Circus Palace Hotel
2 Capítulo 2
De acordo com o folheto que estava na gaveta do criado-mudo, o jantar seria servido às 18 horas. James olhou pela janela, para observar a vista, e percebeu que a paisagem ainda pertencia ao hotel. Uma enorme tenda estava montada no centro de um gramado, que estava rodeado por prédios. No prédio oposto, havia um relógio imenso, com uns três metros de diâmetro, supôs James. O relógio marcava 16 horas.
Com essas duas horas livres, James resolveu tomar um banho. Ligou a banheira, regulou a temperatura e apenas afundou na água, tentando não pensar em nada. Porém, o hotel despertava certa curiosidade no garoto, de forma que ele acabou logo o banho para explorar.
Vestiu-se com a mesma calça cáqui e pôs uma blusa branca, com os dizeres 'Made in LA' nas costas. A blusa havia sido um presente da tia, e ele prometeu usar na viagem, como uma forma de agradecimento pela ajuda monetária.
Guardou a chave no bolso, após trancar a porta, e voltou ao hall colorido. Desceu as escadas, evitando tocar nas tiras e também o olhar das máscaras.
De volta ao térreo, James percebeu como o hotel estava vazio. Quando chegou, havia visto uns poucos clientes, mas depois percebeu que eram apenas mais serviçais. Phillips ainda estava na porta, e sorriu quando o viu. O garoto chegou até a abrir a boca para perguntar o motivo da gaiola, mas conteve-se. Preferiu dar uma olhada nos corredores do térreo.
O corredor da esquerda levou-o ao que deveria ser o refeitório. As mesas eram redondas, pretas e lustradas, e estavam organizadas em fileiras. Uma mesa na lateral deveria ser onde os pratos eram servidos, e uma porta branca no canto devia levar à cozinha, imaginou James.
Como tudo no hotel, ali não deixava de ser peculiar. As paredes estavam revestidas de roxo, e um enorme tapete púrpura levava a um palco, onde deveriam ocorrer apresentações musicais durante o jantar.
"Zanzando pelo hotel, James?" disse uma voz atrás de si. Quando se virou, encontrou a garota loira e maquiada que o atendeu no balcão.
"Conhecendo melhor o local" respondeu ele, ajeitando mais uma vez os óculos.
"É melhor eu te acompanhar. Você pode se perder" acrescentou, quando ele abriu a boca para negar. "Sou Carmen."
"Você é parente de Phillips?" ele não se conteve.
"Meu irmão." Ela respondeu "Somos todos uma família no Circus Palace, entende?" James concordou com a cabeça em resposta, um pouco incomodado. "Você quer perguntar da gaiola, não é?" Ela pareceu ler seus pensamentos.
"Bom... sim." admitiu.
"Aquilo ali é um castigo. Phill foi muito curioso, a ponto de mexer em algo que não devia." Carmen pareceu bastante misteriosa ao responder. "Então o papai obrigou-o a vestir a gaiola feita especialmente para ele. Apenas papai tem a chave que abre a gaiola."
James pensou em fazer algum comentário, mas imaginou que poderia ter um cadeado na boca caso dissesse algo inadequado, então preferiu ficar quieto.
"Mas vamos ao tour" Carmen deu seu sorriso de recepcionista.
De fato, ali era o refeitório. Carmen e mais duas irmãs se apresentavam durante a noite, num número que ela afirmava ser incrível.
"De sexta a domingo, todas as noites durante o jantar. É uma tradição." ela disse, levando-o para uma saída.
Eles chegaram no gramado que James havia visto de sua janela.
"Vocês também fazem apresentações circenses?" perguntou ele.
"Não." respondeu Carmen, olhando para a tenda de um modo sonhador. "Ainda não. Estamos montando um novo espetáculo para apresentar-mos à visitantes e pessoas de fora. E também damos aulas de artes circenses." Ela parou de caminhar um momento e olhou para o garoto, como se tivesse acabado de notá-lo. "Você podia fazer!"
James quase engasgou. "Eu?"
"É. Você tem um porte físico ideal para atividades como a corda bamba, ou dança. Ou..."
"Ou..?"
"Para ser palhaço."
James imaginou a si mesmo usando uma maquiagem colorida, roupas folgadas e peruca. Recusou a idéia.
"Não, obrigado. Posso participar de outras formas." respondeu.
"Que outras formas?" ela perguntou. Sentaram num banco de pedra que havia no local, e observaram a tenda erguer-se como um incrível monstro colorido.
Acontece que James gostava muito de circos, porém não se sentia apto a se apresentar. Mas a alma circense o encantava, e muitas vezes ele tinha vontade de participar de algo assim.
"Por trás dessas lentes há muita criatividade." Thiago lhe disse uma vez.
"Veremos" ele respondeu, saindo de seu devaneio.
Continuaram caminhando ao redor da tenda, enquanto Carmen contava a historia do hotel.
Como ela disse, o hotel pertencia a família dela, a família Koranze. Com o tempo, a família Koranze foi se misturando aos poucos com outras famílias, de outros lugares por onde passava. "O circo é uma casa de portas abertas. Por onde passávamos, as pessoas entravam para o clube. Até chegarmos aqui." disse ela.
Alguns anos antes, o local onde o hotel foi construído costumava ser um terreno baldio. O Circus Palace (este era o nome do circo) decidiu comprar o local e armar seu picadeiro definitivamente ali. Feito isso, porém, ocorreu um incêndio por conta de um fio do poste, que gerou uma descarga elétrica e queimou tudo.
"O papai ficou arrasado. Eu devia ter uns dez anos, e cantava uma música num número de acrobatas." ela cantarolou rapidamente antes de voltar a contar a historia. "O papai foi indenizado, afinal, foi culpa do serviço elétrico da cidade. Com o dinheiro, ele resolveu construir o hotel. E agora vivemos disso."
James ficou um pouco assustado com a historia.
"Alguém morreu?" perguntou.
"Não estávamos em horário de apresentação, felizmente. Só tivemos uma vítima." Ela virou a cabeça rapidamente como se não estivesse disposta a falar do assunto. James sabia como era, perder uma pessoa assim, sem um motivo justo. Ambos suspiraram.
"Então vocês vão criar um novo show?"perguntou, tentando animar a conversa.
"É" Carmen respondeu, voltando a ser animada como sempre. "O papai está pensando em algo novo, sabe. Os circos clássicos estão deixando de ser interessante. Ele quer criar... Ah, esquece. É melhor você mesmo ouvi-lo falando disso." A esta altura, eles já estavam no prédio do relógio. O hall daqui era tecnicamente decorado com espelhos, e James pôde ver várias réplicas de sua figura frágil. A garota loira, ao seu lado, parecia alegre como sempre.
"Vocês gostam de decorações peculiares, hum?" ele comentou.
"O circo é peculiar. Meu pai tem uma certa admiração por relógios, espelhos, chaves, cadeados, gaiolas, máscaras e..."
"E tiras de tecido?" completou ele. Por um momento, ela pareceu confusa. Depois entendeu de que se tratava.
"Aquelas tiras pertenceram a todos os artistas que já passaram por nosso circo. Com certeza deve ter um Cardigan lá." ela disse. "Você é de onde, Cardigan? Los Angeles?"
"É." respondeu, mostrando as costas da camisa. "Porém meu pai é latino."
"Interessante", ela disse, deixando claro que não era interessante de jeito nenhum. Porém, James não se sentiu magoado com isso.
Como é de se esperar num tour, Carmen mostrou todas as partes do hotel. A sala de jogos, que estava ricamente decorada com luzes vermelhas e amarelas, o primeiro andar, que é a ala dos malabaristas, que estava decorada de um jeito mais moderno, as paredes brancas com manchas de tinta com cores fortes, e bolas de plástico coloridas dentro de caixas transparentes. O segundo andar, onde ficava o relógio, não tinha quartos. Apenas as engrenagens do relógio, e um carrilhão, além de uma vasta coleção de sinos.
"Meu pai também gosta muito de sinos." Carmen falou, tilintando alguns com os dedos.
Perto das engrenagens, havia um homem, que andava numa esteira.
"Esse é Bob. Ele coordena o movimento do relógio com suas passadas, fazendo as engrenagens girarem." Bob parecia um pouco, ou melhor, muito cansado. Seu rosto estava todo sujo, e ele aparentava não beber água há dias. Em sua mão ele segurava um tipo de martelo como daqueles de jogos de bater no alvo, porém este era de Madeira. Bom, James imaginou que ele estava segurando o martelo, porque a mão do homem não estava visível.
James acenou para Bob enquanto saiam da sala de engrenagens. Quando achou que o homem não ouviria, ele perguntou:
"Bob também está sendo castigado?"
"Não, claro que não. Ele faz isso porque quer. Há alguns meses, ele estava realmente muito gordo. Papai até pensou em pô-lo em exibição, mas mudou de idéia. Exibições de humanos estão ultrapassadas há séculos. Então, papai achou melhor fazê-lo emagrecer, e como Bob cuidava da manutenção do relógio, o serviço é perfeito."
Um alto e forte som soou do andar acima. Provavelmente, Bob devia ter tocado o carrilhão.
"Bom, James. Eu tenho que me arrumar para o show. Quem sabe você queira conversar com o meu pai sobre o novo espetáculo, o que acha?"
James aceitou a oferta. Desceram as escadas rapidamente, e chegaram a entrada da tenda, um grande arco de luzes piscantes, com os nomes Circus Palace. Lá dentro, James viu o quão grande a tenda era — poderiam caber, quem sabe, mil pessoas ali. Ele não era muito bom em estimar.
No centro do palco um grupo de crianças estavam ao redor de uma mulher. As crianças — possivelmente alunas — usavam roupas de ginástica, enquanto a própria mulher parecia uma cobra coral. Sua pele era pálida, o cabelo liso e negro chegava ao ombro. Seu uniforme, todo em vermelho, preto e branco, ia dos calcanhares até o pulso.
"Esta é Nadja. Costumava ser nossa contorcionista, como pode perceber" nesse momento, as crianças se surpreenderam ao ver a mulher-cobra dobrar em si mesma, o corpo esguio confundindo a visão de James. "Ela dá aula de contorcionismo. E o papai preparou um número para ela realmente interessante."
Eles contornaram o picadeiro, com o piso preto e lustroso, e entraram nos bastidores.
Uma confusão de coisas estavam ali. Cabideiros, cadeiras, latas de tinta, pedaços de um helicóptero e um espelho se misturavam a muitas outras coisas.
"Eu diria que já estão prontos para o show" James comentou.
"Ainda falta muita coisa. O telão não foi instalado, e papai ainda está pensando em algum número que precise de um relógio."
Ela o levou até uma porta com uma estrela, onde o nome Montreal Koranze estava escrito. Carmen bateu na porta algumas vezes. Uma voz baixa permitiu que eles entrassem.
Com todas as coisas que James já tinha ouvido falar sobre o dono do hotel/circo, ele acreditava que iria encontrar um homem trajando vermelho e com uma bela gravata preta, combinando com a cartola. Em vez disso, sentado numa mesa, rodeado de papéis, canetas coloridas, telefones e um computador moderno, estava um senhor de cabelos cinza, com óculos pequenos, corpo robusto e uma blusa branca de botão. Ele levantou os olhos e sorriu.
"Pois não?" disse.
"Papai, este é James Cardigan, um hóspede nosso. Ele pareceu bastante interessado no novo espetáculo, e pensei que o senhor talvez quisesse conversar com ele." Carmen falou.
"Mas é claro! Cardigan, hum? Achei que nunca mais fosse ver um Cardigan na minha vida."
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