Cinco Vidas
10 Welcome to western - parte 2
—50 dólares agora, 50 dólares na chegada!
—Charlie…
—E eu ainda ajudo a pescar, caçar… Tudo que precisarmos no caminho!
—Charlie…
—Por favor! Eu preciso de um guia! Ontem a noite ficou claro que não consigo fazer isso sozinho.
Nicholas tirava o chapéu como quem fazia uma prece aos céus para calar a boca do garoto insistente a sua frente. Toda a manhã foi recheada de pedidos de Charlie para que Nick o acompanhasse em sua jornada para o oeste.
—Estou indo para o sul, trabalhar nos portos, sabe disso. Já tive muitas doses de deserto e floresta na minha vida… Quero ver o mar com os meus próprios olhos ao mesmo mais uma vez.
— Pelo menos até a próxima vila ou estalagem… Ou taberna… Por favor! Eu faço qualquer coisa!
Era irritante como seus olhos brilhavam enquanto pedia, além dos cachos que teimavam em se balançar junto com a brisa como se tentassem prender sua atenção. Charlie soava irritantemente convincente para Nick.
— Tem… Uma coisa, mas vai ter que jurar não contar para ninguém. — O moreno ficou empolgado, mas se contentou a fazer um gesto de zipar os lábios — Quero que… Leia para mim. Um livro. Consegui ele com um funileiro há uns meses, tem um navio na capa e… Eu sei ler! Mas não… Tão bem… Entende? Acho que é uma boa história, quero gostar dela e você parece um bom contador de histórias, Charlie.
Ouvindo as últimas palavras, o jovem não resistiu e abraçou o maior como se selasse o acordo. Sentindo-se encabulando e o rosto corado, logo se separou e em seguida estendeu a mão com seriedade, selando o acordo da maneira correta.
Seria uma longa viagem pela frente…
Nellie, a égua de Nicholas logo se sentiu à vontade sendo acompanhada pelo cavalo de Charles: Henry. Para longas distâncias, o cowboy sabia que aquele detalhe representava algo positivo, caso contrário perderiam muito tempo com os cavalos arredios. De maneira semelhante, não foi preciso uma grande troca de palavras para Nick e Charlie se entenderem como companheiros de viagem.
O mais velho sabia por onde ir, como se conhecesse cada pedra do caminho. Onde conseguir frutas e raízes, como diferenciar cogumelos venenosos dos comestíveis e como tirar água dos cactos mesmo na região mais desértica. Não cabia a Charlie a responsabilidade de conhecer técnicas de sobrevivência, é claro, mas de alguma forma o moreno conseguia deixar a viagem mais agradável. O loiro jamais teria a mente imaginativa de enxergar cachorros nos recortes das montanhas ao norte, nem pararia para apreciar a beleza de uma árvore retorcida que parecia acenar para outra. Mas Charlie via. Aos seus olhos, a aridez do deserto ganhava algumas camadas de beleza, além da melodia de assobios acompanhando pássaros que encontravam pelo caminho.
Aproveitavam cada resquício de luz do sol para então acamparem em locais seguros dos lobos. Aquele era o momento preferido para Nick.
—”...Muitas léguas separavam o Capitão da Inglaterra. O movimento das ondas exercia um efeito estranhamente confortável em meu irmão, como se seu corpo fosse habituado ao mar. E de fato era, depois de mais de uma década vivendo mais sob as velas do que o telhado da própria casa. ….”
Enquanto Charlie lia, os olhos de Nick cintilavam empolgados com as palavras bonitas descrevendo o mar.
Ali, na noite silenciosa do deserto, apenas o crepitar da fogueira e a voz doce de Charlie preenchiam o espaço. A luz das labaredas iluminava as páginas do livro, vez ou outra com alguma gravura que era apresentada pelo moreno. Foi um caminho natural que Nick deitasse do lado de Charlie enquanto o mesmo lia as páginas.
—....
Um ronronar foi ouvido.
Nicholas, ao seu lado, estava dormindo.
Charles o substituiu na finalização do acampamento. Areia nas chamas restantes, uma última olhada nos cavalos, então cobriu o mais velho com o cobertor. Ali, aconchegado por uma manta azul escura, era irresistível não notar como ele era fofo. As bochechas levemente coradas emolduradas por uma barba dourada. Atraente. Um oásis no deserto.
Tentando apagar os últimos pensamentos inapropriados, Charlie deitou ao seu lado e enfim se deixou ser levado para o mundo dos sonhos.
* * *
Nick acordou cedo, seu corpo parecia se apoiar em algo macio. Ao abrir os olhos, reconheceu Charlie em seus braços. Por sorte, seu susto não lhe acordou, permitindo o cowboy se levantar prometendo apagar da memória aquela situação e, principalmente, aquela sensação acolhedora.
Logo o acampamento foi desmontado e seguiram poucas horas de viagem até chegarem a uma taberna com estalagem no meio do nada.
— Dois shots e o que tiver de suculento que não esteja apodrecendo.
Nicholas comentou colocando algumas balas no balcão. O velho, provavelmente dono do bar, recolheu as balas, serviu whiskeys e o que parecia uma carne salgada com bacon. Para aquele período do ano, com o gado despachado para o sul, aquilo era o mais perto de suculento que encontrariam.
Charlie então sacou um dólar e pediu qualquer coisa doce e cenouras para os cavalos. O velho, apesar de surpreso, trouxe o que parecia duas generosas fatias de bolo de frutas secas. O moreno enrolou a própria em uma toalha e guardou, enquanto Nick devorava sua parte, se questionando porque o outro não fez o mesmo, se contentando em pegar as cenouras e caminhar até os cavalos do lado de fora.
De repente, as portas se abrem revelando uma mulher de vestes sujas e olhos cansados acompanhada por um homem igualmente maltrapilho.
—Dinheiro, comida… Agora! Mãos… Mãos ao alto!
—Não se mova!
Enquanto o homem apontava a arma para Nick, sua companheira pegava as notas da caixa registradora. Num movimento rápido, o velho sacou a própria espingarda atirando no ladrão, que por susto apenas conseguiu desperdiçar algumas balas no teto antes de cair no chão agonizando pelo torço ensanguentado. Sua mulher gritou em desespero, atirando no velho em seguida.
A moça parecia ser muito mais velha do que realmente era. Sua mãos trêmulas apontavam a pistola para Nick, ainda de mãos ao alto.
—Respire. Você precisa respirar… Senhora.
As lágrimas deviam corromper sua visão e o peito arfando certamente não ajudaria a moça, era o que pensava Nick. O descontrole era o pior inimigo no oeste.
—Você precisa respirar. Respire fundo…
Nick continuava dando instruções olhando em sua direção.
Um novo tiro ecoou pelo lugar. Charlie às costas da jovem. Um tiro certeiro entre os ombros. Não havia mais o que pensar. Estava morta. Todos os três, mortos.
O moreno teve tempo apenas de soltar a arma antes de vomitar o pouco que havia em seu estômago. Nick logo segurou seu corpo e lhe estendeu uma toalha no balcão.
—Respire… Charlie… Já passou… Você… Você salvou minha vida.
—Eu não queria, eu…Ela tinha…
—Não teve escolha, você também não. Pegue toda a comida que encontrar. Vou preparar os cavalos. Melhor sairmos antes que outros abutres venham atrás da carniça.
Pela forma com que o loiro olhava o local, Charlie sabia que ele não estava se referindo realmente a abutres.
Recolheu o máximo de comida, o resto do bolo, as carnes, armas, balas… Só precisou ver a morte com os próprios olhos para entender que deveria fazer isso. Quando a adrenalina saísse de seu corpo, todo o peso daquela tragédia lhe consumiria a sanidade, mas agora precisa agir o mais rápido possível.
Saindo do bar, viu um casal de crianças sentados no chão como se esperassem ser resgatados, resgatados pelos pais. Charlie olhou implorando para Nick, mas o loiro respondeu com o aceno rígido. Não. Ignorando seu instinto de sobrevivência, Charlie apenas soltou um dos sacos cheio de alimentos ao lado das crianças e correu até seu próprio cavalo.
A dupla cavalgou o quão distante foi possível antes de Charlie precisar descer do cavalo mais uma vez. A realidade o atingiu de modo certeiro, precisava respirar; precisava chorar; precisava mais do que tudo conseguir se segurar para voltar e salvar aquelas crianças. Decidiu-se, por fim, deitar no chão desejando que o mundo parasse de girar tanto.
—Você não pode se deixar envolver… Nisso. Ou não vai sobreviver. Primeiro iria querer deixá-las num lugar seguro, depois começaria a questionar se as pessoas com quem as deixou seriam de confiança, então começaria a se responsabilizar por deixá-las lá… Quando der por si, estaria tão envolvido que não se perdoaria por deixá-las vivas num mundo condenado como esse. Não pense nisso, não se envolva mais que sua sanidade pode tolerar.
—Como faz… Para não ouví-las na minha cabeça…
Nick se posicionou entre Charlie deitado sobre as plantas rasteiras no chão e o sol, criando uma sombra.
—Você pensa em outra coisa. Em seus próprios problemas. O que o traz ao Oeste, afinal? Definitivamente não veio aqui para ser um pistoleiro fora da lei. Veio bancar o herói?
—Preciso encontrar… Uma moça… Victoria. Ela está se escondendo nesse fim de mundo e a culpa é minha. É meu dever protegê-la.
—Claro… Todo herói tem uma donzela em perigo! — Havia uma ligeira decepção na voz de Nick — Bem… Estou em dívida com você, Charlie. Isso quer dizer que irei lhe acompanhar no resto do caminho. Garantir que chegue vivo em sua Victoria.
Esperava alguma reação mais otimista do moreno, mas houve um aceno de confirmação. Ver a morte e suas consequências tão de perto… Não é algo que se recupera facilmente, Nick sabia disso melhor do que ninguém.
Logo armaram acampamento mais uma vez, sabendo para onde iriam: a floresta de blueberries junto a uma plantação de trigo, conhecida pelos viajantes mais supersticiosos como a Floresta Fantasma. O loiro explicou a rota que fariam por planícies para ganhar tempo com os cavalos antes de atravessarem um conjunto de montanhas que enfim levariam a Floresta Fantasma.
Com tudo organizado, foram dormir, o clima não combinaria com a leitura o livro.
Charlie não conseguia dormir. seus sonhos eram preenchidos pelos corpos dos ladrões e as crianças, trocando em flashes para a frieza de Nick dizendo que não poderiam ajudar os menores. E Charlie concordou. Não conseguira bater de frente com sua frieza, agora seu grande desejo era poder voltar atrás e corrigir seu erro.
-Preciso voltar… À taberna.
* * *
Cavalgar a noite para alguém sem sono era estranhamente tranquilizador. Não se deparou com cobras ou coiotes, seu cavalo seguia com fôlego por um bom tempo, até que se deparou no caminho com uma carroça de quinquilharias.
Nick diria para desviar de estranhos, mas Nick não estava aqui, certo?
Com esse pensamento em mente, Charlie seguiu de mãos para o alto até a clareira iluminada por uma fogueira.
—Quem se aproxima?!
O jovem de cabelos castanhos questionou lhe apontando a própria arma.
—Meu nome é Charles Spring. Não estou armado, eu… Só estou de passagem
—Spring?! Bem… Não se acanhe. Aproveite o fogo, será uma longa noite, meu caro. Benjamim Hope, me chame de Ben. Sou escritor. Estou escrevendo sobre o oeste americano.
O jovem parecia ser um pouco mais velho que Charlie e não soava perigoso aos seus olhos, logo Charlie aceitou uma caneca de uma bebida doce com aroma de abacaxi e passaram a conversar.
—Apesar de ser uma terra difícil, de nascer e sobreviver, não se pode negar que estamos rodeados de belezas naturais desde que nascemos, não é mesmo?
—Bem… Eu sou da Inglaterra, mas concordo sobre a beleza daqui. Tudo tão grosseiro e delicado… É realmente fascinante!
—Ora! E o que faz tão longe de casa? — Charlie hesita em responder — Vamos…Beba um pouco mais, não se acanhe. Vim da fronteira do Canadá para cá. Praticamente um retirante, como você.
—Vim atrás de uma moça, Victoria. Ela é…Muito importante para mim.
—Victoria Spring, como você? Irmã? Prima talvez.
Charlie paralisou. Até ali, todos acreditavam que a jovem que procuravam era sua amada. Era uma excelente disfarce para seus interesses… Particulares. Sabia que poderia ser morto caso o considerassem promíscuo ou pagão, mas Ben não parecia perigoso… Na verdade, se sentia quase entorpecido em sua presença.
—Isso…Spring. Minha irmã. Estou cavalgando até ela. Como você… Soube?
O castanho revela um colar com totem indígena.
—Na minha antiga terra, aprendemos a reconhecer a alma das pessoas… Seus interesses, seus desejos… — a forma com que Ben lhe olhava era intimidador, mas de um jeito excitante — No momento em que me olhou, Charles, eu imaginei que sua busca era por uma familiar… Porque seu tipo de interesse não é compatível com uma moça…
Sua mente ainda estava nublada, como se perdesse certos flashes do que via ao redor. Quando recobrou a consciência, percebeu que Ben Hope estava a poucos centímetros de distância, prestes a selar seus lábios em um beijo.
Com o sentimento de culpa e arrependimento atolado em sua garganta, Charlie precisava ignorar suas preocupações, ainda que fosse por apenas um momento. Com esse desejo em mente, o jovem se entregou de uma vez às luxúrias do estranho a sua frente e se deixou ser iludido pelas carícias passageiras.
—Charles…Charles…
Seu nome era sussurrado enquanto seu corpo era jogado no chão coberto por cobertores. Estes foram os últimos detalhes guardados em sua mente.
Depois disso, havia apenas um grande vazio até sentir os primeiros raios de sol pela manhã.
Acordou com uma coberta sobre seu corpo, apenas. Suas roupas foram levadas, seu cavalo, sua sacola de viagem.
—A carta!! — foi o primeiro pensamento enquanto apalpava o próprio corpo em busca de um bolso, sem sucesso. Sob sua cabeça, um pedaço do papel jazia com algumas palavras escritas por uma bela caligrafia -" Darei lembranças em seu nome a sua irmã, Charles Spring. Em troca, dois mil dólares viva ou morta pela cabeça de Tori- killer-Spring parece bastante razoável. Obrigado pela dica de como encontrá-la".
Nu, sem direção ou comida, Charlie se enrolou no cobertor e enfim gritou aos céus toda a fúria acumulada.
Agora, de fato, havia atingido o fundo do poço.
* * *
Horas caminhando sob o cobertor seguindo a sombra dos cactos, avistou dois cavalos vindo em sua direção. Seu oásis no deserto. Uma muda de roupa lhe foi atirada, assim como um cantil.
Charlie se contentou a perguntar:
—Benjamin Hope está morto?
Nick respondeu cobrindo o olhos enquanto o moreno se vestia:
—Ele não vai poder falar sobre o que aconteceu ontem a noite, se é o que quer saber.
Nunca sentiu uma entonação tão magoada na voz do loiro. Seria por descobrir sobre Tori Spring? Estaria ele interessado na recompensa por sua irmã? Irritado por levar parte da comida? Chateado por não receber seu pagamento ?
Um misto de perguntas surgiu em sua mente, quando ouviu o maior descer do cavalo e correr em sua direção, terminando apenas quando a distância entre os dois foi selada com um abraço apertado.
—Se quiser fazer outra estupidez dessas, por favor, promete que vai me acordar, eu irei contigo!
A única resposta que Charlie conseguiu formular durante o abraço foi:
—Eu prometo.
Depois de 10 segundos, o abraço se separou e Nicholas foi para Nelly como se nada tivesse mudado, ao passo que Charlie subiu em Henry ainda se sentindo culpado.
—Você sabia da Tori?
—Se eu sabia que havia uma fortuna sobre a cabeça de uma assassina chamada Tori-killer- Spring? Claro, haviam cartazes dela até na taberna que passamos. Que ela era a moça que você procurava? Eu… Tinha um palpite…
—O que vai fazer agora?
Essa era a pergunta de milhões. Nick já fora caçador de recompensas, a irmã de Charlie valeria o suficiente para que voltasse a ativa?
—Eu pretendo ir para o Oeste, e você? Imagino que mais dois pares de armas devem ajudar sua irmã a lidar com os caçadores de recompensa.
Com a resposta otimista em mente, seguiram perseguindo as sombras dos cactos com um gosto menos amargo nos lábios. Não tocaram no assunto do que Ben fizera a Charlie, nem mesmo nas crianças. Estavam no velho-oeste afinal de contas, tempos difíceis, tomando decisões difíceis. O que importava naquele momento era a sobrevivência de cada dia.
Nos olhos de Nick, entretanto, se encontrava uma iluminação diferente. Nunca havia cavalgado tão rápido por alguém, nunca havia se enfurecido tanto por algumas palavras maldosas. Charlie Spring lhe despertava sensações diferentes e aproveitaria aqueles momentos juntos para entender porque seu coração pulsava por ele daquela maneira especial.
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