Cinquenta Tons De Vermelho

2 Capítulo 2: "Me mate definitivamente"


Notas iniciais
Obrigada aos três que comentaram!
Fiquei muito feliz que gostaram e,sinceramente,tive medo de ler seus comentários e achava que ninguém ia gostar.Fiquei tão animada que escrevi uma parte na aula de estatística e outra quando cheguei em casa.Está um pouco mais curto do que o primeiro,mas sinto que os gnomos e duendes da inspiração me abençoaram até demais enquanto escrevia uma das falas do Alucard!
Espero que gostem =)!!
Kissus,Kissus!

Integra estava em seu escritório, roendo suas unhas, coisa que não fazia desde criança. As luvas estavam jogadas no chão, perto do sofá onde estava deitada amaldiçoando mentalmente ela e seu servo, ex-servo, amante ou seja lá o que ele fosse agora.Isto já não importava mais desde a manhã, quando ela abriu os olhos e ele lhe explicou o que havia acontecido. Quase o esfaqueou com uma adaga de prata que mantinha escondida dentro do criado-mudo, porém, quando a tocou sua pele começou a queimar, soltando fumaça entre os dedos, e ela a deixou no chão. O que ela faria agora?

Tinha se transformado no ser que mais odiava, numa sanguessuga, numa assassina, numa caçadora de almas à espera da próxima vítima. Lembrou-se do que seu pai lhe disse uma vez sobre vampiros, que eram espíritos atormentados com fome de guerra pois eles desejavam, desesperadamente, morrer. O que ele diria de sua situação?

Uma lágrima escorria pelo seu rosto que ela tratou de esconder rapidamente antes de Walter entrar e trazer o chá das cinco.

As cortinas estavam completamente fechadas, e os papeis estavam todos acumulados em cima da mesa de trabalho na pilha dos "não-analisados". Integra não trabalhara nem de manhã nem à tarde, ficara ocupada demais imersa em seus pensamentos. Aliás, ela sequer tocara seu café-da-manhã nem almoço, não tinha fome, frio ou qualquer sensação além do desgosto e do ódio de si mesma. Tudo o que ela queria era afundar suas unhas recém-roídas até o talo em sua pele e despir-se completamente dela e de sua aparência humana, se não podia voltar atrás então procuraria ser por fora o que tinha se tornado por dentro, como um monstro alienígena de um filme B.

Walter apenas deixou o chá numa mesinha onde o almoço da Hellsing repousava intacto. Ele nunca a vira daquele jeito e julgava que era melhor deixá-la sozinha, pegou a bandeja com a comida e saiu.

Quando a porta bateu Integra sentiu uma presença familiar.No sofá à sua frente Alucard a observava sem expressão facial alguma, sem seu sorriso macabro habitual ou a sua gargalhada sem humor. Ele estava todo de preto,com seus cabelos longos caídos sobre seu rosto e suas mãos sobre seus joelhos.

Seus óculos estavam lá, mas desta vez não se viam os olhos dele como normalmente.

Integra levantou-se de repente e Alucard acompanhou seu movimento com a cabeça.

-CRETINO!!!- E lhe deu um tapa que arrancou a mandíbula do lugar. Mas ele mal se moveu ou disse qualquer coisa.

Duas gotinhas de sangue voaram pela sala e foram parar nas cortinas, manchando-a visivelmente, porém o cheiro impregnou o local de tal maneira que fez a loira salivar, era como o mais delicioso de todos os pratos para um miserável que passou fome a vida inteira.

Alucard percebeu isso, apesar da mulher tentar disfarçar, arrumou seu rosto, levantou-se e rasgou o próprio pescoço, oferecendo-o à jovem vampira.O sangue jorrava pela sala, instigando ainda mais a fome e o desepero em Integra. Ela deu-lhe as costas num esforço magnífico de contenção para alguém que havia sido transformado havia poucas horas.

-Beba.- Ele sussurou.

-Não.

-Beba.

-Já disse que não, maldito.

-Faça o que quiser comigo, mas não prejudique a si mesma porque me odeia.

-Eu não te odeio. Odeio a mim mesma por ter confiado que você não me macularia, muito menos que me transformaria. Você sempre foi confiável.- No fundo, não conseguia sentir ódio dele, amava-o mais que sua própria vida.

Ele não rebateu,apenas a puxou de encontro ao seu peito,abriu sua boca e a encostou em seu pescoço, acariciando sua cabeça enquanto ela lambia e feria ainda mais sua pele.

Depois de alguns segundos ele retomou a conversa.

-Eu sou tão confiável que fiz os dois sem sua permissão...eu...queria ter o poder de reverter a transformação,que fosse você quem escolhesse e não meus instintos. Não se preocupe com nada por agora, darei um jeito em tudo até que você se acostume com a não-vida, só cuide para não ficar perto de humanos durante muito tempo sem comer e sempre ter uma bolsa de sangue à mão.

Satisfeita, ela afastou os lábios ensanguentados do ferimento.

-Lamba para que feche mais rápido.

Obedeceu e viu um rombo se transformar numa pele lisa sem marcas, manchada apenas pelo líquido rubro.

-Se um dia, por ventura, beber diretamente de um humano faça isso e depois apague a memória dele. Por enquanto você é fraca, mas se consumir bastante sangue se tornará forte para começar a desenvolver seus poderes em alguns dias e logo vai poder se virar sozinha.

Ela ficou com ainda mais raiva dele. Ele simplesmente não se importava, o que ele disse sobre ela escolher parecia uma zombaria aos seus olhos. No fundo, ele via aquilo como uma oportunidade de ir embora para sempre e reconstituir seu harém de vampiras concubinas.

-Você ao menos sente remorso pelo o que fez?

Ele ajoelhou-se e retirou os óculos. Os olhos estavam sem o brilho característico, e seu olhar de deboche tinha sido substituído por um de tristeza profunda e arrependimento.

-Minha senhora, eu me sinto como se todas as pessoas que empalei, torturei e matei cruelmente tivessem voltado para se vingar. Sinto como se todas elas, homens, mulheres, crianças e inválidos estivessem a me sufocar, agarrando-se à minha garganta e não me deixando respirar. Sinto como se minha família, meu pai, minha mãe, meu irmão e minha noiva estivessem sendo torturados até a morte e eu só pudesse assistir sem fazer nada. Estou mergulhado numa espiral de dor, remorso e tristeza da qual não consigo emergir, sequer ver um lado bom ou dar um passo sem lembrar do que fiz à ti. É como se tivesse cometido o maior dos pecados e não houvesse absolvição para tal. E é por isso que quero que me mate quando puder seguir sozinha. Mas, me mate definitivamente.

Levou a mão direita às costas e entregou uma arma à Integra.

-Há dez balas de prata carregadas nesta arma. Deve bastar para me matar de vez. Lembre-se de mirar sempre no coração quando for fazê-lo.-Ela engoliu em seco. Jamais o mataria, independentemente do que ele fizesse.

Integra jogou a arma para o outro lado da sala arrebentando um vaso de plantas que estava próximo à mesa de trabalho e espalhando terra por todo lado.

-Acha mesmo que iria te matar?Meu pai sempre dizia que vampiros são almas atormentadas que só querem morrer, eu não vou te dar o que você quer depois do que você me fez. Ao contrário, permanecerá comigo até eu julgar que cumpriu tudo o que eu mandar e necessitar. Ainda tenho o controle dos selos que te prendem à esta Organização, ainda sou a diretora dela e no momento necessito de você para me ensinar tudo que sabe e ajudar a me desenvolver. Em outras palavras, VOCÊ AINDA É MEU CAPACHO E EU PRETENDO CHUTÁ-LO ATÉ TER DÓ DE VOCÊ POR CAUSA DOS SOFRIMENTOS QUE TE CAUSEI, ENTENDEU SOLDADO?!

-Sim...minha mestra.- Ela virou-se de costas.

Ele sorriu.

Integra sacou sua arma com balas comuns e esvaziou o pente.

A gargalhada de Alucard ecoou.

-Então, acho que devo me alegrar porque você está de volta para eu te atormentar. PARA SEMPRE.-Ele riu de novo, desta vez com nítida felicidade.

E reapareceu na frente de sua mais nova Draculina.

-Só mais uma coisinha.-A beijou com força, sendo retribuído na mesma moeda.

E desapareceu novamente.

Integra sentou-se na cadeira da mesa de trabalho. Poderia finalmente começar a labutar. Contudo o "para sempre" ficou na cabeça dela. Estremeceu. Pensaria nisso depois quando terminasse de avaliar e assinar documentos e casos. Ou quando não aguentasse mais a não-vida.

O relógio alertava para duas e meia da manhã quando ela terminou. Não estava cansada, pelo contrário, estava mais disposta do que de manhã, todavia subiu ao seu quarto na esperança de conseguir contornar os hábitos vampíricos e adequar o horário de dormir às suas necessidades.

Quando entrou encontrou um caixão de ébano,disposto diagonalmente num canto para que se alguém inesperado entrasse fosse fácil escondè-lo confundír a pessoa para que pensasse que era um aparador, ricamente adornado com flores esculpidas na madeira e detalhes banhados numa tinta que imitava prata. Havia uma taça de vinho tinto em cima do ataúde e um bilhete pregado nela.

"Encontre-me daqui a quinze minutos no porão onde me encontrou quando era pequena. Vá com a roupa que separei.

Do seu capacho."


Haviam algumas roupas dobradas na cama. Integra as analisou uma a uma: um vestido colado, sem alças, que ia até o pé; um colar de diamantes que ela nunca tinha visto entre suas joias e brincos combinando, além de uma pulseira e dois prendedores de cabelo e sapatos de salto-alto pretos. Porém um item chamou a atenção: uma calcinha fio-dental preta de renda que não escondia nada e outro bilhete: "Apesar de ser ciumento, não pude resistir."

Ela levantou uma sobrancelha.

Vestiu-se e foi até o local combinado.

Notas finais
Ah,pra quem não sabe o que é concubina:
É uma amante oficial de um monarca ou nobre, como uma prostituta, só que só presta serviços a um único homem e seus amigos, quando lhe é solicitado.
Além disso, até onde eu sei, ela pode ter sangue nobre(se eu não me engano, até princesas chegaram a ser concubinas).