Cinzas da Guerra
2 Capítulo 01 - Frozen
Notas iniciais
"Começo a perceber que o ser humano se adapta a tudo, inclusive ao caos"
Augusto Cury
1941
POV. Evelyn
Através da janela, eu encarava sem animo a paisagem.
Sem dúvidas, o inverno era a estação menos aconchegante do ano, ao menos para mim. E de longe era a que eu menos gostava. A neve tomava conta de tudo – carros, casas e calçadas. A paisagem ganhava uma cobertura branquíssima. O sol parecia tirar férias e todos os dias pareciam iguais – frios e cinzentos.
Me lembro de quando era pequena. Gostava de observar a lua no velho telescópio do meu pai. Eu me lembro como aguardava ansiosa que papai chegasse em nossa casa – às seis horas pontualmente – para desvendarmos juntos os "mistérios" do universo. Me sentia capaz de voar e enfrentar todos os monstros do meu armário. Bem, eu não era mais aquela garotinha curiosa, e muita coisa mudou desde então.
O mundo, por exemplo, já não era mais o mesmo. Estávamos no meio de uma grande guerra. Por sorte – ou azar – eu estava do lado que vencia os combates. O lado que defendia a pureza e a força de uma raça superior, a raça ariana.
— Com licença frau**, eu trouxe seu chá.
Abigail – que sempre mantinha a cabeça abaixada e jamais levantava os olhos do tapete – entrou no quarto com passos suaves e carregando nas mãos uma xícara de chá fumegante.
— Obrigada, Abby. – sorri em agradecimento.– Camomila?
— Sim, com bastante açúcar, como prefere.
Respondeu sem rodeios. Me afastando da janela, caminhei até a empregada e beberiquei o liquido quente, descendo com suavidade pela minha garganta seca.
— A senhora não desceu para o almoço, então o herr** mandou que lhe trouxesse algo para comer. –explicou – Deseja mais alguma coisa?
— Não, apenas chá está ótimo. Eu só estava olhando a paisagem – divaguei –Tudo parece tão mórbido lá fora.
Ela assentiu, pensativa.
— Nada é como antes – respondeu sombria –Mas se me permiti dizer senhora, tem muita sorte.
— Sorte?
— Sim, és uma belíssima mulher, tem uma ótima casa, empregados a sua disposição.– listou –E um marido que a ama com todo coração. Eu vejo pela forma que o herr a trata, como uma joia preciosa.
— Tem razão. Não tenho do que me queixar –concordei – Mas estamos no meio de uma guerra, e meu coração insisti em culpar-me. Esta noite tive um pesadelo terrível em que toda nossa família era morta por traição.
— Senhora...Eu prefiro me manter neutra sobre esses assuntos.
— Tudo bem – suspirei resignada – Sabe onde meu marido está?
— O senhor está dando aula de piano ao pequeno Arthur.– respondeu prontamente – Quer que eu o chame?
— Não, eu vou até lá. – disse – Parece que Mônica e Klaus virão almoçar conosco na sexta.
Os olhos de Abigail se arregalaram, amedrontados ao ouvir o nome do meu cunhado. Sua pele parecia mais pálida do que o normal e sua respiração errática. Estranhei sua atitude.
— Está tudo bem? – questionei preocupada – Você está pálida como um fantasma.
— Estou bem, senhora. Apenas acordei indisposta hoje. – disse nervosamente se afastando de mim –Se me permitir, gostaria de me retirar agora.
— Tem minha permissão, pode ir descansar.
Respondi e ela saiu imediatamente levando a xicara agora vazia. Eu fiquei alguns segundos tentando processar toda aquela cena. No fim, cheguei a conclusão que talvez Abby estivesse assustada com o fato de Klaus ser parte da Schutzstaffel**.
Desci as escadas apressadamente, em direção a sala de estar. Após muitos pedidos por parte de Peter, o piano finalmente estava posicionado com toda sua pompa e gloria na sala de estar e agora devidamente afinado. Eu ouvia a voz calorosa do meu marido e uma melodia suave e calma – Choppin, se não engano – ecoava pelo andar e logo assistia a interação dos dois com um sorriso no rosto.
— Estou atrapalhando?
— Claro que não, querida. – respondeu pousando as mãos sobre as teclas do piano–Nós já estamos terminando por aqui.
— Olá senhora Schulz.
Cumprimentou-me o pequeno.
— Olá docinho–sorri– E me chame de Evelyn, por favor.
— Por hoje acabou, pequeno. – Peter disse –Amanhã nós continuamos, tudo bem?
— Sim senhor –o garotinho respondeu educadamente –Eu gosto muito das aulas. A outra professora não era tão legal.
— E você é um excelente aluno. Continue assim.
Foi impossível não imaginar como seria quando tivéssemos nossos próprios filho, quando Peter bagunçou carinhosamente os cabelos loiros do seu novo menino-prodígio. Arthur – com suas com pernas ossudas, dentes afiados, olhos azuis e cabelos cor de mel – se despediu de nós com um aceno animado, calçando as luvas pretas de couro antes de enfrentar o frio lá fora.
— Bem, parece que estamos sozinhos agora – sussurrou no meu ouvido, envolvendo seus braços em minha cintura – Eu adoro Arthur, você sabe, mas eu estava prestes a expulsá-lo para ficar com a minha adorável esposa.
E ri, beijando seus lábios.
— Eu fico imaginando quando tivermos nossa própria prole –confessei sonhadora –Vocês são adoráveis juntos, de verdade.
Ele ficou rígido, me apertando mais forte contra seu peito.
— O que foi? – questionei encarando o vinco em sua testa –Aconteceu alguma coisa?
Ele engoliu seco, fechando os olhos.
— Você leu o jornal de hoje?
Fiz que não
— As coisas estão muito feias. A União Soviética armou um grande contra-ataque contra a nossa linha de frente. Merda, estou realmente assustado com tudo isso.
Eu respirei fundo, tentando me acalmar.
— Céus, onde vamos parar...
Murmurei, preocupada.
— Eu não sei, querida. Só espero que essa maldita guerra acabe logo.
— Parece que vamos ter que esperar mais um pouco pelo nosso herdeiro. – conclui, tristemente.
— Eu sinto muito, querida. Sabe que eu desejo um bebê tanto quando você. Mas esperar é o melhor a fazer por agora – disse – Mas eu prometo que vamos ter um filho e seremos uma família completa. E seremos o casal de velhinhos mais adorável do universo.
—Por favor, não me faça chorar agora.
Ralhei, os olhos úmidos de lágrimas.
— Não quero fazê-la chorar, meu amor. – disse sugestivo – Eu disse que não teremos bebês por agora, mas podemos treinar bastante até lá. O que acha?
Antes eu o beijasse em resposta, como pretendia, a campainha tocou estridente, fazendo com que nos afastássemos. Peter resmungou algo inaudível e eu arrumava meu vestido um tanto amassado. Depois de apresentáveis, caminhamos de mãos dadas até a sala.
Maria já tinha atendido a porta e para nossa surpresa, meu sogro – Hans – se acomodava no sofá. Meu sogro encarava Maria com nojo enquanto ordenava que ela guardasse o seu casaco. Peter foi o primeiro a se manifestar a visita nada ilustre.
— Papai, que surpresa. – exclamou – A que devemos sua visita?
— Boa noite, meu filho. – cumprimentou se levantando do sofá, me ignorando completamente – Eu preciso conversar seriamente com você.
— Tudo bem, vamos até o escritório. –respondeu dando leves batidas nas costas do pai –E está convidado para jantar conosco.
— Eu aceito o convite. – concordou – E por favor, eduque melhor os seus empregados. Esta inútil demorou séculos para atender a porta.
— Não demorou tanto assim, pai. – retrucou – E sabes que eu não gosto que dê ordens aos meus empregados.
— Não acredito que está defendendo uma judia – inquiriu impaciente – E você minha nora, não irá falar nada sobre isso?
— Já basta desta conversa tola. Não envolva minha mulher nisso também, eu ficaria muito agradecido!
Peter e o pai se trancaram no escritório que dava de frente para sala. Enquanto comandava o jantar da cozinha, podia ouvi-los falando alto, numa discussão calorosa. Hans gritou com ele, até que Peter falou mais alto , e isso terminou com a conversa entre eles. Hans saiu enfurecido, batendo a porta do escritório com força, sendo seguido pelo filho.
— O que foi que aconteceu? – perguntei, surpresa – Ele não ia ficar para o jantar?
— Nós discutimos, só isso.– mentiu, muito mal por sinal. – E ele está indo embora mais cedo.
Sabia que não foi apenas uma discussão casual e sim algo sério. Hans sempre tentava persuadir o filho a seguir seus passos, como se ele ainda fosse um garotinho e isso gerava conflitos. Eu espero ficar sabendo em breve o que estava acontecendo.
°°°
O barulho do meu salto alto ecoava pelo piso de madeira. Ouvi passos me seguindo até a cozinha e sabia perfeitamente quem era. Ignorei descaradamente. Eu estava brava com o dono daqueles passos. Furiosa, seria a palavra mais adequada.
— Me escute desta vez – implorou – Por favor, é tudo que eu peço.
— Oh, agora quer conversar?! – rugi enfurecida– Devia pensar nisso antes de agir pelas minhas costas!
— Me desculpe, eu só não sabia como te contar. – choramingou – Eu tinha medo da sua reação e está acontecendo exatamente como eu esperava!
— Não sabia como me contar? Que tal... – pausei – Evelyn, meu bem, eu acabei ouvindo meu querido papai e meu irmão, e agora sou membro do partido nacional socialista.* Qual o próximo passo brilhante agora? Ser parte da SS?
— Por que você complica tanto as coisas, merda! Não adianta mais, eu não posso voltar atrás. Está feito! – passou a mão pelos cabelos – E eu não tive escolha!
— Não! – interrompi firme, apontando o dedo – Nós sempre temos escolhas Peter e sinceramente, estou me sentindo traída por você!
— Não ouse achar que a minha decisão foi fácil! – se defendeu – Foi a decisão mais difícil que eu tomei na minha vida e tudo para proteger você!
Meu coração deu uma guinada dentro do peito.
— Sério? – exasperei irônica – E por que eu sinto como se a minha opinião não valesse nada?!
— Não diga isso, a sua opinião é a única que realmente importa – disse – Sabe disso.
— Então por que não me contou tudo antes? – alfinetei – Não tem noção de como me sinto agora, é como se uma bomba tivesse caído sobre minha cabeça. O meu marido agora faz parte do partido de Hitler!
— Fale baixo, os vizinhos não precisam ouvir nossas desavenças! – miou – A menos que queira ser presa pelas nossas opiniões antinazista.
Bufei, cruzando os braços
— Tem muita coisa envolvida. – continuou – E meu pai e Klaus ficaram me pressionando por semanas.
Ri, sarcástica.
— Você é um fantoche deles, por acaso? – acusei – Você sempre disse que não queria ser como seu pai!
— Eu só quis protegê-la!
— Dispenso essa proteção! Você não poderia ter escondido isso de mim, eu sou sua esposa!
— Você não entende...
— Tem razão, não entendo. – concordei – E acho que não conseguirei entender.
— Eve...
Falou, tentando tocar meu rosto, mas me afastei do seu toque. Sabia que seria um luta perdida, mas eu estava muito magoada e vulnerável. Brigar com Peter quebrou todas as minhas defesas.
— Não, tudo bem. Eu preciso de um tempo para digerir tudo – respirei fundo tentando me acalmar – Já está feito e não há como voltar atrás. Só espero que você tenha razão no final de tudo.
Finalizando, eu dei as costas para ele, sentindo um enorme peso nas costas e prevendo uma crise de enxaqueca muito próxima. O clima estava pesado demais e só queria que tudo voltasse a ser como horas atrás, onde tudo começou. E tudo começou com um "Nós precisamos conversar, Eve".
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