Circo Macabro (remake)
6 Corações apertados
Notas iniciais
Seu Souza conferiu mais uma vez o andar de baixo da casa. Rondou a cozinha para ver se Mônica tinha entrado pela porta dos fundos para não acordar os pais. Certificou-se de conferir se o relógio no pulso marcava a mesma hora do relógio da parede. Quase meia-noite. Tentou mais uma vez ligar para o celular da filha. A linha chamava, o mesmo barulho irritante pausado da discagem até dar o aviso para deixar uma mensagem na caixa postal... Desligou mais uma vez, coração aflito. Subiu novamente as escadas, para fingir que voltaria para cama. Passava devagar pela porta da filha, na esperança de que Mônica tivesse preferido subir a janela para evitar a bronca. Queria que fosse o caso. Seu Sousa não ia gritar com ela, não mais. Ele só queria poder vê-la de volta em casa, sã e salva.
Sentou-se na cama da filha, cogitando acampar lá para esperar que ela chegasse. Já havia passado da hora. Talvez fosse culpa daquele delinquente. Cebola era um menino tão direito, morava na casa ao lado, não desviariam do caminho. Dona Luísa chegou na porta, os olhos pesados de sono. Perguntou ao marido se ele conseguiu falar com ela. Nada. Talvez devessem ligar para a casa dos Hiromashi, perguntar se a filha ficou por lá. Para não ter que enfrentar o pai. Luísa não quis dizer a segunda parte, não era hora de pesar mais ainda o coração com o arrependimento.
– Não está tarde para telefonar agora, Luísa? – disse levantando da cama, fingindo estar mais calmo do que devia – Isso não é hora de ligar para a casa de ninguém... Eles devem estar chegando...
De repente o telefone tocou. Seu Sousa disparou até o quarto onde ficava um dos aparelhos sem fio da casa. Ela só perdeu a hora, queria uma carona... Passos largos e apressados. Ansiosos demais.
– Alô?
– Oi, boa noite, Sousa, desculpa ligar essa hora. – era Keiko, a voz fina e temerosa – Estou ligando para saber se o DC não ficou por aí, ele ainda não chegou aqui...
No fundo, talvez fosse o Sr. Nimbão contrariado, também ansioso para saber do filho. Foi com uma dose de receio que ele respondeu que não, nem ele nem Mônica tinham chegado ainda.
– Você não conseguiu falar com ele? Pelo celular... – a pergunta carregava mais angústia do que repreensão, uma pontada de esperança.
Não. O garoto não usa celular. Keiko pediu novamente desculpas, disse que ia avisar a polícia... Ouviu no fundo, o pai do rapaz bufar, talvez estivessem fazendo hora no parque, vão ficar lá até todas barraquinhas fecharem, o DC tinha feito isso uma vez...
– Vamos então ir lá... – escutou a voz severa da mulher – Desculpa, Sousa pelo inconveniente... Quando encontrarmos os dois, vamos levar a Mônica em casa, tudo bem? Não precisa se preocupar.
– Obrigado, Keiko. E sinto muito pelo inconveniente.
Desligaram. Apesar de se sentir mais aliviado, alguma coisa ainda o deixava angustiado. Não era hora de estarem ainda na rua, mesmo que sua filha fosse autossuficiente, a garota mais forte do mundo, ela ainda poderia correr riscos. Era uma irresponsabilidade tanto de um quanto de outro... Disse para a esposa que ficaria aguardando o carro na porta. Sentou no sofá, ansioso pela chegada da filha, pensando no que diria depois de abraçá-la bem forte...
++
Cebola não tinha conseguido dormir. Alguma coisa apertava seu coração. Um frio de gelar os ossos passava por seu corpo, enquanto aquela cicatriz estranha no antebraço resolveu queimar. Não tirava o nome de Mônica da cabeça. Tentou ligar para ela, mas a mula teimosa não o atendeu. Uma parte de si ficou com raiva dos ciúmes que sentia do atual namorado. A outra parte dirigia a raiva para DC. Rolou na cama, forçando-se fechar os olhos inúmeras vezes, sem sucesso algum.
Apertou a coberta contra o corpo para fazer com que aquele frio nos ossos passasse, mas a sensação não o abandonava. Alguma coisa tinha mudado dentro de si deste Sococó da Ema. Talvez fosse arrependimento. Saber que seus amigos correram tanto risco, que havia a possibilidade de morrerem por culpa dele... Como ele poderia viver num mundo sabendo que foi ele quem matou Mônica? Sua cabeça pesava... Ele a amava, era pelo sorriso dentuço dela que seu coração batia, pelo brilho nos olhos... Mas ele precisava ser bom o suficiente para merecê-la, ele precisava ganhar dela para provar que era forte, inteligente... Estava tudo perdido... Ela escolheu aquele imbecil! E DC era tão idiota que ele não percebia o quão inferior ele era, que ele não devia se sentir no direito de ficar ao lado de Mônica, que dirá abraçá-la ou beijá-la. Argh, colocou o travesseiro em cima do rosto para abafar o grunhido. Só um completo idiota para não perceber o tamanho da honra que ele tinha...
Não, DC sabia aproveitar a oportunidade. Era um idiota aproveitador. Ele a abraçava mesmo que Mônica pudesse quebrar os ossos dele se esquecesse de conter a força. DC segurava a mão dela como se pudesse dominar os passos dela. Inventava programas estúpidos que Mônica nunca toparia, então por que ela ia? Porque ela gostava da companhia dele... Quantas vezes não pegou os dois idiotas olhando um para o outro, rostinhos corados, os braços dela envolvendo a cintura dele, enquanto ele apoiava os braços nos ombros dela circulando o pescoço da garota. Tão alheios ao mundo que nem percebiam os outros se aproximarem. Por mais brava que Mônica estivesse, a imbecilidade dócil do rapaz a desarmava. Piadas que estressariam qualquer um arrancavam um riso dela e a carranca suavizava... Como ele conseguia acreditar que era capaz de salvá-la?! Só naquele programa de mentira... E por que diabos Mônica acreditou? Por que ela pegou a mão dele e se deixou ser salva?!
As luzes vermelhas e azul piscando contra a janela iluminaram o quarto banhado de noite escura. Cebola resolveu levantar e ir conferir o que tinha acontecido. As luzes vinham do topo do carro de polícia na frente da casa dos Sousa. Na varanda, os pais de Mônica conversavam com dois policiais. Não era possível saber o que exatamente conversavam, mas a ausência gritante da garota fez o coração dele pesar. Uma parte dele queria correr até lá, não importava se estava de pijama, se não era da conta dele, ele precisava saber que estava tudo bem. Por reflexo, pegou o celular, tentou ligar para ela mesmo que fosse madrugada, mesmo que o maldito visor dissesse para ele que já passava das três da manhã, ele precisava ouvir a voz dela, mesmo que ela brigasse com ele.
++
Na manhã seguinte, os mesmos dois policiais que conversaram com os Sousa na madrugada foram no colégio investigar o paradeiro dos adolescentes, saber rumores de colegas de classe. Cascão respondeu algumas perguntas sobre o casal de amigos, sobre a última vez que conversaram no dia anterior. Seria mesmo a última? O rapaz colaborou o quanto pôde, sentindo o peito apertar. Aquilo era algo que a baixinha jamais faria... Depois se juntou à Magali que evitava o restante da turma. Denise provavelmente tinha uma história sobre os jovens apaixonados que fugiram para se casar, uma fofoca sem graça para aliviar o peso da situação. Outros cogitavam algo mais sombrio, entre raptos e assassinatos... ETs, segundo engraçadinhos... Um arrepio na espinha. Viu Cebola aproximar deles cabisbaixo.
– E então, careca? Você falou com a Mônica ontem?! Está sabendo de alguma coisa?! – havia receio na voz de Cascão, algo que ele não conseguiu disfarçar.
– Até parece! Ela estava me evitando... – o desconforto se transformou em raiva, transmitida na voz, mais do que ele gostaria.
– Ela só estava copiando o mesmo comportamento seu. – Magali o repreendeu – De qualquer forma, isso tudo é muito esquisito, gente. A Mônica não tinha nenhum motivo para sumir assim, do nada. Nem o DC...
– Vai ver a Denise está certa, e ela fugiu para casar com o namoradinho. – o deboche na voz dele era uma raiva invejosa e quase infantil.
– Isso não é hora para brincadeiras, Cebola, isso é sério! A Mônica desapareceu. A Dona Luísa foi lá em casa hoje cedo para perguntar para mim se por acaso ela fez contato, disse que ela tinha saído para ir para o circo e não voltou para casa. Ela me disse que a Dona Keiko foi até o endereço e não tinha sinal de circo nenhum! Eles estão achando que os dois tinham planejado fugir por causa de uma discussão... Isso tudo é muito estranho... Ela tinha me chamado para ir junto, disse para eu levar o Quim... Se eu tivesse ido, talvez... – a garganta de Magali ficou apertada com a angústia.
– A culpa não é sua, Magá. – Cascão abraçou o ombro da amiga, a puxando para mais perto.
– Eu até conferi o endereço... – pegou o celular e estranhou – Pera aí, não era esse o cartaz...
– Como assim?
– O desenho... Eu lembro que tinha umas flores, uns arabescos com um monte de raminhos e folhas. A tinta era verde e tinha um desenhinho de fauno com uma flauta embaixo... E o endereço era outro...
A foto do celular não condizia com a descrição: agora era um cartaz branco impresso com tinta nanquim azul, coberto por círculos como bolhas d’água. No centro inferior do cartaz, a silhueta de uma sereia de braços abertos como se cantasse o convite: “Esplendoroso Circo Magnífico das Incríveis Criaturas do Senhor Dante onde o impossível, vestido de sonhos, é a estrela no palco das ilusões. Venha se maravilhar com aquilo que encanta as estrelas. Apresentação imperdível. Única noite. Bairro Limoeiro, rua das Violetas, terreno baldio emprestado. Às 21h. Se este cartaz te encontrou, esteja convidado. Não perca a chance de se entregar às maravilhas. Imperdível!”
– Ótimo! Hoje nós vamos para o circo. – declarou Cebola – Vamos desmascarar esses palhaços.
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