Circus
2 Constrangimento
Notas iniciais
-Pode entrar. – Disse Tenma depois de mais alguns segundos absorvendo o choque e pensando se deixaria ou não Tsurugi entrar em sua casa. Não havia motivos para não querê-lo lá, mas não se sentia confortável estando sozinho com o azulado e também tinha aquele sentimento que não o deixava em paz...
Bem, isso não era motivo para deixar Tsurugi ali, morrendo de frio, era? O outro passou pela porta sem nem hesitar e retirou seus sapatos molhados ao lado dos de Tenma.
O moreno pediu para que se sentasse numa cadeira de ferro, para que não molhasse o sofá que havia na sala.
-Tsurugi, eu vou lá pegar uma toalha pra você e já volto. – Disse calmamente.
-Tudo bem. Aproveite e vista uma blusa! Sem nada você deve estar morrendo de frio. – Disse com seu desdém habitual.
Tenma balançou lentamente a cabeça para cima e para baixo e virou-se na direção da escada. Ele não conseguia entender a situação. Num momento era ele e sua janta e agora era ele e Tsurugi. Logo Tenma voltou com uma toalha em mãos e uma blusa branca de manga comprida no corpo.
Chegou perto de Tsurugi e entregou a toalha para ele. Como havia colocado a cadeira de ferro na sala, Tenma sentou-se ao lado de Tsurugi no sofá.
Seguiu-se um silêncio um pouco constrangedor para Tenma, mas Kyousuke parecia indiferente quanto a isso. Ele estava secando seus cabelos tão calmamente e também... Estava ignorando o pobre Tenma, que nada entendia da situação. O moreno decidiu falar alguma coisa.
-Tsurugi...
O outro abriu seus olhos, que até então estavam fechados e direcionou seu olhar para Tenma. Por meio segundo seus olhares se encontraram e Tenma pôde observar a beleza misteriosa que o âmbar dos olhos de Tsurugi guardava. Mas isso durou muito pouco, já que logo Tenma desviou o olhar. Assim que percebeu que o olhar de Tenma não estava mais indo em direção ao seu, Tsurugi fechou os olhos novamente.
-Fale. – Disse Tsurugi.
-O que faz aqui?
Tsurugi percebeu que não havia explicado nada ao outro e decidiu falar.
-Eu estava na cidade e começou a chover. Minha casa estava muito longe e a sua estava só uns dois quarteirões de onde eu estava, então vim pra cá.
-Entendi... Eu acho. Tsurugi, você está todo molhado! Uma toalha não vai resolver não. Vá tomar um banho quente.
Tsurugi abriu os olhos e olhou o garoto. Assentiu levemente com a cabeça e se levantou.
-Matsukaze.
Tenma olhou para Tsurugi. Ele estava muito desconfortável naquele momento e tudo o que menos queria estava acontecendo naquele momento. E também, aquela chuva... Os barulhos dos trovões e as luzes repentinas dos relâmpagos estavam mexendo com a cabeça de Tenma. Ele odiava chuva e odiava ainda mais aqueles barulhos.
-Oi?
-A casa é sua, Matsukaze. Você precisa me levar até o banheiro.
-Ah! Claro.
Tenma subiu a escada sendo seguido por Tsurugi. O guiou até o banheiro e deu a ele uma toalha limpa. Tenma seguiu para seu quarto separou algumas de suas roupas para Tsurugi e deitou-se na cama. Olhou para o criado mudo ao seu lado. Concentrou-se na enorme pilha de mangás em cima dele, esticou a mão e pegou um deles, aleatoriamente. Já havia lido todos e sabia a história. Só procurava por um passa tempo.
Começou a ler o mangá, mas nem pôde fazer isso por muito tempo. Logo Tsurugi apareceu na porta de seu quarto, com uma toalha enrolada na cintura. Algumas gotas de água pingavam de seus cabelos. A chuva não havia enfraquecido nem ao menos um pouco, Sasuke devia estar sofrendo lá fora.
-Tem umas roupas ali, Tsurugi. – Disse apontando para o canto da cama, onde deixara as roupas que separou – Vai voltar pra casa?
-Não tem como. Posso passar a noite aqui? – Disse retirando a toalha da cintura e começando a se vestir.
Os olhos de Tenma concentraram-se ainda mais no mangá naquele momento, mas era impossível deixar de ver aquele corpo nu se mexendo atrás do mangá. A pele branca de Tsurugi contrastava muito bem com o ambiente escuro do quarto de Tenma.
Toda vez que Tenma desviava os olhos inconscientemente para olhar Tsurugi, este coincidentemente estava olhando para o moreno. Tenma olhou para Tsurugi umas três vezes, mas como Tsurugi o havia visto olhando era provável que ideias erradas de Tenma passassem pela sua cabeça.
Quando Tsurugi finalmente acabou de se vestir ele olhou para Tenma. Completamente concentrado no mangá que estava lendo. Seu rosto estava oculto pelo mangá. Isso por sua sorte, o rosto de Tenma estava completamente corado.
Tsurugi não podia ver isso do ângulo em que estavam. Tenma respirou fundo e quando sentiu que seu rosto já não estava tão vermelho quanto antes, fechou o mangá e recolocou-o na pilha. Olhou para seu relógio novamente. 21:00. Uma hora se passou, como o tempo voa quando você está vivendo uma situação constrangedora, não é?
É claro que não. Uma hora era muito, mas considerando que Tsurugi iria passar a noite ali e ainda acordar ali... Uma hora não era nada.
-P-Pode...
-Nossa, que demora pra me responder, Matsukaze! Já estava pensando em como conseguir correr meia cidade pra chegar em casa vivo nessa chuva.
-Tsurugi, vamos jantar?
-Vamos.
Tenma e Tsurugi comeram a comida que Aki deixara. Apesar de que ela só cozinhou o suficiente para Tenma, então, disfarçadamente o moreno comeu menos que comeria normalmente para que Tsurugi pudesse comer também.
O jantar foi saboreado no silêncio mais esquisito que Tenma já presenciara. Quando terminaram de comer, Tenma pegou a louça e a colocou na pia.
O dia havia sido cansativo e ele queria dormir, por isso decidiu que dormiria mais cedo.
-Tsurugi, eu vou dormir agora... Se quiser assistir televisão ou algo assim.
-Não. Eu vou dormir também.
-Então venha.
Tenma começou a caminhar em direção ao seu quarto. Mas parou quando ouviu a voz de Tsurugi.
-M-matsukaze...
-Que foi? – Disse gentilmente.
-Nada não. Não foi nada.
Eles voltaram a andar. Tenma achara aquilo estranho, mesmo vindo de Tsurugi.
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