Notas iniciais
Well, aqui está o primeiro capítulo!

O relógio na parede da Loja de Discos 24 Horas marcava meia noite, ninguém ia atrás de música àquela hora, mas o velho Rod, o dono do lugar, não abandonava sua filosofia de que não havia hora para a música e que seria completamente errado da parte dele negar a qualquer insone a vontade de comprar um disco às três horas da manhã. Porém, não era ele quem encarava a solidão madrugada a dentro na loja e sim seu único funcionário, Samuel.

Mas, naquela madrugada, como em algumas das anteriores desde que topara ajudar uma jovem com suas habilidades limitadas de hacker, o rapaz vinha tido a companhia de Petra que agora se encontrava sentada no balcão da extensa e mal decorada loja, balançando seus pés de forma impaciente enquanto observava Samuel digitar rapidamente no computador.

— Conseguiu achar alguma coisa? — Perguntou com a ansiedade em sua voz.

Samuel demorou um pouco a responder, mas finalmente o fez sem tirar os olhos da tela:

— Você não pode apressar a arte.

Petra bufou e jogou a cabeça para trás. O rapaz estava há quase meia hora rodando a internet por informações, buscando por qualquer coisa que fizesse com que os papéis espalhados pela mesa tivessem algum sentido. Já haviam descoberto pelo menos o nome do dono do número para o qual o pai de Petra havia feito a última ligação antes de levar um tiro na testa. Até tentaram ligar, mas só o que conseguiram foi ouvir a voz irritante da gravação feminina da operadora avisando que o número não mais estava ativo.

— Hum… Agora faz sentido. — Samuel assentiu, ainda com a atenção voltada para o monitor.

— O que? — Petra franziu o cenho, confusa.

— O cara, esse tal Filipe, ele é dono de um circo. Faz sentido ele mudar sempre de número já que vive na estrada. — O rapaz ponderou com a cabeça e finalmente ergueu os olhos para Petra, olhando-a através das lentes de seus óculos. — Mas no site do circo não tem qualquer número para contato, o que é esquisito. — Fez uma careta e olhou novamente para o computador. — Quem foi que eles contrataram para cuidar desse site? Quer dizer, ele está online desde 2002 e não tem informação nenhuma aqui, só alguns calendários e… — De repente Samuel franziu o cenho e aproximou o rosto da tela como que para ter certeza do que havia acabado de ler.

Petra ergueu as duas sobrancelhas e o encarou com urgência.

— Me diz que essa cara não é por causa de alguma codagem mágica, nós não temos tempo para isso, você sabe. — Advertiu antes que o amigo pudesse falar qualquer coisa.

— Não, eu só… Que dia mesmo você disse que seus pais foram… Hum… Morreram e tal? — Ele perguntou meio hesitante e mordiscou a parte de dentro do lábio inferior.

Petra rolou os olhos e riu fraco, achava engraçado a forma que as pessoas lidavam com isso, tinham medo de falar sobre a morte de seus pais ou nem gostavam de usar as palavras certas, talvez por temerem lembrarem-na do ocorrido. No entanto, não era como se ela não repassasse as imagens diariamente em sua cabeça.

— Dia dois de agosto de 2005, por que? — Cruzou os braços, mas fitou Samuel com curiosidade.

— Eles mantêm um calendário com registro do itinerário desde que o site abriu, o que é um grande desperdício de espaço, mas, se isso estiver certo, você não vai acreditar em onde eles estavam no dia dois de agosto. — Ele falava e negava lentamente com a cabeça.

No momento em que Petra ouviu as palavras, pulou de cima do balcão e foi para o lado de Samuel.

— Esse é o Circo Donovan?

— É, como sabe? — Foi a vez dele de franzir o cenho em confusão.

— Eu já estive lá. Sam, você consegue descobrir onde eles estarão nessa semana?

A urgência a voz de Petra fez com que Samuel virasse-se para o computador e trabalhasse rápido para achar a resposta daquela pergunta. Os olhos do rapaz iam rapidamente de um lado para o outro da página na web.

— A cidade mais próxima é Rosalina, eles estarão lá amanhã, mas ainda assim ela fica há umas cinco horas daqui. — O rapaz retornou o olhar para a ruiva ao seu lado. Você não está pensando…

— Em ir lá? — A garota arqueou as sobrancelhas. — É exatamente nisso que estou pensando. — Assentiu e sorriu de canto.

***

A paisagem passava rapidamente pela janela do caminhão e os olhos castanhos e sonolentos de Petra acompanhavam o movimento. Conseguir carona até Rosalina havia sido fácil, o difícil mesmo fora fugir de casa. A avó já vinha notando a mudança de atitude na garota e estava mais atenta do que nunca desde que ela, depois de tantos anos aceitando os abusos, as broncas e as eventuais agressões, calada, finalmente começara a resistir e a fazer perguntas sobre seus pais. Não foi a toa que Petra precisou pedir a Samuel para que comprasse algo que mantivesse a avó dormindo como uma pedra por pelo menos algumas horas, assim foi mais fácil pegar tudo o que podia, colocar em sua mochila e correr dali.

Estava exausta, as suas investigações independentes tiravam-lhe o sono e o caminho a pé de ida e volta até a loja de discos toda madrugada por quase um mês a desgastava. A cidade em si era bem pequena, mas a avó morava na casa de campo da família a quase três quilômetros do centro da cidade. Com a cabeça escorada no vidro do caminhão, Petra acabou por adormecer.

— Garota? Garota. — Ouviu alguém chamar-lhe e sentiu uma leve cutucada em seu braço.

Abriu os olhos lentamente e esfregou o rosto, tentando focar sua visão no rosto oleoso do motorista que a chamava, encarando-o em interrogativa.

— Chegamos.

Rosalina era só um pouco maior do que Vila Luna, a cidade onde morava com a avó, mas parecia ser muito maior. Talvez por seus largos campos floridos ou o enorme centro comercial. E não podia esquecer da enorme roda gigante localizada na praça central, não estava mais em funcionamento, mas era um dos símbolos mais fortes da cidade. Ao descer do caminhão e se deparar com o movimento, Petra lembrou-se de que naquela semana estava ocorrendo o Festival das Flores, pessoas do país inteiro vinham prestigiar toda a diversidade e cor que Rosalina tinha a oferecer.

Arrumou sua mochila nos ombros e agradeceu ao motorista pela carona, ao que ele apenas avisou-a para ter cuidado.

— Uma garota como você não deveria estar andando sozinha por aí, não é seguro. — E, apesar de Petra ter tido o primeiro instinto de apenas ignorá-lo, sentiu uma real preocupação na expressão enrugada do senhor e acabou por sorrir gentilmente em resposta.

Ela não estava nem de longe bem vestida, queria as roupas mais práticas possíveis, provavelmente quando voltasse ficaria na casa de Sam, o próprio havia oferecido o local e era improvável que sua avó a encontrasse ali. Claro, era uma solução provisória, mas já era algo. E, mesmo com a calça jeans surrada, a camiseta de lavagem simples, um enorme casaco de couro marrom desbotado amarrado na cintura, botas pesadas e uma mochila verde musgo para completar o visual andarilha, Petra ergueu o queixo e andou com toda altivez que lhe fora ensinada.

Não precisou andar muito, apenas seguiu o fluxo até a praça principal, a roda gigante estava decorada com belos arranjos e na praça estavam montadas barracas coloridas, algumas de jogos, algumas de guloseimas, tudo o que um bom festival precisava ter. E, também na praça, uma grande lona listrada de vermelho e branco se erguia. As bandeirolas se esvoaçavam na brisa da tarde agradável e um letreiro colorido anunciava o “Espetacular Circo Donovan!”, o cheiro das flores se misturava ao de pipoca e algodão doce e era tão confortável! A música era alegre e contagiante, as crianças e seus pais já estavam aglomerados na fila para um ingresso.

Os olhos de Petra estavam brilhando ao observar a cena inteira, os palhaços brincando e fazendo o tempo de espera ser tudo menos tedioso, a risada generalizada, a euforia. A quem ela queria enganar? Era apaixonada pelo circo, pela magia toda que aquele ambiente emanava.

Antes mesmo que percebesse estava parada na frente da bilheteria, estudando os preços. O único dinheiro que tinha era o que usaria para a volta para casa e não podia gastá-lo com besteira. Sacudiu a cabeça tentando apagar seu sorriso e a ideia insana de poder assistir ao espetáculo. Não foi para isso que havia ido até ali, ia esperar que a noite caísse e as apresentações acabassem para tentar conseguir uma palavrinha com o dono do circo.

Porém, mesmo que quisesse evitá-la, a expressão de desapontamento era grande no rosto de Petra, tanto que chamou a atenção de um dos palhaços dali.

— Problemas, senhorita?

Ela olhou para o lado a fim de identificar o dono da voz. Não tinha certeza se o rapaz só tinha um sorriso incessante ou se essa era a impressão que sua maquiagem causava. Ele estendeu uma flor na direção de Petra, que pegou-a ainda um pouco hesitante.

— Obrigada. Isso não vai espirrar água em mim, vai? — Deu um sorriso discreto depois de analisar o lírio rapidamente.

— Lhe dou minha palavra que ela é inofensiva. — Ele fez uma pequena reverência e continuou a olhá-la. — Sobre o problema…

— Não tem nenhum, só estava dando uma checada nos horários mesmo. — Deu de ombros tentando parecer o mais casual que conseguia.

— Seria uma pena se você não tivesse dinheiro. — Pelo seu tom de voz ele realmente parecia sentir muito, mas continuava sorrindo, o que tornava tudo bem assustador.

— Eu tenho.

— Eu sei que sim, mas se não tivesse eu diria que você poderia entrar pela parte de trás da tenda, alguns minutos antes de entrarmos, nós fazemos a concentração e isso inclui os seguranças. É muito rápido, mas dá para entrar. Não que você vá se importar com essa informação, porque vai comprar o ingresso, não é mesmo? — O tom do palhaço ainda era extremamente cordial, mas sua expressão era cúmplice.

— Nos vemos lá dentro. Quer dizer, eu vejo você. Não que eu vá usar sua informação, é claro. — Ela sorriu de canto e deu as costas ao palhaço.

— Até lá, senhorita — Ele acenou antes que ela se afastasse demais e, mesmo não o vendo, Petra pode sentir o sorriso em sua voz, o que a fez sorrir também.

Petra encarou ao seu redor, ninguém parecia mais estranhá-la ali e vagarosamente se aproximou da parte onde supostamente seria o “quintal” da tenda. Um longo cordão de isolamento era vigiado por dois homens que a olhavam com desconfiança — ela e qualquer outra pessoa que se aproximasse demais o local —, como se ela fosse invadir a qualquer momento. Por isso, a garota achou melhor manter certa distância, foi até uma barraca de tiro ao alvo de onde tinha uma visão razoavelmente boa do cordão de isolamento e seus vigias, podendo assim prestar atenção quando a tal concentração fosse acontecer. Fingiu estar assistindo o jogo de algumas crianças e até se empolgou quando um garotinho que estava no que seria provavelmente sua milésima tentativa finalmente conseguiu acertar o bendito ursinho azul. No entanto, seus olhos sempre voltavam para lá, atentos para o momento em que os homens fossem abandonar seu posto por tempo suficiente para que ela entrasse, ou pelo menos ela esperava que o tempo fosse o bastante.

Alguns minutos se passaram até que ambos trocaram um olhar de consentimento e assentiram de forma quase imperceptível um para o outro, saíram de seus lugares de forma quase robótica e entraram pela fenda triangular que a tenda formava.

Petra tentou ser o mais discreta possível ao caminhar de volta ao cordão, olhou para todos os lados antes de passar por baixo dele. Correu para o mesmo lugar por onde eles haviam entrado na tenda, assim que entrou já podia ver a entrada para o apertado espaço embaixo das arquibancadas. Ouviu a trupe trocar palavras de apoio entre si e queria tanto ter ficado ali e ouvido tudo, mas tudo o que não precisava era ser pega e isso significava ter de ir para o mais distante possível das vozes deles. Não gostaria nem de imaginar o que aconteceria se fosse expulsa dali sem nem ter a chance de trocar qualquer palavra com o tal Filipe Donovan.

Ela se esgueirou para dentro do pequeno túnel e andou agachada até que encontrasse um lugar onde pudesse enxergar o picadeiro sem ninguém a atrapalhar. As luzes de apagaram e Petra já havia tomado seu posto. Um murmúrio de ansiedade passou por toda a plateia, uma vibração que chegou até o estômago da garota.

Não demorou muito mais para que o espetáculo começasse. Petra sentia-se uma criança novamente, tudo no circo lembrava-a de seus pais. As luzes, os palhaços, as vestimentas glamourosas. Os trapezistas davam seu show e a plateia ia a loucura a cada salto arriscado que eles realizavam. Como a mãe adoraria estar ali.

Seus pais haviam morrido há tanto tempo, mas sempre que pensava naquilo Petra ainda sentia como se houvesse acontecido ontem, a falta deles era algo que ela sempre precisava lembrar-se de se acostumar. Conseguia lembrar com nitidez sobre as reportagens e entrevistas a cerca do misterioso assassinato de Péricles e Marieta Machado, o produtor musical e a cantora mais marcantes da época haviam sido atacados em sua própria casa e encontrados pela filhinha de apenas oito anos de idade. A situação toda era um prato cheio para a mídia que adorou transformar a vida da família inteira em um inferno se perguntas, não dando qualquer espaço para encarar o luto.

O malabarista havia acabado de fazer com que todos a platéia fizessem um belo coro de “oh!” quando ela sentiu uma presença ao seu lado.

— Não te ensinaram que é feio entrar sem pagar?

Notas finais
Espero que tenham gostado do capítulo e aguardo feedback!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.