sei — disse Silvia, enquanto escrevia no computador — Todos estão comentando no 4° andar.

-E nos outros andares? — perguntou Mary.

-No 1° andar eles são drogados — disse Silvia — Eles não estão nem ai para o resto do mundo além de suas próprias drogas. O 2° andar é o infantil. As crianças nunca ouviram essa história. No 3° andar é onde tem os documento e tudo mais, todos querem saber quem é o próximo internado que vai embora. E no subterrâneo...

-Nem precisa continuar — disse Mary — Aquele andar ninguém vai e ninguém se importa. Coitados dos enfermeiros que precisam ir lá.

-Nem me diga — disse Silvia — Seis já se demitiram porque iam lá.

Mary observa uma mulher com camisa de força, caminhando pelo saguão, até uma enfermeira a puxar para uma sala ao lado, que estava com a porta aberta.

-Ok, pode subir — disse Silvia — E boa sorte.

Mary sorri para Silvia e vai em direção ao elevador. Assim que ela entra, aperta o botão do 4° andar e se olha no espelho. Ela não vê que há uma criança encolhida no canto do elevador, que segurava uma boneca feita de palha. Mary olha para a criança, assustada.

-Ora... Desde quando você está ai? — perguntou Mary.

A criança não responde e se levanta, mostrando seu vestido branco rasgado. Mary começa a se afastar enquanto a criança começa a chorar.

-Meu pai me abandonou — disse a criança, chorando — Ele nunca mais veio me ver.

Sem reação, Mary pressiona o botão rapidamente do 4° andar.

-Meu pai me amava — disse a criança, parando de chorar — Minha mãe me diz que ele ainda me ama e está nos procurando.

A luz do elevador começa a piscar e Mary grita de terror. Do nada, o elevador chega ao 4° andar e um enfermeiro olha para a mulher, horrorizada.

-Senhora, o que houve? — perguntou o enfermeiro.

Mary olha para o canto do elevador, procurando a criança, mas ela havia sumido. Ela se ajeita.

-Nada — disse Mary — Eu vi uma barata.

O enfermeiro olha estranho para Mary, que começa a andar para dentro do elevador. Após ele se fechar, Mary se encosta na parede e conversa consigo mesma.

-É por isso que eu odeio vir para cá — disse Mary.

Ela caminha do elevador para o corredor do lado esquerdo e para quando fica na frente da porta com o número 403. Ela bate na porta e espera uma voz grave gritar no quarto, permitindo que ela entre. Assim que ela entra, vê seu irmão mais velho, Jonas, sentado na cama, ouvindo uma música no rádio.

Era Clair de Lune, de Claude Debussy.

Mary vai até o rádio e o desliga.

-Você não pode ficar ouvindo isso Jonas — disse Mary — Não faz bem para sua mente.

-Eu sonhei com ela — disse Jonas.

Mary largou a bolsa em cima de uma cadeira de madeira, coberta por panos.

-Com quem? — perguntou Mary.

-A Victória — disse Jonas — Ela estava dançando essa música.

-Jonas... — disse Mary. Ela senta ao seu lado — Isso são pesadelos. Você precisa esquecer isso.

-Você sabe que dia é hoje não é? — perguntou Jonas — Foi por isso que você veio aqui.

-Sim Jonas — disse Mary — Hoje faz um ano que sua esposa e sua filha morreram. Eu me lembro. E de quem foi a culpa?

-Minha — disse Jonas.

-Jonas! — disse Mary, se levantando — A culpa não foi sua! A culpa foi do motorista que bateu no carro delas!

-Mas eu não estava lá! — disse Jonas — Se eu estivesse lá, aposto que elas estariam comigo!

-Mas você não estava — disse Mary — Isso não importa. Você está vivo e é isso que importa.

Ela pega a bolsa e tira um porta retrato com a foto de uma mulher e a garotinha que estava no sonho de Jonas.

-Achei isso no seu baú — disse Mary, dando ao irmão — Achei que ia gostar de ter de volta.

Jonas pega o retrato e olha fixamente para a mulher.

-Ela era meu mundo — disse Jonas — Ela era tudo que eu tinha. Eu não tenho nada agora.

-Você tem eu irmão — disse Mary. Ela pega a bolsa e coloca no ombro — Eu preciso ir. Henry quer jantar fora hoje com as crianças. Se precisar de qualquer coisa, me liga.

-Você é o que resta do meu mundo irmãzinha — disse Jonas — Vou lhe ser eternamente grato pela sua ajuda.

-Jonas, você é da minha família — disse Mary — Eu preciso te cuidar. Além disso, você me arranjou o casamento com o Henry.

Jonas se levanta e abraça a irmã. Assim que ela sai do quarto, ele liga o rádio novamente e ouve a música.

Mary já está fora do prédio e caminhando.

-Era para você já estar morto Jonas — disse Mary.

Jonas olha para o chão e observa um papel dobrado bem na frente da porta. Ele pega o papel e assim que desdobra, vê que é um papel de uma transferência de dinheiro para outra conta.

-“Transferência de dinheiro” — leu Jonas — “Da conta de Jonas Hatsune para Mary Layday. £ 10000,00”.

Jonas olha para a janela e sente que mais alguém está ali com ele.

-Mary... O que você está aprontando? — perguntou Jonas.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.