Cinzel
1 Cartas
Notas iniciais
Tudo teve seu inicio em fevereiro de 1887, mais detalhadamente, em uma quinta-feira de céu acinzentado e chuva fina. Ao comando de David Britannia, o rei sucessor de Alexander Britannia, nós adentramos cegamente e escassos de sentidos em um jogo de ganância onde a justiça se escondia em porões de palácios e mansões. Lares onde qualquer soneto era um som agônico e ganancioso.
Éramos semelhantes a peças vazias, brevemente ressuscitadas junto a uma doença de espírito hereditária, mergulhadas em hipocrisia e riqueza incomum — desejo — quando souberam por uma carta escrita a mão por tinta e dotada de uma caligrafia impecável, que uma alma "desapegou-se" a este mundo. Aparentemente aquele pedaço de papel dobrado delicadamente era verídico, pelo selo da família real estampado em cera vermelha sobre o envelope, todos os lugares já sabiam, e questionavam quem iria retomar o trono a seguir.
Após dois dias do luto em noticia do falecimento do atual rei, fora solicitado às famílias que herdavam o poder na Inglaterra uma reunião, da qual o motivo era óbvio e esperado com sorrisos, a herança.
Cada uma das pessoas membros das famílias construía uma parte da corrente formada pela realeza, era inquebrável, os que muitos pensavam, mas dês de seu começo haviam sinais de ferrugem evidentes que por uma cegueira por toda sua grandeza, passava despercebido, afinal, responsáveis pela revolução industrial e desenvolvimento, quem os julgaria?
Dividida por seis famílias almejadas, eram elas; Britannia, sangue puro da realeza, Tissou Britannia; conhecida por sua gentileza, classe e lealdade impecável, Lutero Britannia; orgulhosos e galanteadores de berço banhado a ouro, e curiosamente, tendo apenas homens na família, Champbell Brittania; rudes, egoístas e rigorosos dentro de sua própria família e com as pessoas ao redor, sem exceções, Beetem Britannia; prezam a diversão e o sarcasmo, dizem que não há necessidade de conflitos, até desmerecê-los, lobos em pele de cordeiro. Renomados e incrivelmente possessos por poder, nessa questão, eram todos idênticos, sem ao menos relutar contra tal confirmação, entretanto, apenas uma se diversificava, Alpha Britannia; do qual seu paradeiro foi desconhecido por anos, sem vestígios ou trilha de migalhas, era como se fosse dotada de uma invisibilidade questionável, quieta, sem ao menos um sussurro.
Os trotes do cavalo eram auditivos ao longe, as rodas desesperadas da carruagem em seu tom escuro de preto puxada pelos mesmos batiam brutalmente no chão onde passara, as respirações ofegantes vinham junto a um descontrole e impaciência de uma dama.
— Ande logo, rápido! — Gritava uma voz feminina dentro daquela cabine um tanto luxuosa revestida em vermelho de veludo, que em sua porta mostrava um símbolo conhecido banhado a ouro.
— Estou indo o mais rápido que consigo, senhorita — O senhor mantinha a calma perante tal situação.
— Apenas faça o que eu mandei! — Resmungou abrindo seu leque em preto florido de forma rude.
— Mas... Sim senhora — Os músculos dos animais esforçavam-se com o balançar das cordas vindas de um gesto do condutor.
Apenas sabiam que o destino esperado pela mulher havia se aproximado quando as rodas se acalmaram, e o bufar dos cavalos era sinal de uma corrida que acabara de terminar.
— Chegamos, senhorita — O idoso puxava as cordas afim de parar definitivamente o caminhar dos cavalos, quando os mesmos demonstraram resistência, mas fora breves momentos até cessarem.
— Finalmente! — As mãos enluvadas por um tecido transparente preto pegava sua pequena bolsa de cetim bordada, fechando seu leque volumoso.
— A dama poderia me dizer, porque aqui? Se não for me intrometer demais, é claro.
— Isso é se intrometer demais! — Um homem se aproximou da carruagem assim que viu o ataque de aversão da mulher.
— Desculpe-me meu amigo, mas isso é um assunto pessoal no momento, com o tempo a noticia surgirá — A voz doce e calma da pessoa que parecia um tanto relaxada fez a senhorita revirar os olhos castanhos.
— Não, não, o senhor que me perdoe, sinto muito me intrometer nisso.
Com sua cordialidade, o homem que havia chegado a pouco fora até a porta da carruagem abrindo-a e estendendo sua mão que foi aceitada pela moça, e cuidadosamente ajudou-a a descer, assim tirando o peso da carruagem a fazendo subir um pouco.
Logo o condutor foi surpreendido por um pequeno saco marrom de pano contendo moedas de ouro, do qual em sua boca estava amarrado uma corda, como agradecimento por levar a senhoria até sua estadia, partindo assim em silêncio depois de agradecer com um gesto com a cabeça, apenas comandando os cavalos a andarem. Os dois em pé esperaram até o homem se distanciar, e os sons dos galopes cessarem.
— Romeo, não precisava vir até aqui, principalmente um membro da Lutero — Disse soltando a mão do jovem rudemente.
— Não há a necessidade de ser tão rude, Ellena, principalmente com o clima que está dentro da mansão — Endireitou sua postura e olhou de soslaio para a porta alta de madeira bruta que dava acesso a entrada daquele lugar exageradamente enorme.
— Dentro da mansão?... — Perguntou receosa.
— Creio que sua família também recebeu esta carta — Retirou de seu casaco preto em curva sobre os quadris com um singelo abotoamento no peito, um pequeno envelope com o símbolo real.
— Pensei que apenas uma família seria chamada para isso, dividir o bens entre todos é como ter apenas um pão para compartilhá-lo com tantas pessoas — Mostrou o egoísmo que não passou despercebido pelo mais alto.
— Enfim senhorita Champbell, acho melhor nos apressarmos, eles ficarão irritados se atrasarmos — O rapaz de olhos castanhos mais claros que os cabelos da mesma cor, cedeu seu antebraço, da qual a moça com classe permitiu-se ser levada a entrada por ele — Você está muito bonita hoje — Ellena sorriu por um momento com o elogio repentino, mas logo retomou a feição de desgosto por tudo e todos, o vestido verde escuro que usava estreito em sua frente e volumoso em um amontoado de tecido atrás, terminada em cauda, mostrava suas curvas, fazendo um belo par com seus olhos esverdeados e em um penteado extravagante castanho.
Passando por um belo jardim do qual era revestido pelas flores favoritas do antigo rei, uma propriedade invejada, com lagos, arvores, mas especialmente naquele dia, estava sombria, e as nuvens acinzentadas estavam fixadas no céu. Então as portas altas se abriram ao girar as maçanetas douradas de um modo estarrecedor e sinistro.
— Jovem mestre, seja bem vindo — Um senhor um tanto bem vestido falou, era provavelmente o mais velho dos empregados, com cabelos grisalhos e um pouco corcunda.
— Deus, não me assuste assim, e além do mais, acho que não posso ser chamado de 'jovem mestre', Richard — Romeo sorriu assim que se recuperou do recente arrepio.
— Perdoe-me jovem... — Recebeu um olhar amedrontador e brincalhão de Romeo e corrigiu-se — Senhor.
— Senhorita Ellena, que bom vê-la novamente, como foi a viajem de volta a França?
— Foi ótima, enquanto durou — Olhou de relance para o mais alto ao seu lado.
— Richard, volte ao seu trabalho — Ordenou, e imediatamente o empregado assentiu, parando ao lado da porta para dar-lhes o espaço para entrar.
Em meio aos pisos de madeira, o som das sapatilhas da mulher se mesclava aos sapatos sociais pretos do homem que caminhavam até o salão principal secundário, onde passavam por paredes em vinho detalhado com a cor mais escura e quadros revelando o passado de seus antecessores em molduras douradas e moveis de madeira, onde os lustres e arandelas coloniais moldavam a beleza e o individualismo de uma classe tão alta.
Os dois chegaram sem pressa em meio a uma conversa confortável, mas receberam os olhar desaprovador de muitos que estavam ali assentados, logo se assentaram nas almofadas floridas, parte das cadeiras talhadas, onde faltava apenas uma vazia. Sem demorar todos ouviram um forte som que mexeu as louças de porcelana, talheres e taças de vinho. Um soco desferido na mesa.
— Não admito atrasos dos mais novos — Os dois recém chegados ao salão inclinaram sua cabeça para baixo, envergonhados. — Vamos começar logo isso, todos receberam a carta, certo? — Disse o porta voz do rei, o segundo filho e seu irmão, príncipe-real, Klaus, pai dos Champbell Britannica. Seu traje se igualava a de Romeo e os demais homens presentes, porém um pouco mais luxuoso.
— Como podemos começar se ainda está faltando uma pessoa? — Hanna se dispôs a questionar colocando seus cachos negros atrás da orelha com um gesto de mão, e muitos concordaram começando uma conversação incessante.
— Quietos — Tentou manter o silêncio, que fora em vão, perdendo a paciência e elegância por um momento rapidamente como era a marca registrada dos Champbell, não demorou muito a gritar — Calem a boca, agora!!! — No mesmo pequeno conjunto de segundos as falas não eram mais ouvidas, o mais velho pigarreou, ajeitou sua gravata no estilo Ascot tié vitoriano em cinza se recompondo. Passou as mãos nos cabelos brancos e barba grisalha bem feita.
— Quem falta irmão? Todos os vinte e dois membros estão reunidos, diga de uma vez! — Marcos, o quarto irmão do rei pronunciou-se impaciente.
— Alpha Britannica — O silêncio súbito tomou o grande salão, ouvia-se de som mais destacado, o barulho dos ponteiros do grande relógio com seu pendão a balançar em movimentos contínuos, mentes em pensamentos preconceituosos julgavam a decisão em quietude. O céu estava mais escuro, trovoadas tremiam as nuvens pesadas, era sinal de que o temporal estava a caminho.
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