Cinzas e Sombras
2 1. Um homem ama, um caçador protege
Notas iniciais
ROBERT estava de costas para a porta do escritório e sentiu a presença de sua amada esposa muito antes que esta caminhasse para dentro do cômodo. Um homem sabe o perfume de seu amor, um caçador sabe exatamente qual o som que seus passos fazem ao caminhar em sua direção. Robert sempre amou Iris exatamente como seus antepassados o ensinaram: com coragem e bravura. Disposto a fazer tudo, sempre.
E ele o faria. Faria qualquer coisa para ver aquele conhecido belo sorriso em seu rosto negro e era exatamente por isso que não podia olhar para ela naquele momento, sabendo que seus olhos verdes brilhantes faziam-lhe suplicas que ele sabia não poder atender, mas amar às vezes significa fazer as escolhas mais difíceis e dolorosas.
“Robert...”
Mesmo a voz dela fazia a pele dele formigar. Conheceram-se quando ainda eram muito jovens, irresponsáveis e sonhadores. Muito havia mudado neles mesmos e no mundo, exceto aquele tom exato quando ela dizia seu nome, que o tocava em todo o corpo profundamente.
“Não me peça isso, Iris. Sabe que não posso.”
Fez-se um breve momento de silêncio no ambiente. O único som era o tique taque do relógio antigo, única lembrança que tinha de seu avô paterno, a quem pertencera todo o Instituto uma vez.
“Vai deixar a garota lá fora, então? Devolvê-la aos animais...”
“Não! Chega Iris!” Era demais ouvir aquilo, doía-lhe o coração pensar em olhar nos olhos daquela criatura pequena e frágil e dizer-lhe para ir embora, mas precisava. Deveria, não deveria? Já bastava para ele de decisões tão difíceis, que o feriam e à sua família. “Não somos um abrigo, Iris. Não deveríamos trazer para cá qualquer pessoa que bata à porta no meio da noite! Temos um estoque restrito de comida e mantimentos, não podemos...”
Robert, que era um homem muito grande e cheio de músculos, caçador há mais de vinte anos, fora facilmente descartado pela esposa.
“Não estamos abrigando uma vila inteira, querido. É uma única garota e ela precisa de ajuda. Cheguei eu mesma a imaginar que não havia mais ninguém lá fora, mas agora... Quantas crianças...” A voz dela tremeu e partiu-se em pedaços. Nunca tivera filhos, não podia, mas imaginar que crianças tão carentes de amor e afeto estavam sozinhas, a fez sentir-se muito mal; como se isso a transformasse em responsável por tal situação.
Robert não suportando ver o olhar de sofrimento genuíno na esposa caminhou até ela rapidamente, envolvendo suas mãos duras e calejadas do trabalho pesado ao redor de seu rosto delicado. “Faria qualquer coisa para te ver sorrindo, Iris. Mesmo ir contra algo que havia prometido a mim mesmo há muito tempo.”, disse-lhe.
Iris pôs suas pequenas mãos ao redor das do marido, suas cores tão diferentes constratando em um emaranhado de dedos.
“Eu sei que é difícil para você imaginar ajudar mais desses garotos, agora com os meninos tão crescidos... Mas já faz tanto tempo, querido... Nós precisamos disso ou do contrário nunca superaremos.”
“Você tem razão. Sempre tem razão.” O homem descansa o queixo no topo da cabeça da esposa, fechando os olhos enquanto tenta conter as lembranças ruins. E então subitamente lembrando, pergunta baixinho:
Como acha que os rapazes vão reagir ao descobrir?
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Emma examina atentamente a lareira, enquanto pedaços consideráveis de madeira queimam e produzem um calor confortável. Ela nunca tinha visto uma lareira daquele tamanho antes, nem bebido chocolate quente como aquele ou estado em uma casa tão limpa e arrumada. Tudo era novo de uma forma muito boa, saudável. Nem um pouco como o porão mofado de onde veio.
Ela se sentiu como se pudesse estar segura ali. Gostara muito da moça negra que lhe sorriu amigavelmente e lhe ofereceu aquela bebida tão deliciosamente quente e uma manta que a abrigou. A forma com que lhe acolhera fora tão atenciosa e solidária que fez seus olhos lacrimejarem, seu nariz coçar e o lábio inferior tremer, indicativo de que poderia começar a chorar a qualquer momento. Fazia muito tempo desde que sentira carinho pela última vez.
O homem grande parecia quase irritado e desconfortável com a sua presença, mas também soava muito mais como um pai zeloso do que uma pessoa ruim. Era pelos menos o que Emma imaginava de um pai zeloso, dos livros de contos de fadas que lia.
Pergunta-se quanto tempo mais eles ficarão atrás daquela porta e se de lá resultará o pedido para que ela vá embora. Emma tenta dizer a si mesma para não pensar nisso, mal pode considerar essa hipótese, mas agora sua mente corre em possibilidades. Talvez a floresta? Ou o campo? Quanto tempo ela conseguiria se esconder até que eles a encontrassem? Teria alguma chance? Talvez...
"É impressão minha ou tem uma garota na nossa sala?" A pergunta vem da escadaria e faz Emma pular do sofá, o resto do líquido quente respinga em sua roupa e na manta que acabara de ganhar, fazendo-a lamentar profundamente.
"Merda!" Xinga olhando para o resultado. Ela era um completo desastre.
"Oh sinto muito! Não tive a intenção de assustá-la" Enquanto uma das vozes se aproxima, o primeiro e maior impulso de Emma é recuar contra a parede, trazendo sua mochila velha e surrada consigo. Não há muito ali para ser roubado, mas é tudo o que tem na vida.
Ela olha para a porta, o caminho mais longo; e então a janela, o mais rápido, mas definitivamente o mais doloroso.
"Calma aí, Don Juan, está assustando a garota." O outro diz, parecendo quase divertido, mas Emma não saberia dizer, pois esse era o seu maior contato com humanos há anos.
"Ei, está tudo bem. Eu sou Allan e esse é meu irmão Michael. Nós somos seguros." O primeiro garoto, quem assustara Emma em primeiro lugar, se apresenta, as palmas de suas mãos estão erguidas no ar.
Os dois rapazes são bastante altos e não se parecem muito fisicamente exceto por esse detalhe; o primeiro, Allan, possui cabelos encaracolados, castanho claro e uma pele tão pálida como a da própria Emma. O outro, Michael, é muito bonito, a pele morena e o cabelo liso, os olhos pretos parecem astutos enquanto a examinam com atenção descontraída.
"Qual o seu nome, menina?" Michael pergunta calmamente.
Emma olha para a porta onde a moça, Íris, entrara pouco antes. Será que ela a defenderia se um deles a atacar? Será que acreditaria nela ou a expulsaria na hora?
Seus dedos tremem levemente, por isso opta por agarrá-los com mais força na mochila. A sensação de segurança se esvai rapidamente. Emma já lidou com rapazes antes, mesmo os humanos e eles nunca estiveram inclinados a ajudá-la quando isso era a única coisa que pedia. Aprendera muito rápido que não podia confiar em todos os humanos que encontrasse.
Emma está ciente de seu canivete enferrujado no bolso de trás da calça jeans. Ela lembra a si mesma, há um canivete enferrujado no bolso de trás da calça. Está tudo certo. Como se aqueles dois homens não se erguessem como muralhas à sua frente.
"Santo Deus, Allan, a garota parece um fantasma. Vá chamar Robert, acho que ela pode vomitar no sofá." Emma fica vermelha. Ela está sim enjoada; as lembranças do que viveu há muito tempo ainda a machucam, mas ela nunca seria capaz de vomitar na frente deles. Pelo menos não com o estômago vazio.
Mas ela se sente instantemente aliviada quando Allan sai em direção à porta, pois isso significa que Iris estará de volta. Enquanto ela olha com atenção redobrada para onde Allan sumiu de suas vistas, Michael parece examiná-la com atenção.
“Quantos anos você tem? Parece uma criança.” Ele comenta, parece genuinamente muito preocupado ao encarar suas roupas maltrapilhas e o rosto magro sujo de sangue. “Você fala, pelo menos? Está entendendo o que eu estou dizendo?”
Constatando que responder-lhe talvez não traga tantos danos assim, Emma respira profundamente antes de usar sua voz pela segunda vez em quase vinte dias.
“S-sim. Entendo o que você diz. Meu nome é Emmeraud Evan, tenho dezessete anos.” Sua voz está rouca e arranha sua garganta, fazendo-lhe tossir, mas a sensação de ter um diálogo com alguém de verdade à deixa profundamente emocionada.
Michael sorri ao escutar a garota, mas ele ainda parece preocupado.
“É um prazer conhecê-la, Emmeraud Evan. Como meu irmão já disse, sou Michael. Peço desculpas pela recepção um pouco... Surpresa. Mas nós não sabíamos que Robert está fazendo resgates novamente...”
“É porque não estou.” A voz vem da sala onde esteve o casal por um bom tempo. Emma sentiu-se aliviada quando Iris surgiu por de trás do grande homem de camisa xadrez. A pequena mulher negra sorri para ela com empatia, carinho e afeto.
Emma sabia reconhecer essas coisas, pois eram as únicas lembranças de sua mãe; ela a olhava exatamente assim. A lembrança a confortou e ela finalmente relaxou um pouco.
"Se não está mais fazendo resgates, como ela está aqui?" Allan pergunta. Ele está muito surpreso por encontrar uma garota em tanto tempo, mas também preocupado com o que seus irmãos vão pensar a respeito.
Ele sabe muito bem que Evan não é nada razoável com estranhos. Nenhum deles sabe mais como lidar com pessoas, muito menos garotas.
"A garota apareceu aqui pedindo abrigo, disse que fugiu de um ninho de vampiros." Robert responde simplesmente. Ele aparece mais calmo agora, enquanto se senta no sofá de couro, examinando Emma com muita atenção. Ele não parece mais tão irritado, mas ela sabe reconhecer certo desconforto na expressão do senhor. Ele não está à vontade com a presença dela na casa.
“Pode ser uma armadilha. Vampiros conseguem ser espertos quando querem." Michael sugere. Ele sempre foi quem surgia com teorias, esquemas e estratégias. O rapaz era muito bom em detectar armadilhas, mas nesse momento não está exatamente certo se aquela coisinha pequena é uma mentirosa. Ela parece quase que com medo demais da sua própria sombra para se arriscar tanto.
"E-eu não estou mentindo. Eu prometo. Eu tinha um plano... Então eu fugi quando consegui." Emma está desesperada, nunca imaginaria que essa suposição seria posta em questão. Ela não imagina como alguém poderia pensar em algo assim.
"Como exatamente você fugiu?" Pergunta Allan. Emma suspira, suas mãos tremem muito quando ela começa a falar.
"Eu estive trancada em um porão a maior parte do tempo. Eu... Eles nos alimentavam com um pouco de comida, mas não era o suficiente. Nem todos os outros sobreviveram..."
"Espere. Havia mais pessoas?" Iris pergunta surpresa.
"Sim. Alguns. A maioria morre em algumas semanas, às vezes meses. Eles nos usam para os dias e à noite caçam mais... Eu fui a única que permaneceu viva por tanto tempo, foram muitos anos. Não sei porquê.”
"Você ainda não explicou como saiu." Pontuou Robert. Ele não parece muito afetado pela história, mas seu coração só está muito apertado ao ouvir o relato tão cruel vindo de uma criança.
"Bem... Como disse nós estávamos em um porão. Um dia quando eu estava muito cansada e não podia mais agüentar... Eles saíram para caçar mais, eu não podia mais ser alimentada pois perdi muito sangue. Achei que eles tiveram pena de mim, mas só não estavam mais satisfeitos... De qualquer forma, eu não seria deixada em paz por muito tempo então eu aproveitei para vasculhar parte do lugar, estava muito empoeirado e velho, mas havia muitos livros. Achei alguns contos, romances e isso."
Emma abre a mochila velha e puxa para fora um pequeno caderno amarelo. Parecia um diário, pois era todo escrito a mão. Na capa lia-se "DEAN BECKER"
"Oh meu Deus" A mão de Iris imediatamente cobre sua boca, assustada.
Todos na sala parecem encarar o livro com espanto e certo medo. Emma, não muito certa do que fazer deixa-o em cima da mesinha com cuidado. Ele era quase sagrado para ela. Era quase a única coisa que importava para ela na vida.
"Eu o li. Inteiro. Várias vezes. Aprendi muitas coisas, inclusive como matar um vampiro. Eu... Eu esperei que eles trouxessem mais daquelas pessoas então quando eles... Quando eles morriam... Eu usava uma faca que contrabandeei da cozinha e a molhava de sangue de cadáver. Fiz isso vezes, mas nunca tinha coragem o suficiente. Até que um dia eu tive. Eu sabia que eles iam sair para mais uma caçada e iam deixar poucos na casa. Eu usei a faca neles enquanto estavam distraídos, eram dois. Eu cortei as cabeças fora, como o livro dizia. E então eu corri."
Todos parecem impressionados com a história, o diário de Dean Becker e a garota.
"Bem, eu diria que você daria uma boa caçadora. Dois vampiros e nenhum treinamento." Michael aponta descontraído.
"Você disse que correu, quanto mais ou menos?" Robert pergunta, ignorando propositalmente a colocação de Michael.
"Muitos dias. Eu diria que vi o sol nascer umas vinte vezes. Eu não podia mais andar... Estava muito frio e a comida que eu guardei não era suficiente. Cheguei a pensar que não conseguiria." Emma encolhe os ombros, olhando para os próprios dedos ossudos, não queria pensar no caminho que percorrera naqueles dias, pois não sabia dizer se eram as noites ou os dias os piores. Cada momento foi um pouco mais do inferno e ela não queria lembrar que por um momento, um ínfimo momento, ela considerou dar meia volta.
Robert olha para o diário como se ele fosse algo de outro mundo. Parece muito nervoso quando Emma se volta para ele novamente, mas a reação dura pouco. Em um segundo a expressão dura e quase entediada aparece em seu rosto novamente.
"Allan porque você não leva Emmeraud para o quarto de hóspedes? Ela deve estar muito cansada. Enquanto isso Iris e eu prepararemos algo para ela comer."
Todos na sala se movimentam para seguir as ordens.
Emma sabia no momento em que olhou para aquele homem que ele era o líder do Instituto, as ordens só provavam isso.
"Venha Emma. Vou te mostrar o seu quarto. Posso te chamar de Emma não é? Você pode me chamar de Al." Emma olha para Al com atenção e então, apesar de surpresa por ceder, sorri minimamente. "Obrigada."
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