Cinquenta Tons De Vermelho
4 Capítulo 4:Jantar
Notas iniciais
Desculpem a demora, acabei de fazer 18 aninhos (mas já? passou tão rápido!) e ganhei o livro "Drácula" de Bram Stoker e fiquei muito distraída com a leitura, nível de felicidade:mais de oito mil!
Além disso consegui baixar o filme "Drácula de Bram Stoker" legendado, (milagre,pois quase todos os links eram de torrent, ou não funcinavam ou estavam off) com as legendas no timming correto, com essa minha porcariazinha de internet (fui à loucura quando o download terminou), então não se assustem caso eu faça mais referências além das deste capítulo, ok?
O tempo havia piorado em Londres. Em alguns lugares as pessoas estacionavam seus carros à noite e de manhã eles estavam escondidos sob uma camada espessa de neve. O governo teve de contratar máquinas de remoção de neve de empresas particulares e até pedir ajuda dos moradores em algumas regiões.
As crianças estavam adorando até mais ou menos dois dias antes, quando foram impedidas de sair pela mesma. Era o pior inverno em anos.
Integra fumava seu quarto charuto, o tabaco perdera o gosto viciante que tinha, mas era um dos poucos hábitos que pôde manter. Estava relativamente feliz naquela tarde. Num inverno rigoroso as pessoas tendiam a sair menos, dando menos chances aos vampiros de atacarem, reduzindo a formação de ghouls e de novas sanguessugas. Ou talvez fosse o time que fora desfalcado na semana passada. Ou talvez os dois. A papelada também diminuía por causa disto, dando tempo até para parar, descer e comer na sala de jantar ou assistir televisão, ou os dois, como uma pessoa normal. Ela terminou seu trabalho por volta das três e meia e desceu à sala de televisão para encontrar com uma Celas chateada debruçada na janela.
–O que foi Celas?- A midian olhou para a diretora.
–Não posso ir lá fora, tem muita neve encobrindo o caminho.
–E?
–Sem bonecos de neve!- Ela chorou. – E nem anjinhos no chão!
–Mas isso não é motivo para chorar.
–É claro que é! Fazer bonecos de neve é uma das coisas que mais gostava durante a minha infância. –De repente ela baixou a cabeça e começou a murmurar. – Papai, mamãe e eu fazíamos um monte deles quando eu era pequena.
Integra ficou com dó dela. Tinha apenas uma única lembrança dela e seu pai brincando de guerra de bolas de neve quando era muito pequena, depois disso lembrava-se apenas de invernos onde os dois ficavam sentados no escritório tomando chocolate quente e conversando sobre vampiros ou de quando abriam os presentes de Natal debaixo da árvore.
–Entrou um pouco de neve na garagem quando um recruta foi usá-la e esqueceu o portão aberto. Acho que ainda não a limparam então você pode brincar lá.
O rosto dela se iluminou.
–Obrigada, Sir! Quer ir brincar comigo?
–Eu não brinco, Celas.
–Ah, por favor! Faz quanto tempo que você não se diverte na neve?
–Um bom tempo... –Ela respondeu em tom casual.
–Vamos! Não tem graça construir um boneco de neve sozinha!-Ela começou a fazer cara de cachorro com fome.
Integra suspirou.
–Está bem então. Só vou me trocar.
Subiu e pôs uma calça jeans que ela raramente usou, uma blusa de gola rolê e um casaco espesso. Foram até a garagem com um cachecol vermelho, botões, galhos e uma cenoura na mão e encontraram a entrada quase totalmente obstruída, dando espaço apenas para as moças passarem.
Terminaram o boneco depois de vinte minutos. Colocaram a cenoura no lugar do nariz, os botões fizeram às vezes de olhos e sorriso e galhos eram os braços, com o cachecol emoldurando o pescoço.
–Agora teremos de destruí-lo. –Disse Integra.
–Por quê?
–Por que está bloqueando a entrada da garagem e porque não tem sentido manter um boneco de neve dentro de casa.
–Mas ele ficou tão bonito! E, além do mais, ninguém está conseguindo sair com qualquer carro nessa nevasca, ele provavelmente vai derreter antes de o tempo melhorar.
Integra suspirou de novo.
–Ok, então. Entretanto terá de secar a garagem sozinha quando ele derreter, e eu não quero uma gotinha d’água em lugar algum.
–Sim, Sir!
A Policial deu um sorriso largo, mostrando seus caninos pontiagudos, o que fez a diretora da Hellsing refletir sobre sua condição. Aparentemente ninguém reparou na sua pele que estava mais branca do que o de costume, além de mais fria, e nos seus hábitos alimentares e seu apetite decrescente.
Apesar de se sentir aliviada por isso, estava muito preocupada em como contar a todos. Principalmente à rainha. Pelo menos o problema “herdeiro” estava resolvido de uma vez por todas. Mas como continuaria a servir seu país sendo uma vampira? Como conseguiria olhar nos olhos de um cidadão britânico e continuaria o protegendo de seres que não eram diferentes dela?
Provavelmente todos se perguntariam se ela continuava fiel á nação ou se se tornara uma traidora, não importasse se a notícia viesse à tona no dia seguinte ou depois sessenta anos. E todas essas particularidades da transformação a preocupavam. Muito.
Depois do “encontro” no Moonlight Club, Alucard não voltou a conversar com ela algo além do essencial, parecia preparar alguma coisa, alguma de suas travessuras provavelmente. Que filho-duma-égua! Nem para ajuda-la a pensar numa solução para o problema que ele mesmo arranjou! Entretanto esse é o real problema dos homens: insistentes e despreocupados na hora que vão satisfazer seus desejos, sejam eles carnais ou não, porém desaparecem na hora de colocar as coisas em ordem.
Regressaram à mansão onde Celas se adiantou e foi ver a reprise de “Kenan & Kel” na sala de tevê, e Integra foi ler um livro. Passou por diversos títulos, como “A Divina Comédia”, “O Estranho Caso do Dr. Jekyll e do Sr. Hyde”, “O Retrato de Dorian Gray” e tantos outros cujo enredo ela conhecia de cor e amava, verdadeiros clássicos de todas as épocas, mas se pegou rindo quando puxou “Drácula” e começou a rele-lo pela enésima vez.
Tinha decorado a sequência de fatos e sabia, quase que exatamente, onde começava e terminava cada capítulo.
Leu até a metade em menos de vinte minutos, baixou o livro e encontrou uma figura esguia deitada num divã oposto à cadeira onde ela estava sentada.
–Se quiser fazer uma pergunta, faça a mim. Esse livro é para o entretenimento das massas, não é lá muito confiável.
–Alucard, acho que eu seria a última pessoa a lhe perguntar sobre vampiros.
Ele riu.
–Mas acho que vou fazer perguntas de cunho pessoal.
Alucard deu uma risada sarcástica.
–Então esteja avisada, jovem mestra, de que meus relatos serão o mais fiéis à realidade o possível. Entretanto essa fidelidade pode nem sempre agradá-la.- Sorriu friamente.
–Mas então não contará a verdade, já que ser o mais fiel o possível não quer dizer contá-la.
–A verdade, Integra, não é algo tangível. Ela engloba absolutamente todas as versões de todos sobre tudo. Nenhuma história, real ou fictícia, jamais conta inteiramente a verdade sobre absolutamente nada. Não importa de quem você ouça, será apenas uma versão dos fatos ocorridos. Mas pelo menos a minha versão complementa a do livro, já que a de quase todos é retratada, exceto a minha.
–Estarei satisfeita se você me responder atendo-se aos fatos, só use de sentimentalismo quando necessário. — Ele riu alto. -Eu realmente não quero saber qual era cor do vestido de Mina quando a encontrou pela primeira vez.
–Era verde-claro e ela usava um chapéu ridículo. — Integra rolou os olhos. — Mas isso não vem ao caso. Pode começar...
–Porque você quis vir à Inglaterra?
Ele bufou.
–Eu estava cansado. De tudo. De todos. Cansado de ser temido, de não poder andar nas ruas, de ter minha casa quase sempre invadida por aldeões enfurecidos. Até empala-los estava se tornando tedioso. Cansado até de fazer sexo grupal com as mesmas três mulheres o tempo todo. Ah, e eu também estava com vontade de dominar o mundo. Próxima.
–Porque Renfield? Ele era um fraco.
Alucard riu sarcasticamente e respondeu com um sorriso maléfico estampado no rosto.
–Aquele idiota? Renfield foi por pura sorte. Ou azar. Eu precisava de um advogado fraco, e foi um fraco que me mandaram. Não fraco de corpo, mas de mente. Ele era muito pretencioso e tinha medo, quase uma fobia, da morte além do normal. Eu apenas lhe disse que era capaz de dar-lhe a vida eterna em troca de sua total servidão. Ele trazia fotos das propriedades que estavam à venda e eu, por pura coincidência, gostei de uma em frente ao sanatório. Não pensei duas vezes em enlouquecê-lo o suficiente para que fosse parar lá, mas não o suficiente para que deixasse de ser útil às minhas pretensões, e mandá-lo de volta num estado mental um pouco... Alterado.
–Mas porque interná-lo?
–Eu precisava de alguém que vigiasse minha propriedade de dia, além de me manter completamente fora de suspeita. Mesmo que Renfield fosse até a rainha Victoria e gritasse em seu ouvido que eu era um vampiro ela não iria ouvi-lo por se tratar de um homem tido como louco e também porque ela ficaria surda.
–Lucy?
–Lucy era uma biscatinha vitoriana, apesar de ser virgem. Eu pretendia tomá-la apenas por refeição quando percebi que ela e Mina tinham quartos lado a lado. Se eu transformasse Lucy em minha concubina poderia vigiar a professora taquígrafa noite e dia sem me preocupar, pois ela passava grande parte do tempo ou comigo ou com a amiga e foi o que eu fiz. — Ainda mantinha o sorriso no rosto, porém Integra notou uma tristeza reprimida nos olhos do vampiro. -Ela "morreu" bem antes que pudesse ser notada, logo na primeira mordida que dei em seu pescocinho, e por causa da constante fome de sangue ela foi ficando pálida e desesperada. Se eu a tivesse alimentado talvez não estivéssemos aqui agora.
–Se arrepende disso?
A pergunta o pegou de surpresa. Ele apenas sorriu largamente.
–Eu não me arrependo de ter matado ninguém, nem meu próprio povo. Porque eu me arrependeria de ter matado Lucy?
–A pergunta não foi essa. Eu quis dizer se você não está arrependido de não ter alimentado Lucy.
Ele fechou a cara.
–Você disse que ia me responder.
–Do que adiantaria? Eu continuaria sendo o que sou fazendo o que faço. Então não entendo o porquê da pergunta.
–Porque se você se arrepende quer dizer que ainda tem alma.
Ele se levantou e ajoelhou na frente da diretora. Pegou a mão dela e pousou em seu peito no lugar onde o coração deveria bater.
–Não há alma neste corpo.
–Mas mesmo assim você vive.
–Entenda Integra, a cada gota de sangue que bebemos uma parte de nossa alma morre, até que...
–Até o quê?
–Até que simplesmente não exista mais humanidade em nossos corpos, até que nos tornemos menos do que meros ghouls e passamos a rastejar no esgoto em meio à imundície à procura de próxima vítima, pura e simplesmente pela dor que infligimos aos pobres coitados. Então a procura desenfreada por sangue torna-se completamente por esporte e não necessidade, e passamos a esperar pela visita de um caçador de vampiros experiente que nos mate. É o destino.
Ele se levantou e voltou a se deitar no divã. Conversaram durante duas horas sobre pequenas dúvidas que o livro tinha deixado em Integra até que Walter anunciou que o jantar estava posto. Integra adentrou tentando não transparecer o nervosismo na sala de jantar. Havia sopa de cenoura, carne de caça, batatas e aspargos cozidos e arroz.
Sentou-se na cadeira na ponta da enorme mesa e aprontou-se para comer. Um barulho de galho arranhando o vidro da janela irritava-lhe os ouvidos, tão alto que a fez levar as mãos as orelhas assim como Walter. A janela quebrou-se em mil caquinhos, Integra e o mordomo esconderam-se debaixo da mesa.
Alucard atravessou a parede com as armas em mão e Celas arrombou a porta com a Halconnen nas costas. Um freak estava sentado na janela, a diretora levantou com a arma em punho, atirou e o vampiro fajuto caiu para o lado de fora da mansão. Todas as outras janelas foram quebradas e um mini exército adentrou na sala de jantar por elas. O No Life King e sua midian começaram a atirar e Walter decepava cabeças com sua linha de pescador.
O vampiro pulou para a janela onde o primeiro freak tinha estado e começou a combater os que estavam do lado de fora. Depois de dois minutos estava tudo acabado. Cerca de cinquenta corpos estavam espalhados pela sala, alguns em cima da mesa, manchando a toalha branca com comida e sangue.
–Eu quero um relatório do capitão da guarda na minha mesa sobre esse ataque em meia hora, Walter!- Integra berrou, vermelha de raiva.
–Sim, Sir. — Ele respondeu.
–Acho que temos problemas maiores, Integra. — Disse Alucard. Do alto da janela era possível ver os corpos inanimados, ao longe, do capitão da guarda e de alguns soldados. -Eles estão todos mortos.
–O quê?!
–Sim, esconderam os corpos sob arbustos e neve, porém são visíveis para mim deste ângulo que estou.
–Estão mortos há quanto tempo?
–Acredito que umas duas horas ou menos, não mais que isso. Deve haver alguns que viraram ghouls vagando por aí, eu e Celas vamos procura-los.
De repente mais um freak apareceu numa janela bem enfrente à diretora e foi diretamente para cima de Integra. Alucard jogou-se no vampiro, caindo por cima dele e de Integra que desmaiou com o impacto.
A loira acordou em sua cama, cercada por seu mordomo, seu servo e a policial. A parte de trás doía e sua vista estava um pouco mais embaçada do que o normal quando ela ficava sem óculos, ela levou a mão à nuca e olhou para os três que a observavam.
–O quê?
–Você sofreu um forte baque, está bem?- Alucard perguntou.
–Alucard, pare com isso, vocês não ficariam assim só porque eu bati a cabeça. Diga logo!
Ele lhe deu o espelho.
Ela se olhou e viu exatamente o que esperava: a si própria, sem nenhum arranhão ou machucado.
–Abra a boca.
Ela abriu e viu suas presas. Não foi preciso fingir surpresa. Ainda estava um pouco chocada com sua própria aparência vampírica, principalmente com as presas.
–Se quiser mestra, eu lhe darei meu sangue e poderá se tornar uma vampira por completo, sem as limitações de uma midian. –Ela olhou para ele um pouco confusa, pois se lembrava de já ter consumido o sangue dele.
Ele piscou. Ah, fingir. Então Integra entendeu o que ele queria dizer.
–Aceito sua oferta, servo meu. Desde que a ordem hierárquica continue a mesma.
–Não poderia imaginar de outra forma.
–Tem certeza, Sir?- Celas perguntou, Integra notou uma certa aflição por parte da policial.
–Tenho; se eu não consumir sangue agora, vou acabar bebendo-o alguma hora. Acho melhor resolver essa questão no calor do momento, até porque será mais fácil explicar à rainha.
–Mas, mas...
–Está resolvido. –Integra disse finalmente, encerrando a questão. –Deixem-nos sozinhos. Agora.
A policial, cabisbaixa, e o mordomo impassível saíram.
Alucard se sentou na cama, observando os dois.
–Ela te admira, por isso protestou.
–Eu sei, mas pelo menos não precisamos esconder mais nada sobre essa história. Bem, não tudo. Você planejou tudo isso?
–Não, só o último ataque de vampiro, aquele que se jogou em cima de você. Aquele primeiro ataque talvez tenha sido uma retaliação por parte de um ou dois vampiros que não gostaram do que fizemos no Moonlight Club ou alguma outra matança. Primeiro pensei que fosse o vampiro que chamei para te “atacar” que tivesse chegado cedo demais, mas quando ouvi barulhos de galhos sendo estalados entendi o que estava acontecendo.
–O que aconteceu com ele?
–Morto. Era um bebê. Iríamos acabar por mata-lo a qualquer hora, então porque não tornar sua morte algo de útil?
–Agora só falta a rainha e a corte.
–Deixe-os comigo. Tem coisas mais importantes para cuidar.
Deu-lhe um beijo casto e deixou uma bolsa de sangue em cima do criado-mudo. Atravessou a parede para ir embora, mas voltou.
–Por acaso eu ganharei uma recompensa por esse trabalho todo? Por te ajudar a contar para o mordomo e a policial?
–Eu vou pensar nisso, Alucard.
–E você sabe o que dizem sobre vampiras: que elas realmente sabem como chupar.
Integra procurou desesperadamente por sua arma, mas não a encontrou.
Alucard tirou-a do bolso interno de seu sobretudo e disse no pé da orelha de sua mestra.
–E eu não tive nada disto até agora. — E desapareceu dando gargalhadas e deixando Integra cheia de raiva. E um pouco de vontade de continuar o que tinha começado na semana passada.
Notas finais
Experiência própria.
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