Cinzas e Sombras
3 3. Uma vez que o trabalho esteja feito, não olhe para trás
Notas iniciais
EMMA contou seus próprios passos para distrair-se do frio. Era provavelmente muito cedo da manhã, mas o vento ainda não cessara. Ela podia enxergar sua respiração ondulando pelo ar; suas mãos estavam muito vermelhas para ser normal e suas pernas latejavam de correr e andar tanto. Deduzira que caminhava há pouco mais de dois dias, mas contava com a vantagem de um dia inteiro até que o ninho a estaria caçando novamente.
Ela precisava contar com esse dia, pois era praticamente tudo o que tinha.
"O que uma mocinha tão linda quanto você faz sozinha por essas ruas?" A voz veio logo a sua esquerda e fez todos os pêlos de sua nuca se eriçarem. Um tipo de tremor já conhecido a dominou e ela agarrou a faca presa na parte de trás da calça. O medo é o que impulsiona o homem a atacar, disso ela sabia.
"Quem é você?" Perguntou. A fachada dura em sua expressão escondia seu total pavor no momento. Ela não fazia ideia do que fazer em seguida. O homem, que já havia movido para ficar na sua frente, era muito gordo e pequeno, mas parecia bem mais forte do que seus ossos frágeis e magros.
"Ei ei ei. Calma. Não vou machucar você. Não sou um monstro. Não sou um deles. Posso te provar isso." Ele disse, as palmas das mãos levantadas em rendição. Estreitando os olhos, muito desconfiada, Emma mostrou a faca de prata para ele, que ergueu uma das sobrancelhas, aparentemente surpreso.
Objetos de prata machucam o corpo dos lobisomens. Você pode enfiar uma faca de prata em seu coração e matá-lo, mas eu aconselharia arrancar a cabeça. Nunca se sabe realmente não é mesmo?
Emma decorara aqueles conselhos um a um, apegando-se a eles, pois sua própria vida dependia disso. Ela nunca amou nada e nem ninguém na vida, mas o apreço que tinha por aquele livro... Podia pensar em devoção. Ela estendeu a faca para que o homem encostasse a mão e ele compreendeu, tocando na parte não cortante.
"Viu? Não sou um lobisomem. Aqui, sem presas. Não para vampiro também." Ele exibiu a gengiva e boca desdentada, mas ela não precisaria ver, pois sabe não haver nenhuma possibilidade de ele ser um vampiro e ainda caminhar na luz do dia. Disso ela também sabia.
"Meu nome é Hunter. Posso ajudar você, parece com muita fome e frio.” Ele parecia quase gentil demais, olhando para ela com pena. Emma não tinha como reclamar, estava devastada e com muita fome, não sabia quanto mais estaria caminhando e não queria desperdiçar sua comida, já havia comido naquela manhã.
Se você está em meio a uma caça ruim, não desperdice sua comida com gula. Você pode não ter tempo de conseguir mais.
"Sou Emmeraud. Eu... eu agradeceria muito. Obrigada" O homem sorriu, mas quase não havia dentes em sua boca. Emma conteve um estremecimento, dizendo a si mesma que precisava ter mais fé. Precisava se agarrar a alguma coisa concreta, em alguém. Qualquer coisa.
Por cinco minutos eles caminharam em silêncio. Hunter gostava de falar para preencher o silêncio, enquanto andavam lhe contara muita coisa a respeito do que sabia sobre o mundo naquele estado.
"Acredito que nem todos os lugares parecem tão terríveis quanto esse. Essa cidadezinha sofreu muito com esses demônios filhos da mãe. Te digo uma coisa, menina: eles provavelmente estão nos assistindo agora, rindo da gente."
Emma não perguntou eram "eles". Ela também não disse uma palavra em resposta, mas fez ruídos de entendimento e fingiu estar ouvindo quando todo o seu corpo estava tremendo em medo, suspeita e frio.
A casa de Hunter era pequena e por dentro tão desarrumada e fedorenta quanto o lugar de onde fugira. Isso a vez retroceder logo na porta, o homem a empurrou para dentro, um pouco rude, mas em seguida em todo sorrisos ele disse: "vou pegar alguns casacos para você lá em cima, tenho muitos e acho que você pode precisar lá fora"
Emma agradeceu várias vezes, seus olhos lacrimejando. Ela precisava disso, nunca tinha percebido o quanto necessitava ser cuidada um pouco. Quando Hunter subiu para o segundo andar, Emma vasculhou a casa, curiosa e suspeita.
Havia muitos móveis e roupas sujas jogadas por toda a parte. Como se ele tivesse acumulado todas aquelas coisas por muitos anos. Havia também duas portas no andar de baixo e uma cozinha pequena, onde ela se deteve, dizendo a si mesma que não precisava roubar nada. Não faria isso com alguém que a estava ajudando.
Ela caminhou pelos cômodos, abrindo a primeira porta, que a levava para um banheiro muito sujo e com um forte cheiro de urina. Em seguida, na outra porta, Emma se deteve. Estava emperrada. Ela olhou para cima, em direção as escadas, ele não parecia prestes a descer. Assim, apoiou seu ombro na porta e um solavanco a abriu, quase caindo para dentro.
Olhou ao redor, parecia um quarto. Uma cama grande no centro e um armário à direita. Ela estava prestes a dar meia volta e caminhar para sala quando um barulho, como um animal ferido, despertou sua atenção. Vinha de um canto da cama.
Seus dedos tremiam muito quando ela caminhou devagar naquela direção, seu coração pulando no peito. Por favor, não seja nada, por favor, não seja nada, por favor... Oh Deus
Ela olhou para pequena menina a sua frente. Seus olhos arregalados de muito medo e então um suspiro de alívio que Emma nunca ouvira na vida. Ela era muito magra e pequena, muito pior que Emma e estava muito suja, além de amarrada, pés e mãos, na cama.
"M-me ajuda! Por favor! Ajuda-me! Antes que ele volte. Por favor..." Emma acordou do torpor horrorizado ao ouvir seu gemido de dor. Puxando sua faca novamente de sua calça ela se abaixou para cortar as cordas que deixavam seus pulsos em carne viva. A visão das cicatrizes fez os olhos de Emma embaçar em lágrimas. Como um ser humano podia fazer isso com outro?
Ela puxou a menina para ajudá-la a se levantar. "Vou tirar você daqui." Ela disse, tentando soar o mais confiante possível, como alguém que soubesse o que estava fazendo. Como se ela fosse realmente capaz de resgatar alguém.
A menina parecia ter dez anos, no máximo. Mas Emma achou que isso se atribuía ao corpo desnutrido e duvidou seriamente que ela mesma não parecia ser assim tão nova.
"Obrigada."
Elas caminharam para fora do quarto e de volta para a sala. Emma estava prestes a ir em direção à cozinha quando a garota a parou. "Não! Temos que ir! Ele vai voltar logo! Por favor... temos que ir.", disse-lhe.
Emma olhou novamente para a cozinha, onde ela sabia que havia a comida que precisava para sobreviver os próximos dias. Então olhou novamente para a garota. Não havia realmente muita escolha.
Elas viraram em direção à porta no mesmo momento que Hunter apareceu no alto da escada, em suas mãos Emma viu mais daquelas mesmas cordas que estavam enroladas no pulso da menina. Seu estômago virou.
"Sua puta! O que pensa que está fazendo? Volta aqui agora mesmo." E elas correram.
Emma jogou alguns vasos de flores vazios na frente da porta em uma estúpida tentativa de apartá-lo. Segurou com força a mão da garota e correram muito por alguns minutos.
"Pare! Pare! Não posso... não consigo." A menina estava mancando, muito lenta para uma fuga. Emma parou e encarou, aterrorizada. "O que? Não! Precisamos ir, ele está próximo! Ele... ele não vai nos alcançar se corremos um pouco mais e então nos escondemos."
"Vou pegar vocês, suas malditas" ouvia-se a voz dele, mas parece pouco distante. Ele era gordo e lento e talvez ela tivessem chance.
"Não. Não posso. Minhas pernas doem e meu corpo... não posso. Você precisa ir. Corre! Vou ficar e atrapalhar ele." A menina diz, parecendo de repente muito segura do que dizia.
"O que? Não... não vou deixá-la" Emma olhou para as pernas na menina, pouco escondidas por um vestido esfarrapado. Ela se contorceu em dor ao ver sangue seco na parte interna das coxas dela.
Oh deus Oh deus Oh deus “Ele... ele tocou você?" Os lábios das duas tremeram. A constatação pairando no ar, fazendo as duas derramarem lágrimas.
"Vá! Por favor! Vai logo ou nunca me perdoarei. Se ficar vamos morrer as duas, se você for... pode encontrar ajuda e voltar para matar o bastardo."
Oh deus Oh deus Oh deus
Emma acenou com a cabeça, aquilo era demais para falar qualquer coisa. Para pensar em qualquer coisa. Para sentir qualquer coisa que fosse. Ela apenas deus as costas para a menina e correu. Correu o mais forte que podia e ofuscou todos os outros barulhos ao redor. Não ouviu nada por muito tempo, horas e horas. Tanto tempo que pensou ser dias.
E não olhou para trás nenhuma vez sequer.
Não olhou para trás
Não olhou para trás
Não olhou para trás
—_________
O corpo de Emma se move para a consciência, como se uma mão a tivesse tirado do sonho ruim e a trago novamente para a vida real. O presente, segurança. A forma com que ela se sentiu naquele dia... A dor que sentiu ao dar as costas e correr... Isso ainda a perturbava e atormentava seus sonhos. Ela não podia mais fechar os olhos depois disso, não por um bom tempo até que suas mãos parassem de tremer e seu coração desacelerar.
Ela olha ao redor do quarto consideravelmente grande, o lugar mais bonito que havia visto na vida. O cômodo é pintado em um tom de salmão, possui um armário grande de madeira e até mesmo uma porta para seu próprio banheiro. Nunca tivera um quarto, nunca importara ante a perspectiva da liberdade, mas naquele momento ela sentiu o que isso significava: paz. Finalmente.
Ou talvez nem tanto quanto esperava.
Franzindo a testa, ela reconhece um barulho que parece uma discussão acalorada, provavelmente em outro quarto. Ela estava muito acostumada em estar atenta a tudo quando morava no ninho. Era uma parte de sua sobrevivência e ainda permanece impregnado nela de uma forma que não parece ser possível de sair.
Deixando a confortável cama, Emma ajeita sua roupa, uma camisa e calça de algodão emprestada por Iris. A mulher é relativamente da mesma altura que ela, mas ainda assim suas bochechas coraram ao perceber o quanto isso ficava folgado no seu corpo.
Precisa de força e massa se quiser treinar como um caçador, dissera Robert em um grunhido quando trouxera a sopa quente para ela no quarto.
Abriu a porta devagar, perita em não fazer nenhum barulho. Logo reconheceu um longo corredor de quartos, mas ela sabia que o barulho vinha do cômodo ao lado. Ela claramente não estava mais raciocinando, era muita intromissão aparecer no quarto alheio, mas a curiosidade a estava sufocando. A necessidade de saber no que se metera ao pedir abrigo no Instituto.
Ela respirou fundo antes de abrir a porta o mais discretamente possível, tão absorta nesse objetivo que não percebera que a conversa cessara nesse mesmo momento. Assustou-se ao se deparar com quatro grandes homens olhando para ela, parecendo bastante surpresos, talvez pela audácia da interrupção.
"Ei, Emma! Sinto muito que tenhamos acordado você." Esse era Al. Ele não estava usando nada mais que uma calça de algodão como a dela, o que deixava seu peito definido à mostra. A cena fez suas bochechas corarem. Ele tinha um corpo muito bonito.
Outros rapazes, além de Al e Michael, também estava no cômodo. Homens que ela não conhecia, mas que não pareciam surpresos ao vê-la. Talvez fosse sobre isso que estivessem discutindo. Essa constatação a fazia sentir cada vez menos bem vinda ali. Eles usavam roupas pretas e coletes da mesma cor, tudo parecia pesado no corpo, mas ela desconfiava que eles não se importavam com isso.
"Não há problema. Eu ouvi uma discussão... Não queria me intrometer.", explicou-se.
"Não tem problema, linda. Esses são Tyler e Evan. Eles são nossos irmãos também. Estavam em caça antes, por isso você não os conheceu. Pessoal, essa é Emma, ela vai ficar conosco agora." Michael faz as apresentações, ele parece bastante entretido ao observar a timidez de Emma.
A franzina garota está nervosa, nunca conheceu tantas pessoas de uma vez só antes, muito menos homens como aqueles. Estava muito claro que eram todos Caçadores, pois pareciam construídos fisicamente para lutar e matar. E também para proteger, ela esperava.
Tyler foi o primeiro a se mover, ele sorriu minimamente para ela, não parecendo realmente muito interessado. Apertou-lhe levemente a mão. Ela olhou para ele e encontrou um emaranhado de cachos adoráveis, mas duvidava que ele os denominasse assim. O homem também parecia ter uma covinha na bochecha quando sorriu e seus olhos eram em um tom de castanho claro.
Ao contrário do irmão, Evan permaneceu estagnado no lugar, olhando para ela com o que parecia raiva. Ele estava com raiva dela por estar na sua casa? Ou por ter invadido o quarto daquela forma e interrompido a briga?
Coincidentemente ou não Emma pensou que ele também era o mais bonito dos quatro, mas todos tinham algo que a fazia suspirar. Em Evan eram os seus olhos: azuis, como uma tempestade escura de inverno. Eles pareciam mais escuros agora que ele estava com raiva, mexendo no emaranhado de cabelo preto nervosamente.
"Como você chegou aqui? Robert buscou você?" Ele perguntou, parecendo pouco interessado em cumprimentá-la.
"Já te dissemos isso, Ev. Robert não saiu por ninguém. Emma apareceu porque foi corajosa e se salvou sozinha." Conta Al. Ele parece bastante orgulhoso.
Emma olha para ele com um imenso carinho, ninguém nunca havia lhe feito um elogio antes. Isso a tocou de forma profunda.
"Obrigada, Al. É muito gentil da sua parte." Disse-lhe.
Desviar do assunto pareceu aborrecer Evan ainda mais. Ele soltou um barulho, como um rosnado antes de ergue-se sobre ela.
Ele havia mesmo rosnado ou era só impressão?
"Pode me prometer isso? Robert nunca contatou você?"
"Prometo. Eu escapei e fugi sozinha. Se isso ajuda, garanto que ele também não parecia muito feliz com a minha chegada aqui, assim como você." Dito isso ela voltou para seu próprio quarto, muito chateada para qualquer gentileza mais. Ou a tentativa de agradar aquelas pessoas.
Ela ouviu seu nome ser chamado, mas não voltou atrás.
Ela prometeu que não olharia para Evan novamente por um bom tempo, mas quando dormiu naquela noite, ela sonhou com um par de olhos na tempestade.
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