Notas iniciais
Entrevistei Caio, um dos professores da Estação Sé. Nada de excepcional no rapaz, que beirava os vinte e dois anos. Sorridente e amável, uma das características dos brasileiros, creio eu.

Como você percebeu que algo estava errado?

Não teve como não perceber, entende? O primeiro ataque surgiu como uma bolha, uma espinha no meio da 25 de Março. Era 21 de dezembro e a rua estava tão apinhada de gente que até mesmo as pulgas precisariam se espremer entre muitas pernas para saltitar. Eu estava ali, com uma amiga, procurando uma capa para celular. Deus, isso parece tão frívolo hoje em dia...

E foi bem no meio do pulgueiro, entre os altos edifícios de fachada encardida, sob o olhar do pináculo atento do Prédio do Banespa, que o primeiro infectado se tornou o horror que varreria quase toda a população mundial. Não digo que a Praga tenha se iniciado no Brasil. Há alguns meses vínhamos acompanhando, através do noticiário, alguns casos bizarros, mas em cantos remotos do mundo. Nada que uma boa dose de loucura não explicasse, mas ver ali, em primeira mão, o início de tudo...

Dois anos, não?

Algo parecido. A situação entre nós ainda continua um tanto precária, entende? Falta muita coisa. A comida acaba rápido e os suprimentos sempre vêm com menos do que o esperado. A água é cara...

Vocês pagam pela água?

Claro que pagamos. Por que não pagaríamos? Sempre tivemos cobrança em tudo... Daqui a pouco até o uso do ar-condicionado deverá ser pago, também.

E por que vocês não se rebelam?

E você já viu algum brasileiro reclamar por pagar dinheiro demais? Quando a facada é na cara, como o aumento do transporte em 2013, nós protestamos porque parece que pagaremos mais. Mas quando é à surdina, um aumento de imposto aqui, uma cobrança a mais ali, achamos que é normal. Ainda mais se alguém vem com algum discurso de como o tratamento de água, por exemplo, é caro. Todos engolem.

E você não?

Não, mas aceito. Ouvi alguns boatos sobre coisas horríveis que aconteceram com quem resolveu abrir a boca e reclamar. Isso aqui é Brasil, meu caro. Seja bem-vindo.

Como eu dizia, o primeiro ataque foi bem no meio da rua. Um morador de rua, provavelmente. Agarrou uma pobre menina e arrancou um belo naco de carne diretamente sobre a carótida...

Carótida?

Precisamos aprender o que é o que e onde fica. Serviços médicos aqui, pelo que eu sei, migraram todos para Brasília. Políticos filhos da puta.

Vocês estão aqui, desprotegidos?

Desprotegidos eu não diria, entende? Tudo bem que a população zumbificada lá em cima supera a nossa em o quê, setecentas vezes? Mas temos portões muito bem instalados nas entradas do metrô e a Sé e bem profunda.

Mas pelo que eu vi ela é aberta em cima...

Ah, haha! Eles caem aqui dentro, vez ou outra. Quando não atingem nenhuma pessoa tomando sol lá na plataforma, é bem engraçado. Os soldados montam guarda nas torres da Catedral, mas ainda assim mandam alguns para vigiar as entradas.

Alguma vez eles entraram... ?

Não, graças aos deuses.

Ok. Sobre o primeiro ataque, o que você lembra, exatamente?

Bem, como eu dizia, as pessoas voaram para cima do homem e o arrancaram da garota. Mais uns dois ou três foram mordidos. A menina morreu nos braços da mãe, muito sangue perdido. Não demorou mais do que dois minutos para ela se tornar uma das coisas e arrancar um pedaço da cara da mãe fora.

Pronto. Foi o fim. As pessoas correram enquanto a menina terminava o serviço com a mãe e o morador de rua arrancava a cabeça de um dos homens que tentava controlá-lo. Muita gente morreu naquele dia, mas não foi nem por causa dos zumbis. Pânico, sabe... Elas simplesmente caíam e eram pisoteadas. Isso tudo ao som de músicas natalinas. A mãe voltou e mordeu os mortos, que voltaram logo após. Algumas das pessoas mordidas se abrigaram em várias lojas, que fecharam suas portas. Os zumbis quebraram muitas e avançaram para os prédios. Meu Deus, ainda me lembro muito bem dos gritos...

Sua amiga estava bem?

Ah, sim. Considerando o choque... Ela perdeu toda a família. Todos nós perdemos muita gente, entende? Ela deve estar ali dentro, conversando com alguém. A Karla é toda fofinha, mas sabe muito bem estourar a cabeça de um zumbi quando precisa.

E depois do primeiro ataque?

Foi como a onda de choque de um meteoro, sabe? As pessoas correram e foram para casa... As mordidas se tornaram zumbis e mataram todas as que estavam em seu alcance, que também se tornaram zumbis. A polícia isolou toda a rua e o natal passou com os esguichos de sangue dos oficiais, que foram zumbificados. Os mordidos foram para suas casas. Tornaram-se zumbis e mataram a família, que também foi para as ruas e matou todos... A densidade demográfica da cidade ajudou bastante. Os hospitais caíram quando os mordidos se tornaram infectados e mataram os que estavam lá dentro, um por um. Hospitais estes que já eram lotados. As redes de informação entraram em estado de emergência e mandaram todos ficar dentro de suas casas. A todo momento notícias de massacres, mortes e tudo o mais em outro países apareciam na tela. O pânico da população era intenso. Muita gente correu para os hipermercados para conseguir estocar o máximo que pudessem. Muita gente conseguiu, mas os lojistas, brasileiros como só, tiraram vantagem. Aumentaram preços. Tiros foram dados, entende? E a polícia caía de pau em cima deles, ao invés de manter os cordões de isolamento do centro da cidade e dos hospitais. As coisas foram se tornando tão tensas que, em um determinado momento, os monstros invadiram a prefeitura. A toda poderosa prefeitura... Admira-me que nenhum noticiário tenha chamado os zumbis de vândalos, na época. A única vez que alguém conseguiu entrar naquele prédio a força foi durante as manifestações de Junho de 2013. Eu dava risada porque a polícia caía matando em cima dos que protestavam pelos mesmos direitos que os deles. Enfim, logo após as imagens ao vivo, de uma multidão entrando pelas portas da frente, os vereadores lá dentro foram resgatados pelos helicópteros da polícia. O prefeito foi pego antes. Muita gente dizia que ele empurrava as pessoas para trás para escapulir antes dos outros. Todos ficaram revoltados com o que ouviram, mas não existe essa coisa de “o capitão afunda com seu navio”. Era a lei da sobrevivência.

E onde está o prefeito? Gostaria de dar uma palavrinha com ele, antes de julgá-lo.

Se quiser, julgue-o agora. O filho da puta foi para Brasília no primeiro helicóptero do exército. Ninguém quer mais ninguém lá, embora todos sonhem em poder viver na margem do Lago Paranoá como se nada tivesse acontecido.

É melhor lá?

Dizem que sim, desde que as TVs pararam. Explodiram a ponte J.K. e criaram um cordão de isolamento ao redor da asa sul. Entenda, são apenas boatos que eu estou lhe passando. Todos os que estavam fora da capital morreram. E isso é o equivalente a mais de dois milhões de pessoas. Bando de retardados, se me permite. Dois milhões a mais de zumbis.

Mas não houve nenhuma tentativa de evacuação?

Houve, claro. “Precisamos de médicos e engenheiros de todos os tipos. Acalmem-se, voltaremos para busca-los e leva-los à Brasília”. Nunca vieram e nos deixaram desamparados.

Quem está no cargo daqui, então?

Teoricamente, ninguém. Karla é responsável pela contagem e pela ração. Leandro é pela segurança, eu sou um dos professores das crianças... O resto trabalha aqui dentro. Alguns cultivam umas poucas hortaliças onde os túneis desabaram com os bombardeamentos e por aí vai.

Não passam mais trens, passam?

Passam, mas é tudo controlado. Existem outras colônias em algumas estações ao longo da linha, até mesmo na central de controle. Uns dois amigos meus tomam conta de lá.

E como todos se alimentam?

Boa pergunta... Nós produzimos pouco nos túneis que não são usados. A Marly deve dar conta de tudo lá.

Ela está sozinha?

Não, claro que não. Digo isso porque ela representa a central dos trens. Coordena tudo de lá. É meio estranho, mas estudei com muita gente daqui, no ensino médio. A Marly fazia Ciências da Computação, na USP. Eu e Giovanna, a outra professora, fazíamos letras. Karla: contabilidade. Inclusive, o namorado de Marly, Sheldon, está em Brasília. Decidiram pegar os melhores de tudo nas estações. Não que eu diga que ela não é a melhor, longe disso, mas alguém precisava ficar. Eu espero que esteja tudo bem lá...

O Leandro, como dizem...

Ah, ele fazia design. É engraçado, mas ninguém faz armadilhas melhor do que ele. A criatividade explodiu de tal maneira que até o banco do trem que está preso na última plataforma matou umas duas dúzias de zumbis que entraram pela estação São Bento.

Então, o centro caiu?

Surpreenderia-me saber que nem todo o país caiu, mas ainda tenho esperanças. Se confiarmos em nós mesmos, conseguiremos superar isso tudo. Não deve faltar muito ainda até que os zumbis apodreçam e “morram”. São Paulo é bem quente, embora costumasse ser mais com todos os carros e... Bem, tudo. Não digo que é ruim, mas a natureza poderia clamar o que é dela em outra hora.

O que quer dizer?

É meio triste ver o MASP com rachaduras e plantas brotando entre as colunas. Havia uma colônia, lá. Morreram de fome.

Acha que algum dia voltarão a ser os mesmos?

Eu vi minha família ser morta por seres não-vivos. Eu tive de acabar com a minha mãe para que esta tivesse paz... Não, não voltaremos a ser o que éramos antes. Eu, pelo menos, prezo para que os pequenos daqui saibam o que todos passamos. É bom ter alguém para ensinar o que é certo e o que é necessário.

Como assim?

Digamos que todos nós já sujamos nossas mãos. Isso é tudo.

Notas finais
A situação da estação não é das melhores. A comida fede, as pessoas estão sujas, mas algo neles é alienígena. A esperança que brilha nos olhos das crianças. Fome, eu acho.