James olhou para a entrada do hotel, estupefato. Nestas ultimas semanas, ele estava se sentindo cinza. Então, decidiu fazer uma viagem, conhecer novas pessoas e voltar a ter cores na vida. E, de certo, este hotel era o melhor lugar para adquirir cores.

O prédio do hotel era baixo — provavelmente com o térreo mais dois andares, e ocupava o quarteirão inteiro. Árvores floridas decoravam toda a fachada, com plantas rasteiras escalando as paredes de tijolos aparentes. Porém, o grande letreiro era o que chamava mais atenção no local: letras grandes e coloridas, redondas e caprichadas, escreviam o nome do hotel surgindo entre as nuvens, numa tenda colorida.

Circus Palace Hotel.

Claro que James preferia um hotel melhor. Mas toda a sua família havia notado o surgimento de uma depressão após a morte de Thiago, e, apesar das péssimas condições financeiras, insistiram em fazê-lo viajar. E o Circus Palace era o hotel com o preço mais acessível. James, que também estava começando a se sentir depressivo, não fez objeção.

Porém, quando desceu do taxi alguns minutos atrás, ele quase mudou de idéia. As cores fortes do letreiro o fizeram recuar, porém ele lembrou do esforço de seus pais e tios para pagarem a passagem e a hospedagem, e forçou a si mesmo a pegar a bagagem que o taxista oferecia. O seu reflexo nas portas de vidro mostrava como estava assustado. E frágil. James nunca se sentira tão frágil... Porém, ele tentou mostrar confiança. Ajeitou a postura, seus óculos e observou se havia alguma melhora. Negativo. Thiago iria rir desse seu jeito nervoso de ser — sempre desconfiado e arrumando os óculos de armação grossa que usava — mas Thiago não estava mais aqui. "Pare com isso, James" ele disse a si mesmo, num sussurro. "Você está aqui para melhorar esse ânimo." Então, ele deu um inseguro passo a frente, e as portas do hotel se abriram.

O que James viu não se parecia nem de longe um hotel. Logo a sua frente, um enorme balcão com janelas de vidro e pequenas aberturas estava decorado com pequenas luzes amarelas que piscavam ritmicamente. Por trás do balcão, moças com uniforme vermelho atendiam telefonemas e clientes, e em cima piscava, em pequenas luzes neon vermelhas, o nome 'Bilheteria'.

"Posso carregar sua bagagem?" James tomou um susto quando um funcionário de vermelho, parado segurando a porta, lhe dirigiu a palavra.

"Hã..." James não soube o que responder de imediato. Ele estava estupefato com o moço à sua frente. Ele não trajava apenas um uniforme vermelho, como também uma gaiola, que estava presa em seus ombros até onde suas mãos tocavam a perna. Assim, seus braços estavam presos, e apenas as pernas e a cabeça do moço estavam livres. "Não" Ele resolveu negar. Não sabia como o homem iria levar suas malas — provavelmente não com a boca. "Estou bem, obrigado. " acrescentou.

"Qualquer coisa é só chamar. Phillips, a seu dispor" o homem sorriu e acenou com a cabeça.

"James." o garoto sorriu de volta. Andou em direção a uma das "bilheterias" livres. A mulher por trás do vidro lhe deu boa tarde.

"Boa tarde" respondeu ele, educadamente. "Eu fiz reserva para, hã, um quarto." Parecia estranho dizer algo assim num circo. Mas aqui não é um circo, lembrou ele. "Seu nome, por favor." Ela sorriu. "James. Cardigan, James Cardigan". Ele disse, observando enquanto a moça digitava seu nome num computador que ele não havia notado. Seus olhos eram azuis, um pouco cinza, e estavam com uma maquiagem brilhante. Ela era bastante jovem, observou James, talvez com a mesma idade que ele, 16 anos. E ela tinha o mesmo tom de cabelo que Phillips — cor de areia.

"Seu quarto fica na ala dos Trapezistas." ela disse, lhe entregando uma chave dourada presa a um chaveiro de uma estátua de um artista circense. "Fica no último andar." Ah, claro. Trapezistas. "Boa estadia, James" ela sorriu pela ultima vez.

James voltou para o centro do hall, que era todo decorado de vermelho e dourado. Estátuas dos artistas decoravam as mesinhas que acompanhavam os sofás e as poltronas rubras, e, numa parede, James viu uma coleção de máscaras de meia face. As máscaras na parede subiam acompanhando a escada. James subiu, observando os rostos pela metade, pintados e decorados, constatando com a parede revestida com um tecido vermelho. A escada levava ao primeiro andar, que tinha uma sacada para o hall, com corrimões de madeira iguais ao da escada, pintados de dourado. James, que se considerava um certo conhecedor de arte, observou alguns aspectos barrocos no hotel — a forte presença do dourado, os ornamentos em Madeira, e os pequenos detalhes que surgiam aqui e acolá. Dando a volta pelo corrimão do primeiro andar, ele chegou a outra escada, esta com a parede decorada por... tiras de tecido. Aos poucos, depois de subir alguns degraus, James observou que cada tira havia um pedaço de papel preso. Ele pegou uma tira colorida, em que havia escrito:

Antonieta Dalí — 1932-1955

Nossa, pensou James, todos esses tecidos pertenceram aos mortos. Com um arrepio, James continuou subindo. Pelo menos não haviam pessoas com trajes esquisitas, como Phillips. O garoto chegou ao segundo andar, e observou que havia acertado — era o último. James olhou para cima e ficou maravilhado. O teto era uma cúpula octogonal de vidro, pintada de modo a lembrar uma tenda de circo. Com a luz da tarde que entrava, o chão projetava as cores pintadas — vermelho, verde, laranja e roxo. Ele andou até o centro, e se sentiu, por um instante, colorido novamente. Só então lembrou que este tom de verde era o favorito de Thiago, e que ele havia presenteado James no Natal com um moletom desta cor — que ele usava neste momento.

Voltou a buscar seu quarto. O hall deste andar era circular, combinando com a sombra octogonal no chão. As colunas douradas que sustentavam o teto estavam decoradas com parreiras, com uvas no topo. Uma placa com as mesmas letras douradas indicavam que o quarto com o número correspondente ao de sua chave ficava no corredor à direita. James andou pelo corredor até a porta indicada, o piso de Madeira ecoando seus passos. Ele colocou a chave na fechadura, e girou duas vezes. A porta de Madeira pintada de branco abriu suavemente, e James se encantou com uma visão celeste.

Todo o quarto era decorado de azul celeste e branco. A cama, de Madeira, estava no centro do quarto e tinha um dossel branco como as nuvens. O criado mudo tinha a mesma cor da mesa — branca — e tinha puxadores prateados circulares, e um abajour branco acompanhava um telefone também prateado. Uma cadeira de balanço branca com uma almofada anil estava posta ao lado da janela, que tinham curtinas brancas e permitiam que a luz da tarde entrasse no quarto. James colocou sua mochila em cima da cama e estacionou a mala de carrinho ao lado. Deu uma rápida olhada no banheiro, apenas para observar a banheira de porcelana com detalhes nos pés. Sentou-se na cama e abriu a mochila, lembrando que havia prometido a mãe que iria legar assim que se acomodasse.

"Ah, filho!" disse a mãe ao atender o telefone. "Como você está? Viajou bem? Fiquei tão preocupada se acontecesse alguma coisa!"

"Estou bem, mãe." ele respondeu. Sabia que ela estava preocupada porque não suportaria perder o outro filho. "Já cheguei no hotel."

"E o que você achou?" perguntou ela, com um leve tom de satisfação. "É um pouco diferente. Mas eu gostei." respondeu ele.

"Que bom, meu filho. Espero que aproveite a viagem! Já fez algum passeio pela cidade?"

"Estou programando nos próximos dias." disse James. "Vou conversar com os funcionários do circ... hotel e saber um pouco mais sobre o que há para se conhecer aqui."

"Pois bem filho, qualquer coisa, é só ligar!" ela disse, preocupada.

"Pode deixar, mãe!" Ele desligou o telefone e observou a foto que estava no plano de fundo. Thiago, três anos mais velho que ele, tinha o cabelo preto e liso, que fazia contraste com a pele clara. James era totalmente diferente. Sua pele tinha um tom caramelado e seus cabelos eram castanhos claros, um pouco loiros, e ondulados. Mas eles eram irmãos, unidos desde sempre. Porém, o destino resolveu por um carro desenfreado naquela faixa de pedestre e separou os dois. E agora...

Chega de pensar nisso, James se repreendeu. Deitou na cama macia, um pouco cansado da viagem, tentou dormir. E ele dormiu nas nuvens.