City of Delusion
10 Capítulo 10
Notas iniciais
Camus tomava chá na sua varanda enquanto via o filho murmurando uma melodia, inclinado sobre uma mesinha baixa onde estava espalhado um quebra-cabeça, suas mãos estavam ocupadas com as pequeninas peças que ele se dispunha a montar. Uma das coisas da infância que Hyoga trouxera para a adolescência e que o terapeuta incentivou foi sua fascinação por quebra-cabeças.
Era final de uma tarde quente em Atenas e pai e filho aproveitavam a brisa na varanda trabalhando, Hyoga em seu quebra-cabeça e Camus em seus processos.
— Pai quando se casar com Milo, vamos morar todos aqui? – perguntou Hyoga de repente.
— Eu quero, mas Milo não está nada satisfeito em sair da Mansão de forma que estamos em um impasse. Aquele escorpião é um pouco difícil de convencer.
— Eles são muito unidos você viu. Aquele lugar é enorme, está preparado para agregar mais pessoas para sempre, aumentar a Família. – Hyoga encaixou algumas pontas antes de olhar o pai – Percebeu o grande vinculo que todos têm entre si?
— Sim. É peculiar porque a maioria não possui laços de sangue e, no entanto, o sentimento que os une é de uma família de verdade. Talvez por isso Milo não queira deixar a Mansão, ele se sente acolhido e fortalecido lá, apesar de que seria da mesma forma aqui. Porém, aquele grego é inseguro! – Camus riu de lado tomando seu chá.
— Você o ama. Dá pra ver no modo como fala dele, eu fico surpreso ao notar essas coisas confesso porque nunca vi você ser caloroso assim com ninguém além de mim. Fora o fato de que você está prestes a casar com um homem quando eu morria de medo de que descobrisse que eu fosse gay, pensei que fosse hétero.
— Nunca pensei em minha sexualidade por assim dizer. Sou discreto, mas não me atenho a um gênero especifico. – Camus largou o chá e fez um gesto vago pensando no assunto – Se for fazer uma análise rápida a preferência são os homens, mas as mulheres não deixam de me fascinar.
— Minha mãe?
— Natássia foi a mulher que eu conheci que mais me fascinou. – Camus e Hyoga já haviam tido conversas semelhantes, como padrinho o garoto sempre viu Camus como confidente e agora o francês achava que se abrir com o filho estreitaria ainda mais os laços entre eles. – Muito autossuficiente é verdade, um tanto arrogante e fria, mas a arrogância dela não vinha do fato de que ela era vazia e rica. Conheci poucas mulheres que eram tão inteligentes e perspicazes quanto Natássia, nosso relacionamento foi breve e baseado praticamente no sexo, mas havia entendimento e nós conversávamos por horas a fio... Eu gostava do modo como ela via a vida e as questões cotidianas. Natássia tinha um papel a zelar vinda de uma família importante, sendo casada com um homem importante.
— Descobrindo a verdade eu entendo o porquê de não ter irmãos e até porque eu mesmo nasci. Mamãe odiava meu... Radamanthys, antes de morrer ela me disse que eu nasci por que era especial, porque o Juiz não merecia ter um filho. Percebi tarde demais que ela havia contato a verdade desde o começo e antes de todo mundo.
— Natássia era uma mulher formidável em vários níveis, foi bom tê-la conhecido.
— E Milo? – Hyoga tinha um ar travesso agora, estava adorando ver como Camus se abria com ele – Tudo entre vocês não parece muito recente.
— E não é. Começou desde que Radamanthys me impediu de ver você, Milo entrou em contato comigo para me aliciar para entrar na Família porque o Padrone já tinha planos de programar as mudanças que estamos fazendo agora. Então Wyvern emitiu a ordem e restrição contra mim com Natássia ainda doente e tudo virou um caos! Através de Milo Mascherani me aliciou para a operação da Família para destruir Hades, eu precisava participar porque era Hades que protegia Radamanthys, sem ajuda eu nunca conseguiria provar minha inocência no caso de abuso que Wyvern abriu contra mim. – Camus suspirou e seu olhar se perdeu no horizonte – Eu estava de mãos atadas e assim minha relação com Milo se estreitou. Aquele grego egocêntrico nunca se conformou com a minha resistência e então se tornou um jogo para ele tentar me seduzir, mas eu sabia que ele era uma encrenca enorme. – ambos gargalharam, Camus chamou Hyoga para sentar e tomar chá com biscoitos – Ele me pegou de guarda-baixa, um pouco depois de eu descobrir que você havia sido sequestrado. Se eu soubesse que Mascherani ia envolver você nos seus planos, não tinha me aliado a ele.
— Pelo que eu sei o único que sabia completamente dos planos de Mascherani era Ikki. Eu mesmo só vi Mask duas vezes e não sabia do que ele era capaz. – Hyoga desviou o olhar para o seu prato, havia um rubor no rosto bonito que fez Camus arquear uma sobrancelha.
— Quando foi que viu “Mask”? – salientou a intimidade com que Hyoga falava do Padrone.
— Uma vez na escola com Shun, na ocasião ele me disse que namorava Mask escondido dos pais – Hyoga fez uma careta – e na boate no dia do sequestro. – e o rubor ficou mais forte.
— Wyvern me mostrou fotos suas em que estava desacordado e machucado em uma cama, estava nu. Ele ficou transtornado...
— Ah então foi assim que ele soube... – Hyoga arregalou os olhos e Camus ficou ainda mais intrigado – Ah... O Radamanthys me disse naquele dia do Clube que ia me punir por ter dado ao Padrone o que era dele.
— Como assim? – Camus levou um minuto para compreender o que Hyoga queria dizer e isso o fez ficar mudo e desconcertado por algum tempo – Ele... Ele o forçou? – perguntou por fim.
— Não! Nós... – Hyoga lambeu os lábios, mas resolveu contar porque não havia motivos para esconder nada do pai – Shun e eu fomos à Santuário escondidos, já havia o plano de me manter ali, mas eu nada sabia. Só que antes de tudo eu e Shun nos divertimos bastante na boate, Mask se juntou a nós. Estávamos altos por conta da bebida e das drogas eu ainda mais do que Shun e, no entanto tive escolha. Mas eu queria! Eu não me arrependo, Shun e eu nos divertimos. – terminou com um sorriso malicioso e um tanto envergonhado – As fotos devem ter sido tiradas quando apaguei. Eu só acordei dois dias depois e ainda havia marcas no meu corpo, mas não fui o único que ficou assim porque eu lembro bem do quanto intenso e selvagem foi. Não sou muito fã desse tipo de sexo, mas às vezes acontece e Mask sabia ser bem persuasivo.
Camus estava assombrado.
— Você e Shun...
— No começo a gente ficava na escola e nas festas do Isaak, ele ia à minha casa. O Isaak não sabe, mas eu e Shun nos divertíamos bem embaixo do nariz dele, por causa da minha compulsão você sabe e a droga só potencializava isso. Shun inclusive só tem aquela cara de anjo, mas é um ninfomaníaco.
— Porque não estou surpreso? – surpreso Camus não estava, mas desconcertado sim e muito porque ainda não se sentia à vontade em saber que Hyoga fizera coisas que ele nunca imaginara.
— Você sabe o que o psiquiatra disse a precocidade, as drogas... É tudo por causa da compulsão.
— Sim eu sei por isso eu ainda acho que não é uma boa ideia você se envolver com o Ikki.
— Ele não vai saber lidar com isso, você tem razão. Ikki não faz sexo convencional, mas eu não posso me tornar um submisso porque já sei o que isso faz comigo e dessa forma estamos num impasse.
— Vocês passaram muito tempo juntos na Mansão semana passada, pensei que tinham finalmente se entendido. – Camus voltou ao chá e Hyoga remexeu o bolo com o garfo, tinha um ar infeliz.
— Conversamos muito e ele me rejeitou de novo, ainda não está preparado. Ele não me procurou mais...
— Dê um tempo a ele. – Camus finalmente cedeu talvez relutar em aceitar aquilo fosse uma batalha perdida – Ikki é alguém peculiar e aprendeu com o pai a pensar em tudo nos mínimos detalhes, talvez seja isso que está fazendo. No mundo adulto nós precisamos ter cautela e o Amamiya tem mesmo que pensar bem no que quer com você.
Hyoga ia retrucar, mas foi impedido pelo celular de Camus que tocou.
— Onde está francês ingrato que ainda não veio me ver? – ouviu a voz macia e sedutora de Milo do outro lado da linha.
— Iria logo mais a noite. Às vezes você é terrivelmente grudento! Porque você não vem aqui?
— Sem essa conversa mole Camus. Venha, a reforma no meu quarto acabou e a sua sala de estudos está pronta! Ficou a sua cara.
— E você vai me convencer a morar na Mansão? – Camus achou para Hyoga com ar divertido e irônico, Hyoga a essa altura era todo ouvidos aquela conversa.
— Camus eu convenci a dar uma chance a gente, imagine se eu não o convencerei a vir morar aqui?! Hyoga vai adorar a ideia, eu inclusive consegui um quarto perto do quarto do Shun para o russinho. Embora eu acredite que ele vá ocupar a suíte principal com o Amamiya.
— Ah é? Hyoga não parece tão confiante quanto você já que Ikki sumiu.
— Sumiu? Não pode ser! Ikki está causando uma revolução aqui, até mandou reformar o quarto de jogos, se livrou de tudo e até procurou um terapeuta! – Camus quase podia ver Milo revirar os olhos, mas aquela nova informação sobre Ikki lhe deixou surpreso – Venha francês! E traga o garoto com você.
***
— Posso respirar?
— Deixa de ser chato Dite, é só relaxar e ficar quieto. Não precisa para de respirar.
— Vai colocar esse quadro na parede do seu quarto para que eu seja a ultima coisa que vê antes de dormir Shun?
— Você é a ultima coisa que eu vejo antes de dormir Bello! – Shun riu da presunção do sueco, espiou um pouco mais Afrodite largado no divã de seu ateliê. Era uma visão o corpo alvo e bem constituído do loiro, nu em uma posição relaxada sobre o veludo negro, todas as linhas que marcavam os olhos de gato no rosto bem feito. Era um quadro vivo – Falta pouco agora.
— Vem aqui Shun estou começando a ficar entediado.
— Calma.
Shun voltou a pintar e isso lhe custou os planos de terminar a pintura aquela noite, quando percebeu era envolvido pelos braços do amante e isso o assustou fazendo-o derrubar o pincel e as tintas.
— Afrodite!
— Shiu... – Afrodite segurou o japonesinho junto a si e segurou seu queixo – Chega de pintar.
Tomou os lábios de Shun nos seus enveredando a língua quente pela boca pequena buscando a língua do outro para tornar o beijo intenso. Shun deixou que as mãos apalpassem o corpo nu do outro, Afrodite riu em meio ao beijo puxando Shun para o divã. Não demorou muito para se livrar das roupas de Shun e ter os dentes e a língua de Afrodite provando a carne tenra do mais jovem.
Logo Shun cavalgava Afrodite com vigor, os fios castanhos caindo sobre o rosto inclinado sobre o de Afrodite que apertava os quadris estreitos com firmeza, a boca delicada do sueco estava entreaberta e ele gemia deliciado assim como Shun com o sexo intenso. Era puro e sensual aquele momento entre os dois.
Um grito mudo anunciou o orgasmo de Shun que se derramou no abdômen de Afrodite e esse se derramou dentro do moreninho retesando o corpo, revirando os olhos pelo clímax.
Beijaram-se arfantes sem se importar com o suor e o sêmen nos corpos, conspurcando a união que parecia cada vez mais forte entre eles.
— Seu celular tá tocando – Shun disse junto aos lábios rosados do sueco, mas sem vontade de largá-lo ou permitir que ele se afastasse. — Não quero atender... – Mas Afrodite saiu de dentro de Shun e trocou as posições deitando o mais novo no divã, levantando em seguida para pegar seu celular na mesa. O Sueco agora fazia parte do corpo médico do Hospital Universitário de Atenas e por isso tinha de ficar de sobreaviso.
— Espero que seja algo muito importante para você me deixar aqui assim. – Shun ronronou dengoso.
Afrodite atendeu rindo para Shun sem olhar o visor.
— Bello preciso vê-lo mi fiori, venha até mim por favor.
***
Hyoga atravessou os corredores da Mansão tranquilamente com as mãos no bolso do moletom olhando para o lado uma vez ou outra, estava mais habituado a andar por ali, Milo outro dia lhe fizera um tour interessante. Estava andando a esmo porque cansou de ficar com Milo e o pai e entre a discussão dos dois de onde morariam, Shun estava bem ocupado com Afrodite e ele não conhecia os outros o suficiente para se sentir a vontade com eles.
Em uma curva de corredor encontrou uma sala ampla decorada toda em estilo indiano e Shaka, o médico que lhe socorreu em sua overdose na época do sequestro. Ele tinha apenas uma pequena toalha em volta dos quadris e estava deitado de bruços enquanto recebia uma massagem, o rapaz que a aplicava era Aiolia e este ele conhecia um pouco melhor, das vezes em que ele ia buscar Shun no colégio.
— Oi russinho. Quer uma massagem também? – a voz melodiosa do indiano tinha um tom afável, Hyoga se surpreendeu que ele o percebesse porque o rosto do outro estava virado para o outro lado – Se aproxime não se acanhe.
O mais jovem chegou mais perto vendo Aiolia muito concentrado nos movimentos firmes que fazia nas costas largas do indiano, as mãos grandes do leonino deslizavam pela pele clara massageando os músculos do outro.
— Desistiu de tentar argumentar com os dois sobre o quarto? – Aiolia perguntou sem parar o que fazia.
— Milo vai acabar ganhando pelo cansaço, meu pai não vai durar muito.
— Obstinado aquele escorpião sabe ser. – Shaka virou o rosto na direção de Hyoga – Você está bem melhor do que a ultima vez que o vi. As vezes que nos encontramos você não estava em condições de conversar. Como está? E o tratamento? –
Estou muito bem, o tratamento tem feito um bem enorme obrigado por indicar o terapeuta.
— Krisha é muito competente no que faz, foi um mestre sem igual. Estava falando sério quanto à massagem, você pode tomar uma ducha gelada ali naquele outro cômodo e há outro roupão que pode usar.
— Ele é seu escravo pessoal?
— Shaka gosta de achar que sim. – foi Aiolia quem respondeu e fez questão de apertar os quadris do loiro antes de se aprumar, tinha finalizado a massagem – Porque na verdade ele não vive sem mim! Anda russo vá tomar o seu banho e Shaka fará a massagem em você porque se o Ikki ver, será Shaka que vai parar naquele tronco com correntes não eu.
— Não seja estúpido! – Shaka revirou os olhos sentando na maca – Não ligue para Aiolia, ele está com inveja porque não vai receber massagem.
Hyoga continuou rindo dos dois que discutiam baixinho enquanto Aiolia enlaçava Shaka pela cintura e tentava lhe roubar um beijo. Quando voltou a sala, Shaka estava de roupão e sozinho esperando por ele.
— Porque Aiolia não vai ganhar massagem? Ele não ficará com ciúme?
— Ele não é muito confiável para uma massagem agora, de noite quem sabe... – Shaka indicou a maca e ajudou Hyoga a tirar o roupão indiferente ao fato de que o russo estava nu, Hyoga deitou-se na maca e Shaka lhe cobriu os quadris com uma toalha pequena – Ikki não sabe que está aqui, caso soubesse não teria viajado. Como está tudo?
— Não sei. Não falo com Ikki desde aquele dia da prisão de Radamanthys, acho que ele desistiu. Era apenas um interesse que não valia a pena tanto esforço. – Hyoga apoiou a cabeça nos braços cruzados olhando Shaka de esguelha. Achava o indiano absurdamente bonito, exótico e atraente naquele ar blasé que ele possuía.
— Talvez não seja bem assim, mas quem pode saber? Ikki é uma incógnita.
Em silêncio Shaka começou a massagem e Hyoga sentiu os músculos cederem às mãos do indiano, soltando leves suspiros de contentamento. O óleo de sândalo perfumava sua pele e permitia que Shaka puxasse os músculos tensos com mais facilidade, Hyoga fechou os olhos apreciando o relaxamento que começava a se instalar nele.
Ikki parou na porta da sala particular de Shaka apreciando a cena um tanto desconcertado, observando as mãos delicadas do hindu deslizarem sobre a pele macia e rosada do rapaz mais jovem que tinha os olhos fechados, o rosto virado em sua direção e Ikki podia ver a boca suculenta como um morango, os cílios longos e claros tocando os malares.
Passou aqueles dias refletindo em si mesmo sobre o que queria daquele rapaz, do que esperava da relação conturbada e confusa deles. Procurou o terapeuta de Hyoga e acabou conversando sobre si mesmo com ele por horas, quando chegou a Mansão decidiu se livrar do quarto de jogos e percebeu que aquilo foi mais fácil de fazer do que se manter afastado de Hyoga. Houve muitos contratempos e uma viagem repentina para fazer naqueles dias, isso o impediu de ir ter com o russo. Nesse momento mesmo tinha acabado de chegar e encontrou Aiolia no corredor, que lhe disse que o russo estava com Shaka.
— Você precisa relaxar o corpo e a mente está muito tenso e isso não é bom.
— E porque estou ansioso e também pela falta do que fazer confesso, preciso ocupar meu tempo. Ainda bem que o ano está acabando!
— Vai voltar para a escola ano que vem?
— Sim e tentando convencer senhor Chateaubriand de que posso estudar fora sem problemas. Estava pensando em ir para a Rússia.
— Tão longe?
— Queria descobrir um pouco mais sobre minhas origens, ainda há uma parte dos Romanov na Rússia, alguns nobres e tudo. Tenho uma tia que vem no natal me ver, isso é bem estranho! Um príncipe se existisse ainda a monarquia. – Hyoga se ergueu um pouco apoiado nos cotovelos e olhando para Shaka de viés – Ai Shaka! Está doendo aí!
— O que foi isso? – o indiano olhou atentamente o ombro direito do russo, havia um vergão arroxeado ali.
— Estou treinando Muay thai agora, o último treino foi muito duro. Uma pena que seja apenas duas vezes por semana.
— É bom fazer uma atividade física, gastar essa energia adolescente...
— Está sendo muito bom, meu único problema é ter que controlar a compulsão por que meu treinador é bonito demais! Acho que mesmo se eu não fosse viciado em sexo ia ter vontade de transar com ele, como estou há meses no zero a zero, está sendo um sacrifício me conter!
Os dois riram e Ikki fechou a cara, Shaka já sentira sua presença ali, mas Hyoga não então continuava a falar sobre o treinador e todos em volta contando suas desventuras com a franqueza da adolescência. Agora que Hyoga estava em tratamento para desintoxicação e controle da sua compulsão, parecia-se mais com um adolescente saudável, como uma vida normal. Ele tinha dezessete anos, ainda estava experimentando a vida.
Ikki entrou na sala e se aproximou dos dois sem fazer qualquer barulho, Shaka arqueou uma sobrancelha para o moreno que apenas com a cabeça indicou que o indiano saísse. Shaka riu de lado e saiu deixando os dois a sós, Ikki pegou um pouco do óleo em suas mãos para em seguida pousá-las nas costas de Hyoga e recomeçar a massagem. Um gemido languido saiu entre os lábios de coração ao sentir as mãos massagearem seu corpo, uma diferença notável na força e intensidade dos movimentos, mas Hyoga continuou de olhos fechados.
— Shaka mais firme que isso e eu vou começar a me excitar. – murmurou o russo e outro gemido pontuou o final da frase ao sentir um aperto mais firme na altura dos quadris.
— Está tão necessitado assim?
Hyoga deu um pulo ao ouvir a voz grave e rouca do ex-mafioso, tão surpreendido estava que se esqueceu de sua nudez e ao se sentar na maca a toalha caiu expondo-o para o olhar faminto de Ikki.
Um segundo depois Hyoga compreendeu que teve as mãos do moreno acariciando seu corpo por um momento e só esse pensamento lhe despertou a excitação, era tão incontrolável às vezes. Mordeu o lábio olhando Ikki que agora se colocava a sua frente.
— Se eu disser que estou você vai me rejeitar de novo? – Ousou dizer, estava farto daquela espera infinita para que Ikki resolvesse suas questões!
— Você é um perigo. – Ikki segurou o queixo delicado do russo entre o polegar e o indicador – O que pode acontecer se eu o encontrar nos braços de outro? Posso querer puni-lo, nesses dez minutos pensei em várias formas de amarrá-lo e açoitá-lo ao ouvir você se vangloriar do seu treinador, do terapeuta, do motorista que parece comê-lo com os olhos...
— Não consigo evitar, eles me desejam. Você me tem, mas não me quer... O que espera que eu faça? – Hyoga enveredou as mãos pequenas pelo terno do moreno acariciando o peito sobre o tecido fino da camisa social escura que ele usava – Veja Ikki eu estou aqui a sua mercê e você reluta... É mais importante para você me dominar ou me amar? Você me disse uma vez que não queria um submisso porque isso você podia ter onde quisesse, você queria a mim. Então Ikki. – Hyoga deixou que os lábios roçassem na boca carnuda do outro, Ikki levou as mãos até a cintura do russo que o trouxe mais pra perto com um enlace de pernas – Aqui estou eu, não como submisso, mas como alguém apaixonado.
Num minuto ambos quase corriam pelos corredores da Mansão, Hyoga vestira o roupão e vinha sendo quase arrastado até a suíte principal onde Ikki ficava. Foi só o tempo de fechar a porta para que o meio japonês jogasse Hyoga nela e abrisse o roupão começando a explorar o corpo alvo do russinho com a boca e as mãos. Hyoga se segurou nos ombros de Ikki quando o outro ergueu uma das suas pernas e a colocou no ombro para em seguida sugar o falo em riste com voracidade, Hyoga arqueou o corpo gemendo alto e exultando com isso. Poderia gozar a qualquer minuto e o fez tão rápido que se sentiu mal e envergonhado.
Ikki sugou todo o gozo e se ergueu lambendo os lábios de forma sensual, apoiando o corpo menor no seu. Seu olhar escuro estava nublado de desejo, parecia-lhe que estava em uma de suas sessões, só que havia algo diferente ali.
Carregou Hyoga até a cama deitando o amante nos lençóis brancos e se erguendo para fitar o corpo nu e levemente trêmulo do russo, enquanto com uma calma premeditada ia tirando o terno e o relógio sem tirar o olhar de Hyoga.
O lourinho levou a mão ao próprio falo, pois começava a se excitar de novo.
— Não se toque, fique quieto. – a voz de Ikki ainda mais rouca por conta da excitação. Hyoga podia ver pelo volume crescente sob o zíper do moreno o quanto ele estava excitado só por vê-lo. Isso lhe deu uma enorme satisfação, também lhe fez ver que apesar do tom autoritário do outro, ele não estava desprovido de carinho. Hyoga percebeu também que apesar de Ikki se comportar como um Dom era ele, Hyoga, que tinha o controle sobre o moreno.
Sentou-se na cama levando a mão ao zíper de Ikki abrindo a calça e abaixando a cueca para libertar o membro endurecido do outro.
— Não sou bom em seguir ordens. – murmurou colocando a glande de Ikki na boca sugando devagar e tirando, numa tortura lenta – Vai se acostumar com isso Ikki?
— Acho que posso sobreviver a isso. – Ikki jogou a cabeça para trás e se afundou mais na boca aveludada do russo, o clímax estava próximo e fora de controle. Será que ele nunca mais ia conseguir o controle estando com aquele russo?
O gozo veio quando Ikki sentiu os dentes de Hyoga rasparem na carne rija. Estava perdido.
***
Afrodite acelerou o Porsche querendo logo acabar com aquela angustia. Ainda recebera dois telefonemas antes de decidir atravessar a cidade até uma casa de campo nas redondezas de Atenas, era um lugar quase inóspito se não fosse pelo forte esquema de segurança. Afrodite passou as mãos suadas na calça jeans e seguiu pelas escadas, acompanhado pelos seguranças, ele já estava sendo aguardado. No caminho passou por espelhos e rapidamente ajeitou o pulôver e remexeu nos cabelos, até ser deixado na frente de uma porta dupla.
O olhar que o homem na cama lhe dirigiu era-lhe tão familiar que mesmo em meio à magreza extrema, os inúmeros fios ligados a ele, Afrodite o reconheceu e a sensação de sentir o chão sumir sob seus pés se fez presente. Lágrimas vieram-lhe aos olhos e Afrodite levou a mão à boca para conter um soluço.
— Chegue mais perto Belo, deixe-me ver você. – murmurou Ettore Mascherani, vulgo Máscara da Morte. Afrodite se aproximou da cama sem conseguir parar de chorar e a dor da perda junto com a indignação se digladiavam dentro dele –Você entende, era o único jeito...
— Não! O Shun e o Ikki não mereciam isso, a Família não merecia! – vociferou Afrodite enterrando as mãos nos cabelos – Seu filho da puta porque não morreu de verdade naquele tiroteio?!
— Mas eu vou morrer mi fiori. – Máscara deu um sorriso cansado, a voz era um sussurro rouco – Câncer no pâncreas e estou quase lá e havia prometido morrer sozinho sem que nenhum de vocês soubesse. Mas eu precisava... Queria ver um rosto familiar. Estou com medo da morte Afrodite você imaginava algo assim?
Afrodite mordeu o lábio contendo todo seu descontentamento que ia derramar sobre Ettore, aquilo parecia um pesadelo! Era mórbida e surreal toda aquela história.
— Quem sabe?
— Você agora e Aldebaran porque eu não podia contar a nenhum de vocês ou não ia dar certo. Não ia admitir morrer como um inválido, um rei caído! Precisava cair lutando e mostrar com a minha morte que vocês poderiam ser salvos, me tornar um Mártir. Trazer mio piccoli para essa tragédia que vê Afrodite? O menino morreria pouco a pouco e eu jamais permitiria isso ao Shun! A você! Nunca descansaria em paz...
Máscara parou de falar e fechou os olhos quando a dor fechou seus punhos dentro dele, aquela conversa estava sendo custosa, mas precisava. Afrodite acabaria por entender porque sabia que dentre todos da Família, o sueco era mais sensato do que emotivo. Saberia medir a frieza de tudo aquilo.
O silêncio se instalou por um momento onde só os soluços de Afrodite se misturavam aos pibs dos aparelhos eletrônicos que mantinham a vida de Ettore. Ele recuperava o fôlego porque ainda tinha muito que dizer.
— E 'meglio un dolore profondo e fugace che soffrire lentamente e l'amore si trasforma in peccato (É melhor uma dor profunda e passageira do que sofrer aos poucos e o amor se transformar em piedade). Você sabe que tenho razão Dite... Dimmi Fiori , come è il mio ragazzo Ikki , sembrava così perso le ombre che ho cominciato a preoccuparsi per vederlo trasformarsi in me ! (Diga-me Fiori, como está meu menino Ikki, ele parecia tão perdido para as sombras que eu começava a me preocupar em vê-lo se transformar em mim)! E Shun, meu pequeno... Fale-me dos meus! Aiolos está cuidando de tudo com Saga? Shun ocupa todos meus pensamentos desde que soube que ele matou Hades! Eu não queria, não queria que meu pequeno se manchasse de sangue...
— Ele o ama Ettore, não imaginou que ele ficaria louco de dor para fazer justiça com as próprias mãos? – a voz de Afrodite estava mais rouca com o choro, porém ele começava a parecer resignado e triste – Mas ele está bem, eu estou cuidando dele como ele cuida de mim. Shun vai seguir em frente porque eu não permitirei que a tristeza o abata, eu o amo e ele merece ser feliz. Você tem razão quando diz que sua morte era a melhor solução.
— Foi sim. – Ettore entendeu o recado nas entrelinhas, de Afrodite ele não teria o perdão que almejava. Mas sabia que poderia ser assim, era bom também que seus dois amores agora estivessem cuidando um do outro – Conte-me mais.
Afrodite cedeu e começou a contar sobre a família com os olhos cansados e nublados de morfina de Ettore sobre ele, à medida que falava o italiano parecia reanimar. Era um alento para o moribundo pelo menos ouvir que sua família estava salva apesar de tudo e Ikki encontrara pelo que lutar, Shun viveria uma vida de verdade assim como todos aqueles por quem lutou e amou. Tudo estava finalmente no seu lugar.
Tinha o orgulho de um pai com o dever cumprido de ver seus filhos criados e encaminhados, filhos esses que não precisariam mais viver à margem da lei como ele teve para sobreviver. Não tiveram que passar por todas as agruras que ele, Saga e Kanon, Aiolos tiveram que passar para sobreviverem.
A dor começou a se tornar insuportável, mas precisava continuar a ouvir o que Afrodite dizia e a olhar o rosto do belo sueco. Era uma bela visão a se ter antes de morrer.
O bipe contínuo interrompeu o relato de Afrodite que se levantou apressado olhando para os monitores e viu a linha que antes oscilava virar uma reta contínua. O sueco correu para o corredor, mas já havia médicos e enfermeiros entrando no quarto e por fim ele encontrou o olhar abatido de Aldebaran.
Afrodite saiu para o pátio e Aldebaran o esperava próximo ao seu carro, o sueco chorava silenciosamente e toda a dor de um ano atrás parecia ter sido revolvida. Ao ver O Touro, Afrodite se jogou os braços dele, Aldebaran tinha lágrimas nos olhos também.
— Como vai ser agora? – perguntou depois de um tempo enxugando os olhos.
— Vamos enterrá-lo no pé da macieira, mais tarde quando todos estiverem dormindo na Mansão. Foi seu último pedido.
Afrodite assentiu e entrou no carro, ganhou um beijo de Aldebaran e então finalmente se foi. O caminho de volta foi feito mais lentamente do que a vinda, para que seu espirito se acalmasse.
***
Na manhã seguinte Afrodite acordou com os olhos pesados e sem a presença de Shun consigo, pela janela pode ver que estava chovendo e no relógio que já era tarde. Shun o deixara dormir mais do que o necessário. Era domingo e ele não estaria de plantão, por isso o pintor não se incomodou de acordá-lo. Era seus pequenos cuidados que faziam de Shun alguém especial.
Foi a janela e observou quatro figuras vestidas de negro sob guarda-chuvas se dirigirem ao jardim leste da Mansão, a macieira de Mask. Correu para fazer sua higiene e se vestiu lembrando que dia era aquele.
Um ano da morte de Mascherani.
Quando chegou a macieira toda a Família estava lá, até seus novos membros. Hyoga ao lado de Ikki, os braços do moreno em volta do loirinho enquanto apoiava a cabeça sobre a do russo. Milo tinha o braço dentro do, sobretudo de Camus que segurava o guarda-chuva era o único, o resto havia seguranças segurando imensos guarda-chuvas para proteger todos.
— Vem Dite você vai ficar encharcado! – Shun o chamou para junto dele ao que Afrodite obedeceu, o menor estava sereno embora seu semblante fosse triste, mas ele não chorava – Chega de lágrimas não é? A saudade existe, mas chega de chorar... Por que esteve chorando amor?
— Por nada, acho que era para espantar de vez a tristeza. – abraçou Shun apertado e lhe deu um beijo delicado – Amo você Shun.
— Eu te amo também Dite. – se aconchegou outro enquanto o padre começava as começava as orações.
Dite olhava o tumulo com a grama fresca e a terra fofa e pensou que agora estava certo rezar para que agora Mascherani descansasse em paz, ele estava morto como deveria ser.
“Nunca vou contar a ele, esse segredo vai comigo para o túmulo comigo!” se fez essa promessa olhando para Aldebaran e houve um entendimento mútuo. Aldebaran ele sabia que jamais diria nada a ninguém, então ele devia fazer o mesmo e ser leal uma ultima vez.
— Alguém revolveu a terra? Os cachorros estão vindo pra cá? – Aiolos perguntou de repente.
— Eu troquei a capa de grama, estava velha e queimada. – justificou Aldebaran com Um em seus braços, beijando o alto da cabeça do companheiro e Aiolos deu de ombros se aconchegando à Saga.
Pandora se juntou a eles no meio da homilia do padre sem olhar para ninguém em especial, seu semblante era abatido, mas ela mantinha a cabeça erguida. Era sua família e não ia deixa-la por causa das mágoas com Ikki, elas passariam assim como a tristeza pela morte do Padrone passara.
— Rápido com essa reza padre ou vou acabar criando guelras debaixo dessa água toda. – Aiolia como não podia deixar de ser falou causando um riso discreto entre os presentes, até Shaka que estava em seus braços sorriu, mas revirou os olhos como não podia deixar de ser. Há um ano em um momento parecido havia uma dor imensa que agora parecia acalentada e assim deveria ficar.
“Em nome do pai, do filho e do Espirito Santo!” concluiu o sacerdote algum tempo depois e todos responderam “Amém” em uníssono.
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