Cinzas e Sombras
1 Prólogo
Notas iniciais
Aqueles que vêm até mim serão recebidos.
Emma sabia que já era muito tarde, apesar de ter perdido a noção das horas há dias. As luzes fracas que vinham dos postes eram o único caminho pelo qual ela se guiava, mas também criavam sombras na noite que a faziam estremecer. Era possível ainda ouvir o som suave dos grilos e o vento impetuoso não dava folga. Ela estava muito ciente de tudo ao seu redor, a rua estreita, as árvores balançando, a lua solitária no céu sem estrelas.
Emma abraçou a mochila puída contra o próprio corpo, tentando proteger-se das lufadas violentas, mas o ar frio arranhava seu rosto pálido. Seus olhos lacrimejavam involuntariamente, seus lábios secos pareciam capazes de rachar-se a qualquer momento.
Já estava muito cansada quando finalmente vislumbrou as torres altas do Instituto. Seu coração errou uma batida e então acelerou de tal forma que ela precisou respirar fundo para controlar-se. Seu corpo inteiro doía daquele jeito estranho há dias, sua cabeça latejava há semanas, seu coração aguardava por aquilo há anos. Mais meia hora, disse a si mesma. Só um pouco mais e tudo estará no passado, justamente quando pensou que já não suportaria mais o frio.
Meia hora acabou tornando-se cinqüenta minutos inteiros de dor e lágrimas. Estava ainda muito fraca para uma caminhada de semanas como aquela, seu passo diminuía gradativamente, seu fôlego era misero e tinha muita sede, sono e fome. Ainda assim, tinha aquele aperto gostoso no peito, aquele frio na barriga que lhe contava uma história de finais felizes. Seu final feliz. Finalmente. Ela disse a si mesma que se morresse naquela ruela vazia e mal iluminada, morreria com o coração doendo em uma felicidade trôpega e esperançosa. Ela morreria livre, como jamais tivera a chance de viver.
O Instituto era exatamente como o livro amarelo proibido contava: grande, impetuoso e aberto há todos. Aqueles que vêm até mim serão recebidos, dizia a primeira linha da primeira página do livro que se tornara sua bíblia nos últimos sete anos. Ela relera por anos, especializara-se em acreditar que aquele monumento enorme e antigo continuava exatamente ali, há vinte sóis e vinte luas de distância.
Ela caminhou entre o portão escancarado, entre a grama bem cortada, muito atenta a construção de ferro e concreto. O instituto erguia-se como um castelo, duas torres altas cortavam o vento, dezenas de janelas contemplavam a noite, além da entrada que era adornada por cerâmicas de anjos do senhor. Emma respirou profundamente enquanto subia a escadaria, assustando-se quando holofotes iluminaram seu rosto cansado e sujo.
Seus olhos castanhos se fecharam em um impulso diante da luz invasora. Levantou o braço para esconder o rosto, enquanto erguia sua mão direita para bater na porta quando esta se abriu em um rompante à beira da violência.
“Quem é você, menina e o que faz aqui há essa hora?” Perguntou a voz do outro lado. Estava muito escuro lá dentro e não era possível distinguir a silhueta. A voz parecia potente e rouca de sono, indescritivelmente um homem de idade.
Emma conteve o medo, as dúvidas e as inseguranças. Estava ali finalmente e não recuaria em um momento tão importante.
“Meu nome é Emmeraud Evan. Sou órfã, os vampiros me levaram da minha família. Preciso de abrigo.”
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