City of Delusion
6 Capítulo 6
Notas iniciais
Shun vinha pelos caminhos arborizados da Academia de cadetes de Atenas com os olhos nos pés, a caminho da sala de aula pensando que se não fosse pelo irmão e o desejo de Mascherani mandaria aquela escola à merda. Porém, tinha que pensar em Ikki e no último pedido de Mascherani porque eles esperavam que ele reagisse e o italiano vivia lhe dizendo que a escola era importante.
Algumas coisas estavam mudando, os negócios da família principalmente e Shun sabia que aquela mudança tinha a ver com as anotações que Mask deixara para Ikki. O herdeiro do Padrone começava aos poucos a colocar a Família nos eixos, ou seja, na lei. O tráfico e as mortes foram enterrados com Mascherani, embora o respeito e influência da Família permanecessem.
— Oi Shun.
O japonesinho ergueu os olhos para encontrar o olhar celeste de Hyoga. Fazia meses que não o via e podia jurar que não o veria mais, não acreditava que o russo voltasse para a escola depois da reabilitação. O loirinho parecia muito bem, mais forte e saudável, o olhar injetado e a palidez.
— Pensei que não voltaria a vê-lo.
— Nem eu imaginava que você voltaria a estudar no Instituto, afinal você estava aqui por mim não estava?
— Não era bem assim. – Shun desviou o olhar, sentindo o amargor que vinha do outro. Apesar dos propósitos escusos, gostou de ter feito amizade com o russinho, de viver um pouco como o adolescente que era. Sentia-se mal ao constatar a amizade deles não sobreviveria a descoberta do plano de Mask – Eu queria muito que você me perdoasse um dia Hyoga.
Olharam-se receosos, mas Hyoga continuou a andar ao lado de Shun até a sala de aula como antes quando eram unha e carne e viviam juntos. O loiro pensou que agora depois da reabilitação e do escândalo com o pai inglês, Shun era seu único amigo.
— Vamos esquecer tudo Shun e colocar uma pedra nesse assunto – Hyoga suspirou — Deixar tudo no passado. Camus me disse que tudo acabou e que a Família não vai mais fazer mal as pessoas, então acho que agora nós podemos nos tornar amigos de verdade. Começar tudo do zero?
— Sim! – Shun passou o braço sobre os ombros do russinho, um sorriso no rosto, a felicidade estampada por aquela nova chance – Começar do zero.
Do zero mais ou menos, pois a proximidade e os assuntos em comum foram unanimes naquele dia em que passaram juntos alheios a qualquer outra coisa. Hyoga contou sobre a reabilitação e a frágil relação com o recém-descoberto pai biológico, a mágoa pelo desaparecimento de Radamanthys. Suas próprias descobertas acerca de si na terapia. Shun por seu turno contava como enfrentava a morte de Mask, os novos rumos da Família e todos os acontecimentos que envolveram ele e Hyoga aqueles dias.
— Você ainda vai à Santuário? – perguntou Hyoga entre uma mordida e outra no seu sanduíche durante o almoço.
— A boate é minha, o Alde e a Shina me ajudam a administrar, mas o Mask sempre fez questão que eu estivesse lá cuidando e aprendendo. Nada mudou lá se quer saber por que como você bem sabe não há muito controle sobre os clientes. – Shun torceu os lábios – Ikki disse que vai me dar uma surra se ver nem que seja um cigarro comigo! Eu acho que você não devia ir lá loiro.
— Eu sei, já está sendo bem difícil frequentar a escola.
— Você não devia ter voltado justo pra cá Hyoga! Não que eu não quisesse vê-lo, mas logo aqui que tudo é tão fácil?! — Shun se inclinou sobre a mesa e falou mais baixo — Isaak e Julian voltaram a tomar conta do tráfico aqui na Academia, o que eles passam aqui é uma porcaria, mas fui proibido de intervir.
— Fujo do Isaak como o diabo foge da cruz e por falar em cruz... Shun você viu meu terço? – Hyoga baixou os olhos para o prato um tanto constrangido, mas não ia desistir de ter de volta uma lembrança importante da sua mãe – Sei que a essa altura vocês já devem ter descoberto como eu usava ele também, mas era da minha mãe e eu o quero de volta. É importante pra mim.
— Está com o Ikki você vai ter que falar com ele. Duvido que ele te devolva depois de saber que você guardava cocaína nele, Camus também não vai querer que você o usasse.
— Mas... – o loiro mordeu o lábio olhando para o lado tentando achar uma forma de resolver aquilo – Era da minha mãe!
— Vou ver o que posso fazer ok? Mas não prometo nada, estamos falando do Ikki. – Shun afagou a mão do russo sobre a mesa.
***
— Aqui está ficou ótimo não?
Mu estendeu a caixa de veludo para Ikki que ergueu a tampa para admirar o conteúdo.
— Não podia ser diferente uma vez que foi feito na melhor joalharia do país, o alferes ficou quase histérico quando lhe mostrei a peça. Onde encontrou o terço? É muito valiosa! O alferes disse que se trata de uma peça raríssima pertencente a coroa russa. – Mu voltou os olhos violáceos para Ikki em expectativa de uma boa matéria – Quer dizer extinta coroa russa, a maioria das peças está nos museus já que não existem mais descendentes tão diretos. Andei pesquisando e a peça em suas mãos era da princesa Anastásia, até então a ultima de sua linhagem a receber o terço que era passado de geração em geração através das filhas. Assumindo- se que a princesa foi a ultima do clã russo e está morta... Onde conseguiu a peça?
— Assunto meu. – o meio-japonês sorriu enigmático olhando o terço na caixa de veludo, agora polido e refeito. Estava mais belo que antes e Ikki se perguntava se o dono estava da mesma forma. O vício tirava um pouco do brilho dos olhos e o viço do corpo jovem do russo, mas pelo que sabia ele estava limpo há meses então devia estar ainda mais belo.
— As contas são diamantes, a corrente feita em ouro branco puro são de finíssimos aros entrelaçados um a um formando a corrente trelhiçada. A base anterior descaracterizava a peça e não era original, então teve de ser refeita conforme suas instruções e levando em consideração a original. Sabia que os olhos do cristo são safiras minúsculas? – Mu seguia explicando – Esse terço sozinho pagava meu apartamento.
— Não é verdade Mu, talvez dois desses, você é muito caro não sei como o Aldebaran consegue manter você!
— Ah seu ingrato! – Mu entortou os lábios finos enquanto o outro ria – Eu já sei que deve ser para alguém, você não teria tanto zelo e trabalho a troco de nada. Diga pelo menos para quem dará uma joia tão cheia de significado.
— Vou devolvê- la ao dono Mu, você o conhece já o viu aqui mesmo na Mansão ou em alguma manchete meses atrás no escândalo sobre a máfia...
— Não me diga que...
Mu permaneceu mudo de espanto enquanto as peças se encaixavam em sua mente e ele assimilava o que Ikki lhe contava. Era extraordinário!
— Como você...
— Natássia Romanov é descendente direta de Anastácia Romanov, mais precisamente sua neta. O que se sabe é que Anastácia estava desaparecida, mas na verdade ela apenas trocou de nome e de país vivendo muitos anos aqui na Grécia e constituindo família. – Ikki se levantou guardando a caixa da joia no bolso do sobretudo e vestindo-o em seguida – Voltou para a Rússia na meia idade já com o filho e a neta, Natássia. Como pode concluir a tradição do terço teve de ser mudada já que o último descendente é um menino.
— Sim um menino. – Mu estava embasbacado. "O menino que mantemos em cativeiro por dias e que você está irremediavelmente apaixonado Amamiya." concluindo ainda o jornalista, mas não disse nada. Ikki que descobrisse sozinho que o amor é algo com o que não se pode lutar.
Ikki saiu do escritório ganhando o pátio em direção à Pandora e Aiolia que se preparavam para sair nas motos.
—Vai sair Ikki?
— Vou pegar o Shun na escola, o sedan está pronto pra sair?
— Pensei que eu fosse fazer isso por isso só pedi pra Aiolia ser a escolta e íamos de moto. – disse a alemã olhando para ele desconfiada. Não estavam em um clima bom porque Ikki acabou com o relacionamento deles, ou acordo uma vez que segundo ele não havia sentimento envolvido. Pandora não aceitou muito bem essa justificativa.
— Não precisa ir mais, irei no sedã Aiolia. Vai demorar a tirá-lo?
— Não então você vai no sedã e nós continuamos nas motos, já que você vai melhor mantermos um esquema de segurança. – Aiolia saiu dando ordens aos outros seguranças.
Ao chegar a escola os alunos já estavam saindo, em sua maioria crianças e adolescentes. Ikki abaixou o vidro ao avistar o irmão vir acompanhado de certo russo e seu sorriso foi inevitável. Pandora e Aiolia que estavam ao lado do carro observavam os dois adolescentes chegarem, mas a alemã estava prestando atenção nas reações do Amamiya e seu olhar endureceu.
Não acreditava no que via, Ikki não podia estar interessado naquele moleque!
— Vai virar o Padrone agora? Desencaminhar garotinhos Ikki? — jogou sarcástica sem conseguir se conter mais, tanta era a sua ira.
— Iiihh dor de cotovelo. – Aiolia se apoiou na moto rindo de forma jocosa, Ikki não deu ouvidos à indireta da outra.
— Um comitê de boas vindas? – Shun disse quando parou ao lado do carro – Você aqui nii-san? Porque todo esse aparato?
— Coisas do Padrone Shun...
— Pandora se você mais uma merda dessas eu juro que vai ser a última que vai dizer. — Ikki disse perdendo a paciência.
— Mas é tudo que a Pan quer! – Aiolia caçoou e todo mundo começou a rir, até o loiro que se sentiu contagiado pelos outros.
— Vamos embora, venha também Hyoga – Ikki disse antes que o loiro se afastasse deles – Deixaremos você em casa.
Hyoga mordeu o lábio considerando se era uma boa ideia ir com os Amamiya ou esperar Camus, Ikki não conseguia tirar os olhos de si e o russo também não conseguia deixar de olhar para o meio japonês. Shun já se acomodava no carro e chamava o outro para sentar ao seu lado.
— Camus disse que eu devia esperá-lo. – resistiu
— Não se preocupe com Camus, já mandei avisá-lo que você está indo conosco. – Ikki saiu do carro colocando sua figura imponente proximo ao loirinho o olhando intensamente – Não tenha medo, ninguém vai machucá-lo de novo.
Hyoga acabou entrando no carro e Ikki em seguida, o motorista ligou o motor e começou a sair.
— O que ele pretende?
— Sem dar uma de burra agora Pandora! É óbvio que ele quer apanhar o patinho russo, só você que não percebe. – Aiolia colocou o capacete e arrancou com a moto, Pandora ficou parada ainda pensando no que ele disse.
***
Na porta da nova casa de Hyoga um sedã preto estava parado em frente ao gramado que antecedia um belo jardim. Depois de fazer Shun seguir com Aiolia e Pandora, Ikki foi deixar o russo em casa apenas acompanhado do motorista.
— Obrigado pela carona. – disse Hyoga para quebrar o silêncio que já lhe incomodava.
— Não precisa agradecer. Raras são as oportunidades de vê-lo, Camus anda muito severo com relação a você... Não o culpo. – Ikki deu de ombros – Acontece que não consigo ficar longe de você e por Atena eu tentei demais.
Havia uma intenção explicita no olhar azul índigo e que instigava Hyoga quase inconscientemente. Quase porque o loiro sabia onde estava se metendo caso permitisse ao moreno ter esperanças, Ikki também fazia questão de não disfarçar suas intenções. Não deveria se deixar levar por aquele homem perigoso e intenso, Hyoga acreditava que aquela sedução de Ikki era semelhante a dos animais perigosos, portanto letal. No entanto, o loiro tinha em si um quê de compulsão pelo perigo e estava muito tentado em aceitar as investidas do outro.
Era sincero quando Ikki disse que não conseguira se afastar. Mesmo todo o trabalho que estava tendo com os negócios da família e Shun, o moreno não deixava de acompanhar cada passo da recuperação do russo e prezar pela sua segurança, mesmo que Camus estivesse empenhado em manter Hyoga longe dele. Então decidiu que teria o loiro para si em uma de suas sessões, apenas uma vez para calar aquele sentimento desenfreado que lhe consumia e tudo voltaria ao seu controle. Ikki sempre fizera questão de ter tudo sob controle.
Houve vários momentos em que o russinho vislumbrou-se nos braços do outro. Era algo parecido com o que sentira ante a possibilidade de estar com Shun e Mascherani, o seu corpo fremia só de imaginar! Porém, havia as conversas de Shun e de Camus sobre Ikki ser um Dominador. Isso era algo que estava fora de cogitação no estado em que Hyoga se encontrava, era ciente de suas próprias limitações físicas e emocionais agora. O tratamento de desintoxicação revelara outras feridas no loiro onde ele usou que droga para curá-las. O amedrontava imaginar o quanto Ikki exercia a força de sua dominância em uma relação então o melhor seria que mantivesse distância dele.
— Senhor Amamiya eu quero meu terço de volta. – pediu não sem um quê de petulância na voz.
— Foi uma das coisas que vim fazer, só tomei a liberdade de fazer algumas alterações. — Ikki remexeu no sobretudo e tirou a caixa de veludo mostrando ao russo – Agora vai poder usá-lo da forma correta príncipe Romanov.
— Minha mãe me chamava assim. – Hyoga deixou que os dedos percorressem a joia na caixa e Ikki vendo aquilo como oportunidade não hesitou. Pegou a mão alva na sua levando até os lábios sem tirar o olhar do loiro – O que quer de mim Ikki?
— Não é difícil de adivinhar. – retorquiu o franco-japonês ainda com os lábios na pele do loiro.
— É a sua exigência para me devolver o terço? – arqueou a sobrancelha e retirou a mão puxando também a caixa fazendo o outro rir.
— De forma alguma, não seria tão baixo. Estou devolvendo-lhe como prova do meu interesse por você e minha preocupação com seu bem estar. Não quero que tenha uma recaída.
— Obrigado por se preocupar senhor Amamiya.
Ouvir seu nome acompanhado da palavra senhor naquela voz rouca e grave levava Ikki a patamares desconhecidos, a níveis de excitação que ele não experimentara. Precisava ter aquele garoto!
— Está nos seus olhos como o excita a possibilidade de me ter de joelhos murmurando sim senhor para você. – Hyoga riu de lado desviando o olhar de Ikki – Não Dom, arrume outro para os seus jogos. Não sou um submisso.
— Será?
Hyoga gargalhou ante a empáfia do outro, cada vez mais interessado em investir naquele jogo perigoso. Queria ver até onde Ikki iria, no quanto o moreno estava disposto para conseguir tê-lo. Saber que podia controlar um homem como Ikki Amamiya lhe excitava. Voltou-se para o moreno deixando o rosto bem próximo.
— Não me julgue pela primeira impressão Dom, eu não sou mais aquele tolo drogado que conheceu. Muitas coisas aconteceram e vai ser difícil você me apanhar como fez antes.
— Se eu tivesse apanhado você, não estaríamos conversando agora Hyoga. Quer tanto quanto eu admita.
— Ah senhor Amamiya. – para provocar Hyoga roçou os lábios nos de Ikki, ambos estremeceram com o contato – Mas quando acontecer será nos meus termos, não nos seus.
Ágil e experiente, afinal aquele jogo era velho conhecido para ele, Ikki levou a mão para o rosto do loiro e se inclinou sobre Hyoga de modo que o impedisse de se mexer. Era só uma provocação, mas ao se ver tão próximo daqueles lábios vermelhos e bem desenhados um desejo antes impensável se assomou dele.
Sirenes dispararam em sua mente negando aquele beijo. Não! Um Dom não beijava, um beijo era algo mais íntimo até que o sexo. Sua consciência gritava para ele enquanto Ikki tomava posse daquela boca macia e desfrutava do sabor do outro, tudo isso calando as reprimendas que dava a si mesmo. Tudo que Hyoga fez foi apoiar as mãos no peito forte do moreno sentindo a tensão dos músculos firmes sob a camisa de linho.
Num momento era tudo desejo e ardor, no outro era a porta abrindo e o loirinho sendo arrancado do carro quase a força. Camus só entrou novamente para pegar a mochila do filho e deixar um recado.
— Fique longe dele ou eu mato você! Eu juro Amamiya que esqueço tudo se você tocar nele de novo. Eu acabo com você!
Ikki ainda viu Camus arrastar um Hyoga aturdido e chocado para dentro, ficando sem reação mais pelo beijo do que por qualquer outra coisa.
— O senhor está bem? – o motorista abriu a janela divisória para ver seu chefe.
— Vamos para a Mansão. – foi tudo que Ikki disse, embora por dentro estivesse muito atormentado.
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