Circus Gang

1 Vamos jogar um jogo


Notas iniciais
Essa história serve de prólogo para o que se segue a partir daqui!

Havia um parque de diversões anexado a um circo, no qual ele trabalhava. Ninguém sabia seu nome verdadeiro, de onde ele era ou sua idade, porém havia recebido a chance de trabalhar no Circus Park devido sua grande habilidade com jogos de azar. Todos lhe conheciam como Beelzebub. De aparência jovial, pele extremamente branca e um cabelo liso, longo e escuro como a noite, o rapaz usava sempre uma cartola tão escura quanto além de seu terno e sua bengala, que usava principalmente por motivos estéticos uma vez que nunca o viram com uma dificuldade real para andar.

Costumava dormir durante o dia, dentro de sua barraca no parque de diversões, em que era responsável por realizar o desafio do copo: Uma brincadeira simples e bem conhecido mundo à fora em que se coloca um objeto (nesse caso, um dado), dentro de um dos copos. Então se vira todos eles de cabeça para baixo e os movem rapidamente, de modo que o desafiado seja obrigado a adivinhar qual dos copos é o detentor do objeto. No desafio de Beelzebub, mais especificamente, isso é feito com um total de seis copos. O ganhador, então, pode escolher um dos prêmios presentes em sua barraca ou, se preferir, receber a quantia de quatrocentos ienes (pouco mais de dez reais) em dinheiro. Cem ienes era o preço para três tentativas.

Durante a noite, a música circense começava a tocar e as luzes a se acender. Vozes, risadas e gritos podiam ser ouvidos. Naquele lugar todo dia era uma festa e Beelzebub já havia se habituado ao movimento. Em sua barraca, uma extensa fila se formava todos os dias por correr o boato de que seu desafio era um dos mais difíceis do parque. Ainda assim, tentativa após tentativa, o rapaz se limitava a dizer:

— Não foi dessa vez, senhor. Sinto muito.

E assim, desafiado após desafiado, derrotado após derrotado a fila ficava mais vazia. Até que, próximo do final da noite, restava apenas uma criança que mal conseguia alcançar o balcão. Beelzebub soltou uma risada:

— Ei garoto, qual é o seu nome?

—Tamura Keiji. — Disse o garoto de cabelos castanhos, em forma de tigela, enquanto ficava na ponta dos pés para poder ver Beelzebub melhor.

—Muito bem, Keiji. Cem ienes. — Após o recebimento do dinheiro, Zebub prontamente virou todos os copos de cabeça para baixo, movendo-os com uma agilidade impressionante. Ao terminar, repousou as mãos sobre o balcão de madeira que havia do lado de dentro da barraca e abriu um sorriso:

— Pode escolher.

—Escolho aquele ali. — O garoto apontou para o copo do meio com seus minúsculos e magros dedos.

Ao levantar o copo, foi uma surpresa para o próprio garoto saber que ele havia sido o único ganhador da noite. O mais velho forçou uma cara de desaprovação e então disse, num tom desanimado:

—Ah! Não posso acreditar nisso... Muito bem, vai querer um dos prêmios ou o seu dinheiro?

—Eu quero aquele urso! — Disse, apontando para um urso de pelúcia que tinha quase seu tamanho. Beelzebub então virou de costas para pegar o animal e o entregou ao garoto.

—Volte mais vezes! —Falou Zebub.

—Puxa vida, muito obrigado! — E o pequeno Keiji saiu correndo em direção ao parque — Pai, mãe, irmã, olha o que eu consegui! — Ele gritava, antes de sumir no meio das pessoas presentes. Não era um brinquedo que costumava ser procurado por garotos, então Beelzebub supôs que ele estava procurando por um presente para sua irmã.

—Facilitando o jogo dos outros? Não sabia que gostava de perder. — Disse um rapaz que, de braços cruzados, assistira toda a cena. Ao se aproximar da barraca, ficou bem claro para Beelzebub que se tratava de Nagai Sozen. Responsável por outro jogo de azar no parque, os dois mantinham um clima de rivalidade desde que se conheceram. Apesar disso, Nagai nunca conseguiu vencer Beelzebub em uma partida sequer.

— É uma pena, mas você não tem como provar. — Respondeu Zebub, recolhendo os copos em seguida. Sozen riu:

— Muito bem. Minha barraca está fechada e a sua não tem movimento nenhum. O que acha de jogarmos um jogo? —Nagai perguntou, claramente desafiando o outro.

— Deixo você escolher em que jogo você vai perder. —Zebub respondeu.

— Ora seu... — E antes que Sozen pudesse responder, ele foi interrompido por gritos. Normalmente se ouviam gritos de diversão pelo parque, mas os que se se guiam eram claramente gritos de horror. Temendo alguma confusão, Beelzebub pegou sua bengala e saltou do balcão para fora da barraca. Então caminhou junto de Nagai até o lugar do barulho.

Correram até um dos corredores do parque, que estava agora deserto não fosse por quatro pessoas: Três eram homens sem camisa com o kanji* para corvo tatuado nas costas. A outra era uma mulher que estava encurralada pelos homens, com as costas para uma das barracas do parque. Pelo chão, várias garrafas quebradas. Todos os outros que antes estavam ali haviam fugido incluindo os responsáveis pelos jogos, deixando o problema agora apenas para Beelzebub e Sozen.

Foi Zebub a dar o primeiro passo e a gritar para os homens:

— Ei, seus bêbados. Deem o fora daqui. Não gosto de brigas, mas vocês não são bem vindos enquanto continuarem fazendo bagunça e assustando o pessoal.

— Zebub! Olha a tatuagem nas costas dele, eles são da irmandade do corvo. — Disse Sozen em tom baixo ao ouvir a ordem do outro.

— Não me importa quem seja! Esse é o nosso parque e aqui dentro nós somos a autoridade.

Um dos homens virou-se na direção de Beelzebub e Nagai. Ele era forte, com um corte militar e uma calça camuflada, além de botas marrons. Tinha um sorriso cínico no seu rosto:

—O palhaço e o seu amiguinho devem ser muito corajosos pra se meter com a irmandade do corvo, viu? — O nome do rapaz a falar era Hattori Yujiro, o vice-líder dos corvos.

— Eu não vou repetir. — E então Zebub abriu um sorriso sincero. —Por favor, saiam do nosso parque.

—Ei Setsu, Kyo! Olhem isso! — Ordenou Yujiro, fazendo com que os outros dois homens se virassem também para os outros. Todos os presentes trocaram olhares intimidativos, enquanto a mulher procurava por uma oportunidade pra fugir.

Na primeira ameaça de movimento vida dos corvos, Beelzebub pegou no dorso de sua bengala com a mão esquerda enquanto a direita segurou em sua pega e a puxou, revelando que a bengala se tratava apenas de um disfarce para a bainha de sua espada, que agora ele empunhava com um dos braços.

“Uma bengala de lâmina?” Pensou o próprio Sozen, sem imaginar que o seu rival teria alguma habilidade com espadas. Mas ele, é claro, também tem seu truque na manga.

Beelzebub caminhou com certa tranquilidade em direção aos corvos. O primeiro capanga correu na direção dele, mas o soco do rapaz foi facilmente evitado. Em seguida Beelzebub lhe acertou um golpe na nuca com a empunhadura da espada, fazendo com que desmaiasse. Foi então a vez do segundo, o qual Zebub se esquivou com um rolamento, surgindo atrás dele e aplicando o corte sobre um de seus calcanhares, para que o inimigo caísse no chão e não pudesse voltar a atacar:

— Você... Quem é você? — Perguntou Yujiro, assustado com tanta perícia. Apesar da habilidade, Zebub não havia aplicado nenhum golpe fatal, preferindo incapacitar os inimigos.

— Beelzebub, o demônio de Tóquio. — Embora o nome não fosse familiar para o corvo, Yujiro só conhecia um “demônio de Tóquio” com habilidades tão precisas com a espada. Mas antes que pudesse pensar, o seu inimigo já apontava a espada contra seu pescoço. Tentou se mover, mas percebeu que sua calça havia sido presa à cabana por meio de duas pequenas facas de arremesso, uma acertando parte do tecido de cada perna, mas sem acertá-lo.

— Sabe... Beelzebub não é o único que tem seus truques. — Comentou Sozen com um sorriso no rosto.

— Vocês... Acham que o mundo é de vocês? Patético. Vá embora daqui. — Falou Beelzebub, guardando a espada na bainha disfarçada de bengala.

— Não pense que essa vai ser a última vez que ouviram falar de mim. — Yujiro se abaixou e removeu as facas que o prendiam. — Ninguém mexe com a irmandade do corvo.

Beelzebub deu as costas para Hattori e caminhou, passando por cima dos capangas e indo até Sozen uma vez mais, antes de dizer:

— Leve seus homens. Eles foram mais corajosos que você. — E Yujiro, evidentemente intimidado, obedeceu e partiu com eles.

— Muito bem... — Antes de Zebub continuar, entretanto, Sozen apontou uma vez mais para a barraca, onde a garota que havia sido incomodada estava caída, em estado de choque com a cena. O espadachim de cartola correu até ela e ofereceu uma mão para a mulher se levantar, oferta da qual ela aceitou.

— Mil perdões. Acabei me esquecendo de você. — Beelzebub soltou um sorriso sem graça.

—Como é que é?! Você vem pra me ajudar e acaba se esquecendo de mim? — A mulher, aparentemente bem jovem, respondeu um tanto quanto incomodada.

—Eu, lhe ajudar? Desculpe-me, eu estava ajudando o meu parque. —E, mais uma vez dando as costas para a barraca, Beelzebub passou a caminhar desta vez com a intenção de ir embora. — Eu vou indo na frente, Sozen. Vejo você no picadeiro. — Falou.

Alguns minutos depois, Sozen estava a sós com a garota recém-salva.

—Me desculpe por isso. Ele gosta de bancar o durão, mas ele é uma boa pessoa... — Comentou, quebrando o silêncio entre os dois.

—Tudo bem, mesmo. —A garota afirmou, lançando também um sorriso espontâneo. Nagai sempre fizera algum sucesso com mulheres. Era um homem bonito, afinal. Alto, esguio, com um cabelo ruivo espetado e olhos verdes.

—Qual é o nome da senhorita? — Sozen perguntou, retribuindo o sorriso.

—... Yukako. Meu nome é Yukako.

— Muito bem, Yukako. Porque não vem até o parque amanhã? Para compensar o pequeno incidente de hoje. Por minha conta.

—Pode deixar senhor...

—Sozen. Nagai Sozen.

— Sozen. Muito obrigada! — Ela retrucou indo já de encontro a saída enquanto acenava para ele, se despedindo. O rapaz retribuiu o aceno, enquanto dizia:

—Cuidado ao ir pra casa. Não queremos que mais nada aconteça, não é? — E riu.

Certificou-se de que a garota havia ido embora de vez. Tratou de ir atrás de uma vassoura para recolher as garrafas e se retratar com os poucos clientes que haviam permanecido no parque. Beelzebub teria de esperar um pouco, mas tinha certeza de que ele entenderia.

Notas finais
Kenjis são caractéres da lingua japonesa, no caso da irmandade do corvo, a tatuagem retratada é esta: http://www.nj.com.br/kanji/kanjis/c_corvo_karasu.jpg
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.