Notas iniciais
Fábio é topetudo e risonho. Magro ao extremo, prendia uma mochila às costas enquanto se preparava para sair.

Ok, começamos como todos começaram. Onde você estava no início de tudo?

Certo, mas espero que não demore. Uma das placas de aço caiu e eu tenho certeza que muitos deles ouviram no túnel que vai até a São Bento. Enfim, eu entregava pizzas na zona sul. Quando os rumores de uma doença estranha na Ásia começaram, ninguém nem deu bola. Já aconteceu antes, né? A gripe aviária e a suína. Era questão de tempos até a OMS fazer alguma coisa.

Mas eles não fizeram.

Olha, eu acho que fizeram. Ninguém deixa as pessoas morrerem assim, porque querem. Tenho certeza que, pelo menos, tentaram. Eu, particularmente, acredito que o primeiro ataque aqui em São Paulo, na Vinte e Cinco, não foi o primeiro, exatamente. Andressa ali estava em Congonhas umas duas semanas antes do ataque da Vinte e Cinco. Enfim, eu entregava pizzas. A primeira sensação que eu tive, no ataque, foi que eram cracudos. Todo mundo pensou isso. Mas então começaram as coisas realmente estranhas. Evacuações, implosões de viadutos… Tudo virou uma loucura muito rápido.

E a sua família?

Eu não falava com eles na época.

Por quê?

Sou gay. Eles eram extremamente homofóbicos, daí meu pai ameaçou me bater se eu não “parasse com aquilo”, então eu sai de casa. Dói, sabe... Minha própria família me olhava com a mesma expressão que as pessoas olhavam os zumbis devorando os corpos dos caídos. Eu era uma aberração para eles, entende? Eram excepcionalmente evangélicos. Ainda dói quando eu penso nisso, mas… É o que acontece.

Como veio parar aqui na Sé?

Como a Gi, ali. Eu estava na Paulista, fazendo uns bicos. Office-boy, vendedor, etc.. Foi um dos piores ataques. A partir dali, todos começaram a querer sair da cidade, mas isso aqui não é Nova Iorque, entende? Manhattan, pelo que eu ouvi, implodiu as pontes e os túneis e se isolou. Em minha opinião, deram sorte pela infecção aparecer primeiro em Newark e depois caminhar lentamente até a cidade grande.

Como sabe disso?

As emissoras de TV daqui sempre pagaram pau para os americanos. Qualquer merda que acontecia por lá ou em Londres era noticiado aqui, tipo o Casamento Real. Quer dizer, qual a real importância disso aqui? Desculpe, não pude evitar a piada. Quer dizer, foi triste quando as comunicações com Nova Iorque simplesmente cessaram.

Ok… Prossiga com como chegou aqui embaixo.

Alguém deveria estar mordido, não é possível. Não sei se você sabe, mas os guardas na Paulista usam uma espécie de patinete elétrico, sabe? Então… Um desses estava mordido, tenho certeza. Um dos que tentaram conter o avanço dos zumbis da região da Vinte e Cinco, mas não conseguiram antes de evacuar toda a área e montar bloqueios nas ruas… Enfim, dois policiais vinham com aquilo. Cara, eu tava na frente deles, sabe? Tudo o que eu vi foi um dos policiais caindo, desmaiando, sei lá, no meio da calçada, bem em frente ao parque Trianon. Claro que todo mundo se aglomerou ao redor dele. Eu repito: Pensávamos que os estranhos eram cracudos, não que era a doença bizarra que o noticiário pincelava todos os dias. O fato é que ele simplesmente morreu ali e voltou como um deles.

E então?

Arrancou a cara de uma senhora que tentava medir o pulso dele. Pobrezinha. Todos correram e o outro policial, retardado, gritou “Para, Jorge! Para!” Já viu algum zumbi obedecer a ordens? Pois é, eu também não. O policial morreu ali mesmo. E voltou, o filho da puta. Pronto. Todo mundo correu. O foda é que uma grande parte entrou nos edifícios comerciais que tem portas de vidro. O ser humano é um bicho burro mesmo, não é possível.

Hm, prossiga.

Eu corri, óbvio. Fui lá pra frente na Paulista. Daí vieram os cavalos e as viaturas. Os tiros vieram logo depois, junto com os helicópteros das emissoras de TV. Houve um momento em que todos simplesmente andavam rápido e olhavam para trás. As pessoas paravam em pontos de ônibus, desesperadas, e brigavam por táxis. Os carros viravam em suas faixas e iam embora. Muita gente foi atropelada. Não tinha como sair dali, entende? Pelo menos não andando pela rua. Tava uma loucura. Pensei em seguir pelos túneis de metrô.

Todo mundo entrou ao mesmo tempo que eu. Eu não sabia, no dia, que a Gi também tava lá. Enfim, os trens funcionavam, mas com velocidade inferior e intervalos grandes. Tanta gente caiu nos trilhos...

E você não?

Eu empurrei muitas pessoas… e tinha gente ferida nos vagões… Quando eu cheguei à Vergueiro…

Zumbis?

A estação era um banho de sangue. Corpos, pedaços de corpos e… Aquelas coisas, comendo gente. Ainda tinha gente viva, mas os monstros entravam pelas únicas saídas. Tanta gente… Ah, Deus. O trem parou e abriu as portas. Puta que pariu, pra quê o maquinista foi fazer aquilo? Eles vieram lentamente, como coisas saídas de pesadelos. Homens sem braços, mulheres com metade do rosto faltando, crianças arrastando as tripas, idosos tentando sair do chão porque suas pernas foram comidas… E eles rumavam para nós… Mas o trem fechou as portas antes que chegassem e partiu.

As pessoas do trem escaparam, então?

Não. A São Joaquim estava… normal. Quer dizer, até as portas se abrirem e mais zumbis saírem de pelo menos três vagões.

E como eles entraram lá?

Você acha que eu sei? Provavelmente alguém havia sido mordido e voltou lá dentro, matando todo mundo, que também voltou. As luzes do trem se apagaram e o maquinista disse que a linha estava fora de operação. Quer dizer, antes de ele ser atacado por trás por um zumbi. Eu dei a volta e corri pelo túnel, deixando todo mundo para trás.

Um tanto longe, não? Quer dizer, a Liberdade da Vergueiro…

Eu estava no escuro e contava apenas com o barulho dos meus passos. Os gritos vinham ao longe, mas eu tentei não pensar naquilo. A liberdade estava tomada por monstros… Pior do que a Vergueiro. Passei pela plataforma agachado. Alguns zumbis comiam umas pessoas no túnel perto… Não me notaram.

Jura? Bela habilidade a sua.

Meu caro, eu passei vinte e dois anos da minha vida me escondendo. Quando sou renegado pela minha família, o mundo acaba. É uma sorte que vira muito rapidamente. Aliás, queria que pelo menos os caras bonitos tivessem sobrevivido. Quer dizer, os daqui são realmente… Ok, desculpe.

Qual era o estado da Sé, quando você chegou?

Os túneis tinham sido barricados com aquelas paredes de fórmica dos escritórios e bilheterias. Eu bati pedindo para entrar. Haviam muitas pessoas aqui dentro. Eu acho que, de todos os membros originais, eu sou o último.

Já houve algum problema entre facções? Digo, sempre há alguém querendo tirar proveito da situação.

É claro que sim. Não sei se conhece os Vermelhos. Eles ocuparam a galeria Pajé, na Vinte e Cinco. Os filhos da puta se cobrem de sangue e passam entre os zumbis como se fossem como eles. Tentaram entrar aqui várias vezes pelo túnel da São Bento. Mataram muita gente nossa, já. Mas levamos muitos deles também. O Leandro ali decapitou uns dois com uma linha de pesca só. Deus me defenda, esse cara é bom com armadilhas. Isso é só? Creio que já perdi muito tempo. Tenho que arrumar uma das barricadas.

É só. Obrigado.

Notas finais
Não vi mentira nos olhos do garoto. 25 anos, sem rumo na vida. Para alguns, o apocalipse pode ser compensatório.