Cinco Sentidos
4 3 Audição
Notas iniciais
O toque de seu celular interrompeu seu banho. Jemma desligou o chuveiro meio a contragosto, desejando mais tempo para poder apreciar a deliciosa torrente de água que caía pela sua cabeça e deslizava por toda sua pele, livrando-a de toda a tensão de um dia exaustivo de trabalho. Correu para a sala, envolvendo o corpo apenas em uma toalha, e se deparou com seu iPhone tocando sobre a mesinha de centro.
— Alô? – atendeu, a voz denunciando o quanto havia se precipitado para poder atender ao telefone.
— Hey, Jemma! Estou atrapalhando?
— Não... – ela disse simplesmente ao ouvir a voz de Fitz, um tanto vacilante, do outro lado da linha.
— Se estiver no meio de algo, eu posso ligar mais tarde. Você parece com pressa...
— Não, eu só... Corri para atender ao telefone.
— Hmmm...
Houve um breve silêncio.
— Você está bravo comigo? – perguntou ela, enfim.
— Não — negou veementemente – por que estaria?
— Bem, pelo jeito que saiu do meu apartamento naquele dia... E você nem falou comigo direito no laboratório...
— Eu só estava concentrado no trabalho, só isso — ele a interrompeu bruscamente, como se quisesse dissipar qualquer impressão equivocada que sua atitude indiferente naquela tarde houvesse produzido nela.
Jemma nem mesmo poderia questionar. Afinal, Maria Hill em pessoa pediu a ele para desenvolver um novo gadget que seria essencial para a futura equipe que integrariam na SHIELD. E seja lá o que ela havia solicitado, pareceu demandar a atenção de Fitz durante todo o dia.
E ele sabia ser profissional.
Até mesmo em suas experiências off-lab...
— Eu pensei que tivesse ficado irritado por conta das minhas anotações – comentou, jogando-se no sofá, procurando uma posição confortável em meio às almofadas.
— Só fiquei contrariado, Jemma... Achando que estávamos andando em círculos em nosso estudo. Aliás, foi por isso que liguei.
— Oh! Você quer discutir os protocolos da próxima etapa da nossa pesquisa? – indagou Jemma, adiantando-se para alcançar seu bloco de papel, a fim de anotar o que quer que Fitz viesse a propor.
— Não, não é bem isso... Não se trata de protocolos.
Jemma emudeceu por um instante, estranhando o tom que ele empregara. Estaria Fitz desistindo de sua experiência? O breve pensamento a perturbou por um momento, enviando um ligeiro tremor por toda a sua espinha.
— Então...? – Jemma indagou, receosa.
Fitz ficou em silêncio do outro lado da linha. No entanto, o som de sua respiração alta fez com que a bioquímica estremecesse, sentindo um arrepio perpassar sua pele.
— O que você está vestindo? – ele finalmente perguntou, sem rodeios.
Simmons fez o possível, mas não conseguiu evitar uma gargalhada ressonante somada ao alívio que a invadiu ao tomar ciência de que ele não estava desistindo. Estava apenas encontrando coragem para iniciar a nova etapa. E utilizando um método que a pegou de surpresa e totalmente desprevenida.
— É sério que vamos fazer isso, Fitz? – ela continuava rindo.
Fitz bufou, grato por não estar diante dela. A risada que ela deixou escapar fez com que ele vacilasse em seu intento. Sua face coloriu-se de um intenso rubor. Se estivesse cara a cara com a bioquímica, certamente desistiria do estudo naquele exato momento.
— Jemma, você acaba de destruir todo o clima. Acho melhor desligar.
— Heeey! – ela o chamou a fim de tentar se explicar – não comece a ficar irritado. Só foi inesperado e eu nunca... Bem, eu nunca fiz isso, então é uma novidade e... Eu estou meio nervosa, só isso. Não estava rindo porque achei graça.
— É bom mesmo. Eu ensaiei o meu melhor tom. Um que não ficasse muito apático e nem muito caricato.
— Como de um ator pornô? — ela provocou com um riso contido.
— É...
— Ok, me desculpe... Faça sua pergunta novamente — pediu com delicadeza.
Fitz respirou fundo antes de repetir.
— O que está vestindo? — ele soou mais inquisitivo desta vez. Na certa, por estar um tanto impaciente. Mas Jemma achou particularmente sexy.
Ela mordeu os lábios antes de responder.
— Sorte sua que eu acabei de sair do banho... E que como tive que correr para atender sua ligação... Eu só tive tempo de me envolver em uma toalha — ela falava pausadamente, em notas suaves, melodiosas, a voz caindo para um sussurro no final de cada sentença.
Um som semelhante a um grunhido escapou da garganta de Fitz e Jemma não evitou sorrir, sentindo-se vitoriosa.
— Ok! Por que você não tira sua toalha? — ele murmurou. A voz soando mais grave do que o habitual.
— Eu preferia que você fizesse isso.
— Como eu poderia? — Fitz franziu o cenho, a confusão explícita em seu tom de voz.
Ao perceber que ele fugira do contexto, ela revirou os olhos.
— Ugh, Fitz! Se vamos fazer isso, é necessário exercitar a imaginação.
— Ok! O que sugere? — tornou, impaciente.
— Você entra por aquela porta, me encontra na sala, recém-saída do banho com apenas uma toalha... O que você faz?
— Hmmm... Meu primeiro impulso é parar e te observar.
Jemma retorceu os lábios, desapontada.
— Eu quase consigo te ver, boquiaberto, na porta, me observando — ironizou ela.
— Não foi assim que eu imaginei — ele a cortou abruptamente — eu te olharia de um modo lânguido.
Somente Fitz poderia usar uma palavra como lânguido durante o sexo por telefone.
— Ok, você me devora com os olhos — Jemma disse, sem rodeios — E depois...?
— Eu caminho na sua direção...
Ela estalou a língua.
— Tá, rápido! Eu estou quase tirando minha toalha sozinha. Você me deixa impaciente!
— Calma, Jemma. Devagar, aproveita-se mais.
Ela jogou a cabeça para trás, frustrada, ouvindo o riso malicioso de Fitz do outro lado da linha. De repente, foi como se sua mão houvesse ganhado vida própria, deslizando pelo seu corpo, por cima da toalha, de modo inevitável.
— Assim que eu me aproximo, enquanto eu te beijo, tiro sua toalha.
— Hmmm... Sabe que eu estou molhada, certo? Literalmente. Em todos os sentidos – ela removeu a toalha, arremessando-a no tapete que, dias atrás, ela e Fitz haviam utilizado para as duas primeiras etapas de sua pesquisa empírica.
Fitz mordeu os lábios, rindo um pouco. A excitação – impossível de ser contida – tomando conta de todo o seu ser.
— Jemma...?
— Sim, Fitz? – o tom de voz que ela empregara sugeriu certa subserviência, como se ela estivesse disposta a fazer o que ele dissesse naquela noite. Aquilo apenas estimulou ainda mais o engenheiro.
— Então ainda há gotas de água escorrendo pela sua pele?
— Exatamente! – ela sussurrou, de modo provocante.
— Ok... Passe os dedos, bem devagar, pelo seu corpo... Imagine que é a minha língua lambendo cada gota de água que desliza pelos seus ombros, seus seios, sua barriga, suas coxas.
Agora ela gemeu, sem fazer o mínimo esforço para evitar, e procedendo exatamente como ele disse. Os olhos cerrados, imaginando a boca do engenheiro percorrendo todo o seu corpo, sugando as gotículas ainda presentes em sua pele, decorrentes do banho que havia terminado há menos de quinze minutos.
— Eu fico pensando no que você faria comigo embaixo do chuveiro – disse ela, já totalmente entregue àquele desvario.
— Você pensou em mim enquanto estava no banho? – questionou, a voz mais grave do que o habitual. Jemma poderia apostar que o zíper da calça dele estava aberto neste exato momento. E que, certamente, ele também já havia começado a se tocar.
— Sim... No quanto eu queria você aqui, do meu lado...
— Do seu lado? Eu preferia estar dentro de você.
A respiração dela se alterou, assumindo um ritmo descompassado.
— Te recostando no vidro do box, com as suas pernas ao meu redor...
— Oh, sim! — Já sem fôlego e sem nenhum pudor de gemer ao telefone, seus joelhos afastaram-se um do outro completamente, a mão alcançando sua intimidade, o polegar massageando seu clitóris, a ponta de um dos dedos circundando sua entrada, deslizando para dentro de si. Ela desejou que ele estivesse ali, que fosse ele a penetrando e não seus próprios dedos... Ela precisava ouvi-lo para saciar aquela fome absoluta que a acometeu, do contrário, não conseguiria se satisfazer por completo naquela noite.
— Continue falando... — ela pediu em um sussurro desesperado — eu preciso ouvir sua voz.
Aquelas palavras, proferidas com tamanho fervor, produziram em Fitz uma sensação inexplicável, transcendental. Ondas irrefreáveis de calor e de um desejo ardente espalharam-se pelo seu corpo, o tomando por inteiro. Por um momento, ele titubeou, até conseguir expressar um raciocínio que fizesse sentido.
— Jemma... Eu adoro a maneira como você geme quando eu estou dentro de você... Adoro a forma como você goza...
Um som semelhante a uma lamúria escapou da garganta dela. A bioquímica mordeu o lábio inferior, não evitando um sorriso ao ouvi-lo pronunciar seu nome com tamanha ênfase, com tanta intensidade. Era um lembrete de que ele permanecia ciente de que era com ela que estava fazendo isso. Que era ela quem o estava excitando, ainda que sem tocá-lo, apenas por meio de uma linha telefônica.
— Eu quero sentir a sua boca em mim. A sua língua na minha pele — ela murmurou, já perdendo totalmente suas forças.
— Meus lábios estão no seu pescoço, deslizando pelo seu ombro... Abocanhando seus seios — Nem ele sabia como ainda era capaz de fazer sentido enquanto tinha os dedos envolvendo sua ereção, a mão subindo e descendo pelo seu membro, os olhos apertados, imaginando que era ela, Jemma, quem estava ali, sobre ele, subindo e descendo pelo seu corpo.
— Oh, Leo...
— Goza pra mim, Jemma!
Ambos se encontravam ofegantes, completamente entregues aos seus instintos mais primitivos. Aquele telefonema convertera-se em uma verdadeira sinfonia de gemidos, suspiros e sussurros enquanto ele se tocava, trabalhando sua mão freneticamente por sua intimidade, e ela pressionava os dedos em seu ponto sensível, ora esfregando, ora pressionando seu clitóris, até que todas aquelas palavras sujas proferidas no telefone e o vigor com que tocavam a si próprios os levassem a um orgasmo explosivo que pareceu esgotar suas forças. Demorou até que recobrassem totalmente os sentidos e que qualquer um deles falasse algo coerente.
Jemma estava particularmente surpresa que aquilo tivesse funcionado. Afinal, começara de maneira embaraçosa e tinha tudo para ser um desastre. Mas, à medida que ambos foram se soltando, as coisas fluíram muito bem. Desde o dirty talk até a sensação de prazer absoluto.
— Bem... – ele ainda procurava normalizar sua respiração – Até você terá que concordar que eu consegui estimulá-la recorrendo apenas à sua audição. E te fiz chegar ao orgasmo.
— Eu vou ter que concordar com você. Em termos, no entanto... – rebateu.
— O que quer dizer? – perguntou Fitz, franzindo o cenho e de modo um tanto incisivo.
— Eu tive que me tocar para chegar ao orgasmo. Não foi apenas com o som de sua voz que eu cheguei lá.
— Mas o objetivo do sexo por telefone é exercitar a imaginação a partir da audição, do que é dito e ouvido. O tato é irrelevante nesse caso. A audição cumpre todo o papel de...
— Eu sei – ela o cortou ao perceber que o tom de voz dele se alteava – A audição foi realmente imprescindível. Mas o tato... Ah, Fitz... O tato também foi essencial. Se eu não me tocasse, agora estaria em uma tensão sem fim, precisando ser saciada por mais do que apenas a sua voz. Você tem razão nisso, Fitz. Os sentidos atuaram em consonância. Mas a audição foi o elemento que me impulsionou a me tocar. Foi apenas um catalisador...
— Você é inacreditável, Jemma! – exclamou, soando levemente irritado e inconformado.
— Eu sei disso! – tornou Simmons de modo a provocá-lo – Nos vemos... Literalmente, já que o próximo é a visão.
Ela encerrou a ligação antes que ele tivesse a oportunidade de réplica.
Restou a Fitz revirar os olhos e bufar, frustrado ao ouvir o clique e se dar conta de que ela havia desligado na sua cara.
Respirou fundo, encarando a tela de seu celular, pensando em ligar de volta para Jemma e iniciar um novo embate verbal de nível científico acerca de seu estudo sobre os sentidos. Mas desistiu.
Ela desligou, pois não quis ouvir suas reclamações e críticas. Foi a sua pequena e doce vingança por aquela noite em que ele deixara seu apartamento, contrariado e batendo a porta.
Fitz sacudiu a cabeça, reprovando sua própria atitude e a de sua melhor amiga. Aquele estudo estava virando uma espécie de batalha velada. Teria de discutir os termos de sua pesquisa com ela antes da próxima etapa.
Visão...
Da próxima, seus olhos seriam beneficiados pela visão de Jemma tomada pelo prazer enquanto se envolvia sexualmente com ele...
Fechou os olhos, espantando o pensamento para longe, jogando-se para trás, em sua cama, a parte de trás de sua cabeça atingindo, em cheio, o travesseiro.
Seria difícil evitar que a voz dela, afetada pelo desejo e pela voracidade, invadisse seus sonhos naquela noite. Mas ele faria o possível para tal.
Exercitar seu autocontrole, no entanto, se fazia necessário.
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