Civic
1 Prólogo
Existe alguma coisa que nos liga ao passado. Algum tipo de força misteriosa nos puxa em direção ao antigo. Quando crianças, é super comum ficarmos até tarde vendo documentários em canais duvidosos de história sobre a construção das pirâmides ou sobre como a civilizações antigas ascenderam e caíram com uma pitada de ajuda de alienígenas e teorias da conspiração. O quê? Não é tão comum assim?
Uma atração misteriosa entre o antigo e o oculto vive em um estranho local de nossa mente.
Até pouco tempo atrás, houve um gigantesco alvoroço porque os Maias decidiram acabar o maldito calendário deles no ano de 2012. Por que alguém acharia que eles predisseram o fim do mundo? Mesmo que eles estivessem dizendo que aquele seria o tão glorioso fim da beleza que chamamos de existência, qual o motivo de acreditar em um monte de gente pelada aleatória do passado? Essa é a magia do passado. A magia das antigas culturas e povos. Nós queremos acreditar que eles tiveram algum contato alienígena ou eram extremamente inteligentes ou alguma loucura assim, essa é uma parte da natureza da civilização.
É claro que, por outro lado, nós também não podemos subestimar o poder do passado. A antiga história da maldição do faraó é tão ridiculamente hilária que foi bom aqueles arqueólogos terem morrido. Seria melhor do que morrer de vergonha, não? Liberar toxinas ao abrir tumbas e acreditar que é alguma magia antiga? Isso é demais! Não é possível ficar sem rir ao ouvir o quão estúpida a civilização pode ser, não é?
Não é?
Esta é uma história sobre o mundo, os povos e as culturas.
Esta é uma história dele, dela e deles também.
Uma história sobre agências de viagem, antigas profecias, cassinos, colegiais japonesas, dilúvios, milícias, terrorismo e assassinatos, muitos assassinatos.
Uma história sobre a civilização.
E, no final, tudo fará sentido, eu lhes garanto.
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Os camelos andavam incessantemente debaixo do forte sol. A areia refletia o horizonte como um enorme espelho e o ar vibrava como uma lagoa agitada.
Sim, qualquer um que tentasse olhar para a frente naquela temperatura toda iria encontrar algum tipo de miragem ou, talvez, quase ver as onomatopeias de calor subindo para o céu, mesmo que o calor em si não faça qualquer tipo de som descritível.
Esse era o estado dos Emirados Árabes Unidos durante a manhã do primeiro dia de 2016 e, bem, durante todas as manhãs, para ser sincero. Embora o local seja reconhecido como o pontinho civilizado em meio ao enorme banco de areia que tomava mais de 80 do país, chegar em Dubai por terra era uma aventura um tanto quanto perigosa. Aqueles que mais procuravam o serviço eram estrangeiros ocidentais que desejavam fortes emoções. A caravana os buscava em Israel, passando pelo Iraque, Arábia Saudita, Catar e, então, finalmente os Emirados. Embora Israel e os Emirados estivessem em um bom estado legal, a Arábia Saudita e o Iraque eram locais de tremendo problema.
Há uns quatrocentos anos atrás, a principal forma de executar uma pena de morte era por meio de um método conhecido como enforcamento. O enforcamento se baseia em colocar uma pessoa num laço de corda e pendurá-la pelo pescoço. Assustador, não é? Ainda mais assustador ao saber que existem três métodos diferentes de enforcamento: O de queda curta, o comum e o de queda longa. O de queda longa tem um impacto tão forte que simplesmente decapita o coitado com a força da queda e o tranco da corda. A queda comum quebra uma das vértebras da vítima e isso a faz morrer de asfixia em poucos minutos, numa morte rápida e pouco dolorosa. A queda pequena, por outro lado, não consegue quebrar nenhum osso e usa simplesmente o peso do enforcado como arma, de forma que ele vá perdendo o folego e sua cabeça pare de receber o sangue da jugular, agonizando por vinte minutos inteiros numa das mortes mais dolorosas e terríveis que alguém poderia sofrer.
Assustador, não é?
Quando um país, até hoje, continua usando um método desses como principal forma de execução, é importante tomar cuidado com o que você faz ao chegar em seu território. Se sua cultura for muito diferente, nunca se sabe quando será você que estará agonizando a alguns pés do chão.
É exatamente por isso que aquele jovem cobrava tal preço exorbitante pela viagem. Um pouco ia para a agência onde ele trabalhava, afinal, ele tinha alguns chefes bem assustadores; mas, assim como se fala em qualquer país desses lados, “não existe preço fixo” e ele precisava sobreviver nesta selva de areia.
Ele sempre dizia ser um pequeno herói, ajudando os coitados desolados do deserto a alcançar o pico da civilização. Dubai para ele era algum tipo de paraíso na terra. A ideia de prédios gigantescos parecia lhe deixar calmo, quase como se ele pudesse alcançar os céus e estar próximo do divino.
Mas esta história não é sobre ele.
É exatamente nestes enormes prédios que o Cassino Grand Tharwa se encontra. Se aguentando vivo por mais de quinze anos, o Tharwa foi se mergulhando em dividas e só sobrevive hoje por meio do famoso “jeitinho”. O dono do cassino, um senhor muito gentil que se exilou em outro país com leis mais brandas, fez com que o cassino ainda sobrevivesse por alguns anos até que um câncer tomasse seu estômago.
Nesse mesmo cassino, um garoto recém formado gastava sua pequena fortuna em apostas. Se o câncer no estômago estava a matar o dono do Tharwa, este garoto era o câncer que matava o próprio cassino. Sem perder uma vez para a banca, ele sugava o dinheiro do Cassino e do hotel onde ele se encontrava como um sanguessuga. Ah, mas não se enganem! Ele fez isso de forma totalmente genuína! Ele é considerado um grande charlatão por toda Dubai, mas qualquer um que o assiste jogar pode ter certeza que esse garoto tem algum tipo de habilidade sobrenatural. Ele acerta 100 das vezes. É quase mágico. Sim, digo isso por ser uma dessas testemunhas. Ele me lembra um ilusionista, daqueles que fazem truques na rua, embora passe a maior parte do tempo dentro de seu quarto de hotel gastando seu suado dinheiro com... comodidades.
É claro que essa maré de sorte teria um período de recuo. Não porque sua sorte foi embora, mas porque não podiam mais deixar ele tirar todo esse dinheiro sem qualquer retorno. O “jeitinho” começou a ser usado para afetar o garoto e sua habilidade mitológica com as cartas. Com o tempo, ele estava devendo tudo que tinha ao Tharwa.
E como qualquer um em Dubai sabe...
Ninguém fica muito tempo devendo ao Tharwa.
Ninguém.
Mas esta história não é sobre ele.
A Interpol já estava no caso há tantos anos quanto a duração do hotel. Se ele não tivesse fugido para outro país, poderia se dizer que a situação ainda estava nas mãos dos policiais de Dubai, mas o caso saiu da jurisdição de qualquer tipo de organização policial regional ou nacional há muito tempo. É por isso que a Interpol não podia deixar as coisas quietas. Quantas pessoas já haviam sumido por causa do Tharwa? Para ser sincero, quantas pessoas haviam sumido em Dubai só no ano que havia passado? O caso dos desaparecimentos era muito mais sério do que um simples caso de organizações criminosas.
Como um órgão de justiça internacional, a Interpol precisou de muita pesquisa para ter toda a situação bem organizada na palma de suas mãos. Eles já sabiam muito bem do dono do Cassino, eles conheciam muito bem o mágico sortudo e eles até já tinham informações até sobre o guia turístico aventureiro. Para cuidar do caso, eles só podiam deixar tudo em mãos de uma agente disposta a entrar em uma confusão completa. Ela viveu muito tempo na Inglaterra na divisão que luta contra o crime organizado, a mesma divisão que lida com as máfias espalhadas pelo mundo. Yakuza, Máfia, Cosa Nostra, Famiglias, Vigilantes, Milícias, Partidos Políticos, ela já vira tantos tipos diferentes de quadrilhas que pouco a pouco ela se tornara uma das maiores autoridades na luta contra organizações criminosas. Tudo estava correndo muito bem até que seu parceiro morreu. Mesmo que a justiça ocupasse o lugar mais importante de seu coração, a vingança foi crescendo no pequeno espaço que seu parceiro deixou depois de ir. Depois de alguns anos, era difícil dizer qual dos dois ainda dominava suas ações. Ainda assim, eles a designaram para o caso na esperança que ela aguentasse estar no meio do furacão que se formaria naquela cidade, se isso ocorresse, os resultados poderiam ser alcançados.
Até a Interpol se engana, não?
Afinal, não é senso comum de que o olho do furacão é onde tudo está mais calmo? Estar no meio do furacão nem sempre é o problema. Aqueles que mais são afetados pelas confusões não são aqueles no centro delas.
Não, não.
Não é assim que a civilização funciona.
Se fosse assim, toda graça estaria longe.
Até porque, esta não é uma história sobre ela.
Quando uma certa estudante de psicologia francesa decidiu viajar para a América do Sul para cumprir suas horas de estágio junto de um programa de intercâmbio, ela mal imaginava que acabaria tangenciando esse furacão maldito. E, uma vez, tangenciando um furação maldito, a maldição gruda na pessoa e nunca mais a solta.
A estudante teria viajado ao finalmente encontrar seu primeiro cliente, um morador de Foz do Iguaçu, no sul do Brasil. Ela estava bem nervosa com a situação, visto que ainda estava estudando e não passava de uma adolescente se tornando adulta. Ela não conseguia se ver dando ajuda para pessoas mais velhas. Não era por qualquer motivo besta como experiência ou respeito aos mais velhos. Ela não conseguia ver pessoas mais velhas que ela de forma comum, ela não gostava de pessoas que tivessem idade acima dela. Ela os odiava.
Ela, de fato, os odiava.
E era por isso que ela deixou aquilo passar por tanto tempo.
Que nunca prestou queixa.
Que nunca procurou ajuda.
Era por isso, que ela decidiu ser a sua própria ajuda e entrou na faculdade de psicologia. Seu antigo calouro já não estava lá para ajudá-la.
Porque, ainda assim, esta não é uma história sobre ela.
Visto que, todo furacão, toda tempestade, precisa de um início, de um bater de asas, do sopro inicial, um homem seguiu por um caminho que trouxe tudo à tona de uma forma explosiva.
Se esse homem não tivesse seguido neste caminho, as coisas poderiam ter sido muito melhores, mas, é claro, o mundo não segue nossas escolhas. Ele tinha duas filhas e nenhum pai pode ver filhas passando fome, não é mesmo?
Besteira. Nenhum pai quer passar fome, capiche? Usar as filhas como desculpa é uma forma fácil de causar emoções e aliciar pessoas à ajudar. Quem quer ser a pessoa que negligenciou a vida de duas pequenas garotinhas?
Uma pessoa civilizada, com toda certeza, não aceitaria isso, certo?
Ainda assim, aquele homem era diferente. Ele definitivamente não ligava para a própria vida. Ele decidiu deixar suas filhas sob cuidado de pessoas de confiança e viajou para os Estados Unidos para completar um certo serviço em especial. O dinheiro era alto, mas ele não procurava acreditar que ele voltaria bem para a Inglaterra. Ele se despediu de suas garotas como se aquela fosse a última vez.
Como se aquela, de fato, tivesse sido a última vez.
O dinheiro seria direcionado para as garotas, mesmo que ele falhasse.
Mesmo que aquela arma não tivesse sido disparada.
Mesmo que ele não tivesse matado alguém.
O dinheiro alcançaria elas.
Mas tudo já aconteceu.
Isso não é uma hipótese.
A arma disparou.
O pavio acendeu.
A pólvora já estava perfeitamente disposta.
Mesmo que esta não fosse uma história sobre ele.
Mesmo que nada daquilo servisse para alguma coisa...
Esta história... Definitivamente...
Não é uma história sobre nenhum deles.
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