Cinco Momentos
7 Capítulo VI
Notas iniciais
Os personagens de Saint Seiya pertencem ao tio Kurumada e é ele quem enche os bolsinhos. Todos os outros personagens são criações minhas, eu não ganho nenhum centavo com eles, mas morro de ciúmes
Setsuna pertence a Nina Neviani.
CINCO MOMENTOS
(QUE DEFINEM UM RELACIONAMENTO)
Chiisana Hana
Beta-reader: Nina Neviani
PARTE 2
O BEIJO
Venha embora comigo e nos beijaremos
No alto de uma montanha.
Venha embora comigo,
E eu nunca vou deixar de amá-lo.(1)
Capítulo VI
Shun esperava que os amigos rissem dos seus passinhos de dança na chuva, mas todos olhavam-no embevecidos com a história, incapazes de tecerem comentários. Sabiam que tinha acontecido algo no dia do quase casamento, afinal os dois sumiram, entretanto não tinham conhecimento dos detalhes.
– Eu quis matar esse moleque – Hyoga desabafou, quebrando o silêncio.
– Quis nada! – Shun rebateu. – O soco nem doeu tanto assim. Foi só um soquinho para fingir que ficou bravinho!
– Eu fiquei sem saber o que fazer, poxa! Nunca tinha beijado um homem.
– Eu também não!
– Mas você já tinha certeza do que sentia e eu não. Até aquele dia você era só o meu melhor amigo. Fiquei sem entender por que correspondi ao beijo...
– A June ficou insana quando você não apareceu – Seiya disse. – Achei que ela ia matar alguém ali mesmo na frente do padre.
– E com razão, né? – Shun admitiu, constrangido. – Entendo toda a revolta dela. Fui muito cruel. Eu sei que devia ter me decidido e acabado o relacionamento antes, mas seria pior se eu tivesse me casado sabendo que amava o Hyoga.
– Com certeza – assentiu o russo. – Enganá-la seria péssimo.
– Péssimo foi o processo que ela meteu em você – Ikki disse, rindo. – Arrancou apartamento, carro, grana, tudo.
– É. Fui obrigado a pagar todas as despesas que ela teve, inclusive a viagem à França, o vestido caríssimo e mais algumas coisas, fora a indenização, mas não tem importância. Estou feliz e em paz com a minha consciência, isso é o que conta.
– Sim, sim, isso não tem preço – concordou Shiryu.
– E ela ainda ficou te chamando de bichona por todos os lugares. Mas eu dei um jeito nisso.
– Ah, é? – Shun indagou, surpreso.
– Claro. Você é meu irmão, pô! Eu não contei isso antes, mas quando soube que você estava com o Hyoga, ela foi lá na academia. Já chegou xingando, falando que você era um viado filho da puta.
– Ikki... – Minu começou a censurar o marido, imaginando o que ele diria a seguir.
– Aí eu mandei ela se...
– Ikki! – ela exclamou.
– O que é que tem? Somos todos adultos!
– É, mas estamos num restaurante, meu querido!
– Tá, tá... Bom, vou moderar as palavras. Mandei ela se ferrar e disse que não é da conta dos outros pra quem o Shun dá o...
– Ikki! – todos gritaram juntos.
– Bom, vocês entenderam.
– Pois é – Shun concordou, corando com as palavras de Ikki. – Em outras palavras, é isso, não é da conta de ninguém.
– Além do mais – continuou Hyoga –, acabou sendo bom pra ela também. Podia estar casada com um pianista infeliz, mas acabou se casando com aquele milionário grego, amiguinho da Saori.
– O Julian! – Saori disse. – E isso graças a mim, que convenci a June a ir para a viagem de lua-de-mel mesmo sem marido. Já que estava pago, então que aproveitasse!
– Isso tudo muito foi muito interessante, mas o primeiro beijo também pode ser lindo – Shunrei disse, retomando o assunto original.
– Ih, lá vem história melosa! – Ikki disparou, provocando risadinhas.
– O nosso foi na festa de formatura do colégio... – Shunrei começou, ignorando o comentário de Ikki.
Dez anos atrás...
– Tudo bem – Shunrei disse a si mesma, ao entrar no metrô. – É só uma festa idiota.
Usava um vestido rosa-bebê, cujo saiote tinha várias camadas de tule fininho, salpicado de perolinhas, único traje de festa que possuía. O sapatinho branco fora comprado para sua missa de aniversário de quinze anos, estava um tanto apertado e machucava o dedo mindinho, mas ela não tinha outro calçado adequado. Antes de sair, arrumou o cabelo num coque, arrematando-o com umas fitinhas cor-de-rosa, passou um brilho nos lábios e borrifou um pouco de colônia.
Desceu na estação mais próxima ao colégio e foi andando até lá. Entrou no ginásio timidamente, meio constrangida ao ver os colegas chegando com suas respectivas famílias, enquanto ela chegava sozinha.
– Só espero ver Shiryu – disse baixinho, enquanto procurava por ele. Resolvera ir à festa por causa dele já que talvez aquela fosse a última vez que se vissem. Prestariam vestibular em faculdades diferentes, para cursos diferentes e, embora ela quisesse acreditar que não, era bem possível que um nunca mais cruzasse o caminho do outro.
Sentou-se sozinha num canto e de vez em quando olhava ao redor, procurando por Shiryu, mas nem sinal dele.
– Ele me garantiu que vinha – murmurou, esforçando-se para ser otimista. Depois do trabalho de literatura, vinham se falando todos os dias e saindo juntos muitas vezes, mas ela nunca tivera coragem de falar sobre o que sentia por ele.
Mais tarde, Shiryu chegou ao local da festa de táxi, acompanhado pelos pais. Estava elegante com o terno escuros e os cabelos amarrados. Os três escolheram lugares e acomodaram-se, enquanto ele procurava Shunrei com o olhar. Encontrou-a sozinha num canto distante e foi até ela.
– Olá – cumprimentou-a com um abraço discreto. – Não quer sentar-se conosco?
– Claro – ela aceitou, feliz por poder ficar mais algum tempo perto dele, e o acompanhou até onde os pais dele estavam. Shiryu apresentou a colega aos pais.
– Mãe, pai, essa é a Shunrei.
Ela deu um sorriso tímido.
– Muito prazer, senhorita – o senhor Hirotaka(2) Suiyama cumprimentou a moça polidamente.
– Ah, mas é a moça de quem você tanto fala? – a senhora Mitsuko Suiyama disse, abraçando Shunrei com muito entusiasmo. – Deixe-me vê-la direito! Que bonitinha! Parece uma bonequinha de louça! Uma graça! Uma graça! Você tem bom gosto, meu filho!
– Mãe, por favor... – ele disse, tremendamente envergonhado, mas conhecendo a mãe como conhecia, sabia muito bem que ela faria isso.
– Querida, vem cá, senta aqui – Mitsuko disse, fazendo Shunrei sentar-se a seu lado. Shiryu sentou ao lado da moça. – Ele fala de você o tempo todo, o tempo todo! Ele até liga pra mim pra falar de você! Shunrei isso, Shunrei aquilo, porque a Shunrei, quando a Shunrei, enquanto a Shunrei, se a Shunrei... de cada dez palavras, uma é o seu nome!
– Mãe, está me deixando sem graça... – Shiryu protestou, corando.
– Estou falando alguma mentira? Estou? Estou? Não. Você fala mesmo!
– Deixa o menino, Mitsuko – o pai pediu, mas ele e Shiryu sabiam muito bem que não adiantava. Mitsuko era impossível!
– Então, querida, o que pretende fazer agora que terminou o colégio? – ela perguntou a Shunrei, arrumando uma mecha de cabelo que se desprendera do coque da menina.
– Ehr... eu quero ser professora. Vou tentar a faculdade de Pedagogia.
– Ah! Vai ser professora! Que bom! É uma profissão muito digna! Muito digna! Meu bebê quer ser médico, você deve saber disso. Eu tenho muito orgulho dele!
– Sim... eu sei.
– Ele vai ser um médico muito competente. E como é bonito, o consultório dele vai encher de moças!
Shiryu ruborizou e deu graças a Deus quando a cerimônia começou.
– Mãe, já está começando – Shiryu disse. – Depois vocês conversam, sim?
Dona Mitsuko sorriu para o filho e ficou quietinha durante boa parte da longa e enfadonha cerimônia. Depois, na hora da festa, ela voltou a conversar com Shunrei como se fossem velhas conhecidas, mas quando a música começou a tocar, Shiryu encheu-se de coragem e convidou Shunrei para dançar. Os dois caminharam para a pista de dança de mãos dadas, sob os olhares atentos dos pais de Shiryu.
– Não é lindo, meu velho? – Mitsuko perguntou ao marido, enquanto observava o filho dançando. – É o primeiro amor da vida dele!
O pai sorriu assentindo e completou:
– Eu gostei da mocinha.
– Eu também! É uma boa moça! Boa moça! Formam um belo casal. Ele é um bom menino, estudioso, esforçado, nunca deu trabalho, mas não tem muito traquejo social. Já estava me perguntando quando ele finalmente arrumaria uma namorada.
– Tudo tem a sua hora, eu sempre digo isso.
– É, estou vendo. Estou vendo.
Na pista, Shiryu e Shunrei tinham começado meio desajeitados, tensos, depois, cabaram relaxando um pouco e quando começou a tocar uma balada romântica, abraçaram-se. Rodopiavam pelo salão quase flutuando. Ela já nem sentia os dedos serem esmagados pelo sapato apertado. Ele sentia uma vontade imensa de beijar Shunrei e já não se importava com o que os comentários que a mãe certamente faria depois.
Quando a música parou, ficaram se olhando alguns segundos, até que, quando perceberam, seus lábios já haviam se tocado. Abriram-nos levemente, encaixando-os e deixando que se tocassem com mais intensidade, e que as línguas naturalmente se procurassem. Quando se separaram, Shunrei sentiu que o chão lhe faltava e Shiryu abraçou mais forte, aconchegando-a em seu peito.
Nas mesas, o senhor Hirotaka deu um discreto sorrisinho satisfeito, enquanto dona Mitsuko bateu palminhas nervosas de felicidade por presenciar esse momento tão importante na vida do filho.
– Esse é o meu garoto! – ela disse. – Meu garoto!
Continua...
Notas finais
(2) Homenagem a Hirotaka Suzuoki, dublador original de Shiryu, falecido em 2006.
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