Cinco Sentidos
6 5. Tato
Notas iniciais
— Nossas análises estão muito discrepantes. Elas divergem em inúmeros pontos – Fitz salientou enquanto comparava as anotações de Simmons às suas próprias notas, salvas no tablet.
De braços cruzados, em uma poltrona defronte ao sofá em que Fitz se encontrava, a bioquímica o encarou como se ele houvesse acabado de atestar o óbvio. E, de fato, era exatamente isso que havia acabado de fazer. Ela arqueou a sobrancelha com certo ar de cinismo e encolheu ligeiramente os ombros.
— E...?
O engenheiro devolveu seu olhar, bufando e enfastiado. No ângulo em que se encontravam, de frente um para o outro, era como se estivessem em lados opostos de um tabuleiro, duelando.
— Temos que chegar a um consenso em algum ponto...
— E se não chegarmos?
— Então, tudo terá sido inútil – completou, desviando o olhar.
Jemma sentiu o coração dar um ligeiro e desconfortável salto, não sabendo como exatamente interpretar aquele sinal. Ela mordeu levemente o lábio inferior, ponderando as palavras do parceiro.
— Bem – disse, levantando-se e caminhando na direção de Fitz – Creio que a última etapa será decisiva.
Ela falava pausadamente, enquanto tirava o tablet e o seu próprio bloco de anotações das mãos dele. O engenheiro ergueu o olhar para fitá-la. Era curioso como, sempre que ela se aproximava daquela forma, ficando em pé diante de si, sentia como se a bioquímica estivesse em posição de poder e estivesse se subordinando a ela. Era como se Jemma ditasse as regras do jogo. No entanto, isso estava longe de incomodá-lo. A única coisa a que ele aspirava, era convencê-la do quão imperativos os demais sentidos eram durante o sexo, ainda que concomitantes ao tato. O fato de ela ser de natureza dominante não excluía a possibilidade de ela vir a concordar com ele.
— Afinal, essa etapa remonta ao início de tudo, ao ponto de partida do nosso estudo. Especialmente por conta do acessório – disse, estendendo para ele uma das vendas que havia pegado de um aparador próximo à poltrona.
O engenheiro ergueu-se do sofá para encará-la de frente, nivelando seu olhar com o dela.
Ergueu os ombros com certa indiferença. Mas Jemma sabia era algo meramente cosmético; que fazia parte de seu indelével charme. Ela deu um sorriso enviesado que escapou ao olhar do engenheiro. Mas foi preferível assim...
*
Fitz havia passado os últimos dez minutos estimulando-a com as mãos, percorrendo sua pele com seus hábeis dedos, tocando-a nos pontos certos com extrema precisão.
Como de costume, eles se encontravam despidos, sobre o tapete no centro da sala de Jemma. A bioquímica apreciava o peso do corpo dele sobre o seu, o modo como ele encaixava-se entre suas pernas. As mãos firmes e, ao mesmo tempo, gentis acariciavam suas coxas. As dela, por sua vez, embrenhavam-se pelos cachos do cabelo dele, contemplando a textura dos fios. Desde que deram início a seu experimento, que ela não via a hora de poder tocar seu cabelo. Soava como um desejo bobo e até mesmo pueril, mas era algo que ela não conseguia controlar.
De súbito, seus pensamentos foram interrompidos quando sentiu os lábios do engenheiro tocarem seus ombros, depois subirem, traçando a linha de sua clavícula até alcançarem sua boca. Ela não o impediu, sequer cogitou a possibilidade de repelir aquele beijo. Era doce e intenso, portanto, por mais surpresa e chocada que ela estivesse com a atitude, não encontraria forças (nem mesmo que quisesse) para detê-lo.
Assim que os lábios dele abandonaram os seus, tornando a descer pelo corpo dela, estacionando no vão entre seus seios, ela o chamou.
— Fitz! – disse em um sussurro desesperado.
— Shhh!
E seus lábios e língua se concentraram totalmente no seio direito dela, enquanto uma das mãos dele tocava o esquerdo, a ponta dos dedos circundando a aréola.
— Fitz! – ela tentou novamente, com um pouco de dificuldade para respirar – você está trapaceando! – exclamou, sem fôlego.
— Por quê? – ele perguntou como se estivesse genuinamente confuso, afastando a boca de seu seio e passando a ponta do nariz por sua pele, apreciando, deliciado, o perfume que ela exalava.
— Você ainda pergunta? – tornou austera – está usando os outros sentidos...
Ele suspirou longamente e então, aproximou os lábios do pescoço dela, dando um beijo demorado em uma região particularmente sensível, sentindo seu pulso latejar e seus batimentos cardíacos acelerarem dolorosamente.
— Nas suas anotações – disse ao pé de seu ouvido – no capítulo do paladar, você afirma que o beijo é algo tátil. Que tem muito mais a ver com toque do que com sabor. Vai refutar sua própria afirmação agora? – indagou, prendendo as mãos de Jemma acima de sua cabeça e entrelaçando seus dedos.
— Ugh, Fitz! Você é inacreditável – o repreendeu, mas sem conseguir argumentar.
O engenheiro riu e, quando a penetrou, ela estava tão excitada como resultado dos toques abrasadores e dos beijos efervescentes que ele depositara em sua pele que deslizou para dentro de seu corpo com facilidade.
Ela prendeu a respiração em uma tentativa afoita e desesperada de evitar um gemido. E, ao recuperar um pouco de sua sanidade e equilíbrio, soltou as mãos dele de modo a correr as pontas dos dedos pelas costas e nuca de Fitz, que sentiu sua pele se arrepiar ligeiramente por conta daqueles toques estimulantes e os músculos se retesarem a cada nova investida de seu membro rijo para dentro do corpo dela.
Instintivamente, inverteram suas posições sobre o tapete, fazendo com que Jemma ficasse por cima.
Imersos no êxtase daquele momento, eles pareciam desconectados do universo ao seu redor, como se tivessem apenas um ao outro como elo com o mundo real. Sentada sobre ele, Jemma intensificou a velocidade de seus quadris, posando as mãos no tórax dele de modo a encontrar equilíbrio enquanto o sentia bem fundo dentro de si. E, de repente, um turbilhão de sensações pareceu invadi-la, especialmente depois que ele passou a massagear seu clitóris com o polegar. A expressão de Jemma se modificava, sem que ele pudesse ver: ora de agonia, ora de prazer absoluto.
A única coisa que Fitz conseguia notar era que os músculos internos dela se contraiam repetidamente ao redor de seu membro e, logo, o deixaram inquieto e curioso. Quando acreditava que ela já tinha atingido o pico máximo do prazer e sua musculatura relaxava, ela continuava movendo seus quadris, ainda persistindo naquele vai e vem de seus corpos, Então, seus músculos voltavam a se contrair, e seu corpo era tomado por espasmos violentos e implacáveis.
O pensamento que perpassou a mente de Fitz é que era como se Jemma estivesse chegando ao clímax várias vezes a intervalos mínimos de segundos. Então percebeu que não se tratava de impressão. Era um fato. Ela estava incessante, insaciável, voraz sobre ele. Jemma nunca havia sentido nada parecido; era um prazer explosivo, impetuoso, delirante e contínuo. Não dava mostras de que iria parar tão cedo, como se fosse inesgotável. No entanto, a bioquímica, não estava preocupada com isso naquele momento. Pelo contrário: queria que a sensação não a abandonasse tão cedo, estendendo-se pelo máximo de tempo possível, de maneira que ela pudesse curtir aquele picos sucessivos de prazer em toda sua glória.
Foram vários orgasmos em sequência, alguns mais intensos do que outros. No sexto orgasmo, seu corpo finalmente deu-se por vencido e ela sentiu como se fosse desmontar. Os tremores continuavam a percorrer sua pele e uma sensação indescritível, porém, deliciosa de satisfação a invadiu e se fez visível na expressão enlevada que seu rosto exibia. Uma expressão que, infelizmente, Fitz não pode contemplar.
De qualquer forma, o fato de ela ter orgasmos múltiplos, acabou por excitar o engenheiro ainda mais. Ele tornou a ficar por cima dela, suas investidas ainda mais frenéticas e impetuosas até ele também atingir o clímax. Seu corpo todo estremeceu e então relaxou, tomado por uma sensação bem vinda e revigorante que ele não seria capaz de descrever, só podia defini-la como incomparável.
Vagarosamente, ele a livrou do peso de seu corpo, deitando-se ao lado de Jemma e, assim como ela, permanecendo em silêncio até recobrar o ritmo natural de sua respiração.
De repente, toda aquela quietude foi se tornando estranha e até mesmo um tanto constrangedora para ele. Terminou por remover a venda de seus olhos e tornar o rosto na direção de Jemma que inspirava e expirava profundamente, estirada sobre o chão, mantendo os olhos cerrados. Há muito que havia tirado a própria venda.
O coração de Fitz deu um ligeiro e desconfortável salto antes de chamá-la.
— Jemma...?
— Hmmm...? – ela respondeu prontamente, ainda que um tanto sonolenta.
Uma sensação de alívio o invadiu. Ela não estava dormindo, afinal. Ele sorriu.
— Você não vai fazer suas anotações?
Jemma suspirou com uma careta de exaustão.
— Eu estou cansada demais para isso – respondeu, ainda com os olhos bem fechados – depois eu anoto...
— Você vai ficar aí? – perguntou ele, soando preocupado – Digo... Deitada no tapete?
Como Fitz ainda tinha fôlego para conversar era algo que desafiava a lógica na opinião de Jemma.
— Não... – Disse ela, reticente, reunindo alguns poucos resquícios de coragem para lhe fazer um pedido – Você... Bem que poderia me levar para a cama – sugeriu com um sorriso atravessando seu rosto.
Fitz franziu o cenho, genuinamente intrigado.
— Bem... Eu espero que seja para dormir, pois não acredito que tenha me sobrado algum fluido corporal depois do que fizemos.
— Ugh, Fitz! – Jemma exclamou com um ar de censura – é claro que é para dormir. Eu não tenho energia para mais nada.
— Oh, claro – ele respondeu meio sem jeito, levantando-se do chão e a tomando em seus braços, carregando-a no colo e caminhando rumo ao quarto de Jemma. Ela ronronou um pouco, escondendo o rosto no pescoço dele, aspirando aquele aroma almiscarado característico e sentindo-se deliciosamente embriagada por seu odor. Fitz era tão agradável em todos os sentidos...
De maneira cuidadosa, ele a colocou sobre o colchão, cobrindo sua nudez com um fino lençol. Ela tratou de repousar a cabeça no travesseiro com um sorriso satisfeito.
Fitz a observou durante um momento sem a mínima ideia do que deveria fazer a seguir. Não sabia se deveria ficar até ter certeza de que ela dormiu e então abandonar seu quarto, deixando um bilhete de despedida, ou qualquer coisa assim, sobre um aparador na sala; ou se simplesmente deveria ir embora. Ele não poderia cogitar a ideia de permanecer ali com ela, uma vez que não eram um casal... Toda a sua experiência sexual nas últimas semanas eram parte de um experimento.
E, como se lesse seu pensamento e capturasse suas indecisões, Jemma finalmente abriu os olhos, girando o pescoço na direção de Fitz, o encarando com um sorriso que parecia mesclar malícia, divertimento e até mesmo um ar de determinação. Ela estendeu a mão a ele em um convite para que se unisse a ela em sua cama.
— Vem! – disse, suavemente, o puxando pela mão.
Ele não tardou a acatar sua sugestão. Deitando-se ao seu lado, sob o lençol, ele a envolveu em seus braços, repousando os lábios e a ponta do nariz no ombro da bioquímica e sentindo o próprio coração se aquecer.
— Percebe como o tato é fundamental, Fitz? – provocou.
O engenheiro revirou um pouco os olhos, amofinado com aquele comentário.
— Vá dormir, Jemma! – disse ele com uma rispidez apenas aparente.
Ela riu, ao mesmo tempo em que se aconchegava mais contra o corpo dele.
E, assim, ela dormiu em seus braços, sem a mínima ideia de como encarar o amanhã.
Fitz, por sua vez, demorou um pouco mais a pegar no sono, contemplando-a por um instante, tirando a mecha de cabelo que caia sobre seu rosto e a levando para trás da orelha, pensando que, talvez, no dia seguinte, seria o momento perfeito para falarem sobre sua relação. Ou ele estava se precipitando, colocando o carro na frente dos bois, mas não custava tentar.
Quem sabe, quando acordassem, poderiam fazer amor pela primeira vez? Mas amor de verdade, não como parte de um estudo, de um experimento meramente científico.
De repente, ele se viu convidando-a para sair e dando um passo a frente em seu relacionamento. Saindo do conforto da amizade que tinham há anos e aventurando-se em algo mais... Complexo? Ele teria tempo para pensar nas palavras que usaria naquele futuro diálogo com ela.
Só esperava que Jemma compreendesse.
Por enquanto, tudo o que precisava era de uma boa noite de sono ao lado daquela que ele já não conseguia mais ver como apenas amiga.
Fale com o autor