Circuitos
1 Único
“Quando você morrer, vai ter bastante tempo para descansar.”
As palavras preferidas do meu pai. Eu penso nelas ao sobrevoar Onírica bem cedo, procurando por algo útil no lixão quarenta metros abaixo. Um carburador de zircônio que possa ser recuperado. Um transformador de hélio de um modelo não muito antigo, que ainda valha qualquer coisa no mercado de latas.
O lixão tem me mantido viva, aos trancos, desde que meu pai foi “descansar”, na última grande enchente. A mesma que levou a nossa casa. Não era uma ótima casa, mas era melhor que dormir debaixo da chuva radioativa. Meu finado braço esquerdo que o diga.
Eu sobrevoo uma parcela do lixão onde OutraVida Corp. descarta seus desejos, quando eu a vejo. No início, distraída, acho que é uma pessoa, com seu cabelo lustroso e torso humanoide. Alguém desmaiado entre os escombros? Um corpo?
Eu movo a guias de navegação – um par de halteres que comprei no mercado por uma pechincha e adaptei à guisa de volante, na ausência dos originais – e inclino Ovni quarenta e cinco graus. Começo a descer, ativando os sensores de gases venenosos acoplados ao painel. Meus pulmões, embora adaptados, ainda são orgânicos, então não quero arriscar. Ainda é muito cedo para “descansar”.
Não é uma pessoa, não no senso tradicional da palavra, o que se usava uns quatrocentos anos atrás, antes da Reforma Cibernética.
Sua pele é cor de mercúrio líquido, onde está intacta – a maior parte do rosto, pescoço, ombros, braços e pernas. Onde não está, posso ver seus circuitos expostos. Alguns queimados, outros desencapados, poucos intactos. A estrutura está lá, mas parece ter sofrido sério abuso. Ao ver seu estado, meu olho esquerdo fica úmido. Eu o limpo com a mão direita, me chamando de idiota sentimental, e delibero meu próximo passo. Não estou procurando por andróides. A guarda não ia gostar de me ver andando por aí com um, mesmo em partes, sem uma licença. É melhor evitar problemas.
Começa a chover, como sempre acontece por volta daquela hora. As gotas corrosivas batem no teto de Ovni e não causam nenhum dano, mas eu posso ver através do visor que cada gota abre uma queimadura nas pele delicada da androide largada entre escombros. Quando a chuca acabar, não vai restar muito dela. Provavelmente é por isso que foi descartada ali sem muito cuidado; era suposta a se derreter antes de ser recuperada.
Eu suspiro, abrindo o alçapão de Ovni e ativando as garras de precisão. Lembro a mim mesma que é pela possibilidade de lucro. Se eu conseguir recuperá-la, vai valer uma fortuna.
* * *
Eu a levo para a oficina – uma usina abandonada no extremo sudoeste de Onírica, depois do primeiro anel, onde quase ninguém vai (“o melhor caminho é para cima”). Não funciona como um abrigo, pois também é suscetível às enchentes, mas ao menos é seguro para deixar ferramentas escondidas, tudo que eu consegui acumular ao longo dos anos. É lá que eu trabalho por semanas, fazendo o meu melhor para reparar os circuitos de fibra óptica, re-acoplar as pequenas partes, remendar o que falta do seu material de primeira com o que eu consigo achar, de quinta categoria.
Enquanto eu trabalho, penso naquele livro da Mary Shelley, uma escritora de antes da Reforma – na época em que escrever ficção era uma profissão popular para seres humanos. Eu nunca vi um livro, coisa extinta há pelo menos uns trezentos e cinquenta anos (quero dizer, papel? Quem achou que isso era uma boa ideia?), mas os humanos de antes fizeram narrações dos seus livros e os colocaram na nuvem. Achá-los na ConsCo – a Consciência Coletiva, o lugar onde todo o conhecimento humano fica guardado e acessível pela rede – é a coisa mais fácil, se você souber o que está procurando.
Enfim, Mary Shelley. Ela escreveu sobre um cara louco que colocou um monte de partes humanas juntas para ver se conseguia criar um ser humano novo. Por um golpe de sorte (ou, vamos ser francos, de energia elétrica), seu monstro criou vida e passou a odiar a si mesmo, por ser uma aberração feita de partes, portanto fadado a ser execrado pelo resto da humanidade.
Eu simpatizo. Também sou feita de partes. Tudo que eu perdi depois da enchente – ao menos as perdas físicas – eu substituí pelo que fui achando no caminho, graças ao que aprendi com meu pai. Eu substituí o meu braço esquerdo – corroído pela chuva ácida num dia que acabei dormindo num campo descoberto — com um quase ótimo braço ciberorgânico achado no lixão, e que, apesar de um pouquinho maior do que o meu braço original, se provou ótimo para interagir com os sistemas de precisão atômica. Foi assim que eu consegui controlar a Ovni, aliás. Uma autonave meio ultrapassada – de uns cinquenta anos, época em que todo mundo ficou obcecado com extraterrestres de novo. Ovni me serve bem como meio de transporte, e mais frequente ainda, como abrigo. Desde que eu consiga estacioná-la fora do alcance da guarda.
O fato é que, eu penso no doutor Frankenstein de Mary Shelley enquanto reparo a androide. Eu acho que faço um trabalho melhor que o dele, porque no fim, ela não parece uma aberração. Parece até mais humana do que eu, apesar das emendas em suas articulações e da pele, feita com uma malha de escamas de fibra de vidro microscópica impressionante.
É justamente quando eu estou reparando a sua pele, usando pinças minúsculas e a magnificação provida pelo meu olho direito, que vejo a etiqueta de fabricação em sua nuca. Outra Vida, diz, seguido pelo número de série. Eu devia ter imaginado.
E ainda assim, alguém a tinha descartado. Defeito? Outra Vida Corp. jamais admitiria, mas debaixo do pano, era de conhecimento geral que uma parte dos uploads falhavam.
Eu não espero fazê-la voltar a funcionar– não sou iludida como o doutor Frankenstein. Androides precisam de mais do que ser atingidos por um raio para andar por aí– tente, por exemplo, baterias de nitrogênio líquido. Ou, se estiver se sentindo especialmente esbanjador, um cerne de antimatéria. Ela não tem nada disso. Eu nem mesmo sou capaz de localizar seu compartimento de energia.
Mas não importa. Mesmo sem funcionar, ela vai render alguma coisa no mercado negro. Tem gente esquisita que gosta de colecionar droides e ficar admirando eles em uma prateleira, ou sei lá mais o quê. Isso quando não aproveitavam as peças para uso pessoal – como eu fiz com o meu braço, e mais tarde, com o meu olho esquerdo.
A ideia de que ela pode ser desmembrada e vendida em partes me causa um arrepio esquisito. Eu decido que não serei aquela a fazer isso; quem quiser que a compra inteira e resolva mais tarde.
Quando eu já estou deitada na poltrona da Ovni, que eu inclino o máximo possível para trás na hora de dormir– procuro umas músicas de Michael Jackson na Consco. Michael pode ter morrido há centenas de anos, mas ele ainda me acalma.
* * *
Os olhos dela são enormes, da cor da autunita – aquele verde fluorescente que costumavam usar para indicar radioatividade, na era pré-Reforma. Cor rara em Onírica, porque radiação de verdade não é verde, e porque a maior fonte dessa cor na natureza – plantas e árvores e outras coisas que se enroscam – não crescem em nosso solo encharcado de – ironicamente – fertilizante.
Eles – os olhos de autunita – me encaram através do visor de Ovini e quase me fazem ter um ataque cardíaco. Ela está funcionando! Eu desengajo a porta da minha esquerda e rolo para fora da autonave, pisando em uma das plataformas suspensas da oficina, onde eu estacionei para a noite, por minha conta e risco, porque não queria deixá-la sozinha.
— Olá — eu digo, com a proficiência de quem não fala com outra criatura em… um bom tempo.
— Olá — ela responde, sua voz ligeiramente robótica, só um timbre metálico, mas de outra forma suave, piscando os assombrosos olhos verdes para mim como se eu fosse a coisa intrigante, entre nós duas. — Você me consertou?
— Eu… é. Achei você no lixão. Desculpe, não sabia que ia acordar — acrescento rápido. Há uma chance mínima de ela ter se auto-descartado, e de eu ter violado a sua escolha de se desligar. Se ela me denunciar para o conselho defensor dos direitos cibernéticos, eu estou lascada.
— Tudo bem – ela olha para as próprias mãos. Eu consertei os seus dedos o melhor que eu pude. Suas mãos são pequenas, combinando com o resto de sua construção. Quem quer que tivesse sido a sua original, não tinha sido velha, uns dezesseis ou dezessete anos, no máximo. O nariz dela era uma coisinha pequena no rosto, um pouquinho torta. Acho que o rosto foi esculpido à mão– com recursos monetários o bastante, ciberartesãos podiam esculpir partes androides com mais realismo do que qualquer impressora 3D era capaz. Impressoras 3D não lidavam muito bem com assimetria.
— Eu estou com fome.
Eu assinto. É claro que ela está. Vou buscar no fundo de Ovni um fluído de bateria que eu mantenho para emergências. Eu ofereço o que me resta, mas ela fez uma careta.
— Não tem nada mais… humano? Tipo, coca-cola?
Eu quase dou risada alto. Depois fico séria, quando algo me ocorre. Será que ela não sabe o que ela é? Será que não se lembra do upload?
— Venha comigo — eu digo, oferecendo a minha mão – a direita. Ela olha, incerta, para os meus dedos escuros, feitos de carne e osso, tão diferentes dos seus. Quase me arrependo da oferta. Nas últimas semanas eu me tornei íntima do seu corpo, por conta do reparo minucioso. Eu conheço cada parte dela, mas o oposto não é verdadeiro. Sou uma estranha para ela. Retraio a minha mão.
— Só vem comigo. Quero te mostrar uma coisa.
* * *
Nos fundos da oficina há uma parede gigantesca coberta com espelhos, intacta a não ser pelas manchas de umidade que florescem de dentro para fora como flores de mofo, e das ocasionais rachaduras ao longo das bordas. Essa é uma coisa interessante sobre o vidro – ele sobrevive quando tudo mais se degrada.
O concreto e as vigas metálicas decaem depois de uns quatrocentos anos, as carapaças de ferro e alumínio oxidam e viram pó, mas o vidro resiste por milênios.
Esse faz parte do átrio da recepção, e duplica o salão de escombros, mostrando-nos uma segunda versão dele, mais sombria e empoeirada, interrompida pelos pontos escuros de umidade e repartido pelas cicatrizes no vidro. Também reflete nós duas, minúsculas e vivas, interrompendo a paisagem bruta.
Ela observa o reflexo de si mesma. Seu pequeno corpo humanoide prateado, agora quase perfeito a não ser pelos meus reparos descuidados. Um parafuso descombinado em seu cotovelo, uma remenda em alumínio na omoplata, onde um naco de fibra de vidro se perdera. Uma parte grande de seu torso, desde o seio até o quadril e se estendendo pela coxa, que eu substituíra da melhor maneira com uma rede de liga de prata flexível, que se fundia nas bordas com o resto da pele, mas deixava entrever os seus circuitos internos. Ela tocou aquela parte se si mesma com assombro.
— Quem você era? — Eu pergunto, sem conseguir mais me conter. Ela me olha, olhos verdes radioativos arrematados por um cenho franzido, e eu explico: — Você foi feita por Outra Vida, para abrigar a mente de alguém cujo corpo estava morrendo. Antes de fazer o upload – quando ainda era humana – quem você era?
— Eu… não faço a menor ideia. Quem você era?
A pergunta me ofende um pouquinho.
— Quem eu sou. Eu ainda sou humana — eu arremato com orgulho ferido.
— Tem certeza? — ela indica o meu braço e o meu olho biônico.
— Esses são só adendos, perdi uma partes… digo, uns órgãos pelo caminho. Longa história.
— Então, quem você é?
Eu mudo de nome com constância. Não vejo motivo para ter um só, se posso ter vários. Não que faça diferença – são nomes que ninguém chama.
Eu respondo pensando em Mary Shelley:
— Frankie.
— Olá, Frankie — ela diz para o meu reflexo, pelo espelho.
Eu olho também, tentando me ver pelos olhos dela. Talvez eu pareça menos humana por conta dos adendos. Um braço mecânico, modelo RK 765 comprado no mercado de latas. Começava em meu ombro, onde eu tinha cortado a coisa corroída e derretida que restara do original. A compatibilidade tinha sido quase perfeita e em poucas semanas eu tinha aprendido a controlá-lo. Funcionava até melhor do que o original, mas a carapaça era vintage, de aço escovado, destoando da rica pele marrom, macia e suave que cobria o resto do meu corpo. A sensibilidade também não era lá das melhores, mas a funcionalidade para pilotar Ovni compensa.
O olho, também do lado esquerdo, eu tinha perdido no lixão, em um soterramento. As pilhas enormes de lixo eletrônico eram instáveis, e uma delas tinha desabado em cima de mim há alguns anos. Um olho fora um preço pequeno a se pagar. Mais tarde, eu o substituíra por um monóculo de ultra alcance que tinha custado uma nota, mas me permitia instalar sensores para detecção das mais variadas coisas, e além do mais, eu podia ver no escuro. Bem irado.
Ah, e com ele eu podia assistir filmes antigos na Consco, bastava tapar o olho direito. Era assim que eu via os shows de Michael Jackson, carregados numa plataforma centenária ainda acessível, o Youtube.
O resto de mim… era bem humano. O corpo de uma garota de vinte poucos anos, magro e firme. Eu não comia muitas calorias (quem pode pagar esse tipo de coisa, hoje em dia?) e exercitava muito os músculos, na peleja diária. O meu cabelo – crespo, cheio e marrom mais escuro que a minha pele – ficava melhor fora do meu rosto, preso em tufos em cada lado da minha cabeça. Meio que como os da princesa Leia. Outra referência pré-Reforma… eu passo muito tempo ressuscitando coisa velha na Consco.
A coisa que eu mais gosto em mim são as minhas orelhas. São herança de papai – ele era obcecado por elfos (uma raça fictícia de literatura humana pré-Revolta), e comprara uma mutação epigenética para deixar as próprias orelhas pontudas como as deles.
Quando eu dou uma pausa em minha auto-análise pseudo-projetiva infrutífera, vejo que a androide voltou a encarar a si mesma, uma inquietude em seus olhos verdes. Eu pergunto qual é o problema.
— Eu preciso de um nome.
— Você provavelmente tem um — eu digo, tentando ser bondosa com aquela coisinha perdida e vulnerável que alguém achou de jogar fora. — Só não se lembra. Não está em sua etiqueta de identificação.
— Então talvez um nome novo? — Ela sugere, pegando o espírito da coisa e me fazendo sorrir. — Você me ajuda?
Eu me lembro de umas das músicas que coloquei no repeat, enquanto trabalhava em seu rosto, alinhando as pequenas escamas de fibra para devolver o contorno suave das suas pálpebras, o vale sinuoso dos seus lábios, enquanto re-aplicava cada fio de seus cílios espessos.
— Billie Jean.
— Billie Jean — Ela repete em sua voz ligeiramente robótica, que me lembrava um sotaque. — Eu gosto.
* * *
Eu levo Billie Jean comigo no dia seguinte, nós duas apertadas no único assento de Ovni, e ela me fez um monte de perguntas.
“Por que você dorme em uma nave?” (Por que eu perdi minha casa em uma enchente.) “Como você sabe consertar androides?” (Meu pai me ensinou, ele era muito bom nisso). “O que aconteceu com seu pai?” (Morreu afogado. Não quero falar sobre isso.) “O que você faz o dia todo?” (Eu acho e conserto eletrônicos descartados, depois os vendo no mercado de latas.) “Qual é a sua comida preferida?” (Eu não tenho uma, como o que dá pra comprar com o dinheiro que faço.) “Por quanto tempo você está sozinha?” (Eu não sei, parei de fazer as contas.).
Coloco música para tocar nos alto-falantes internos de Ovni, para ver se ela para um pouco. Não que eu não goste de responder, mas depois de tanto tempo sozinha, o falatório está me dando umas pontadas na cabeça.
I took my baby on a Saturday bang
(levei a minha garota para uma balada no sábado)
Boy, is that girl with you?
(Cara, é essa garota que está com você?)
Yes we’re on and the same
(Sim, nós estamos juntos)
Now, I believe in miracles
(Agora, eu acredito em milagres)
And a miracle has happened tonight
(E um milagre aconteceu essa noite)
Billie fica toda rígida ao meu lado e faz um som metálico estranho. Eu olho, achando que ela está dando curto circuito, mas ela me olha de volta com os olhos arregalados e a boca meio aberta. Seu rosto é muito expressivo – uma obra de arte de verdade. Deixa minha espinha arrepiada.
— O que é isso? — Ela pergunta, apontando um dedo prateado para a origem do som, os alto falantes sobre as portas de cada lado da autonave.
— Música — eu digo, sorrindo. — De um cantor chamado Michael Jackson. Pré-Reforma.
— Humano?
— É claro. Andróides não sabem fazer música. É por isso que não se ouve mais por ai, mas tem uma infinidade na Consco, se você souber onde procurar. Michael era o rei do pop. O melhor de todos.
Ela ouve Black and White inteirinha sem mexer um parafuso, e depois Beat it. Fico me perguntando se ela sente a música em seu cérebro de nanopartículas e microfibras do mesmo jeito que eu. Se arrepia o seu corpo inteirinho, se deixa o seu peito frouxo, se faz o corpo dela querer se mover no ritmo da batida.
A próxima canção é Billie Jean.
She was more like a beauty queen from a movie scene
(Ela parecia mais uma rainha da beleza de uma cena de filme)
…
She told me her name was Billie Jean
As she caused a scene
— Sou eu! — Ela exclama. — Eu estou na música!
Eu sorrio em silêncio, conduzindo Ovni sobre o lixão, mas sem vontade de procurar coisa nenhuma.
Acho que eu já achei o que eu estava procurando.
* * *
— Por que você chama a sua autonave de Ovni? — Billie me pergunta.
Nós estamos em um pod externo de uma Starbucks abandonada, observando as ruínas do que foi uma cidade pré-Reforma, e o canal escuro e seco do que já foi um rio.
— É um acrônimo. Significa “objeto voador não identificado”. É engraçado, porque Ovni não tem registro oficial, então é isso que ele é. Ah, e o formato oval, como dois pratos unidos pelas bordas, é como os humanos de antigamente achavam que as naves extraterrestres se pareciam.
Billie olhou para o céu, pensativa.
— Fico pensando se eu já fui em algum lugar extraterrestre.
— Se você era rica como parece, deve ter ido. Todo mundo com recursos vai, nem que seja para uma temporada em um dos spas lunares.
Billie assente, abaixando os seus olhos para as ruínas aos nossos pés. Eles parecem brilhar ainda mais com a luz do sol difuso que vaza entre a espessa camada de poluição acima das nossas cabeças. Eu começo a suspeitar que ela se utiliza de algum de sistema fotossintético para gerar a própria energia, do tanto que gosta de ficar do lado de fora, durante o dia.
As ruínas da cidade de antes me faziam pensar que tipo de vida tinham os humanos daquela época. Quando podiam viver no nível do chão, antes do solo se tornar mortal e do ar ficar irrespirável. Será que todos tinham palácios? Será que suas casas eram espaçosas, com grandes janelas e tetos muito altos, como os da oficina?
Os humanos de agora moram em pods quase tão pequenos como o que estamos matando tempo hoje, só que eles ficam lá no Alto, em torres altas o bastante para ultrapassar a nuvem de poluição que bloqueia o céu de Onírica. Eles fabricam o próprio oxigênio, a própria água, a própria comida. Os androides são essenciais para manter tudo isso funcionando, e os humanos são essenciais para manter os androides funcionando.
Eu nunca fui além da nuvem. Meu pai fora banido para Onírica, eu acho, mas não falávamos sobre isso. Nossa sobrevivência dependera de melhorias artificiais em nossas vias respiratórias. Dióxido de carbono é muito mais abundante no nosso ar do que o finado oxigênio.
— Frankie, você tem medo de morrer?
Eu não sei. Nunca pensei muito à respeito.
Você vai ter tempo para descansar quando morrer.
Morte é tão irreal para mim quanto árvores e palácios. Eu sei que o meu pai morreu, mas isso sempre me pareceu uma anomalia, não a regra. Em Onírica, as coisas não morrem. São recicladas, transformadas em outras. Billie Jean era a prova disso.
— Acho que eu não acredito em morte, Billie.
* * *
Billie e eu ficamos juntas. Ela me ajuda a encontrar e recolher peças todo dia. Embora no começo ela não é boa em reparação, aprende rápido. Ela gosta de cantarolar sua música enquanto trabalha, o que sempre coloca um sorriso em meu rosto. Eu a vicio em Michael Jackson.
Billie nunca procura descobrir porque foi descartada, ou o que foi em sua primeira vida. Talvez por respeito à mim, que a reparou– ao menos é o que eu gosto de pensar.
Somos leais uma à outra. Com a ajuda de Billie, monto uma nave maior que Ovni, com dois lugares e assentos que se reclinam 180 graus e escorregavam em trilhos para se unir no centro. Dormimos abraçadas. Eu gosto dos sons mecânicos do seu corpo, tanto quanto ela diz apreciar dos sons orgânicos do meu.
Chamamos a nova autonave de Casa. Não é um acrônimo para nada. Significa exatamente o que quer dizer.
O tempo passa. A não ser pelas reparações que eu faço à Billie quando ela sofre algum dano – uma nova placa capilar para substituir seu cabelo negro, cheio de nós e arruinado pelo vento – ou um ou outro remendo em suas fibras de vidro, que resiste muito mais dano do que a minha pele, mas não sabe se refazer sozinha – ela continuava a mesma que foi no dia em que nos conhecemos. Ela recarrega as suas baterias em longos banhos de sol no topo de prédios em ruínas, e economiza carga durante a noite, se desligando enquanto eu durmo.
Mas eu mudo. Minha pele perde a elasticidade, e tem mais dificuldade em cicatrizar quando eu me machuco. Meus pulmões adaptados ficam cansados, tornando a minha respiração barulhenta e difícil. Às vezes eu esqueço coisas, até o nome dela. Então ela cantarolava a sua música, e eu me lembro.
Um dia, eu fico realmente cansada. Quando eu digo isso para Billie, ela assente de um jeito que parece compreender, mas o verde radioativo dos seus olhos ficam opacos.
— Só prometa que vai me desativar. — Ela me pede. — Eu não quero ficar sozinha.
— Mas você não precisa ficar sozinha. Pode voltar para a o Alto e reclamar a vida que estava esperando por você depois do upload. Você não tem que descansar, pode viver para sempre.
Billie balança a cabeça.
— Eu achei aqui embaixo a outra vida que eu precisava. Além disso, acho que eu não acredito em eternidade, Frankie. Não depois de você.
Há uma enchente, como a que levou meu pai, alguns dias mais tarde. A correnteza nos encontra abraçadas dentro de Casa, Billie desligada, eu dormindo.
Estamos prontas.
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