Cinco Vidas

5 Alto mar - parte 1


Muitas léguas separavam o capitão Nelson da Inglaterra. O movimento das ondas exercia um efeito estranhamente confortável em Nicholas, como se seu corpo fosse habituado ao mar. E de fato era, depois de mais de uma década vivendo mais sob as velas do que o telhado da própria casa.

O mar soava como um velho amigo, mas a madeira sob seus pés lhe era estranha, aquela não era Nellie afinal de contas. Sua fragata não estava mais sob seu controle desde seu último… Conflito. Perdera sua tripulação, Nellie ficou em pedaços e ao voltar para casa, sua esposa…Tara…

O capitão jurou nunca mais voltar ao mar, mas depois de meses em terra seca afundado em sua própria miséria, um convite irrecusável lhe foi proposto.

—Hey! Nick! — uma jovem loira ligeiramente mais nova lhe chamava a atenção — o capitão Hope disse que já vamos atracar.

— Já estou indo, Darcy.

Depois de uma última tragada em seu cachimbo, Nick o guardou em seu casaco. Dali em diante, sem distrações: enfim voltaria a navegar o Oceano com sua querida Nellie.

—Capitão Hope.

—Capitão Nelson.

—Sabe que não posso mais ser chamado assim…

—E quem seria o capitão da Nellie?Harry? Aquele marica só tem um navio porque os pais não conseguem comprar um país para satisfazer os caprichos daquele mimado.

Os capitães dão um último aperto de mãos antes de Ben voltar para sua Lady e seguir seu trajeto para o deserto. Seguindo um longo caminho em terra, semanas se passaram até Nick e sua irmã Darcy Nelson avistarem o casco com pinturas brancas sobre o carvalho no porto.

Nellie!

* * *

Harry Greene era um aristocrata razoavelmente próximo na linha de sucessão da coroa sueca. Seu último imprudente pedido a sua mãe, duquesa da Pomerânia, foi poder navegar pelos mares em busca de especiarias… Mais uma desculpa, é claro, para poder aproveitar sua eterna boemia.

Quando seu regente soube do ataque de piratas à fragata de um capitão renomado, lhe foi ofertada a reconstrução de seu navio em troca da tutela, ou serviço de babá, do jovem herdeiro Greene. Depois de meses de luto, Nicholas aceitou a proposta sob duas condições: escolheria o imediato e o navegador. Não poderia entrar no mar desacompanhado novamente.

— Capitão Nelson!

—Vossa alteza…

—Por favor, sem formalidades… Me chame de capitão Greene, co-capitão, como preferir. Será um prazer navegar com alguém com tamanho histórico! Sejamos francos, as ilhas da Madeiras são tão gloriosas quanto as histórias contam? As melhores mulheres do leste, ouvi dizer…

— Eu… Não tenho como responder… Isso…

— A melhor comida do leste, isso é o que realmente importa. -Darcy, ao seu lado, estendeu a mão para Harry com uma expressão imponente, como se fosse esmaga-lo com o aperto de mão que extendera. — Darcy Nelson. Imediato e irmã preferida do capitão Nelson.

O aristocrata se dirige a Nick:

—Pensei que tinha um irmão quando… mencionaram… Alguns de nossos marinheiros podem se exaltar com sua irmã…

A loira adiantou em responder revelando as pistolas em seu cinto:

— Eu posso cuidar de mim mesma, vossa alteza!

Depois de uma saudação intencionalmente exagerada, Darcy se encaminhou para uma cabine acompanhada de Elliot, o navegador de Nellie que Nicholas havia exigido a presença e que não esteve presente em sua última infortuna viagem. Quem sabe sua presença ali lhe garanta uma aventura mais próspera.

Instalado completamente e tendo sido apresentado à tripulação, Nick pode enfim aproveitar para rondar o navio para comprimentá-lo novamente, como uma velha amiga. Desciam pela costa da África rumo a Madagascar, onde Nicholas garantiria a Harry ter um pouco da experiência de ser um explorador. Sob a bandeira da Inglaterra,ali haveria menos risco de serem atacados por piratas.

Apesar de ter descrito detalhadamente os mantimentos necessários para a viagem de meses, o capitão decidiu checar o montante… Apenas por precaução…

—Harry!!! — O capitão batia furioso na cabine do outro capitão — O que são essas porcarias no porão? Tem metade dos nossos mantimentos! E por que raios trouxe armadilhas de caça para uma viagem no alto mar?!

—Relaxa… Vamos poder parar no caminho para abastecer mais… E eu estou acostumado a comer carne, meu caro. É claro que vou querer caçar em nossas paradas para comer algo que não tenha saído do mar ou de uma árvore.

—Mas são armadilhas para urso, seu…

—O que foi? Eu gosto de carne de urso…

—NÃO-TEM-URSOS-EM-MADAGASCAR!!

Sem esperar por uma resposta, o capitão fecha a porta e arremessa a armadilha no mar. Seria definitivamente uma longa viagem tendo Harry Greene como companhia.

Avisando Elliot e Darcy, o trajeto foi alterado para a ilha mais próxima de onde estavam. Na manhã seguinte estariam desembarcando onde poderiam conseguir mais suprimentos.

Nicholas olhava para os primeiros raios de sol cortando o mar até atingir a popa de Nellie, aquela visão quase fazia valer a pena todo e estresse que já imagina receber…

… Quem queria enganar? Sentia saudade de tudo! Até mesmo do estresse e a loucura de se estar num navio com 200 tripulantes. Era bom estar de volta.

Com todos os trabalhos designados para os mantimentos que realmente precisavam, o capitão Nicholas se deu o luxo de caminhar pela parte deserta da ilha. Algo parecia diferente. O som das ondas pareciam o mesmo… O mesmo ar, mesma areia… Mas Nick já não era mais o mesmo.

—Argh!

Ouviu um barulho estranho vindo de um aglomerado de pedras. Depois silêncio. Curioso, caminhou cautelosamente até o local.

—Mas O QUE- Catatônico, Nicholas não acreditara no que vira. Não lembrava de ter bebido tanto assim noite passada.

— Será que… Argh! Pode gritar mais? Ainda não avisou a… Ilha inteira…Argh!

À sua frente havia uma sereia. Uma sereia que fala.

Aliás, uma sereia homem. Tritão?Sereio?

O jovem meio peixe agonizava com uma armadilha de urso presa em sua barbatana. Sem pensar duas vezes, o loiro se abaixou para retirar o instrumento.

—O que… Quem.. Como…

—Não vai terminar nenhuma de suas perguntas, senhor…

—Nicholas. Capitão. Ou Nick… Eu… O que está fazendo aqui?!

—Algum idiota jogou essa coisa do navio e me atingiu. Eu precisava ficar na areia até conseguir tirar ela… Por causa dos tubarões é claro.

—...É claro?

—Eles sentem cheiro do sangue há léguas de distância…Não disse que era um capitão?

Nicholas tinha dificuldade de raciocinar. Toda a tentativa de elaborar algo para falar, um milhão de ideias surgiam em sua cabeça. Fechou os olhos por um segundo para organizar suas ideias. quando os abriu, ele ainda estava lá.

—Quem… é… você?

—Charles Spring. Meus amigos me chamam de Charlie.

Então tritão tem amigos? Tudo soava bobo e fascinante.

—Charlie, você é… -Capitão!

Ao longe, alguém de sua tripulação o chamou e se aproximava das pedras.

—Não se aproxime! — o tripulante lhe olhou com medo — Eu… Estou ocupado… De um modo inapropriado...

Com vontade de rir pensando que a forma inapropriada do capitão poderia haver com certas necessidades masculinas… Físicas… O marinheiro respondeu:

—Mantimentos prontos… Devemos zarpar em 30 minutos.

E retornou de onde vinha.

Terminado o diálogo, Nick precisava encarar mais uma vez a sua frente. Charlie sorriu:

—Obrigado. Algo me dizia que você não era tão terrível assim, apesar de ser um capitão.

—Bem… É a primeira vez que vejo um sereio de verdade.. Eu não queria perder a chance de… Te ver um pouco mais…

O capitão estava deslumbrado. O cabelos negros cacheados estavam molhados e escorriam pelo rosto, era charmoso e… Delicado. Ao mesmo tempo, sua cauda parecia cintilar várias entre escamas azuis e verde, refletindo a luz do sol como se fosse formado por pequenos fragmentos de arco íris. Lindo. Não havia outra forma de melhor descrevê-lo.

Charlie também aproveitou o momento para observar melhor o capitão. Apesar da barba mal feita e olhos cansados, devia ser mais jovem do que aparentava. Os braços fortes e bronzeados pelo trabalho de anos sob o sol contrastavam com o sorriso inocente, quase ingênuo, que o capitão fazia enquanto lhe observava. A sensação de ser observado lhe empolgava e constrangia… De um jeito bom.

—Nick, eu…

—Seu machucado! Sumiu!

— Oh, sim… Costuma ser assim mesmo, nosso metabolismo é mais rápido nessa forma..

—Nessa forma?

O moreno congelou, estava falando mais do que devia.

—Desculpe, preciso ir. — mas… — Agora estou pronto para voltar ao mar… Se me der licença…

E tão rápido falou, logo se empurrou das pedras caindo na água e nadando para longe no mar.

O loiro, atônico, apenas pode apreciar o movimento das ondas deixados pelo sereio. Sentia uma sensação de paz como a tempo não tinha, desde que… Ela se foi.

—Foi um prazer te conhecer, Charlie.

* * *

Voltando ao navio, Nicholas se certificou de olhar cada mantimento e garantir a melhor refeição possível em vista da longa viagem. O sol já se punha quando subia para o convés e esbarrou no pequeno marujo que descia a mesma escada.

—Desculpe…

—Desculpe, eu, senhor. Capitão Harry pediu para eu… Nick?!

—Charlie?!

Poucas horas haviam se passado desde o primeiro encontro do sereio e do capitão, mas definitivamente conseguiram se reconhecer e Charlie estava com …

—Pernas?!

Num movimento rápido, o moreno fechou a porta do porão e lhe empurrou escada abaixo com uma força surpreendente para alguém daquele tamanho. Colocando-o contra a parede, parecia pulverizá-lo com o olhar, soltando as seguintes palavras com uma aura ameaçadora:

—Nunca nos vimos antes. Eu sou o marujo Charles Spring e você é o capitão Nelson. Nós dois somos humanos… Está me entendendo?

—Eu..- Capitão! Por acaso precisa de…

O mesmo marujo da manhã aparece descendo as escadas e vê Charlie colocando o capitão contra a parede. Numa rápida reação, o moreno lhe beija da forma mais grosseira e maliciosa possível, deixando-o completamente sem fôlego.

—...Então encontrou um jeito de ficar ocupado no próprio navio, capitão… Eu não vi nada!

Saindo imediatamente e fechando a porta novamente, o marujo deixou os dois a sós.

O beijo então foi separado apenas o suficiente para poderem respirar. Charlie ainda lhe olhava com imponência, mas Nick apenas parecia muito confuso com o misto de sensações no momento.

—Isaac não vai contar a ninguém, sua honra continuará intacta, capitão. Mas não se atreva a contar a ninguém sob meu segredinho!

Olhando para Charlie e sua expressão furiosa tão próxima, o loiro só conseguiu pensar em uma coisa: enlaçou Charlie pela cintura e o beijou mais uma vez.



Notas finais
Começamos mais uma! O que acharam? pergunta: preferem o termo sereio ou tritão? Estou em dúvida em qual adotar com mais frequência.