Cinzas da Guerra
1 Prólogo
Notas iniciais
"Algumas guerras nunca terminam. Algumas acabam em tréguas desconfortáveis. Algumas guerras resultam em total e completa vitória. Algumas guerras acabam com paz. E algumas guerras acabam com esperança. Mas todas essas guerras são nada comparadas com a mais assustadora de todas: aquelas que você ainda tem que lutar"
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Greys Anatomy
Novembro, 1938
01h15 a.m
A família Apfel tentava dormir quando tudo aconteceu.
Eram tempos extremamente difíceis para as famílias judias. Eram proibidos de trabalhar em repartições públicas. Suas lojas e fábricas expropriadas pelo governo. Além disso, eram obrigados a usar braçadeiras com a estrela de Davi, para poderem ser facilmente discriminados. Por isso, viviam escondidos e encurralados pela opressão. Considerados como os principais inimigos do regime, apontados como os responsáveis pela derrota da Alemanha na grande guerra e pela forte instabilidade econômica do país. Nem mesmo as crianças eram poupadas de todo ódio antissemita promovido por Adolf Hitler e seu partido.
Não faziam ideia que uma multidão perambulava pelas ruas da cidade, emitindo gritos de ódio e desprezo ecoarem. Gritava a plenos pulmões "Fora judeus imprestáveis" ou "Vocês não merecem viver". Um grande pesadelo que estava prestes a se realizar. Em vários lugares — sinagogas, casas comerciais e residências judias — estavam sendo invadidas e seus pertences destruídos.
O brilho pálido da lua banhava de prata os rostos adormecidos e o chão de madeira escura. A noite estava fria e numa misteriosa inquietude silenciosa. As crianças —Rebeka e Davi — adormeceram com muito custo, agarrados aos pais.
—Enfim eles adormeceram — a mulher disse com pesar — Querido, eu não sei mais por quanto tempo vamos aguentar. Talvez devêssemos fugir para longe, como a família Burke fez.
— Fugir talvez não o melhor a fazer Debby. —pontuou o marido —Nós vamos encontrar uma solução. Enquanto isso temos de permanecer unidos.
—Eles estão nos caçando, Caleb. —murmurou com os olhos marejados — Somos presas fáceis em suas mãos.
—Eu sei que está amedrontada. Para ser sincero, eu também estou. Mas temos de ter fé. Yahweh* nos protegerá —decretou — Esses porcos nazistas não irão vencer.
—Que assim seja— disse mais confiante —Eu não sei o que seria de mim sem você. Sempre consegue me acalmar com suas palavras gentis.
—Estou sempre ao seu dispor, minha senhora —anuiu beijando-lhe a bochecha —Agora, que tal um copo de leite morno?
Antes que tivesse a chance de responder, um baque forte e insistente na porta os fez recuar. Não era um bom sinal. Caleb praguejou baixinho e se levantou num rompante. A pequena mulher se sentou na cama assustada. Ao sentir a movimentação repentina dos adultos, as crianças acordaram bastante agitadas.
—Mamãe, o que está acontecendo? —indagou, curioso —Porque a senhora está tremendo?
—Fique calmo, docinho. — sorriu nervosamente —Mamãe vai ver o que está acontecendo. Mas preciso que você seja corajoso agora e obedeça.—pausou —Você e sua irmã precisam correr até nosso esconderijo mágico e não vão sair de lá por nada desse mundo. E terá de cuidar muito bem de sua irmã enquanto isso. Promete?
Ele franziu o cenho.
—Eu não entendo, mãe.
—Apenas prometa, Davi.
—Eu prometo, mamãe.
Concordou, solene.
—Muito bem — engoliu seco —Não esqueça que nós amamos muito vocês.
— Mãe?
—Sim, filho?
—Não deixa eles levarem você e o papai.
—Vou fazer o possível, bebê. Agora vá, não temos tempo.
°°°°
Ainda trêmula, agarrou o braço do marido, seguindo-o até as escadas que davam acesso ao primeiro andar, segurando o corrimão com uma das mãos.
—Merda, são soldados da SA*—ele disse ao espiar pela janela — Isso não é nada bom.
—O quê?!
Exclamou, espiando também.
Dois homens fardados e com postura impecável sondavam a entrada da casa. Claramente ela os reconheceu, eram mesmo soldados da tropa de assalto nazista— ou SA. Não tinha duvidas sobre o que aqueles homens cruéis queriam ali.
Mal tiveram tempo de processar quando a primeira pedra acertou a janela principal da sala, e o barulho de vidro espatifado em pedaços microscópicos soou. Tudo que conseguiam pensar era nos filhos escondidos no sótão.
—O que faremos? — disse com voz embargada — Eles vão nos levar.
—Não, eles não vão. —disse sério —Debby, preciso que me escute agora.
—Caleb...
—Eu sinto muito. Sinto muito que isso tenha que terminar assim. — disse rapidamente, sabia que não havia tempo para despedidas — Suba e vá ficar com os nosso filhos. Pegue a minha arma e faça de tudo para que ninguém os encontre.
—Não!
—Não há tempo para teimosia agora. É vida ou morte. — constatou — Por favor, é meu último pedido.
Ela pensou por alguns segundos. A multidão continua gritando e a porta estava a um triz de ser derrubada pelos soldados. Com certeza, a tranca não resistiria por muito tempo.
—Tudo bem —choramingou —Que Yahweh* te proteja, meu marido. Eu te amo.
°°°°
—E agora, o que faremos Herr comandante?
O soldado perguntou, encarando com asco o corpo sem vida do homem no chão, envolto pelo próprio sangue. Duas perfurações eram perfeitamente visíveis — bem no meio do peito. Em sua volta, toda casa permanecia revirada, como se um grande furacão tivesse assolado.
— Continuem procurando por outros imundos por aqui —o comandante respondeu —Depois queimem tudo.
—Sim senhor — concordou —Fizemos um ótimo trabalho hoje, o fuhrer ficará orgulhoso.
— Com certeza — sorriu — Heil Hitler.
— Heil Hitler.

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